20/01/2020

2019, um marco, um cacto e um título apropriadamente ruim.

Eu passei a madrugada do dia 01/2020 chorando convulsivamente no meu quarto solitário depois de voltar de uma experiência de réveillon que começou razoavelmente bem mas terminou do pior jeito possível. Mas depois de um ano em que as coisas que eu mais temia aconteceram sem que eu tivesse poder de voz algum pra dizer não, eu me recuso a aceitar esse começo.
Em 2019 um meme que bombou foi o do medo da eterna sequência, porque o ano foi ruim pra muitos e uma desgraça na conjuntura geral e todo mundo queria que acabasse de uma vez. Então a internet começou a brincar: ''imagina se 2020 nunca vier e quando a gente achar que chegou lá descobrir que estamos é num 2019 Parte II?''. Parecia mesmo difícil se desvencilhar de todo o caos, ele seguiria a gente.
Agora estou aqui pra dizer que vou me apropriar completamente desse meme.

Quando eu estava chorando no meu quarto e me sentindo traída por Deus e a vida, uma parte de mim começou gradativamente a abraçar resignada e até com certo conforto a ideia de que um ano tão difícil quanto 2019 não poderia mesmo acabar bem pra mim, então aquele choro era mera questão de fazer com que a ordem do universo se mantivesse. Aquela bagunça toda tinha que ser coroada com a cereja de decepção final, era pra ser (digo isso num nível não metafísico, eu juro; Deus me livre).
Deixei o choro me lavar e fiquei muito triste, foi horrível, eu não queria, mas lá no profundo comecei a receber aquele momento e aquelas lágrimas como uma catarse final e necessária que de algum jeito talvez me limpasse de tudo e permitisse começar de novo imaculada.
Então eu vou me permitir pensar que aquelas primeiras horas de 2020 não foram um começo, e sim um prólogo de 2019, como no meme. Porque eu me recuso a não começar este ano bem. Eu quero ter uma folga. Eu quero a esperança de que vai dar certo. O meu começo vai ser outro.

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Apesar de detestar todo o clima de fim de ano, eu sempre quis assistir ao show de fogos da virada no Gasômetro da Orla do Guaíba, talvez o principal ponto turístico de Porto Alegre, e nesse último réveillon a oportunidade surgiu com um grupo de conhecidos-barra-amigos-nem-sei-bem (estou numa escassez de amigos mesmo no momento, a maioria é mais gente com quem saio de vez em quando sem muita conexão).
Seria a primeira virada de ano sem a minha mãe, então eu tinha aquele sentimento vago de que era um momento meio importante, um ponto decisivo.
Meus três irmãos foram com amigos/as/namoradas à praia e eu e meu pai ficamos, então, apesar de termos uma relação ridícula e apática na maior parte do tempo e francamente péssima no resto, me senti na incumbência de garantir que ele não passasse sozinho ou triste o primeiro réveillon sem a mulher com quem dividiu mais de vinte anos de vida, e o chamei pra ir ao Gasômetro também, pois era muito importante pra mim que ele ficasse bem e tivesse um momento alegre. Mas como ele não gosta de muvuca sugeriu que na volta do Gasômetro, depois da virada e dos fogos, eu o ligasse para ele ir com a gente à casa onde íamos jantar. Fiquei meio mal, porque ele não passaria bem a virada conosco, só a noite depois dela, mas aceitei a sugestão, no que foi meu segundo erro (o primeiro foi aceitar ir ao Gasômetro com aquelas pessoas).

Eu vi os fogos e eles estavam lindos, bebi uma mistura de champanhe, energético e extrato de frutas a noite inteira que achei deliciosa, tirei muitas fotos que amei e até dancei na loucura que virou aquele lugar, uma rave gigantesca que estava longe de ser meu habitat.
Houve momentos bem desconfortáveis em que tentaram me forçar a fazer a pose certa para a foto, dançar com mais animação quando eu só queria me balançar de olhos fechados e outras coisas que não eram eu e fiquei me perguntando se não era errado estar ali com eles, se não tinha sido uma burrada. Mas no meio daquele festival de fogos, quando eu estava imersa no céu e me concentrava em me fundir com aquela explosão de cores inebriantes, parecia que as coisas iam dar certo, afinal.

Mas não deram.

Na última hora eles alteraram todos os planos finais e não teve a menor possibilidade de meu pai ficar com a gente, e ninguém pareceu se importar com a minha absoluta manifestação de frustração, desalento e desespero e fiquei com vontade de sair correndo, estapear todo mundo ou gritar, mas em vez disso comi salsichão com farofa numa casa estranha e lágrimas silenciosas nos olhos, porque o que eu mais temia naquela noite estava acontecendo.

Meu pai passou o primeiro réveillon sem minha mãe completamente sozinho em casa.

Quando me largaram em casa de madrugada ele já estava dormindo e eu fui pro meu quarto, sentei na cama vazia da minha irmã e chorei até não poder mais.
Aquilo começou como o choro pela solidão do meu pai, pela minha burrada, pela decepção com aquelas pessoas, pela aflição de encarar ele de manhã e ter que explicar como tudo deu errado, pelo desastre da virada... Mas depois virou um choro sobre tudo isso e sobre a perda da minha mãe, o fim de uma amizade, a degeneração da minha saúde, o surto depressivo que tive em dezembro, os fracassos, a estagnação, a vergonha e constrangimento por diversas exposições negativas e todo o festival de desastres que foi 2019.
Depois que os fogos morrem.
Este é o terceiro texto de retrospectiva que estou escrevendo pra esse ano que passou. Os outros dois estão nos rascunhos e já não servem mais. O primeiro é um caos absoluto, minhas ideias não concatenam, os parágrafos não têm coesão, está tudo uma bagunça. O segundo também deixou de ser o texto certo, mas ainda dá pra reciclar algumas coisas. A questão é que é perfeitamente natural que esse texto tão difícil só esteja saindo na terceira tentativa quando eu não sabia nem por onde começar e fiquei postergando a vinda aqui por estar com receio de desistir de desespero e confusão no meio das frases.
Eu só percebi por onde deveria puxar o fio desse novelo depois de chorar o suficiente na madrugada do dia 1/1/20.

Na retrospectiva de 2018 eu fazia alusão ao bujo poser no qual anotei tudo o que ocorreu de mais memorável no ano e incentivava o hábito de registrar a vida, porque faz bem, nos faz ver que vivemos mesmo quando tudo parece nebuloso. Agora me sinto meio uma fraude porque em 2019 eu abandonei o Caderno Amarelo Ridículo depois de tentativas anêmicas e cheguei aqui meio desnorteada e sem roteiro. Larguei o blog às traças por mais de meio ano e não me importei nem um pouco, se explodisse junto com toda a rede de computadores eu só encolheria os ombros.
Mas parar para escrever e registrar o cotidiano no meio da tormenta que foi 2019 parecia frívolo, absurdo, então eu lamento a falta, mas me perdoo sem hesitar.

2018 foi péssimo e escrever a retrospectiva dele foi um mergulho ora nauseante, ora catártico em tudo que houve de ruim. Foi um ano horrível, mesmo. Mas agora eu volto àquele texto e me ressinto, tenho inveja e sinto falta até de momentos ruins, porque eles eram o Antes, antes de tudo o que aconteceu em 2019, esse ano que virou um marco divisivo na minha vida pelos motivos mais tristes possíveis.
É de uma tristeza nostálgica voltar para aquela retrospectiva porque apesar de tudo gostei de escrevê-la, assumindo que o ano tinha sido terrível, mas concedendo a ele certa redenção, e agora esses sentimentos se distorcem em meio à dor que sinto toda vez que leio aquilo, o meu Antes, que faz com que o Depois que vivo agora me acerte com um contraste brutal.

Me ressinto e invejo a retrospectiva de um ano péssimo porque olhando daqui ele agora me trás saudades.

E eu que me gabo de não me obrigar a nada com esse blog, me obrigo sim a vir dar essa olhada em retrospecto todo fim de ano, pra que ele fique vivido, amarradinho e acabado de verdade. E como não tenho anotados em tópicos ordenados num caderninho cada acontecimento-chave, me resta pensar no que salta diante de mim quando evoco a lembrança de 2019: o que definiu esse ano?

Talvez fosse bom compartilhar com mais capricho as idas ao cinema (foram mais de cinco, o que pra mim é um recorde), as peregrinações por Porto Alegre (foi o ano em que mais explorei, com amigos, minha querida cidade natal, pela qual ando como uma turista deslumbrada), o amendoim japonês (meu favorito) no intervalo do serviço com o G., os porres que me fizeram dormir numa tampa de vaso só pra descobrir que no meio de um porre não há lugar mais confortável no mundo (noites de jogos com amigos do trabalho)(eu estava na mais profunda merda e não ligava pra mais nada; passei por mais porres do que consegui contar porque ficar semiconsciente e perder o controle já não parecia mais uma má ideia), a viagem de meio de ano a Gramado que me rendeu um amigo com quem jogar lol à distância (jogo com a Ahri, sou severamente ruim, conheci o menino num torneio de Magic The Gathering numa Friday, noite de jogos organizada pelo namorado da minha prima, e nada disso faz muito sentido), esses ou quaisquer outros detalhes mais memoráveis de 2019, não vou me alongar para além deste parágrafo, porque no fim das contas, quando a poeira baixa e a madrugada chega, esse ano não foi sobre isso.

Numa inversão meio triste do que fiz na retrospectiva do ano passado, vou dizer que 2019 pode ter tido coisinhas pequenas e lindinhas num dia aqui e outro ali, mas ele vai ser pra sempre o ano implacável que me tirou coisas infinitamente importantes e me deixou no deserto emocional, o ano tão cruel que faz com que eu olhe até pra 2018 com olhos nostálgicos e gentis, ou quase.

Pode ter tido água até a metade naquele recipiente, mas não dá pra enganar a convicção de que 2019 foi na verdade um copo meio vazio.

Na retrospectiva dela a Tati disse que em 2019 ''Teve coisa bacana? Teve, mas o que deu errado, p*ta merda irmãozinho.'', e é isso.

Teve cinema e Porto Alegre, mas 2019 foi o desconforto contínuo com a degeneração da minha saúde que me acompanhou durante todos esses momentos.

Teve viagens à praia e a Gramado, encontro com os primos, Friday e pessoas novas, mas 2019 foi o caos visto ao retornar pra casa, foram as lágrimas discretas na janela do ônibus.

Teve jogos online até tarde da noite à distância com o menino de Gramado, mas 2019 foi a consciência da minha carência.

Teve o melhor amigo que eu conheci e fiz, mas 2019 foi o ano em que eu no fim o perdi (tudo de ruim que poderia acontecer aconteceu e mesmo o que era bom acabou mal, eu havia escrito num dos outros rascunhos, gêmeo siamês deste texto que nunca vou publicar).

Teve 11 meses continuando apesar de tudo, mas 2019 foi a crise depressiva que tive em dezembro e que me fez desmaiar, parar em UPA e 24 Horas na mesma semana pra tomar soro e calmante, me afastar do emprego, encarar meus colegas com vergonha e surtar em público ao colapsar enfim depois de ficar razoavelmente estável até ali.

2019 poderia ter tido o paraíso, mas ainda assim seria e será para sempre o ano em que perdi minha mãe.
É ela que encontro depois de todas as esquinas em que meus pensamentos dobram e por isso ela está em cada parágrafo, cada espaço, cada ponto, cada pausa pra respirar em todas essas linhas. E por mais difícil que tenha sido esse ano, difícil também é me despedir dele, pois foi o último em que tive ela comigo fisicamente.


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Agora 2019 acabou e abandono enfim o meme do medo da eterna sequência enquanto sorrio tensa fingindo que esqueci que nesses vinte dias de 2020 nós já tivemos motivos pra criar memes de Terceira Guerra Mundial e o Brasil e o mundo já começaram desabando. Pretendo ir atrás do clichê do novo começo, aquele onde tenho o luxo da esperança de que ainda pode dar certo. Talvez. Tomara. Eu realmente não sei e tenho receio de me animar.

Quando meus irmãos chegaram da praia eu expliquei pra cada um quão desastrosos tinham acabado meus planos de réveillon com o pai. Tinha feito fiasco por whatsapp com a Taiane antes e ela rachou de dó. O Tiago ficou muito frustrado e reprovou todo mundo. O Teteu ficou pistola e disse que teria saído porta afora e voltado pra casa deixando todos pra trás, dane-se as boas maneiras e o salsichão com farofa, e tentei explicar por que não tive essa coragem, apesar de ter tido a mesma vontade. Concordei com todos eles.
Combinamos de ir ao Gasômetro numa tarde dessas com o pai. Não vai ter fogos, mas eu só quero que tenha sol.

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No fim de 2018 eu ganhei um pijama de cactos da minha mãe no natal, o nosso último, naturalmente, porque ela faleceu em julho de 2019. Eu vesti ele essa semana meio sem reparar mas depois fiquei olhando a estampa, pensando na coincidência curiosa.
Nesse primeiro natal sem ela, que eu pensei que seria mortificante mas acabou sendo surpreendentemente bom com a família enorme da minha cunhada, eu ganhei um cacto de verdade de uma das irmãs da Luana. Achei que não ganharia presentes porque a mãe era a única pessoa da família suficientemente boba, feliz e festiva, ridiculamente linda, pra adorar presentear as pessoas em todas as oportunidades possíveis, mas ganhei esse cacto, como os da estampa do pijama que ela me deu um ano antes.
Eu já havia matado uma suculenta que comprei na semana seguinte à morte dela, plantinha que eu chamei brincando meio sério de Suculenta da Renovação. Não quero ser piegas e forçar simbolismo aqui (Deus me livre de metafísica, etc etc), mas a verdade é que eu não estava mesmo pronta pra renovação nenhuma. Fazia só uma semana e eu nem sabia que ainda tinha uma crise tenebrosa pela frente.
Mas os cactos são sobreviventes no deserto, têm as folhas transformadas em espinhos pra preservar água e se proteger dos predadores e se adaptam a ambientes áridos trabalhando com pouco. Quer dizer, acho que ele vai sobreviver a mim.
Ainda não dei nome pra ele, mas sou ridícula demais pra não dar.
Durante o dia ele fica na janela da sala, minha preferida da casa, background de incontáveis fotografias, e à noite vai pra cima de uma máquina de costura antiga que faz parte de um cantinho nostálgico que montamos pra minha mãe em sua última internação, e que ela não teve a oportunidade de ver. Tem um retrato lindo dela pendurado na parede acima, e a plantinha fica bem embaixo. Todo dia eu tenho admirado a beleza do cacto na janela. Todo dia eu tenho chorado e sorrido com o quadro da minha mãe na parede.
2019 não foi um ano que pede bem uma retrospectiva com final otimista e animador. Nem quero dar isso a ele, de birra. Como eu disse, apesar de ter tido alguns detalhes bons, não é deles que eu vou lembrar daqui a trinta anos e esse vai ser pra sempre o ano em que coisas devastadoras aconteceram. Essa é sua essência, é a consciência que vai sobreviver às décadas: 2019 foi o ano em que aquilo aconteceu.

2019 será para sempre o ano em que perdi minha mãe.

Mas eu preciso encerrar esse texto de alguma forma. Sem risadas, em silêncio, mas com alguma esperança, eu acho. Então vou dizer que espero que meu cacto sobreviva ao que ainda está por vir, e eu também.

Feliz 2020.