02/04/2021

Noventa e nove por cento

Acordei para um dia perfeito. Eu tinha marcado há semanas com uma amiga que nos encontraríamos na Feira do Livro de POA seguindo a tradição que quero emplacar e que agora completaria joviais dois anos de vida. Lembro que estávamos com medo da chuva que vinha ameaçando aparecer e tínhamos olhado dúzias de vezes a previsão do tempo naquela semana, contando os dias apreensivas, mas o sol e o frescor que tinham nascido com aquele 15 de novembro eram absurdamente convidativos e carregavam consigo o chamado inconfundível dos dias perfeitos.
Levantei da cama animada com os mil planos e passeios e livros e lanches e ideias pipocando na minha cabeça. Vesti a roupa que preparei só pra isso (ultimamente tenho sido uma pessoa que faz isso, estranhíssimo), uma blusa de botões do Mario (não sei falar esse nome sem pensar na piada infame, me perdoa) ridiculamente colorida, e calcei a alpargata de Hobbit que comprei na praia nas últimas férias por um preço ridículo (pensei que ela dissolveria depois do primeiro uso, feita de papier maché), num impulso de adquirir algo que eu nunca compraria em circunstâncias normais, porque aquele brilho não é pra mim. Tenho predileção por cores sóbrias mas queria que aquele dia fosse especial, mais um ao qual quis emprestar forçosamente ''ares de renovo'', e no figurino eu certamente atingi a meta.
Estava a perfeita representação da expressão ''feliz e saltitante'', como não lembrava mais qual tinha sido a última vez.
Ajeitei a bolsa, a blusa, o calçado, a cara, o cabelo e então lembrei que com um dia de sol daqueles seria insensatez sair de casa sem nada pra segurar as madeixas se o desespero batesse, e então minha mente distraída me levou pra ideia rotineira e natural, ''vou pegar a piranha da mãe'', já que tu deixa sempre uma piranha presa na cabeceira da cama, mãe, quando solta os cabelos antes de deitar pra dormir.

Deixava, soltava, deitava, dormia. Esses verbos no passado são cruéis, sabe.

Nos dias perfeitos eu esqueço que você se foi, porque a tua partida não combina com eles e os parte ao meio, os dois não coexistem. Então minha mente escolhe um desses cenários e bloqueia o outro, e assim acordei num dia que, por ser perfeito, exigia, naturalmente, que você ainda estivesse aqui - pois claro, pois óbvio, pois é assim que as coisas têm que ser e sempre foram, ora.
E se você ainda estava aqui certamente teria deixado uma piranha presa na cabeceira da cama que está quebrada até hoje desde que nós, os teus quatro filhos, pulamos aquela vez, há uma vida atrás - tenho saudade.
Então eu fui procurar a piranha, e estranhamente (ou não, eu não sei) ela estava mesmo lá, exatamente onde tu deixava. Uma piranha transparente que muda de cor quando exposta ao sol. Mágica, tua.
Parei e olhei para aquele objeto tão simplório que agora continha em si um significado tão grande e fiquei inerte percebendo e assimilando dolorosamente, como quem sente um veneno caminhando lentamente pelas veias, que meu dia não era mais perfeito, não podia ser. Estendi a mão e desenganchei a piranha da cama, e nesse meu movimento, com os braços esticados, o tempo parou e por alguns segundos fiquei total e completamente ciente da brutalidade do momento. O dia perfeito desmoronou ao meu redor como um castelo de cartas ao vento, e eu vi direitinho cada pedaço dele caindo em câmera lenta, me deixando ali, olhando pra essa metáfora pronta estilhaçada aos meus pés.

É engraçado como é nos momentos mais bonitos que penso em ti, porque não achei que seria assim e sempre me surpreendo. Quando olho para uma paisagem nova, uma arquitetura bonita no centro histórico, quando sinto os raios de sol sobre minha pele e o vento entre meus cabelos. Achei que eu pensaria mais em ti quando estivesse no fundo do poço deitada na cama e com o nariz escorrendo de tanto chorar com o mais recente fracasso que entrou na coleção, fosse ele qual fosse, porque seria quando eu mais sentiria tua falta e precisaria do teu colo, mas não; tua lembrança me assalta nos momentos e dias perfeitos, a beleza da vida é o que te atrai à minha mente. É assim mesmo que deve ser.
Repentino, sem aviso, teu rosto surge pra mim, se sobrepondo ao céu, ao mar, às árvores e a todas as coisas lindas que cruzam meu caminho e me fazem parar pra suspirar, fechar os olhos e tentar absorver com todos os sentidos aquela paisagem, o momento, as pessoas e os sentimentos, imaginando como seria se tu ainda estivesse aqui, querendo de volta o que eu perdi, o que antes era tudo e agora pode ser no máximo quase, porque não dá pra ser completo se tu não estiver aqui, mãe.
Gosto das tuas visitas, apesar de elas ainda trazerem muita dor, apesar de ser impossível escrever isso sem ficar com os olhos marejados olhando pro teclado e apesar de não poder mais ir a lugar nenhum sem um amontoado de lenços escondidos no bolso porque nunca sei quando a memória de quem tu foi vai me fazer parar pra enxugar as lágrimas.
E como, apesar de tudo, quero que os apesares continuem, uma vez que eles representam tua lembrança, saí daquele momento estático e brutal e juntei todos os pedaços do dia quase perfeito que tinha se estilhaçado e os remendei de um jeito bobo, confuso e falho, mas sincero, pra tentar continuar como consigo, desse jeito que eu sei que nunca mais vai ser 100% (99 talvez, mas nunca, nunca 100), nunca mais vai ser perfeito.

Então, no meu dia agora feito de um punhado de quases remendados, pensei em ti no meio de tantas pessoas e livros, pensei em como seria te dar um livro infantil quando passei pela seção, pensei em ti olhando os quadros no MARGS, as esculturas do museu, pensei em ti subindo as escadas comigo, passeando no shopping, comendo hambúrguer, comprando um lindo colar de plantas em resina, carregando as sacolas cheias e pesadas como fazíamos na lomba do mercado e pensei em ti olhando pela janela do ônibus ao voltar pra casa, claro.
E, ainda pensando em ti, dormi imaginando como seria se o quase pudesse ser tudo de novo.

05/03/2021

Retrospectiva Literária - Meus livros favoritos dos últimos dois anos (2019, 2020)

Publiquei este texto originalmente no Medium, porque é neutro e impessoal (assim como aquele site, a plataforma de texto mais sem personalidade da internet) o suficiente pra eu me sentir à vontade pra postar em outro lugar e compartilhar o link publicamente com as pessoas que me conhecem na vida fora da internet e que nunca leram nada meu e nem têm acesso ao Krahelake (e eu prefiro que continue assim, me deixa mais livre aqui). Mas como o blog é meu depositório oficial de textos, acho justo e já pretendia trazê-lo pra cá também, com minúsculas alterações, ainda mais depois de ter passado esses dois anos sem publicar meu tipo de post favorito na blogofera. =)

Geralmente essa lista é anual, mas 2019 e 2020 foram muito atípicos — o primeiro especialmente para mim; o segundo para todos nós — , então tomei a liberdade de fazer esse compilado abrangendo um período um pouco maior, já que nesses dois últimos anos a vida (rsrs) me fez uma leitora meio medíocre (alguns diriam que foi uma pausa justa) e eu não conseguiria dar corpo ao texto se fosse falar do que li em um ano só. Nunca li tão pouco na década. Apesar de tudo, algumas leituras significativas me/se salvaram nesse período e viraram Favoritas da Vida — como sempre, elas não falham. Foram sete ao todo e vale a pena falar delas, sem nenhuma ordem de preferência (desculpa pelo textão e não desiste de mim).

Carcereiros — Drauzio Varella

Esse foi o primeiro livro que li escrito pelo médico favorito do Brasil, mas não será o único, porque Drauzio tem tanto domínio e fluidez ao transitar pelas palavras quanto esbanja competência atuando na área de saúde há décadas. Livre de nomenclaturas e jargões, não se pode dizer que esse é um livro de divulgação científica como eu esperava a princípio porque a proposta do Drauzio não é falar sobre medicina, e sim sobre pessoas; é um livro escrito sobre e para gente como a gente. Aqui ele fala das amizades e histórias que viveu com diversos agentes penitenciários do sistema prisional de São Paulo, mais especificamente no Carandiru, onde atuou como médico voluntário de 1989 a 2002, ano em que a instituição foi desativada. Muito conhecido por Estação Carandiru (1999)(preciso ler!!!), obra-prima que lhe rendeu o Prêmio Jabuti, o mais tradicional prêmio literário do Brasil, e que ganhou uma adaptação cinematográfica (2003) nas mãos do diretor Hector Babenco mostrando o cotidiano dos prisioneiros no local que hoje é símbolo da marginalização dessas populações, em Carcereiros Drauzio nos faz ver o mesmo ambiente através de outro ângulo, o dos funcionários, pessoas livres mas que passavam seus dias inteiros dentro do presídio. Esse livro mostra como as dores podem ser diferentes, mas estão em todos os cantos, e é impossível estar inteiramente bem se quem está ao meu lado padece, porque a desigualdade é um mal que se alastra.

‘’Estava tão envolvido com aquele universo, que abrir mão dele significava admitir passar o resto da existência no convívio exclusivo com pessoas da mesma classe social e com valores semelhantes aos meus, sem a oportunidade de me deparar com o contraditório, com o avesso da vida que levo, com a face mais indigna da desigualdade social, sem ouvir histórias que não passariam pela cabeça do ficcionista mais criativo, sem conhecer a ralé desprezível que a sociedade finge não existir, a escória humana que compõe a legião de perdedores que um dia imaginou realizar seus anseios pela via do crime, e acabou enjaulada num presídio brasileiro.’’

Por Todos os Continentes — Roberto Menna Barreto

Todo ano (em que não tá rolando, sei lá, uma pandemia) eu vou à Feira do Livro de POA com uma amiga e tenho o ritual pessoal de comprar pelo menos um livro do qual eu nunca tenha ouvido falar antes, pra sair da minha zona de conforto literária e conhecer coisas novas, quem sabe me surpreender. Por Todos os Continentes foi adquirido assim (o tema de viagem me fisgou de cara) e virou favorito. Roberto Menna Barreto foi um empresário e escritor que colaborou com diversas publicações brasileiras e rodou MUITO mundo afora, visitando mais de oitenta países ao longo dos seis continentes, sobre os quais escreveu em suas colunas, como um diário de viagem. Esse livro compila vários desses textos e outros do acervo pessoal do autor, um aventureiro inveterado, contando sobre suas andanças, conhecendo as riquezas materiais e imateriais de vários povos, observando costumes e refletindo conosco sobre diversos assuntos inspirado pela variedade cultural com que se deparava em cada canto que visitava. É um livro denso (não é uma leitura das mais fluídas, mas isso não é defeito aqui) e muito interessante. Ele virou um favorito porque a leitura acabou se transformando numa experiência muito pessoal, já que o li de forma bem espaçada (acho mesmo que é a maneira ‘’certa’’ de ler esse livro, episodicamente) durante um ano inteiro, coisa que eu nunca faço, e ele me acompanhou em diversos cenários (trabalho, passeios, ônibus, salas de espera em hospitais, banco de praça, aqui e ali), meio como minha própria viagem, e olhando em retrospecto lembro de várias fases da minha vida (porque 2019 foi algo) pelas quais passei enquanto acompanhava Roberto andando pela Índia, Alemanha, Berlim Ocidental... Lembro de pensar em muitos momentos que esse é o tipo de livro que eu gostaria de escrever, e quando acabei a última página e descobri que o autor faleceu em 2015 fiquei triste como se tivesse perdido um conhecido.

‘’Toda volta é sempre mais problemática do que a ida, por que será?’’

A Revolução dos Bichos — George Orwell

Eu não esperava ser tão marcada por um livrinho curto de cento e poucas páginas, mesmo depois de ter lido Orwell da biblioteca do colégio no ensino médio e achado incrível, então não deixei de me surpreender quando fui descobrir por mim mesma por que esse livro está sempre ao lado de 1984 (outro favorito) como magnum opus do autor. Mesmo que já dispense apresentações, A Revolução dos Bichos nos mostra uma fazenda onde os animais tomam o controle e se voltam contra seus algozes humanos, reorganizando a dinâmica do local de modo que todos desfrutem dos benefícios da propriedade; mas logo os porcos (sugestivo) se colocam no alto da hierarquia, promovendo injustiças e subjugando os outros animais, o que desencadeia uma sequência de tragédias. É um enredo comicamente simples que satirizou a ditadura stalinista e sua decadência (alguns porquinhos representam claramente figuras específicas como Stálin e Trotsky), e que se tornou uma obra atemporal como crítica alegórica a projetos políticos que sucumbem às fraquezas humanas e corroem a vida em sociedade através do autoritarismo. Alguma pessoa muito mais sagaz cujo nome desconheço e a quem não vou poder atribuir os créditos já fez uma síntese da fábula dizendo que ‘’de certo modo, a inteligência política que humaniza seus bichos é a mesma que animaliza os homens’’, e é uma frase boa demais pra eu deixar de parafrasear. A Revolução dos Bichos é um livro fluidíssimo que li em dois dias no trabalho porque você voa pelas páginas se compadecendo com as desgraças do cavalo, do pato e da galinha pensando que eles já foram, são e ainda serão pessoas como você em algum lugar, talvez aqui, quem sabe hoje.

‘’O resultado da pregação de doutrinas totalitaristas é o enfraquecimento do instinto graças ao qual as pessoas sabem o que representa ou não um perigo.’’

Anna Kariênina — Tolstói

Esse livro foi o primeiro russo que li e escolhi logo um calhamaço de mais de oitocentas páginas porque tenho tara por livro grande e queria mergulhar de cabeça; nada melhor pra começar conhecendo a literatura de lá do que um dramalhão de família cheio de amores proibidos e gente infeliz. :) O livro tem como pano de fundo a Rússia czarista e nos apresenta vários núcleos de personagens, tanto que é difícil definir um protagonista (sabe-se, inclusive, que Tolstói cogitou dar à obra o nome das duas cidades russas que mais ambientalizam o enredo, São Petersburgo e Moscou), mas Anna Kariênina é uma aristocrata casada que se envolve num relacionamento extraconjugal com Vronski, um oficial da cavalaria, e vive o drama de escolher viver suas vontades pessoais em oposição a manter a aceitação da alta sociedade, ambiente em que desfruta de status, riqueza e admiração, mas se sente vazia e infeliz. Em paralelo, também acompanhamos Liévin, um misantropo inconvertível que tem dinheiro, terras e posses mas nunca se encaixou nos rolês e vive solitário e isolado em eterna (são quase mil páginas rsrs) desilusão amorosa, apaixonado por Kitty, que por sua vez é a fim do Vronsky, aquele que tem um caso com a Anna do título. E é esse todo mundo vai sofrer aí mesmo, rs. Mais do que os (des)amores dos personagens, essa história se consagrou graças à ambiguidade de todos eles; não há heróis nem vilões, e sim pessoas complexas que não cabem em rótulos, como é na realidade — ou deveria ser. Esse livro é uma baita novela, me acompanhou na mala em duas viagens (nada prático, não recomendo, ele é um tijolo; mas também pensei que seria minha única chance no ano de lê-lo de uma vez) e passou as férias inteiras comigo, mas nem assim fiquei satisfeita com o tempo que passamos juntos, e digo pra quem pergunta (ou não) que ele é tudo que você espera de um drama de mais de oitocentas páginas. Anna Kariênina é um livro que terminei há menos de um ano e já quero reler.

‘’ — Entenda bem — disse ele — , isso não é amor. Eu já estive apaixonado, mas isso não é a mesma coisa. Não se trata de um sentimento meu, mas de uma força exterior que se apoderou de mim. Veja, eu fugi porque decidi que tal coisa não poderia acontecer, entende, como uma felicidade que não pode existir na Terra; mas lutei contra mim mesmo e vejo que sem isso não existe vida.’’

A Guerra Não Tem Rosto de Mulher — Svetlana Aleksiévitch

Ganhei esse livro e outros mimos de presente de uma amiga (oiii, Vanessaaa, abraços eternos, Vanessaaa \o/) e quando abri o pacote gritei de alegria, porque desde que li e favoritei Vozes de Tchernóbil (essa é a única resenha ''antiga'' que vou linkar porque as outras kk Deus que me perdoe) em 2017, da mesma autora, não tinha nenhum outro livro no mundo que eu queria mais do que esse e ela acertou muito na escolha. Svetlana é uma jornalista ucraniana e ganhadora do Nobel de Literatura em 2015, internacionalmente consagrada por seus livros-reportagem onde ela retrata momentos históricos já amplamente divulgados e discutidos mas às vezes de forma unilateral, coisa que ela procura reparar em suas obras expondo ângulos pouco ou nada explorados, e muito intimistas, através das vozes de protagonistas e sujeitos históricos que vivenciaram esses episódios. Reunindo relatos e delineando lembranças pessoais alheias, ela recompõe uma teia de histórias verídicas construída ao longo de anos de pesquisa e conversa incansável. Em A Guerra Não Tem Rosto de Mulher ela entrevista dezenas de mulheres soviéticas que integraram o exército vermelho lutando contra o nazismo na II Guerra Mundial, seja nas trincheiras, nas estradas, como enfermeiras, cozinheiras, atiradoras, telefonistas que cuidavam da comunicação das tropas ou onde quer que fossem aceitas (o que nem sempre era o caso), elas eram voluntárias. Naturalmente, também temos aqui um forte recorte de gênero evidenciando o apagamento da atuação das mulheres na guerra, e aqui o título do livro é perfeito; a guerra não tem rosto de mulher porque a imagem delas é a última coisa que nos vem à mente quando pensamos nesses eventos, ‘’mulheres não vão à guerra’’. Mas foram sim, e não foram poucas, elas existiram, e nesse livro Svetlana escreve ao mundo sua história não contada. Esse é um livro de memórias que dá voz a vivências silenciadas (como os homens veteranos cheios de traumas e feridas, essas mulheres sofreram muito no pós-guerra, mas com uma faceta de perversidade que eles não conheceram, a do sexismo; a mesma guerra que aos olhos dos outros transformou-lhes em heróis fez delas vadias) e joga luz sobre experiências ocultas. Além de sua importância como registro histórico, esse livro é precioso pela intimidade com que a narrativa é construída, atentando sempre no universo particular das pessoas afetadas por esse conflito de dimensão global e priorizando a sensibilidade e a delicadeza em complemento aos registros mais abrangentes dos acontecimentos. A Guerra Não tem Rosto de Mulher é um livro duro e comovente, uma verdade a ser lida e relida.

‘’Tudo o que sabemos da guerra conhecemos por uma ‘voz masculina’. Somos todos prisioneiros de representações e sensações ‘masculinas’ da guerra. Das palavras ‘masculinas’. Já as mulheres estão caladas. Ninguém, além de mim, fazia perguntas para minha avó. Para minha mãe. Até as que estiveram no front estão caladas. Se de repente começam a lembrar, contam não a guerra ‘feminina’, mas a ‘masculina’. Seguem o cânone. E só em casa, ou depois de derramar alguma lágrima junto às amigas do front, elas começam a falar da sua guerra, que eu desconhecia. Não só eu, todos nós.’’

Sapiens, Uma Breve História da Humanidade — Yuval Noah Harari

Difícil não cair em redundância com o título autoexplicativo descrevendo o livro, então começo falando do autor: Harari é um professor israelense de história que leciona na Universidade Hebraica de Jerusalém e ganhou notoriedade quando esse livro virou best-seller em 2014, alavancando-o ao status de celebridade acadêmica (provavelmente ele desprezaria esse termo, mas meu vocabulário é limitado). Sua especialização é história mundial e processos da macro-história, o que, segundo a Wikipédia (após ler em meu face energy aqui), é um método analítico ‘’que tem como objetivo a identificação de tendências gerais ou de longo prazo na história’’, e é isso que ele faz neste livro colocando em perspectiva toda a trajetória da humanidade, desde a origem do homo sapiens na idade da pedra até a contemporaneidade e domínio tecnológico no século XXI. Como protagonistas que somos aqui (vilanescos, muitas vezes), é interessante encarar nossa pequenez individual diante de um panorama que traça com muita nitidez todo o nosso percurso, viável desde que coletivo, e que tira o ‘’eu’’ de foco pra narrar as aventuras e desventuras da espécie. O livro é dividido em quatro partes, das quais três são sobre as revoluções cognitiva, agrícola e científica pelas quais passamos e suas consequências, que definiram o que nos tornamos. À parte (na parte 3 do sumário, sendo específica), Yuval fala da unificação da humanidade e ressalta nossa característica que para ele é a mais fundamental e responsável por nossa prevalência sobre outras espécies: nossa capacidade imaginativa, responsável por nos unir em torno de conceitos abstratos (religião, leis, mitos, dinheiro, Estados…) sem valor concreto em si, mas que regem a sociedade graças a importância que lhes atribuímos e que seriam incompreensíveis pra, sei lá, uma lhama. Obviamente um livro sobre a humanidade é regado por análises sobre os mais variados assuntos em que possamos pensar (foi o livro que mais me fez refletir sobre vegetarianismo, por exemplo), então vale a leitura até como acesso a um acervo de informações muito curiosas e interessantes. Lamento não ter memória suficiente pra gravar pra sempre tudo o que esse livro ensina, porque ele é muito rico, mas talvez isso seja apenas mais um convite a infinitas releituras no meu exemplar já todo grifado. ;)

‘’Avançamos de canoas e galés a navios a vapor e naves espaciais — mas ninguém sabe para onde estamos indo. Somos mais poderosos do que nunca, mas temos pouca ideia do que fazer com todo esse poder. O que é ainda pior, os humanos parecem mais irresponsáveis do que nunca. Deuses por mérito próprio, contando apenas com as leis da física para nos fazer companhia, não prestamos contas a ninguém. Em consequência, estamos destruindo os outros animais e o ecossistema à nossa volta, visando a não muito mais do que nosso próprio conforto e divertimento, mas jamais encontrando satisfação. Existe algo mais perigoso do que deuses insatisfeitos e irresponsáveis que não sabem o que querem?’’

A Casa dos Espíritos — Isabel Allende

Li dois livros da Allende e em ambos ela é impecável. Desde o primeiro (Eva Luna, fiquei apaixonada) já me parecia impossível que essa mulher fosse capaz de escrever algo ruim, então quando comecei este aqui, sua obra-prima, estreia na literatura e livro pelo qual é mais consagrada, eu já esperava que ele virasse um favorito da vida; não foi surpresa, mas foi maravilhoso acompanhar essa história. Isabel é prima de Salvador Allende, presidente do Chile morto durante o golpe que implantou a cruel ditadura militar no país, levada com mão de ferro e regada a sangue de 1973 a 1990, e por ser filha dessa terra e ter um laço consanguíneo tão forte com os traumas desse período, a ditadura chilena é um dos principais panos de fundo de suas histórias inventadas. Em A Casa dos Espíritos temos um romance de família que perpassa gerações na casa dos Del Valle, destacando as mulheres indomáveis da família em contraponto ao patriarca intransigente. Seus dramas pessoais que às vezes ultrapassam os limites do lar, o casarão da esquina onde coisas fantásticas acontecem (espíritos se manifestam, objetos se movem, uma mulher tem cabelo verde e a clarividência de Clara impera), e se desdobram pelas ruas da cidade em conflitos, aventuras e subversão refletem o clima geral da sociedade, as intempéries, sofrimentos e desordem que precederam a fatídica insurreição política que condenou o país e os personagens fictícios, mas muito reais, dessa história à tragédia, à busca por redenção ou à superação. Allende faz uso do realismo mágico como espelho para a história nacional (sem citar o nome do Chile em nenhum momento, note-se) num livro em que ficção e realidade se enlaçam, tecendo uma trama onde elementos fantásticos dialogam com a realidade bruta, desse jeito latino-americano familiar a muitos leitores que já conheceram outros nomes e títulos incríveis semelhantes. Os personagens aqui são extremamente cativantes (Jaime, o médico dos necessitados, é meu favorito de todos esses livros), as mulheres Del Valle são excepcionais e todos eles tomam contornos de velhos conhecidos para o leitor. Tudo que acontece com os membros da família é sentido em nossa pele e lendo você pensa no quanto disso foi escrito pela autora na necessidade desesperada de expurgar os demônios do passado de sua própria família. Allende é uma romancista fantástica e A Casa dos Espíritos é um livro maravilhoso que honra a história chilena. Quero ler tudo que essa mulher escrever.

‘’As pessoas caminhavam em silêncio. Subitamente, alguém gritou, rouco, o nome do Poeta, e uma só voz, saída de todas as gargantas, respondeu: ‘Presente! Agora e sempre!’. Foi como se tivessem aberto uma válvula, e toda a dor, o medo e a raiva daqueles dias saíssem dos peitos e rodassem pela rua, e subissem num terrível clamor até as nuvens negras do céu. Outro gritou: ‘Companheiro presidente!’. E responderam todos num só lamento, pranto de homem: ‘Presente!’. Pouco a pouco, o funeral do Poeta transformou-se no ato simbólico de enterrar a liberdade.’’

Sebo Beco dos Livros - Porto Alegre (24/08/2019)

Ufa, é isso. Li outros livros maravilhosos que eu também gostaria de [obrigar meus amigos a ler sob ameaça de agressão física só pra eu ter alguém com quem conversar sobre] recomendar a todos, mas priorizei só os que viraram Favoritos Absolutos da Vida Amém pro texto não ficar insuportavelmente grande (mais do que já está, eu sei, eu sei…). Eu francamente acho que desprezar ficção é coisa de otário, amo muito e sempre li quase tudo quanto é gênero, mas gostei de ver como quatro desses sete livros são literatura de não ficção porque tenho dado muita atenção a essas narrativas nos últimos anos, é a primeira vez que são maioria entre os favoritos. Espero que essa retrospectiva literária possa servir de incentivo pra que alguém leia qualquer um desses títulos, se tiver a chance. Eles valem a pena. Desejo um ótimo 2021 em leituras a todos que curtem livros, porque se a moda continuar e todo o resto der ruim com força pelo menos a gente leu coisa boa. ;) 

04/02/2021

2020, das nuvens ao miojo com amendoim japonês

Se tivessem me falado em janeiro do ano passado quando publiquei a retrospectiva de 2019 que eu só voltaria a pisar neste blog agora, um ano inteiro depois na próxima retrospectiva anual de costume, eu lamentaria muito, mas teria em mente possíveis motivos aos quais atribuir essa ausência, porque àquela altura já tinha planos importantes traçados para esse ano que passou. "Não devo ter parado em casa pra nada além de cair exausta na cama", eu pensaria.

Se tivessem me falado que eu e o resto do mundo todo (os preocupados, conscientes e privilegiados, pelo menos) ficaríamos isolados em casa durante meses a fio numa quarentena que engoliria o globo graças a uma pandemia viral que arruinaria parte dele (vidas, famílias, negócios, a nesga final de sanidade e dignidade que restava à nação...) e que, como efeito colateral muito mais insignificante, até fútil, mas profundamente sentido por mim, eu cairia numa estagnação apática e teria dificuldade extrema de redigir um parágrafo sequer de qualquer coisa pela falta brutal de rotina e pararia em casa até demais, claustrofobicamente demais, eu... Bom, eu ficaria em choque, como todo mundo, porque não sou especial.

Todo mundo que escreve escreveu seu texto de quarentena (me sinto extremamente imbecil resumindo as coisas assim, como se essa catástrofe não passasse de uma pauta pra blog que só uma dezena de pessoas lê, mas não consigo colocar a coisa de outra forma agora, desculpe), e eu me sentiria uma traidora de minhas próprias memórias se não deixasse nada disso tudo registrado em algum lugar. Pode ser também só uma desculpa indulgente pra eu me permitir pensar que o peso morto que fui durante boa parte do ano acabou me rendendo, afinal, pelo menos um texto.

Se 2019 foi a perda da minha mãe, 2020 foi pandemia, quarentena e a perda de muitos que não são meus, mas são de alguém. Foram de alguém.

Mais particularmente, 2020 também foi pra mim um lembrete diário de como fico completamente disfuncional sem rotina e exigências diárias que me coloquem nos trilhos dia após dia. Se teve quem surtou e subiu pelas paredes quando os planos saíram do controle, eu sou do grupo dos que caíram num poço de apatia e ficaram atirados encarando o teto por quatro horas - metaforicamente mas nem tanto.

Tenho a forte impressão de que esse rompante de inspiração motivacional que supostamente acometeu algumas pessoas nesse período e as levou a ler trocentos livros acumulados, fazer exercícios, executar vários projetos, se inscrever em cinco cursos ead diferentes e aprender a tocar harpa não passa de lenda urbana, mas talvez só me pareça absurdo porque não foi minha realidade. Eu vi várias séries e filmes, mas que atividade é mais passiva do que essa? Desde que comecei a manter um registro de minhas leituras, nunca li tão pouco quanto em 2020, já que a tarefa me exigiria uma mínima disposição mental que eu não estava disposta a dar, mesmo passando 24 horas por dia em casa. Num contraponto, em 2018, quando eu passava nove horas por dia no trabalho, dormia cinco horas por noite e chegava em casa para me atirar num episódio da série da vez até apagar, houve meses em que li seis, sete, oito livros. 

A força da rotina, sabe. Não sei existir de verdade sem ela, sem o incômodo do despertador que me levante às sete e vinte pra encarar o dia e a pressão dos ponteiros que ditem meus prazos e metas. 2020 abstraiu o tempo de tal forma que pensar nele deixou de fazer sentido - e eu penso muito no tempo, é um dos meus assuntos, é a única ''moeda'' que realmente me interessa. Ser lembrada (porque essa não é a primeira vez em que percebo isso, naturalmente) da facilidade que tenho em me acomodar é uma derrota. Detesto ser inativa, procrastinadora, infinitamente mais inclinada a encarar o teto atirada por quatro horas do que fazer mil coisas pra me distrair no micro quando o macro desanda. Quando os quatro principais temperamento humanos são assunto, sempre fico com melancólico e fleumático, mas não deveria ser uma maldição, rs.

Mas apesar de detestar e cultivar com muito sucesso uma culpa diária por não estar fazendo nada direito, eu também tive bastante facilidade em resvalar pra ilusão de que estava numa espécie de fratura no meio da trajetória linear do tempo e que durante essa falha ele congelou me deixando encapsulada esperando que algo ou alguém costurasse o que se rasgou pra que as coisas continuassem de onde pararam e os ponteiros do relógio voltassem a girar. Até lá, talvez eu pudesse me estender a indulgência de fazer umas coisinhas bestas por estar numa espécie de realidadezinha paralela, uma pausa onde atividades e experiências antes impensáveis por causa das exaustivas ocupações cotidianas se tornavam viáveis dado o excesso de '''''tempo parado'''''. Muito disso só foi possível, claro, porque toquei algumas responsabilidades pro alto em alguns momentos e não me orgulho, mas estaria sendo desonesta se não dissesse que, no fim, aproveitei parte do processo, mesmo com um pouquinho de culpa.

Pois foi então que nesse interlúdio (eu amo essa palavra, sempre quis usar ela num texto) etéreo eu participei de horas e horas infindáveis em chamada com amigos no discord enquanto a gente xingava o Bolsonaro ou assistia a chorumes do YouTube (conheci os melhores amigos do meu melhor amigo assim, e agora eles meio que são meus amigos também); fiz watch parties vendo filmes enquanto berrava através do meu fone com mais cinco outras pessoas que eu nunca tinha visto ou que não via há meses e estavam a quilômetros de distância; joguei RPG pela primeira vez na vida (cada vez mais me tornando o clichê que nasci pra ser) porque os rolês de sábado viraram isso, arranjar desculpas pra ter a companhia de outras pessoas numa telinha do meu pc sem sair da cama; joguei jogos online em voice call o suficiente pra viciar a bateria do meu computador e entrei em grupos de whats que foram criados pra gente dizer quando ia logar e fugir da realidade e viraram fonte de risadas diárias e lugar de conforto com rostos amigos; fui a primeira convidada do piloto de um podcast (!!!) que meus amigos criaram porque são inventivos, têm energia e não aguentavam mais estar sem fazer nada... Fiz essas e mais um monte de outras coisas que não teriam acontecido se a rotina não tivesse parado bruscamente do jeito que a pandemia impôs.

Também pude ver como algumas amizades que eu sempre tive um receio silencioso e melancólico de que se esvaíssem sem a força da rotina que nos impelia a nos vermos toda semana se mantiveram muito bem com a distância sem data pra ter fim que se interpôs entre nós. Comentando um storie, enviando um meme, rindo num áudio idiota ou passando toda a véspera de Natal pandêmico em chamada até amanhecer, o companheirismo esteve lá. Se informações catastróficas de '''''desastres naturais''''' e gente desgraçada nos fuzilavam o dia inteiro, esse era o lugarzinho seguro ao qual eu podia ir mentalmente toda noite ao deitar a cabeça no travesseiro pra tentar dormir se não com um sorriso, pelo menos com o mínimo de paz.  

No entanto, não seria interlúdio se não tivesse um fim e o tempo não parou de verdade, eu continuo envelhecendo minuto a minuto, oportunidades passam e as desgraças continuam acontecendo, o noticiário me lembra. Quando o vírus for vencido (isso é otimista demais?) e a quarentena acabar, as coisas obviamente não vão estar onde pararam no início disso tudo, a água correu embaixo da ponte, o que vivi não foi uma pausa, e continuar indefinidamente com essa mentalidade seria tão tolo (pelo menos pra mim, pra minha vida e meus planos; sei que tem gente que precisa se permitir parar pra respirar de verdade, mas não é disso que falo) quanto a ideia de que quando o ano virasse e fosse dia primeiro de janeiro de 2021 o vírus magicamente desapareceria do ar. 2020 ainda vai ser computado no tempo, mesmo que eu sinta que me deixei cair num buraco negro.

No início do ano passado, antes de fazer minha Primeira Grande Viagem (uma hora falo dessa minha voltinha no paraíso que é a Bahia, agora tão infinitamente distante, aqui), eu me inscrevi num cursinho pré-vestibular bem conceituado e caro da cidade, algo que meus pais nunca, nem em um milhão de anos, conseguiriam bancar durante minha ''época de vestibular'' (kkkkrying) sem afundar as finanças da família, mas agora sou assalariada, amém. Irônico foi que escolhi sem saber justamente o ano da pandemia pra organizar meu orçamento e ter finalmente coragem de embarcar nessa depois de tanto bater a cabeça na parede, e optei pelo presencial, bem mais caro (inaceitável e inacreditavelmente caro, se querem saber, mas como todo mundo aqui eu sou refém do capitalismo) porque sei que não funciono ead; preciso do desconforto da classe, do olho no olho e do já neandertal pó de giz. Estava com aquele friozinho que mistura temor com empolgação na barriga, esperançosa, contente com a oportunidade de pisar em sala de aula de novo, dessa vez como aluna (trabalho numa escola municipal, pisavao em sala todo dia mas com outros pés), no meu cursinho presencial pago com suor... E então todos os cursos do mundo viraram ead e meus planos nesse sentido derraparam feio. 

No início da pandemia, muita gente do meu nicho na internet ironizava o fato de que faziam quarentena antes de se moda, porque não são pessoas festeiras, se sentem alienígenas em baladas, não saem pra dar rolê todo finde e conseguem ficar em casa com um livrinho, um café e a própria companhia por meses ininterruptos sem grandes tormentos, e eu faço parte desse grupo. Houve uns bons cinco meses aí em que fiquei quase imperturbável com o impedimento de colocar a cara na rua, essa ideia de pausa da sociedade (ah, a ilusão) tinha sua sedução e quando avaliada unilateralmente, era bem-vinda para mim a perspectiva de poder desligar o medo de estar perdendo algo nessa era de bombardeamento de informações em que sempre tem um zilhão de coisas acontecendo e é fácil se sentir excluído de todas visualizando dezenas de stories por dia, já que na pandemia ninguém com o mínimo de autopreservação e respeito à vida humana, ninguém que me importava estava fazendo nada divertido. Ou seja, durante a maior parte desse percurso até aqui, não sair pra dar rolê na rua não foi uma grande perda pessoal e quem leva esse prêmio foi meu plano de estudos que não foi nada como eu queria e em algum momento aí no meio desandou. Eu sei que tem um monte de gente querendo bater com a cabeça na parede por causa do ead e muitas outras mais marginalizadas sem o menor acesso a ele, minha frustração não é especial, eu até tive sorte, mas fiz esse blog pra poder choramingar sobre meus dramas de vez em quando mesmo, e esse foi o drama pessoal de 2020.

Sei que não sou a única, e também sei que, do jeito que estivemos (alô, Brasil) em 2020, apesar da minha imensa frustração, eu fui das mais sortudas. Porque pelo menos tive a opção da aula ead, porque pude ficar longe do trabalho em isolamento em casa com o salário caindo na conta sem medo de ficar sem um prato de arroz e porque não tive nenhuma grande perda nesse ano, não fui enterrar nenhum dos mais de duzentos e vinte mil mortos até agora. Sinto por eles e suas famílias e chorei vendo os vídeos de Manaus porque, quem está aqui há um tempinho sabe, conheci essa dor em 2019. Durante 2020, pandemia e quarentena inteiros um pensamento que sempre me acompanhou foi o de certo alívio porque minha mãe que eu perdi há pouco pôde viver seu último ano sem a menor e mais remota sombra de nenhuma das incontáveis preocupações e medos que embalaram o mundo esse ano, poucos meses depois de ela partir, e que seriam infinitamente potencializados no microcosmo da nossa casa, já que ela estaria com a saúde extremamente debilitada por causa do câncer e das químios que a exauriam. Pensei muito como seria aterrorizante pra todo nós vivermos com o medo de chegar perto dela, tocar, abraçar; como seria triste se ela fosse privada de sair, ver as coisas, sentir o vento, olhar as árvores em seus últimos dias nessa terra. Em seu último ano aqui, ela pôde amar, abraçar e beijar, pôde ser amada, abraçada e beijada por todos que a amavam, como deve ser, e sou grata por isso.

(Falando nisso, falando nela e porque fico animadinha e boba demais quando faço coisas de gente grande, 2020 também foi o ano em que fiz minha primeira tatuagem, em homenagem a ela junto com meus irmãos. <3)

Meu natal pandêmico foi risível, beirando o hilário, mas me rendeu um ''antes e depois'' fajuto que serve pra ilustrar toda a quebra de expectativas que esse ano representou pra mim. Eu comecei em êxtase com minhas viagens a Gramado e depois à terra da alegria, andava pelas ruas baianas como uma sortuda que teve a chance de realizar um grande sonho e me permiti viver tudo ao máximo naqueles cinco dias lúdicos, de alegria quase mística, porque sabia que voltaria para casa e para um ano cheio de desafios e promessas. Terminei esse ano com mais de metade das promessas quebradas, desviando o olhar de boa parte desses desafios porque sério que tenho que buscar evolução pessoal no meio disso tudo, não dá pra ser depois de dar banho no meu pacote de wafer que chegou do mercado? e sozinha no Natal depois de fugir de uma ceia de família que não senti que seria segura, comendo minha ceia improvisada na cama: um Cup Noodles, um pacote de amendoim e duas 51Ice. Um anticlímax e tanto, se você quer saber. Isolada no meu quarto na noite de 24 de dezembro, me atingiu a ironia daquele momento, e ri pensando como um ano em que comecei chegando mais perto do céu do que jamais estive acabava comigo sentada na cama sozinha fugindo da morte invisível num dia de festa, assistindo a um vídeo no YouTube e cuidando pra não deixar miojo escorrer no meu pijama. Pelo menos rolou chamada com amigos depois até o sol raiar e amendoim japonês é meu favorito, sou viciada.

No fim de 2020 eu voltei a ler depois de meses e uma quarentena ''inteira'' sem virar uma página dos meus livrinhos, e quem é leitor ativo sabe que nossa rotina de leitura reflete nossos ânimos e muitas vezes serve como parâmetro na hora de avaliar nossos dias bons e ruins. Como já disse, nunca li tão pouco quanto em 2020 em toda a última década e isso me diz algumas coisas. E se o trocar do calendário não resolve nada num passe de mágica, não erradica a Covid-19, não garante um impeachment e nem me dá a aprovação no vestibular de uma hora pra outra, O Último Mês, A Última Semana, O Último Dia do ano carregam em si a força fatalista de nos mostrar com mais nitidez do que tínhamos mês passado, semana anterior e ontem que o tempo passa, as coisas acabam, você está envelhecendo e morrendo dia após dia como todo mundo e não tem todo o tempo do mundo, Carolina, e esse acordar pra consciência da finitude de tudo serve como força motriz na hora de transformar a virada de ano nesse símbolo de mudança que vai além dos dias no calendário e faz a gente dar GRAÇAS A DEUS porque 2020 acabou enquanto acordamos no mesmíssimo mundo no dia primeiro de janeiro de 2021, mas prontos pra fazer diferente de alguma forma. A Virada sempre me deprimiu, mas reconheço que não é por acaso o uso da palavra réveillon (reanimar, despertar, em francês) pra esse momento. Espero continuar saindo do torpor do qual comecei a me livrar quando decidi que voltaria a ler como sempre, escrever aqui (senti saudade) e fazer as minhas coisas de novo, porque já fiquei no interlúdio tempo suficiente. Espero mais um monte de outras coisas também, um bom ano pra mim e pra você.

Se todas ou a maioria das outras resoluções para 2020 deram errado, pelo menos meu cacto sobreviveu; tá surrado, sofrido e respirando com ajuda de aparelhos, mas sobreviveu. Somos dois aqui.

Feliz 2021.