04/02/2021

2020, das nuvens ao miojo com amendoim japonês

Se tivessem me falado em janeiro do ano passado quando publiquei a retrospectiva de 2019 que eu só voltaria a pisar neste blog agora, um ano inteiro depois na próxima retrospectiva anual de costume, eu lamentaria muito, mas teria em mente possíveis motivos aos quais atribuir essa ausência, porque àquela altura já tinha planos importantes traçados para esse ano que passou. "Não devo ter parado em casa pra nada além de cair exausta na cama", eu pensaria.

Se tivessem me falado que eu e o resto do mundo todo (os preocupados, conscientes e privilegiados, pelo menos) ficaríamos isolados em casa durante meses a fio numa quarentena que engoliria o globo graças a uma pandemia viral que arruinaria parte dele (vidas, famílias, negócios, a nesga final de sanidade e dignidade que restava à nação...) e que, como efeito colateral muito mais insignificante, até fútil, mas profundamente sentido por mim, eu cairia numa estagnação apática e teria dificuldade extrema de redigir um parágrafo sequer de qualquer coisa pela falta brutal de rotina e pararia em casa até demais, claustrofobicamente demais, eu... Bom, eu ficaria em choque, como todo mundo, porque não sou especial.

Todo mundo que escreve escreveu seu texto de quarentena (me sinto extremamente imbecil resumindo as coisas assim, como se essa catástrofe não passasse de uma pauta pra blog que só uma dezena de pessoas lê, mas não consigo colocar a coisa de outra forma agora, desculpe), e eu me sentiria uma traidora de minhas próprias memórias se não deixasse nada disso tudo registrado em algum lugar. Pode ser também só uma desculpa indulgente pra eu me permitir pensar que o peso morto que fui durante boa parte do ano acabou me rendendo, afinal, pelo menos um texto.

Se 2019 foi a perda da minha mãe, 2020 foi pandemia, quarentena e a perda de muitos que não são meus, mas são de alguém. Foram de alguém.

Mais particularmente, 2020 também foi pra mim um lembrete diário de como fico completamente disfuncional sem rotina e exigências diárias que me coloquem nos trilhos dia após dia. Se teve quem surtou e subiu pelas paredes quando os planos saíram do controle, eu sou do grupo dos que caíram num poço de apatia e ficaram atirados encarando o teto por quatro horas - metaforicamente mas nem tanto.

Tenho a forte impressão de que esse rompante de inspiração motivacional que supostamente acometeu algumas pessoas nesse período e as levou a ler trocentos livros acumulados, fazer exercícios, executar vários projetos, se inscrever em cinco cursos ead diferentes e aprender a tocar harpa não passa de lenda urbana, mas talvez só me pareça absurdo porque não foi minha realidade. Eu vi várias séries e filmes, mas que atividade é mais passiva do que essa? Desde que comecei a manter um registro de minhas leituras, nunca li tão pouco quanto em 2020, já que a tarefa me exigiria uma mínima disposição mental que eu não estava disposta a dar, mesmo passando 24 horas por dia em casa. Num contraponto, em 2018, quando eu passava nove horas por dia no trabalho, dormia cinco horas por noite e chegava em casa para me atirar num episódio da série da vez até apagar, houve meses em que li seis, sete, oito livros. 

A força da rotina, sabe. Não sei existir de verdade sem ela, sem o incômodo do despertador que me levante às sete e vinte pra encarar o dia e a pressão dos ponteiros que ditem meus prazos e metas. 2020 abstraiu o tempo de tal forma que pensar nele deixou de fazer sentido - e eu penso muito no tempo, é um dos meus assuntos, é a única ''moeda'' que realmente me interessa. Ser lembrada (porque essa não é a primeira vez em que percebo isso, naturalmente) da facilidade que tenho em me acomodar é uma derrota. Detesto ser inativa, procrastinadora, infinitamente mais inclinada a encarar o teto atirada por quatro horas do que fazer mil coisas pra me distrair no micro quando o macro desanda. Quando os quatro principais temperamento humanos são assunto, sempre fico com melancólico e fleumático, mas não deveria ser uma maldição, rs.

Mas apesar de detestar e cultivar com muito sucesso uma culpa diária por não estar fazendo nada direito, eu também tive bastante facilidade em resvalar pra ilusão de que estava numa espécie de fratura no meio da trajetória linear do tempo e que durante essa falha ele congelou me deixando encapsulada esperando que algo ou alguém costurasse o que se rasgou pra que as coisas continuassem de onde pararam e os ponteiros do relógio voltassem a girar. Até lá, talvez eu pudesse me estender a indulgência de fazer umas coisinhas bestas por estar numa espécie de realidadezinha paralela, uma pausa onde atividades e experiências antes impensáveis por causa das exaustivas ocupações cotidianas se tornavam viáveis dado o excesso de '''''tempo parado'''''. Muito disso só foi possível, claro, porque toquei algumas responsabilidades pro alto em alguns momentos e não me orgulho, mas estaria sendo desonesta se não dissesse que, no fim, aproveitei parte do processo, mesmo com um pouquinho de culpa.

Pois foi então que nesse interlúdio (eu amo essa palavra, sempre quis usar ela num texto) etéreo eu participei de horas e horas infindáveis em chamada com amigos no discord enquanto a gente xingava o Bolsonaro ou assistia a chorumes do YouTube (conheci os melhores amigos do meu melhor amigo assim, e agora eles meio que são meus amigos também); fiz watch parties vendo filmes enquanto berrava através do meu fone com mais cinco outras pessoas que eu nunca tinha visto ou que não via há meses e estavam a quilômetros de distância; joguei RPG pela primeira vez na vida (cada vez mais me tornando o clichê que nasci pra ser) porque os rolês de sábado viraram isso, arranjar desculpas pra ter a companhia de outras pessoas numa telinha do meu pc sem sair da cama; joguei jogos online em voice call o suficiente pra viciar a bateria do meu computador e entrei em grupos de whats que foram criados pra gente dizer quando ia logar e fugir da realidade e viraram fonte de risadas diárias e lugar de conforto com rostos amigos; fui a primeira convidada do piloto de um podcast (!!!) que meus amigos criaram porque são inventivos, têm energia e não aguentavam mais estar sem fazer nada... Fiz essas e mais um monte de outras coisas que não teriam acontecido se a rotina não tivesse parado bruscamente do jeito que a pandemia impôs.

Também pude ver como algumas amizades que eu sempre tive um receio silencioso e melancólico de que se esvaíssem sem a força da rotina que nos impelia a nos vermos toda semana se mantiveram muito bem com a distância sem data pra ter fim que se interpôs entre nós. Comentando um storie, enviando um meme, rindo num áudio idiota ou passando toda a véspera de Natal pandêmico em chamada até amanhecer, o companheirismo esteve lá. Se informações catastróficas de '''''desastres naturais''''' e gente desgraçada nos fuzilavam o dia inteiro, esse era o lugarzinho seguro ao qual eu podia ir mentalmente toda noite ao deitar a cabeça no travesseiro pra tentar dormir se não com um sorriso, pelo menos com o mínimo de paz.  

No entanto, não seria interlúdio se não tivesse um fim e o tempo não parou de verdade, eu continuo envelhecendo minuto a minuto, oportunidades passam e as desgraças continuam acontecendo, o noticiário me lembra. Quando o vírus for vencido (isso é otimista demais?) e a quarentena acabar, as coisas obviamente não vão estar onde pararam no início disso tudo, a água correu embaixo da ponte, o que vivi não foi uma pausa, e continuar indefinidamente com essa mentalidade seria tão tolo (pelo menos pra mim, pra minha vida e meus planos; sei que tem gente que precisa se permitir parar pra respirar de verdade, mas não é disso que falo) quanto a ideia de que quando o ano virasse e fosse dia primeiro de janeiro de 2021 o vírus magicamente desapareceria do ar. 2020 ainda vai ser computado no tempo, mesmo que eu sinta que me deixei cair num buraco negro.

No início do ano passado, antes de fazer minha Primeira Grande Viagem (uma hora falo dessa minha voltinha no paraíso que é a Bahia, agora tão infinitamente distante, aqui), eu me inscrevi num cursinho pré-vestibular bem conceituado e caro da cidade, algo que meus pais nunca, nem em um milhão de anos, conseguiriam bancar durante minha ''época de vestibular'' (kkkkrying) sem afundar as finanças da família, mas agora sou assalariada, amém. Irônico foi que escolhi sem saber justamente o ano da pandemia pra organizar meu orçamento e ter finalmente coragem de embarcar nessa depois de tanto bater a cabeça na parede, e optei pelo presencial, bem mais caro (inaceitável e inacreditavelmente caro, se querem saber, mas como todo mundo aqui eu sou refém do capitalismo) porque sei que não funciono ead; preciso do desconforto da classe, do olho no olho e do já neandertal pó de giz. Estava com aquele friozinho que mistura temor com empolgação na barriga, esperançosa, contente com a oportunidade de pisar em sala de aula de novo, dessa vez como aluna (trabalho numa escola municipal, pisavao em sala todo dia mas com outros pés), no meu cursinho presencial pago com suor... E então todos os cursos do mundo viraram ead e meus planos nesse sentido derraparam feio. 

No início da pandemia, muita gente do meu nicho na internet ironizava o fato de que faziam quarentena antes de se moda, porque não são pessoas festeiras, se sentem alienígenas em baladas, não saem pra dar rolê todo finde e conseguem ficar em casa com um livrinho, um café e a própria companhia por meses ininterruptos sem grandes tormentos, e eu faço parte desse grupo. Houve uns bons cinco meses aí em que fiquei quase imperturbável com o impedimento de colocar a cara na rua, essa ideia de pausa da sociedade (ah, a ilusão) tinha sua sedução e quando avaliada unilateralmente, era bem-vinda para mim a perspectiva de poder desligar o medo de estar perdendo algo nessa era de bombardeamento de informações em que sempre tem um zilhão de coisas acontecendo e é fácil se sentir excluído de todas visualizando dezenas de stories por dia, já que na pandemia ninguém com o mínimo de autopreservação e respeito à vida humana, ninguém que me importava estava fazendo nada divertido. Ou seja, durante a maior parte desse percurso até aqui, não sair pra dar rolê na rua não foi uma grande perda pessoal e quem leva esse prêmio foi meu plano de estudos que não foi nada como eu queria e em algum momento aí no meio desandou. Eu sei que tem um monte de gente querendo bater com a cabeça na parede por causa do ead e muitas outras mais marginalizadas sem o menor acesso a ele, minha frustração não é especial, eu até tive sorte, mas fiz esse blog pra poder choramingar sobre meus dramas de vez em quando mesmo, e esse foi o drama pessoal de 2020.

Sei que não sou a única, e também sei que, do jeito que estivemos (alô, Brasil) em 2020, apesar da minha imensa frustração, eu fui das mais sortudas. Porque pelo menos tive a opção da aula ead, porque pude ficar longe do trabalho em isolamento em casa com o salário caindo na conta sem medo de ficar sem um prato de arroz e porque não tive nenhuma grande perda nesse ano, não fui enterrar nenhum dos mais de duzentos e vinte mil mortos até agora. Sinto por eles e suas famílias e chorei vendo os vídeos de Manaus porque, quem está aqui há um tempinho sabe, conheci essa dor em 2019. Durante 2020, pandemia e quarentena inteiros um pensamento que sempre me acompanhou foi o de certo alívio porque minha mãe que eu perdi há pouco pôde viver seu último ano sem a menor e mais remota sombra de nenhuma das incontáveis preocupações e medos que embalaram o mundo esse ano, poucos meses depois de ela partir, e que seriam infinitamente potencializados no microcosmo da nossa casa, já que ela estaria com a saúde extremamente debilitada por causa do câncer e das químios que a exauriam. Pensei muito como seria aterrorizante pra todo nós vivermos com o medo de chegar perto dela, tocar, abraçar; como seria triste se ela fosse privada de sair, ver as coisas, sentir o vento, olhar as árvores em seus últimos dias nessa terra. Em seu último ano aqui, ela pôde amar, abraçar e beijar, pôde ser amada, abraçada e beijada por todos que a amavam, como deve ser, e sou grata por isso.

(Falando nisso, falando nela e porque fico animadinha e boba demais quando faço coisas de gente grande, 2020 também foi o ano em que fiz minha primeira tatuagem, em homenagem a ela junto com meus irmãos. <3)

Meu natal pandêmico foi risível, beirando o hilário, mas me rendeu um ''antes e depois'' fajuto que serve pra ilustrar toda a quebra de expectativas que esse ano representou pra mim. Eu comecei em êxtase com minhas viagens a Gramado e depois à terra da alegria, andava pelas ruas baianas como uma sortuda que teve a chance de realizar um grande sonho e me permiti viver tudo ao máximo naqueles cinco dias lúdicos, de alegria quase mística, porque sabia que voltaria para casa e para um ano cheio de desafios e promessas. Terminei esse ano com mais de metade das promessas quebradas, desviando o olhar de boa parte desses desafios porque sério que tenho que buscar evolução pessoal no meio disso tudo, não dá pra ser depois de dar banho no meu pacote de wafer que chegou do mercado? e sozinha no Natal depois de fugir de uma ceia de família que não senti que seria segura, comendo minha ceia improvisada na cama: um Cup Noodles, um pacote de amendoim e duas 51Ice. Um anticlímax e tanto, se você quer saber. Isolada no meu quarto na noite de 24 de dezembro, me atingiu a ironia daquele momento, e ri pensando como um ano em que comecei chegando mais perto do céu do que jamais estive acabava comigo sentada na cama sozinha fugindo da morte invisível num dia de festa, assistindo a um vídeo no YouTube e cuidando pra não deixar miojo escorrer no meu pijama. Pelo menos rolou chamada com amigos depois até o sol raiar e amendoim japonês é meu favorito, sou viciada.

No fim de 2020 eu voltei a ler depois de meses e uma quarentena ''inteira'' sem virar uma página dos meus livrinhos, e quem é leitor ativo sabe que nossa rotina de leitura reflete nossos ânimos e muitas vezes serve como parâmetro na hora de avaliar nossos dias bons e ruins. Como já disse, nunca li tão pouco quanto em 2020 em toda a última década e isso me diz algumas coisas. E se o trocar do calendário não resolve nada num passe de mágica, não erradica a Covid-19, não garante um impeachment e nem me dá a aprovação no vestibular de uma hora pra outra, O Último Mês, A Última Semana, O Último Dia do ano carregam em si a força fatalista de nos mostrar com mais nitidez do que tínhamos mês passado, semana anterior e ontem que o tempo passa, as coisas acabam, você está envelhecendo e morrendo dia após dia como todo mundo e não tem todo o tempo do mundo, Carolina, e esse acordar pra consciência da finitude de tudo serve como força motriz na hora de transformar a virada de ano nesse símbolo de mudança que vai além dos dias no calendário e faz a gente dar GRAÇAS A DEUS porque 2020 acabou enquanto acordamos no mesmíssimo mundo no dia primeiro de janeiro de 2021, mas prontos pra fazer diferente de alguma forma. A Virada sempre me deprimiu, mas reconheço que não é por acaso o uso da palavra réveillon (reanimar, despertar, em francês) pra esse momento. Espero continuar saindo do torpor do qual comecei a me livrar quando decidi que voltaria a ler como sempre, escrever aqui (senti saudade) e fazer as minhas coisas de novo, porque já fiquei no interlúdio tempo suficiente. Espero mais um monte de outras coisas também, um bom ano pra mim e pra você.

Se todas ou a maioria das outras resoluções para 2020 deram errado, pelo menos meu cacto sobreviveu; tá surrado, sofrido e respirando com ajuda de aparelhos, mas sobreviveu. Somos dois aqui.

Feliz 2021.

20/01/2020

2019, um marco, um cacto e um título apropriadamente ruim.

Eu passei a madrugada do dia 01/2020 chorando convulsivamente no meu quarto solitário depois de voltar de uma experiência de réveillon que começou razoavelmente bem mas terminou do pior jeito possível. Mas depois de um ano em que as coisas que eu mais temia aconteceram sem que eu tivesse poder de voz algum pra dizer não, eu me recuso a aceitar esse começo.
Em 2019 um meme que bombou foi o do medo da eterna sequência, porque o ano foi ruim pra muitos e uma desgraça na conjuntura geral e todo mundo queria que acabasse de uma vez. Então a internet começou a brincar: ''imagina se 2020 nunca vier e quando a gente achar que chegou lá descobrir que estamos é num 2019 Parte II?''. Parecia mesmo difícil se desvencilhar de todo o caos, ele seguiria a gente.
Agora estou aqui pra dizer que vou me apropriar completamente desse meme.

Quando eu estava chorando no meu quarto e me sentindo traída por Deus e a vida, uma parte de mim começou gradativamente a abraçar resignada e até com certo conforto a ideia de que um ano tão difícil quanto 2019 não poderia mesmo acabar bem pra mim, então aquele choro era mera questão de fazer com que a ordem do universo se mantivesse. Aquela bagunça toda tinha que ser coroada com a cereja de decepção final, era pra ser (digo isso num nível não metafísico, eu juro; Deus me livre).
Deixei o choro me lavar e fiquei muito triste, foi horrível, eu não queria, mas lá no profundo comecei a receber aquele momento e aquelas lágrimas como uma catarse final e necessária que de algum jeito talvez me limpasse de tudo e permitisse começar de novo imaculada.
Então eu vou me permitir pensar que aquelas primeiras horas de 2020 não foram um começo, e sim um prólogo de 2019, como no meme. Porque eu me recuso a não começar este ano bem. Eu quero ter uma folga. Eu quero a esperança de que vai dar certo. O meu começo vai ser outro.

*'*'*'*'*

Apesar de detestar todo o clima de fim de ano, eu sempre quis assistir ao show de fogos da virada no Gasômetro da Orla do Guaíba, talvez o principal ponto turístico de Porto Alegre, e nesse último réveillon a oportunidade surgiu com um grupo de conhecidos-barra-amigos-nem-sei-bem (estou numa escassez de amigos mesmo no momento, a maioria é mais gente com quem saio de vez em quando sem muita conexão).
Seria a primeira virada de ano sem a minha mãe, então eu tinha aquele sentimento vago de que era um momento meio importante, um ponto decisivo.
Meus três irmãos foram com amigos/as/namoradas à praia e eu e meu pai ficamos, então, apesar de termos uma relação ridícula e apática na maior parte do tempo e francamente péssima no resto, me senti na incumbência de garantir que ele não passasse sozinho ou triste o primeiro réveillon sem a mulher com quem dividiu mais de vinte anos de vida, e o chamei pra ir ao Gasômetro também, pois era muito importante pra mim que ele ficasse bem e tivesse um momento alegre. Mas como ele não gosta de muvuca sugeriu que na volta do Gasômetro, depois da virada e dos fogos, eu o ligasse para ele ir com a gente à casa onde íamos jantar. Fiquei meio mal, porque ele não passaria bem a virada conosco, só a noite depois dela, mas aceitei a sugestão, no que foi meu segundo erro (o primeiro foi aceitar ir ao Gasômetro com aquelas pessoas).

Eu vi os fogos e eles estavam lindos, bebi uma mistura de champanhe, energético e extrato de frutas a noite inteira que achei deliciosa, tirei muitas fotos que amei e até dancei na loucura que virou aquele lugar, uma rave gigantesca que estava longe de ser meu habitat.
Houve momentos bem desconfortáveis em que tentaram me forçar a fazer a pose certa para a foto, dançar com mais animação quando eu só queria me balançar de olhos fechados e outras coisas que não eram eu e fiquei me perguntando se não era errado estar ali com eles, se não tinha sido uma burrada. Mas no meio daquele festival de fogos, quando eu estava imersa no céu e me concentrava em me fundir com aquela explosão de cores inebriantes, parecia que as coisas iam dar certo, afinal.

Mas não deram.

Na última hora eles alteraram todos os planos finais e não teve a menor possibilidade de meu pai ficar com a gente, e ninguém pareceu se importar com a minha absoluta manifestação de frustração, desalento e desespero e fiquei com vontade de sair correndo, estapear todo mundo ou gritar, mas em vez disso comi salsichão com farofa numa casa estranha e lágrimas silenciosas nos olhos, porque o que eu mais temia naquela noite estava acontecendo.

Meu pai passou o primeiro réveillon sem minha mãe completamente sozinho em casa.

Quando me largaram em casa de madrugada ele já estava dormindo e eu fui pro meu quarto, sentei na cama vazia da minha irmã e chorei até não poder mais.
Aquilo começou como o choro pela solidão do meu pai, pela minha burrada, pela decepção com aquelas pessoas, pela aflição de encarar ele de manhã e ter que explicar como tudo deu errado, pelo desastre da virada... Mas depois virou um choro sobre tudo isso e sobre a perda da minha mãe, o fim de uma amizade, a degeneração da minha saúde, o surto depressivo que tive em dezembro, os fracassos, a estagnação, a vergonha e constrangimento por diversas exposições negativas e todo o festival de desastres que foi 2019.
Depois que os fogos morrem.
Este é o terceiro texto de retrospectiva que estou escrevendo pra esse ano que passou. Os outros dois estão nos rascunhos e já não servem mais. O primeiro é um caos absoluto, minhas ideias não concatenam, os parágrafos não têm coesão, está tudo uma bagunça. O segundo também deixou de ser o texto certo, mas ainda dá pra reciclar algumas coisas. A questão é que é perfeitamente natural que esse texto tão difícil só esteja saindo na terceira tentativa quando eu não sabia nem por onde começar e fiquei postergando a vinda aqui por estar com receio de desistir de desespero e confusão no meio das frases.
Eu só percebi por onde deveria puxar o fio desse novelo depois de chorar o suficiente na madrugada do dia 1/1/20.

Na retrospectiva de 2018 eu fazia alusão ao bujo poser no qual anotei tudo o que ocorreu de mais memorável no ano e incentivava o hábito de registrar a vida, porque faz bem, nos faz ver que vivemos mesmo quando tudo parece nebuloso. Agora me sinto meio uma fraude porque em 2019 eu abandonei o Caderno Amarelo Ridículo depois de tentativas anêmicas e cheguei aqui meio desnorteada e sem roteiro. Larguei o blog às traças por mais de meio ano e não me importei nem um pouco, se explodisse junto com toda a rede de computadores eu só encolheria os ombros.
Mas parar para escrever e registrar o cotidiano no meio da tormenta que foi 2019 parecia frívolo, absurdo, então eu lamento a falta, mas me perdoo sem hesitar.

2018 foi péssimo e escrever a retrospectiva dele foi um mergulho ora nauseante, ora catártico em tudo que houve de ruim. Foi um ano horrível, mesmo. Mas agora eu volto àquele texto e me ressinto, tenho inveja e sinto falta até de momentos ruins, porque eles eram o Antes, antes de tudo o que aconteceu em 2019, esse ano que virou um marco divisivo na minha vida pelos motivos mais tristes possíveis.
É de uma tristeza nostálgica voltar para aquela retrospectiva porque apesar de tudo gostei de escrevê-la, assumindo que o ano tinha sido terrível, mas concedendo a ele certa redenção, e agora esses sentimentos se distorcem em meio à dor que sinto toda vez que leio aquilo, o meu Antes, que faz com que o Depois que vivo agora me acerte com um contraste brutal.

Me ressinto e invejo a retrospectiva de um ano péssimo porque olhando daqui ele agora me trás saudades.

E eu que me gabo de não me obrigar a nada com esse blog, me obrigo sim a vir dar essa olhada em retrospecto todo fim de ano, pra que ele fique vivido, amarradinho e acabado de verdade. E como não tenho anotados em tópicos ordenados num caderninho cada acontecimento-chave, me resta pensar no que salta diante de mim quando evoco a lembrança de 2019: o que definiu esse ano?

Talvez fosse bom compartilhar com mais capricho as idas ao cinema (foram mais de cinco, o que pra mim é um recorde), as peregrinações por Porto Alegre (foi o ano em que mais explorei, com amigos, minha querida cidade natal, pela qual ando como uma turista deslumbrada), o amendoim japonês (meu favorito) no intervalo do serviço com o G., os porres que me fizeram dormir numa tampa de vaso só pra descobrir que no meio de um porre não há lugar mais confortável no mundo (noites de jogos com amigos do trabalho)(eu estava na mais profunda merda e não ligava pra mais nada; passei por mais porres do que consegui contar porque ficar semiconsciente e perder o controle já não parecia mais uma má ideia), a viagem de meio de ano a Gramado que me rendeu um amigo com quem jogar lol à distância (jogo com a Ahri, sou severamente ruim, conheci o menino num torneio de Magic The Gathering numa Friday, noite de jogos organizada pelo namorado da minha prima, e nada disso faz muito sentido), esses ou quaisquer outros detalhes mais memoráveis de 2019, não vou me alongar para além deste parágrafo, porque no fim das contas, quando a poeira baixa e a madrugada chega, esse ano não foi sobre isso.

Numa inversão meio triste do que fiz na retrospectiva do ano passado, vou dizer que 2019 pode ter tido coisinhas pequenas e lindinhas num dia aqui e outro ali, mas ele vai ser pra sempre o ano implacável que me tirou coisas infinitamente importantes e me deixou no deserto emocional, o ano tão cruel que faz com que eu olhe até pra 2018 com olhos nostálgicos e gentis, ou quase.

Pode ter tido água até a metade naquele recipiente, mas não dá pra enganar a convicção de que 2019 foi na verdade um copo meio vazio.

Na retrospectiva dela a Tati disse que em 2019 ''Teve coisa bacana? Teve, mas o que deu errado, p*ta merda irmãozinho.'', e é isso.

Teve cinema e Porto Alegre, mas 2019 foi o desconforto contínuo com a degeneração da minha saúde que me acompanhou durante todos esses momentos.

Teve viagens à praia e a Gramado, encontro com os primos, Friday e pessoas novas, mas 2019 foi o caos visto ao retornar pra casa, foram as lágrimas discretas na janela do ônibus.

Teve jogos online até tarde da noite à distância com o menino de Gramado, mas 2019 foi a consciência da minha carência.

Teve o melhor amigo que eu conheci e fiz, mas 2019 foi o ano em que eu no fim o perdi (tudo de ruim que poderia acontecer aconteceu e mesmo o que era bom acabou mal, eu havia escrito num dos outros rascunhos, gêmeo siamês deste texto que nunca vou publicar).

Teve 11 meses continuando apesar de tudo, mas 2019 foi a crise depressiva que tive em dezembro e que me fez desmaiar, parar em UPA e 24 Horas na mesma semana pra tomar soro e calmante, me afastar do emprego, encarar meus colegas com vergonha e surtar em público ao colapsar enfim depois de ficar razoavelmente estável até ali.

2019 poderia ter tido o paraíso, mas ainda assim seria e será para sempre o ano em que perdi minha mãe.
É ela que encontro depois de todas as esquinas em que meus pensamentos dobram e por isso ela está em cada parágrafo, cada espaço, cada ponto, cada pausa pra respirar em todas essas linhas. E por mais difícil que tenha sido esse ano, difícil também é me despedir dele, pois foi o último em que tive ela comigo fisicamente.


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Agora 2019 acabou e abandono enfim o meme do medo da eterna sequência enquanto sorrio tensa fingindo que esqueci que nesses vinte dias de 2020 nós já tivemos motivos pra criar memes de Terceira Guerra Mundial e o Brasil e o mundo já começaram desabando. Pretendo ir atrás do clichê do novo começo, aquele onde tenho o luxo da esperança de que ainda pode dar certo. Talvez. Tomara. Eu realmente não sei e tenho receio de me animar.

Quando meus irmãos chegaram da praia eu expliquei pra cada um quão desastrosos tinham acabado meus planos de réveillon com o pai. Tinha feito fiasco por whatsapp com a Taiane antes e ela rachou de dó. O Tiago ficou muito frustrado e reprovou todo mundo. O Teteu ficou pistola e disse que teria saído porta afora e voltado pra casa deixando todos pra trás, dane-se as boas maneiras e o salsichão com farofa, e tentei explicar por que não tive essa coragem, apesar de ter tido a mesma vontade. Concordei com todos eles.
Combinamos de ir ao Gasômetro numa tarde dessas com o pai. Não vai ter fogos, mas eu só quero que tenha sol.

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No fim de 2018 eu ganhei um pijama de cactos da minha mãe no natal, o nosso último, naturalmente, porque ela faleceu em julho de 2019. Eu vesti ele essa semana meio sem reparar mas depois fiquei olhando a estampa, pensando na coincidência curiosa.
Nesse primeiro natal sem ela, que eu pensei que seria mortificante mas acabou sendo surpreendentemente bom com a família enorme da minha cunhada, eu ganhei um cacto de verdade de uma das irmãs da Luana. Achei que não ganharia presentes porque a mãe era a única pessoa da família suficientemente boba, feliz e festiva, ridiculamente linda, pra adorar presentear as pessoas em todas as oportunidades possíveis, mas ganhei esse cacto, como os da estampa do pijama que ela me deu um ano antes.
Eu já havia matado uma suculenta que comprei na semana seguinte à morte dela, plantinha que eu chamei brincando meio sério de Suculenta da Renovação. Não quero ser piegas e forçar simbolismo aqui (Deus me livre de metafísica, etc etc), mas a verdade é que eu não estava mesmo pronta pra renovação nenhuma. Fazia só uma semana e eu nem sabia que ainda tinha uma crise tenebrosa pela frente.
Mas os cactos são sobreviventes no deserto, têm as folhas transformadas em espinhos pra preservar água e se proteger dos predadores e se adaptam a ambientes áridos trabalhando com pouco. Quer dizer, acho que ele vai sobreviver a mim.
Ainda não dei nome pra ele, mas sou ridícula demais pra não dar.
Durante o dia ele fica na janela da sala, minha preferida da casa, background de incontáveis fotografias, e à noite vai pra cima de uma máquina de costura antiga que faz parte de um cantinho nostálgico que montamos pra minha mãe em sua última internação, e que ela não teve a oportunidade de ver. Tem um retrato lindo dela pendurado na parede acima, e a plantinha fica bem embaixo. Todo dia eu tenho admirado a beleza do cacto na janela. Todo dia eu tenho chorado e sorrido com o quadro da minha mãe na parede.
2019 não foi um ano que pede bem uma retrospectiva com final otimista e animador. Nem quero dar isso a ele, de birra. Como eu disse, apesar de ter tido alguns detalhes bons, não é deles que eu vou lembrar daqui a trinta anos e esse vai ser pra sempre o ano em que coisas devastadoras aconteceram. Essa é sua essência, é a consciência que vai sobreviver às décadas: 2019 foi o ano em que aquilo aconteceu.

2019 será para sempre o ano em que perdi minha mãe.

Mas eu preciso encerrar esse texto de alguma forma. Sem risadas, em silêncio, mas com alguma esperança, eu acho. Então vou dizer que espero que meu cacto sobreviva ao que ainda está por vir, e eu também.

Feliz 2020.

07/11/2019

Só queria que você visse a minha touca nova.

Sabe quando você está apaixonado por alguém e faz tudo pensando nessa pessoa? Você compra uma roupa pensando em como essa pessoa vai te ver com ela; lê um livro pensando em como pode falar dele pra ela; ouve uma música pensando se ela gostaria dos mesmos acordes e o que sentiria com a melodia; senta na janela do ônibus pensando em como seria poder conversar com essa pessoa ali vendo a paisagem passar e o sol bater em vocês. Você faz as coisas mais mundanas querendo que essa pessoa estivesse te vendo, te assistindo, contigo, porque se ela te vê ela te nota, e se ela te nota talvez ela perceba que você é especial. Sabe?
Agora Essa Pessoa é minha mãe pra mim. Tudo que eu faço é pra ela.

Minha mãe morreu. Foram quase dois anos lutando contra um câncer agressivo demais, mal demais, cruel demais, ridículo demais e que me deixa com a certeza de que as coisas só são uma droga mesmo, é isto (ela, como todos os bons, detestaria que eu pensasse assim; mas ela também sempre era a única a me compreender todas as vezes).
Não é justo que ela morra. Não ela. Não porque era minha mãe, mas porque era ela, sabe? Ela, daquele jeitinho que não poderia acabar, não num mundo com tão pouca gente assim e nem em qualquer outro lugar.
Ela morreu, e desde então tem sido a pessoa pra quem eu faço tudo e que eu gostaria que estivesse do meu lado vendo cada coisinha, o café que eu fiz, a nova fofoca do trabalho, a touca que eu comprei.

Eu tinha um vestido favorito que era meu favorito porque era o vestido que eu idealizava vestir no meu primeiro encontro com o menino que eu gosto (gostava?). Ele caía bem em mim (o que é difícil, porque não sou tradicionalmente “curvada”), era de corte simples, como eu gosto, e preto, justinho e meio rodado ao mesmo tempo. A existência desse vestido servia ao propósito único de ser o vestido no qual eu queria que ele, esse menino, essa paixão, me visse. Era um pedaço de pano qualquer que não teria valor algum pra mim se olhado de uma perspectiva em que esse menino não existisse. Porque o vestido era pra ele, porque eu me arrumaria pra ele, porque era ele que eu queria que me visse naquele vestido, e não qualquer outro, ele e ninguém mais, o resto não importava e faria o vestido perder sua razão de ser.
Agora tudo que eu faço é como esse vestido, só que para a minha mãe, e assim como nunca tive esse primeiro encontro e minha irmã pulverizou a peça antes que eu pudesse vesti-la, minha mãe não está mais aqui pra ver nada disso. Tudo perde sua razão de ser, quando só é pra ela, que agora partiu.
Por que eu usaria o vestido se aquele menino nem fala mais comigo? Por que querer ser qualquer coisa mais se a mãe não vai estar aqui pra ver e se orgulhar das minhas conquistas e de quem me tornei?

Eu fui ao centro para uma consulta esses dias (escrevi isso em julho, quando o mundo tinha acabado de virar essa porcaria irremediável) e depois de sair da clínica e parar no ponto de ônibus eu pensei que talvez fosse bom ficar um pouco mais por lá antes de vir pra casa. Ver algumas pessoas, caminhar, sentir a brisa, me distrair (já venho fracassando nisso há quase quatro meses, agora). Acabei comprando uma touca, daquelas que vêm com um pompom no topo e te fazem parecer um Zé Gotinha com problemas degenerativos. Nunca usei essas toucas porque sempre que colocava uma e me olhava no espelho, pensava “você parece um Zé Gotinha com problemas degenerativos, Carolina”, mas na semana depois da morte da sua mãe você não está exatamente ligando pra estética, então fiquei 30 reais mais pobre.
Coloquei a touca numa sacola dentro da bolsa e fui a uma loja onde eu tinha visto um blusão de menino. Eu amo blusões de menino, daquele tipo enorme e pesado (sempre visualizo eles listrados, especificamente com as listras vermelhas e pretas do blusão do Freddy Krueger ???) que você só joga por cima de tudo e tá pronta pra vida.
Quando entrei no provador, vesti o blusão (o meu, já adquirido, é com listras pretas e cinzas, que eu prefiro, porque o neutro/básico me ganha primeiro), coloquei a touca e me olhei no espelho aquela saudade me assaltou e aqueles pensamentos de pessoa apaixonada vieram de novo, quando eu percebi que eu tinha amado aquele blusão e aquela touca, mas não fazia mais sentido comprá-los e ir pra casa com eles se eu não podia mais mostrá-los pra ela, a pessoa por quem sou apaixonada, a minha mãe, essa que eu queria que estivesse me assistindo.

Eu acordo e penso que queria que ela visse esse café que montei em cima do nosso fogão a lenha. Saio pra caminhar e penso que é pra ela que eu deveria poder voltar e dizer que o sol está lindo. Faço carinho no gato Gato e lembro de como ele gostava de sentar em cima das pernas dela na cama e tenho vontade de dizer pra ela que olha, ele tá aqui comigo agora, escolheu a mim, nanananá.

Eu releio esse texto agora, em novembro, meses depois do rascunho original, e choro, porque ela continua ausente.

É tudo pra ela. O amor da minha vida foi tirado de mim e sou abrigada a continuar vivendo aqui pra ele, mas sem ele, porque viver pra mim ou qualquer outra pessoa não faz sentido nenhum.
É como viver fazendo um filme que eu sei que a única pessoa que eu quero que assista nunca vai poder olhar. É como escrever um livro pra alguém que eu sei que nunca o lerá. É como tocar uma música pra alguém que eu sei que nunca a ouvirá. É despropositado, não faz sentido, é ridículo e vazio.

O mundo não faz sentido nenhum agora que eu não posso te mostrar como eu pareço um Zé Gotinha com problemas degenerativos com minha touca nova, mãe.