31/01/2019

Retrospectiva Literária 2018

Chegou o post sobre a única coisa que prestou em 2018: livros lidos.
Brincadeirinha. Os filmes e séries também foram bons.
Foram 50 livros (mesmíssima quantidade do ano passado, risos nervosos porque suspeito ser o TOC) e 16.453 páginas lidos no ano, com uma média de 329 páginas por livro e 45 páginas por dia (obrigada, skoob).
Listadinhos aqui:
Ruas Estranhas (vários autores), O Mundo Pós-Aniversário (Lionel Shriver), Malala - A Menina Que Queria Ir Para A Escola (Adriana Carranca), Dom Quixote (volumes I e II, Miguel de Cervantes), Convite Para Um Homicídio, Assassinato no Expresso Oriente, E Não Sobrou Nenhum E Outras Peças, Um Brinde de Cianureto (Agatha Christie), Garota Exemplar (Gillian Flynn), O Processo (Kafka), Memória de Minhas Putas Tristes (Gabriel García Márquez), Cartas a Um Jovem Cientista (Edward O. Wilson), A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, História de Quem Foge e de Quem Fica, História da Menina Perdida (Elena Ferrante), Albert Einstein (Fiona Mcdonald), O Conto da Ilha Desconhecida (Saramago), O Castelo (Kafka), Mansfield Park (Jane Austen), A Outra Volta do Parafuso (Henry James), Isaac Newton (Michael White), Métrica, Pausa, Essa Garota (Colleen Hoover), Achados e Perdidos, Mr. Mercedes, O Último Turno (Trilogia Bill Hodges), O Iluminado, Sobre a Escrita, Revival, Joyland, A Incendiária, Cujo (Stephen King), Um Dia (David Nicholls), Elogio da Loucura (Erasmo), A Vida Financeira dos Poetas (Jess Walter), O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu (Oliver Sacks), Minha Querida Sputnik (Murakami), Extraordinário (R. J. Palacio), O Desaparecimento de Katharina Linden (Helen Grant), A Cidade Murada (Ryan Graudin), O Livro Selvagem (Juan Villoro), Toda Poesia (Paulo Leminski), Amor à Moda Antiga (Carpinejar), A Sangue Frio (Truman Capote), Eleanor e Park (Rainbow Rowell), Assim Foi Auschwitz (Primo Levi), A Sentinela (Lya Luft) 

Livros escritos por mulheres (algumas autoras repetem): 21
Livros escritos por homens (alguns repetem também): 29

Livros nacionais: 4 (what a shame).

Maior livro: Dom Quixote, 1328 páginas em dois volumes.
Menor livro: Albert Einstein, 64 páginas.

Autores/as revelação favoritos/as: Elena Ferrante, David Nicholls, Jess Walter, Oliver Sacks, Leminski, Truman Capote, Rainbow Rowell, Primo Levi.

Autor que mais li: Stephen King, nove livros lidos.

Livros que mais me fizeram sentir/refletir: O Mundo Pós-Aniversário, Garota Exemplar, O Processo, Tetralogia Napolitana, Um Dia, O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu, Sobre a Escrita, Toda Poesia, Amor À Moda Antiga, Assim Foi Auschwitz, A Sentinela.

Sofrer: O Mundo Pós-Aniversário, Tetralogia Napolitana, Um Dia.

Rir: Dom Quixote, Sobre a Escrita, A Vida Financeira dos Poetas, Toda Poesia, Amor À Moda Antiga.

Capas favoritas: A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome, Um Dia (é amorzinho e brega, mas me deixa), Sobre a Escrita, Minha Querida Sputnik, A Cidade Murada (simples de longe, complexa quando se olha perto, perfeita para o livro), Toda Poesia (o bigodinho do Paulitcho na capa é um charme) e Eleanor e Park. Adendo: a edição (capa, contracapa, páginas, letra, gravuras etc) integral mais fofa de todas foi a de Amor À Moda Antiga. <3

Melhor saga: Tetralogia Napolitana. Não sei nem como falar da perfeição dessa COISA.

Personagens que mais gostei: Dom Quixote e Sancho Pança (Dom Quixote AH, JURA?), Amy Dunne (Garota Exemplar)(pois é), Lenu e Lila (Tetralogia Napolitana), Matt Prior (A Vida Financeira dos Poetas), Andy McGee e Charlie (A Incendiária), Eleanor (Eleanor e Park).

Personagens que viraram crush: Zeroooo (pelo menos não que eu consiga lembrar, e se não consigo lembrar é porque não foi importante o suficiente e se o tempo pode afastar a gente é porque o nosso amor é fraco demais etc, vlw flw #Anira). I'm a winner.

As leituras mais memoráveis e que mais recomendo: O Mundo Pós-Aniversário (Lionel Shriver), Garota Exemplar (Gillian Flynn), Cartas a Um Jovem Cientista (Edward O. Wilson), Tetralogia Napolitana (Elena Ferrante), Um Dia (David Nicholls), O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu (Oliver Sacks), Sobre a Escrita, O Iluminado, A Incendiária (Stephen King), A Cidade Murada (Ryan Graudin), Toda Poesia (Paulo Leminski), A Sangue Frio (Truman Capote), A Vida Financeira dos Poetas (Jess Wlater), Amor À Moda Antiga (Carpinejar), Eleanor e Park (Rainbow Rowell).

Não gostei tanto/detestei: O Castelo (Kafka), Cujo (Stephen King), Mansfield Park (Jane Austen), Métrica, Pausa, Essa Garota (Coleenn Hoover)(essa última trilogia é PÉSSIMA).

E, por fim e mais importante, as melhores leituras do ano (com link para as resenhas que escrevi):

O Mundo Pós-Aniversário - Lionel Shriver
Shriver é impecável. É o segundo livro que leio dela e o segundo que me desgraça. Nessa história ela divide a vida de Irina, a protagonista, em duas ramificações diferentes, uma para cada "realidade paralela" resultante de decisões distintas suas a partir do momento em que ela beija/não beija um homem que não é seu marido. Os capítulos se intercalam e neles são abordadas as cadeias de acontecimentos que se seguem após cada decisão, em duas linhas temporais diferentes.
O fantástico do livro é poder explorar o "e se" que permanece oculto na vida real quando declinamos de uma decisão ou outra. Nunca saberemos o que aconteceria "se tivéssemos feito isso em vez daquilo" em nossa realidade, mas o livro nos permite visualizar esse campo oculto e devanear através de Irina.
Ele é muito bom mesmo, nos faz refletir demais. Virou um favorito da vida e me deixou completamente arrasada, como é o jeito Shriver.

Garota Exemplar - Gillian Flynn
Esse livro teve o maior blow mind do meu ano literário. Nele conhecemos Amy e Nick, um casal que parecia perfeito protagonista de uma história de amor idealizada até que Amy some deixando pra trás muito sangue e Nick passa a ser o principal suspeito do desaparecimento da esposa a cada novo avanço das investigações que não cessam de apontá-lo como culpado.
O livro tem um plot twist insano que traz consigo a principal reflexão que a autora quer nos levar a fazer, sobre estereótipos a respeito de uma minoria eternamente subestimada na sociedade.
O livro é tão maravilhoso e louco ao mesmo tempo que eu ficava simultaneamente ansiosa e com medo de lê-lo, porque sabia que a cada página lida eu me aproximava de uma bomba que estouraria na minha cara a qualquer momento - e ela estourou mesmo e fez estrago, porque foi um dos livros que mais me desestabilizaram emocionalmente.
Preciso achar mais de Gillian Flynn por aí, urgentemente.

Já essa leitura foi a mais viciante do ano.
São pouco mais de 1700 páginas que eu li em vinte e poucos dias só porque estive no trabalho por nove horas diárias durante o período. Eu engoli a tetralogia como uma esfomeada, e foi insano. Nada que eu disser aqui será suficiente pra expressar o quanto esses quatro livros mexeram comigo.
Nessa saga conhecemos Lenu e Lila, eternas amigas e rivais que competem tacitamente entre si pra ver quem é a mais genial e excepcional, uma à sombra da outra.
Esse é o núcleo narrativo da trama, mas Ferrante abre espaço pra diversas outras abordagens a respeito da existência feminina, desigualdade e conflitos de gênero com os quais toda mulher que não viveu os últimos dez anos numa caverna consegue se identificar com força.
O primeiro volume leva "genial" no nome, mas esse é um termo que podemos usar pra descrever toda a série. Ferrante e sua tetralogia são geniais e impecáveis. Me desgraçaram emocionalmente de maneiras inenarráveis.
Dizer que eu recomendo é pouco. Eu os enfiaria por sua goela abaixo se fosse possível e dane-se o seu direito de escolha.

Aaahhh, esse livro. Nele conhecemos Emma e Dexter, dois amigos que se conheceram no dia da formatura na faculdade e que constroem uma amizade cheia de significado que dura décadas. Só que por trás da amizade deles há um apelo romântico que cutuca os dois e que eles gostam de ignorar. Acompanhamos eles sempre nos dias 15 de julho durante vinte anos até o desfecho de seu relacionamento, um final de rachar a cara e o coração da gente e que carrega muito significado, reflexões e sentimentos infindáveis consigo.
É um best seller porque é bom pra caramba e contém tudo o que há de melhor na literatura inútil: uma escrita fluidíssima que a gente nem vê passar, personagens cativantes e um enredo que nos prende.
Eu fiquei total e completamente bugada da cabeça com esse livro, como digo na resenha. Não sabia o que fazer da vida ao término da leitura e fiquei encarando a última página em catatonia.
Acho que é antes um livro sobre tempo do que sobre amor, mas é sem dúvida um livro sobre o amor no tempo.
Vá ler já, é um queridinho da literatura contemporânea que eu só não tô planejando reler logo porque não tô pronta pra montanha russa de sentimentos tão cedo. 

Antes de ser um neurologista maravilhoso, Sacks é um ser humano maravilhoso, e nesse livro ele faz uma coletânea com relatos de várias experiências que teve com diferentes casos e pacientes, vitimados por disfunções neurais bizarríssimas e extraordinárias. Há um homem que literalmente confunde a cabeça da esposa com um chapéu graças a uma agnosia visual, só pra citar o exemplo do título.
Ele é maravilhoso pra quem se interessa por medicina e/ou pelos intrincados mistérios da mente humana. Mas seu alcance vai muito além disso porque Sacks é uma criatura ímpar e admirável, uma pessoa sensível, bondosa, inteligente e gentil como poucas são, que gosta de transitar entre as essências da vida antes de se preocupar com seu sentido, e isso permeia toda a obra.
É um livro que apesar de provavelmente não funcionar com todos, deve pelo menos ser recomendado a todos se houver alguma justiça no mundo, porque nos faz pensar sobre o quanto nossa mente é fantástica - às vezes de um jeito ruim, mas sempre de um jeito memorável.
Sacks é um tiozinho com o qual eu gostaria de tomar um café enquanto conversamos sobre os fascínios da existência.
Esse livro é uma espécie de semibiografia disfarçada de manual da escrita (ou seria o contrário?) que o King escreveu. Embora ele seja repleto de dicas sobre como escrever bem, o que mais pesou pra mim foram os momentos em que o autor abriu a porteira da própria vida e nos falou sobre si mesmo, seu passado e presente, seus sentimentos, pensamentos, tormentos e tudo o que formou o escritor que conhecemos hoje.
Ele é especialmente legal por mesclar esses dois gêneros porque assim vemos as convergências entre a vida e a obra de um escritor, e o quanto uma influencia e codepende da outra.
Ele é feito pra quem é apaixonado pela escrita ou é fã do Stephen. Se você se encaixa nas duas categorias, como eu, é leitura obrigatória.
Além de tudo, é divertidíssimo, e o bom humor sempre merecerá uma recomendação aqui.

Toda Poesia - Paulo Leminski (*Ainda pretendo escrever uma resenha e linkar aqui.*)
2018, o ano em que ocorreu o antes impensável: um livro de poesia entrou para a lista dos meus favoritos da vida.
Eu sempre senti que havia o impeditivo dos supostos formalismo e cultualidade que cercam as obras pra que eu genuinamente aproveitasse a poesia, mas Leminski, esse gênio zueiro, quebrou esse gelo pra mim esse ano.
Ele escreve poesias marginais que não se preocupam com as regrinhas e detalhes tradicionalmente impostos ao gênero, e isso me encheu de amor porque ele rima e faz versos muito cotidianos, bonitos e singelos que falam demais com a simplicidade do dia a dia.
Eu fiquei total e completamente encantada com o livro. Eu lia sorrindo boba e correndo entre as páginas querendo sair pulando de alegria com ele no colo.
Esse livro foi muito especial porque além de ser o primeiro livro de poesia que favorito na minha vida de já 20 anos, ele me fez sentir um gosto que eu não conhecia antes ao fazer essas leituras e me deixou com VONTADE de ler poesia, o que também não me era familiar, apesar de eu já ter flertado um pouquinho com outras obras.
Ao término da leitura, eu logo embarquei de cara em outros livros de poesia e foi como se um outro universo, pelo qual eu sempre passava mas ao qual nunca atentava, se descortinasse à minha frente.
Toda Poesia foi um livro que me mudou como leitora, e por isso ele merece todas as menções que eu puder fazer. Tenho certeza de que será um favorito absoluto até o fim dos meus dias.

Encerro essa retrospectiva com Uma Citação Pra Guardar No Coração (foram muitas, dificílimo escolher, fui quase no uni duni tê, a breguisse do tópico é muito real e necessária):

''-Os livros são insistentes. Por isso se tornam clássicos.''
-O Livro Selvagem, Juan Villoro

Um bom 2019 em leituras pra todos nós, se o apocalipse não chegar logo. :)

31/12/2018

2018, O Ano e o Caderno Amarelo Ridículo

Desde que larguei os diários tradicionais ainda na infância, 2018 foi o primeiro ano em que me propus a fazer algo que foi bem significativo para mim: anotar os acontecimentos da minha vida. As coisas grandes e pequenas, qualquer atividade que fosse além de ficar deitada olhando pro teto, sabe?
Tenho um pouco de A Louca dos Caderninhos, então catei um caderno de 48 páginas da Foroni (quando eu não tiver que traficar uma criança pra comprar um Moleskine...) na pilha, com capa dura amarela (uma cor que eu detesto), e fiz umas colagens ridículas na tentativa de emprestar um pouco de personalidade ao pobre, assim como um super-ultra-mega-desenho na contracapa. Colagens e desenhos dos quais, no fim, acabei me orgulhando um pouquinho, admito.
Cada mês era encabeçado por seu nome numa cor viva, anotações de acontecimentos ordinários ou não do dia a dia em linhas breves e objetivas em caneta preta ou azul, e os títulos dos livros lidos, filmes e séries assistidos na mesma cor do mês, se é que essa anatomia interessa a alguém. Um bullet journal poser, porque eu me recuso a ter um autêntico.
Meu ano inteiro coube em metade de um caderno de 48 folhas. 365 dias lá dentro, na frente e no verso de míseras 24 páginas do livrinho da minha vida anual.
Parece quase absurdo. Parece que eu de fato só fiquei deitada olhando pro teto durante esse tempo todo.
Mas não foi pra dizer isso ou externalizar essa percepção dúbia que eu vim aqui, muito pelo contrário. Vim aqui pra dizer que tô impressionada com o quanto eu vivi, agora que posso folhear esses acontecimentos em minhas mãos, aqui, agora, e ver a materialização palpável do que o tempo me fez e permitiu passar.
Saí de anos que me deixaram com a sensação de que nada tinha acontecido. O que eu mais queria que tivesse acontecido em 2018, a única coisa que eu sei que vai me permitir dizer ''AGORA FOI'' e concluir o ciclo de maneira satisfatória, não se concretizou mais uma vez (por culpa minha). Mas outras coisas aconteceram, sim, muitas, e nem isso eu posso falar dos anos passados mais recentemente.
Esse ano tenho bastante coisa pra somar, e devo muito disso a não ter me limitado aos registros do twitter e instagram (já que tenho usado o facebook estritamente pra brigar com minions) e ter tornado a coisa mais pessoal e íntima com O Caderno Antes Amarelo Agora Ridículo.
Anotar é bom, nos permite colocar as coisas em perspectiva. Mas antes disso, o ato de anotar, escrever, registrar, serve para mim como um refúgio para as memórias, e eu prezo muito por elas. Lembrar, para mim, é de suma importância.
Agora, se me permite, esse texto vai ser uma daquelas retrospetivas bem vergonhosas em que eu falo um monte de coisas sobre a minha vida que não interessa a mais ninguém. Vai ser bem longo. É um texto escrito unicamente para mim e que não se preocupa com a atenção de mais ninguém (esse ''ninguém'' inclui você, desculpa, mas não vou reclamar da companhia). Inteiramente, mas não exclusivamente, destinado à Carolina do futuro (certamente já e enfim uma grande gostosa). Mas como eu disse, é preciso lembrar, e para o seu azar eu tenho um blog - que para a minha incompreensão você lê (obrigada pela consideração, por sinal).
Spoiler: eu não aguentei firme.
Comecei o ano assistindo a High School Musical 3 com minha irmã. ?¿?¿? 
No dia 1 fomos a um parque aquático e fui barrada num tobogã adulto por não ter peso suficiente. Eu não sabia na época, mas essa foi uma ótima metáfora para todo o 2018.
Assisti a 76 filmes e 13 séries. Li 50 livros.
No início do ano fui às minhas primeiras entrevistas patéticas de emprego da vida, que não deram em nada porque, naqueles termos, eu só começaria a receber depois de vender um imóvel. :)
Acho que nunca recebemos tantas visitas queridas em casa. Revemos pessoas muito importantes e amorzires (primos catarinenses que não víamos há quase uma década e que trouxeram queijo caseiro da roça do amor, por exemplo) que vieram nos apoiar, consolar, amar e ajudar por causa do estado crítico da saúde da minha mãe (descobrimos que ela tem câncer em novembro do ano passado).
Esse foi o ano em que minha mãe, inclusive, cortou o cabelo curtinho pela primeira vez desde que a conheço, para se preparar para as seções de quimioterapia. Ficou lindis. Tietei horrores.
Desenvolvi uma dor crônica no abdômen que o único médico que ousou dar um palpite suspeitou ser puro resultado do estresse. Só que a desgraça é tão desgracenta que eu tô com dificuldade de acreditar que isso é SÓ estresse, então embarquei numa maratona de exames feitos durante o ano todo na tentativa de descobrir a joça. Até agora, depois de uma colonoscopia, uma endoscopia e uma ecografia, nada (mas ainda tem tomografia pra fazer e exame de sangue pro médico examinar, ânimo!). Estou na situação horrível em que você faz exames com a esperança de ENCONTRAR PROBLEMAS, porque viver no escuro da dúvida e ignorância tem sido bem pior.
A alergia bisonha que tenho desde o ano passado ainda não teve sua causa e resolução confirmadas também.
Estreitamos os laços com Os Primos, nossos primos de Gramado com quem ficamos por tempos sem desenvolver grandes ligações, primeiro passando uma tarde com eles COMENDO MUITO numa praça de alimentação em Novo Hamburgo, depois passando um feriadão na casa deles em Gramado, o Condado dos Hobbits brasileiro, num tempo ocupado com mais comilança, maratona de filmes, passeios maravilhosos e muitos jogos, e, por fim, numa visita rápida no fim do ano, com mais jogos, porque nada nos segura. Foi lindo. Triste sair dessa bolha de alegria pra voltar ao Brasil 2018.
Meu pai caiu de um telhado enquanto trabalhava. No chão, achou que não era nada. Pulso torcido, costelas quebradas e perfuração no pulmão. Noite em claro na emergência do hospital de Gravataí como acompanhante lendo Dom Quixote. Vi uma pessoa morrer.
Fui ao aniversário de uma vizinha idosa com minha mãe para tomar chá e conversar sobre dietas equilibradas. Amei cada segundo.
Então eu passei num concurso público no qual caí de paraquedas por ação do meu pai e consegui meu Primeiro Emprego Oficial da Vida, como agente de apoio em educação especial numa escola municipal da cidade que fica a vinte minutos andando da minha casa. Fico dentro da sala de aula com um aluno com necessidades especiais, motoras ou cognitivas, ajudando no necessário. Nove horas por dia engolidas pra pagar contas, zero tempo livre etc. A velha história da vida adulta. Mas não sou mais UM FARDO em casa e nem faço parte da parcela de desempregados, então sou grata, claro.
Passei em psicologia mas não cursei.
Aprendi a jogar poker. Surrei muita gente no poker. Amo poker.
Descobri a Biblioteca Municipal da Cidade pela segunda vez (a primeira foi numa visita brevíssima com minha mãe, num tempo muito, muito distante, quando a família tava descobrindo que ''eu gostava de ler''), me cadastrei, li livros ÓTIMOS do acervo e passei bons momentos lá.
A mãe teve uma crise horrível e ficou internada na emergência com uma infecção que impossibilitou o início das quimios e passamos a páscoa sem ela. Visitei. A insanidade das emergências...
Tive uma aula particular de como trocar uma bolsa de colostomia com uma enfermeira responsável pela mãe.
Meu pai teve um nervous breakdown na frente das visitas.
Nossa casa começou a ruir.
Tive minhas primeiras correrias da vida adulta atrás de documentações por manhãs, tardes e dias inteiros e coisas do tipo. Cancela a vida adulta.
Fomos a um restaurante no dia das mães depois de anos sem saber o que era estar num restaurante. Deu PT.
Tive uma crise no consultório de um médico gastro queridíssimo porque achava que tava com câncer (a dor crônica já insuportável...) e precisava convencê-lo a me dar aval pra fazer um exame bem complicadinho. Ele foi compreensivo. Chorei na sala de recuperação depois do exame quando descobri que não tinha câncer e ainda sob efeito da anestesia, com um pedaço de bolacha de água e sal caindo pateticamente da minha boca amortecida e uma enfermeira dizendo pra eu parar de pensar coisas bobas. :)
Pausa no trabalho por causa da greve dos caminhoneiros. Inclusive, meu Deus, o que foi a greve dos caminhoneiros?
Fui ao cinema duas vezes, assistir animações com minha mãe e irmã e depois com um aluno.
Finalmente comprei um notebook, meu maior sonho de consumo desde os 13.
Acompanhei a copa em telões no trabalho, com alunos e colegas, e quase infartei no nosso último jogo (que pirra foi aquela).
Joguei boliche pela primeira vez na vida. Surrei todo mundo no boliche. Amo boliche.
Fiquei encarregada de uma barraca de pescaria numa festa junina e torrei ao sol com um chapéu de palha um sábado inteiro, porque trabalhar em escola é isso.
Férias de meio de ano. Um dia inteiro de formação para o trabalho no meio das férias.
Passei várias tardes no hospital com minha mãe, em consultas e exames ao longo de todo o dia. Numa dessas, demos uma espiada na faculdade de medicina da federal daqui. A minha segunda visita lá. Criança em fábrica de brinquedos.
Tive uma crise horrível que durou uns três meses. Mesmo. Dum tipo que me fez ficar encolhida no banheiro do trabalho em pânico e dando voltas desconexas na quadra no meu intervalo ao meio-dia. Ficava quase catatônica. Minha mãe me fez voltar pros remédios dos quais eu nem deveria ter saído.
Fui a um lindíssimo recital de formatura de uma amiga música.
Fui ao oculista e troquei de óculos depois de 3 anos (o Ministério da Saúde adverte), rerere. Meu primeiro com aro grosso. Me sinto uma nova pessoa desde então.
Minha tia teve um derrame então minhas primas (filhas dela) do Canada vieram correndo pra cá depois de três anos e acabamos passando um tempo muito bom juntas, apesar de tudo, e houve um encontrão lindo também com os primos de Gramado.
Lu, nova cunhada na família. Gosto dela, GRAÇASADEUS.
Fiz um tratamento dentário que durou metade do ano. Viva o convênio.
Tomei banho de chuva depois de pegar um ônibus errado e voltei rindo pra casa. Tomei outro banho de chuva meses depois porque isso simplesmente está O inferno, dane-se.
Comprei uma Hematita, minha pedra preferida, de um desses vendedores de miçanga hippies (sem julgamentos) e depois de termos uma conversa bem legal ele me deu uma Ametista ''de brinde''. Gastei dez reais em pedras com outro vendedor no mesmo ponto meses depois. Conversa igualmente agradável e queridire.
Andei de cavalo num passeio a um CTG com uma aluna.
Fui ao Morro da Borússia pela segunda vez na vida, dessa vez com meus irmãos e cunhada num dia chuvoso e nublado que só nos permitiu ficar encolhidos dentro do carro ou olhando pra uma muralha de nuvens quando nos aventurávamos fora dele. Não me arrependo. Nuvens são lindas.
Organizei brechós e ri com roupas jurássicas no trabalho.
Acompanhando uma aluna, acabei sendo adotada por um grupo de teatro de escola que foi uma das coisas mais fofas do meu ano. Uns adolescentes com pouquíssima afinidade entre si unidos (chocante, eu sei) toda semana pra ensaiar peças. Saímos juntos, fui a ensaios, passei vergonha com eles e ajudei em apresentações. Fiz amiguinhos. Guardo no coração.
A mãe teve a pior crise até agora, desde a primeira que nos permitiu descobrir o câncer. Baixou no hospital. Os médicos nos disseram que é terminal. Choro em casa. Choro no trabalho na sala do meu chefe, na fila do refeitório no meio dos alunos esperando pra pegar feijoada. Choro no hospital. Crise no saguão, abraços tristes com os irmãos, cunhadas...
Semanas no hospital. Meio que me designei/aram a acompanhante oficial da família. Peguei licença do trabalho pra ficar com ela. Passamos noites conversando, passeamos pelos andares, visitamos janelas, tentamos ver um nascer do sol que saiu nublado, até tiramos fotos. Almocei e jantei wafers e Doritos, tentei me entender com a poltrona-cama, parasitei os estudantes de medicina e a equipe, explorei os andares, peregrinei pelos arredores do hospital quando ela tinha visitas a receber, li no saguão e embaixo das árvores do pátio quando precisava de uma folga... Até que ela voltou pra casa. No fim, foi um tempo que eu precisava ter vivido. Nós duas.
As eleições presidenciais, cara. Consegui ficar sussa até boa parte do tempo, mas depois comecei a brigar com minions no facebook e a coisa virou uma bola de neve VALE TUDO. Meus contatos são 80% bolsonires. Foi um esculacho sem fim, porque era chutar uma moita que saíam vinte. Apesar de detestar PT com todas as minhas forças, sou oficialmente a ESQUERDOPATA COMUNISTA PETISTA QUE QUER KIT GAY E MAMADEIRA DE PIROCA EM ESCOLA MACONHA VIVA A BANDIDAGEM do rolê. Eu juro que não é vitimismo ou exagero quando digo que as pessoas estão me olhando torto, me tripudiando, evitando (muito obrigada a elas, né) e tenho CERTEZA que já fui centro de diversas rodas de chacota. Estou tentando cortar contato com essa gente, porque não faz bem. Essa desgraça conseguiu a FAÇANHA de me desgastar quase tanto quanto a situação da mãe, então cê veja. Mas continuo brigando com minions, porque eles merecem encarar a cagada que fizeram em cada segundo do resto de suas vidas uma vez jogada a merda no ventilador, que diferença faz sambar em cima dela?
Mãe ficou internada na emergência por sete dias novamente, mas voltou pra casa e tem estado estável e passado bem desde então. O ''estar bem'' é um conceito que é ressignificado quando se tem um ente querido numa situação tão crítica quanto essa, em acepções que só a família consegue entender. Ela não está bem, mas está bem.
Fiquei tão desgraçada da cabeça nessa reta final que abandonei o blog.
Confraternizações maravilhosas com os profes no dia do professor. Presentinhos, comida, conversas e risos.
Festa surpresa pro meu irmão mais velho.
Confraternização final com os agentes de apoio da cidade. Montei um domo geodésico (nunca nem vi) de durex e canudos com três desconhecidos completos. Parecíamos melhores amigos depois dos primeiros cinco minutos.
Dia das crianças na escola. Deixei elas pintarem meus cabelos e mãos/braços. Servi de tela humana para flores e borboletas.
Fui beijada de surpresa pela primeira vez na vida. Pedi um beijo pela primeira vez na vidaSaí na correria pra encontrar o cara no meu intervalo de meio-dia no trabalho e poder beijar mais dias depois.
Enem. Chateada com a prova de humanas. Meio pistola com o tema da redação. Meus mais sinceros vá se ferrar.
Assisti ao meu primeiro concerto de orquestra sinfônica da vida, na OSPA. Me emocionei. É fantástico, mágico, uma viagem a outro mundo. Impossível descrever com justiça, então paro por aqui. Mas digo que é quase experiência OBRIGATÓRIA pra qualquer ser humano que queira morrer tendo vivido. Melhor ainda quando é de graça. ;)
Esbarrei com uma ex-colega no centro, a Rafa. Semanas depois, ela me chamou no face e perguntou se eu não queria ir à feira do livro de POA. Fomos e foi maravilhoso. Comprei seis livros incríveis, perneamos até cansar, comemos, andamos mais, dei dinheiro a um estátua humana magnífico, ouvi parte de uma palestra sobre intercâmbio no Japão, voltei podre e feliz carregando duas sacolas de livros + bolsa pra cidade.
Desde então, passei trocentos fins de semanas na casa da Rafa maratonando filmes durante doze horas diárias e me abastecendo com os cup cakes caseiros dela. A new old friendship is reborn.
Formação final do trabalho num sítio lindo. Todos os profes juntos. Foi maravilhoso. É incrível, mas eu gosto daquelas pessoas.
Joguei neve de isopor na apresentação de natal das crianças no encerramento do ano num calor de sensação térmica de 45°C. Minhas colegas disseram que queriam ter gravado.
Fui a um passeio de fim de ano num parque enorme com uma aluna. Teria sido ótimo se eu não tivesse que vigiar suas obsessão psicótica com o crush.
Tive cinco alunos fixos no ano. Diversas complicações e até pau rolou (levei soco, chinelada, tapas e até tive chumaços de cabelo arrancados por aluno, migues). Não acredito no meu cargo e nem no sistema de inclusão nas escolas. Ele não funciona. Mas não há outra alternativa além de permanecer lá.
Fiz amigos no trabalho. Mesmo. Daquele tipo que você chama pra sair do nada. Tenho um ''grupo''. Não sou uma pessoa que tem grupo, deve ser a primeira vez. Eles são lindos. É engraçado fazer parte disso. Saímos juntos no último dia de trabalho ao shopping pra comer uma torre de batatas com carne e queijo e milkshake e falar sobre relacionamentos. É engraçado ''fazer parte de um grupo'' e por algum motivo minha cabeça nos chama de ''grupo secreto do trabalho'' sempre que nos evoco. Gosto de nós. A sensação de pertencimento é bem vinda.
Houve uma enorme festa surpresa de aniversário pra minha mãe, que amigos organizaram antes de nós. 50 anos. O primeiro desde a descoberta da doença. Uma celebração à vida. Ela ficou felicíssima. Esquecemos nossa tia em casa.
Saí pra beber (com uma amiga do grupo secreto) pela primeira vez na vida, em um pub muito aconchegante da cidade. Fiquei bêbada pela primeira vez na vida.
Natal com família e cunhada. Pijama com cactos e chinelo floral de presente. Obrigada, mãe.
Aliás, obrigada, obrigada, obrigada, mãe.
Hoje, no último dia do ano, colhi uvas da nossa parreira com meu pai (como se tivéssemos esse tipo de *momento*) e efetivamente chorei por causa do país pela primeira vez.
2018 foi um ano que se destacou especialmente por causa do trabalho, das eleições e da condição da minha mãe. Um ano marcado pela escola, pela histeria coletiva e por hospitais. Esses são os cenários que mais visualizo ao olhar em retrospecto. 
Primeira vez na vida que tenho 8 horas diárias ocupadas e fico 9 fora de casa sendo obrigada a lidar com pessoas, conversar, socializar, conviver, etc. Foi uma experiência e tanto que rendeu alguns conflitos (fui chamada três vezes pelos meus chefes pra ser perguntada se estava ''tudo bem, você não gosta daqui, tá mal, por que não se abre mais com o pessoal?'' porque eu simplesmente não tenho as mesmas social skills do resto das pessoas lá, e depois de uma contrariedade inicial eu agora acho engraçado). 
Foi também o ano em que mais estive em hospitais em intervalos tanto espaçados quanto ininterruptos, desde a minha longínqua ''infância em hospitais'' (longa história; úlcera maldita).
Foi o primeiro ano em que surtei a céu aberto na frente de TODO o meu ciclo social (obrigada, facebook), depois de uma vida no escuro nesse ciclo (sou uma pessoa introvertida), por causa de machismo, racismo, homofobia, totalitarismo e a realidade surreal, a distopia da vida real que estamos vivendo.
Essas três coisas construíram e significaram demais meu ano. Eu vi muito em 2018, mais do que a maioria das pessoas do meu lifestyle, sabe. Mais do que em qualquer ano anterior.
2018 foi um ano péssimo. Teve minha mãe doente, teve certezas de morte. Teve o dia inteiro engolido por uma rotina que eu sei que não quero pra mim e que é ponte pra um lugar ao qual não quero ir, mas ao qual sigo porque as contas precisam ser pagas. Teve Bolsonaro, e que aberração, que merda, que grande piroka voadora do mal aterrissando em todos nós é o Bolsonaro. Me teve sendo a pária esquerdopata num circo de rixa de um núcleo social no qual meu projeto de integração já era mais que patético. Teve minha dor crônica aumentando cada vez mais até que eu estivesse assim, me arrastando como se tivesse 479 anos, passando os dias com uma incerteza crua e indo dormir me perguntando se estou morrendo (é sério, e é uma droga).
2018 foi péssimo, mas sabe, foi. Foi algo, não foi um borrão, e isso é mais do que posso dizer de 2017, 2016...
Desde que saí do ensino médio e não embarquei direto no curso que quero na faculdade (apesar de ter me inscrito em outros pra entrar em crise e desistir na semana seguinte, porque this is me), minha vida foi um grande buraco negro - e esse termo vai além das crises emocionas e psicológicas (que meio que não foram poucas) e abarca uma rotina diária vazia mesmo. Quase nada aconteceu nesse período.
Ou pelo menos é isso que parece, olhando em retrospecto.
Não anotei uma linha desses meus anos, só olhei pro teto. Eu não sei se não vivi mesmo ou se é o que parece agora que a lembrança se foi.
Então esse ano fiz diferente, fiz questão de deixar meus passos gravados em linhas escritas. E olha, ainda bem que fiz isso, porque depois de tanta doença, dor e morte, depois de Bolsoliro e rechaçamento, depois de dias chorando no cubículo que é o banheiro dos professores por causa do trabalho e de tudo o que ele representa pra mim agora, se eu não tivesse anotado sobre as coisas pequenas, sobre o teatro com a Amanda, sobre os jogos com os primos, sobre o nascer do sol na janela do hospital com minha mãe, sobre esbarrar com a Rafa no centro, sobre voltar pra casa rindo depois de um ônibus errado e um banho de chuva, sobre conversar com um cara das pedras sobre signos para os quais eu não dou a mínima mas sobre os quais eu gostei de ouvir só porque saíam da boca daquela pessoa tão tranquila, plena e em paz, sobre o queijo caseiro típico de roça, sobre o aniversário da dona Filomena, sobre sorrir vendo meu aluno pobríssimo alegre em sua segunda vez no cinema, sobre a neve-isopor e o cabelo colorido por crianças, sobre o grupo secreto... Bom, se eu não tivesse escrito naquele caderninho sobre todas essas coisas pequeninhas, elas certamente seriam soterradas embaixo de toda a desgraça conjunta que foi esse ano horrível e cairiam no mesmo esquecimento destinado às possíveis coisinhas boas e pequenas dos anos anteriores, que eu já nem sei mais se existiram.
Então, se eu posso deixar uma mensagem do meu 2018 pro 2019 de alguém, ela é: escreva, anote, registre, guarde suas memórias. Tenha um Caderno Amarelo Ridículo... Ou um caderno rosa, preto, verde, Romero Brito, petit poá e paetê (só torço o nariz pra estampa de oncinha), o que for. Tenha um blog, caramba! Sei lá. Mas faça questão de guardar suas memórias, mesmo as mais bobas e tolas. Elas podem te salvar.
Feliz 2019 pra nós. Que o meteoro que a humanidade merece que caia na Terra chegue logo, já que o de 2012 ficou só na promessa. :)

(Caraca, preciso transformar isso num tweet.)

27/11/2018

Joyland

Do Stephen King
Devin Jones é um cara no meio da graduação em letras que depois de uma desilusão amorosa embarca num trabalho de verão no parque de diversões interiorano Joyland, na Carolina do Norte, um daqueles lugares pitorescos, cheios de tradições próprias, figuras caricatas e visitantes caipiras. Estando lá justamente com a esperança de esquecer a ex, logo uma outra mulher de fato toma conta de seus pensamentos: Linda Grey, que foi assassinada por um serial killer no trem fantasma do parque, passando a assombrá-lo desde então, segundo a lenda.
Devin começa a ficar obcecado por esse crime, e logo ele alonga sua estada na esperança de descobrir a identidade indecifrável do assassino e libertar o espírito de Linda Grey, contando com a inusitada ajuda de Mike, um garotinho muito adoentado com dons mediúnicos incríveis, e a companhia errática da mãe do menino, Annie. E assim ele vive o ano e o verão mais maravilhoso e terrível de sua vida.
Esse livro me proporcionou uma leitura doce, apesar de sua premissa sombria, porque aqui ocorreu um dos meus fenômenos favoritos com livros do King: uma conexão pura e bonita com os personagens, que me conquistaram como só as melhores pessoas conseguem. Devin, Mike e Annie são muito cativantes e singelos, e é difícil não se deixar envolver por seus sentimentos como se eles fossem pessoas reais do nosso lado, passando por todos aqueles tormentos que merecem nossa plena atenção e que despertam em nós o companheirismo sentido apenas com personagens bem construídos e queridos.
Ele também é cheio daqueles trechos sensíveis e delicados que nos fazem ficar pensando nas singularidades da vida com um sorriso bobo e feliz no rosto, sabe?
Gosto de livros que me fazem sentir, e com Joyland eu senti toda a apreensão e insegurança de Devin diante de um crime tenebroso, relacionamentos incertos e uma juventude que chega ao fim; senti toda a tristeza e desespero de Annie vendo seu filho definhar diante de seus olhos sem nada que ela pudesse fazer; senti toda a alegria pueril de Mike olhando a pipa-Cristo voar pelos ares, dando ao vento a capacidade momentânea de levar embora toda a doença e dor, em sua felicidade inocente.
Nesse livro existe um espírito perturbado que assombra o parque, um assassinato macabro cometido por um serial killer que ainda está à solta e um mistério que permanece insolucionado; mas no fim, apesar de todos esses aspectos tétricos, Joyland é mais um livro sobre a pureza de sentimentos que afloram onde menos esperamos do que qualquer outra coisa. Desse modo, todo o sinistro se torna um pano de fundo bem encaixado que não rouba a notoriedade das questões existenciais.
É um livro sobre amizade, juventude, amor, companheirismo, solidão, tristeza... E esperança, também, já que ela insiste.
E sobre finais, porque, para o bem ou para o mal, eles sempre chegam - mesmo fora de histórias com páginas numeradas.
Joyland é curtíssimo, uma leitura pra dois ou três dias que você nem vê passar. Extremamente fluído e fácil de acompanhar, é uma boa porta de entrada para os livros do autor - embora eu ainda não tenha descoberto um que ganhe de Carrie nesse quesito, em minha opinião. Não é o melhor livro que já li do Stephen King, mas foi o melhor a ser lido nesse momento, por mim.
E como ele é pequeníssimo (240 páginas) e termina num piscar de olhos, vou imitar o autor, fazendo um favor a quem lê, e cortar a prolixidade encerrando a resenha por aqui, te deixando ir logo atrás do livro depois dessa minha devida recomendação. ;)

''O fim do meu primeiro amor não chega nem perto da morte de um velho amigo e do luto por outra, mas seguiu o mesmo padrão. Exatamente o mesmo. E, se pareceu o fim do mundo para mim - causando primeiro aqueles pensamentos suicidas (por mais bobos e desanimados que tenham sido) e depois uma mudança sísmica no curso antes inquestionável da minha vida -, você precisa entender que eu não tinha uma escala pela qual medir. Isso se chama ser jovem.''