30/11/2017

Mescelânea - Novembro 2017

O mês livrístico e cinematográfico até que rendeu... pena que a vida insiste em não seguir o mesmo ritmo. Mas vamos lá.
Lidos
Da annyamarttinen (de novo)
Foram seis livros lidos em novembro (esse número se repetiu bastante nos últimos meses, coincidentemente): 1Q84 - volumes 2 e 3 (Haruki Murakami), Múltipla Escolha (Lya Luft), O Amor Começa no Inverno (Simon Van Booy), Mar Inquieto (Yukio Mishima) e Charles Darwin - Personagens que mudaram o mundo (Anna Sproule).
Terminei os dois últimos livros da trilogia 1Q84, que já resenhei aqui, e repito: leiam. É bizarrinha de um jeito ótimo e virou uma favorita, apesar dos pesares.
O Amor Começa no Inverno é uma coletânea de contos desse autor que eu não conhecia, Simon Van Booy, e achei o livro lindo demais pra não escrever detalhadamente sobre, numa resenha já pronta que vai sair daqui a pouco. Por hora, fica mais essa recomendação histérica: LEIAM.
Sobre os que não resenhei/não vou resenhar:
Múltipla Escolha é mais um daqueles livros da Lya em que ela fala diretamente com o leitor, como numa crônica estendida. Nesse ela desconstrói algumas convenções e pensamentos enraizados que limitam e alienam as pessoas.
Quando leio e penso na Lya Luft, imagino uma mulher que viveu muito, observou muito e aprendeu muito, e que, depois de toda a sabedoria adquirida, se senta numa cadeira vendo o mundo acontecer e escreve aos seus leitores tudo o que aprendeu sobre a vida, na esperança de tentar mudar pra melhor o universo de cada um. Tive o mesmo sentimento com esse livro. Recomendo muito, claro.
Mar Inquieto eu peguei porque tava a fim de ler mais um livro de autor(a) japonês(a) e esse pareceu bonitinho (julguei pela capa e pela fonte oriental fofinha do título, não nego). Li a sinopse que diz ser sobre um garoto pescador numa ilha reclusa que conhece e se apaixona por uma forasteira que chegou lá há pouco e pensei que seria um livro sensível, bonito, delicado... Mas foi bem mééh, insípido, tedioso e sem graça.
Sabe aquele GIF do John Travolta em Pulp Fiction, um baita meme, em que ele fica procurando alguma coisa enquanto gesticula confuso? Foi assim que fiquei ao fim desse livro, tentando entender por que ele foi escrito.
Se existe um motivo pra vir aqui falar de livros que me deixaram completamente indiferente, é poder advertir quem está me acompanhando aqui (tem alguém aí?) de que a leitura não vale a pena - mesmo que o escritor tenha cometido suicídio ritual ao término de sua última obra, e desgraças naturalmente atraiam a curiosidade alheia...
Não recomendo.
A biografia do Charles Darwin é de uma série sobre a qual já comentei na mescelânea passada. As edições são muito boas, com uma linguagem simples, várias imagens e informações passadas através de tópicos curtos (mas suficientemente elucidativos), já que, como descobri quando folhei todos os volumes que tenho, cada um tem exatamente 60 paginas (+ notinhas).
O legal dessas biografias é que a imagem intocável dessas grandes personalidades é desconstruída um pouquinho quando a gente descobre que elas eram gente como a gente: que Darwin colocava a cama dos filhos dentro do escritório em que trabalhava quando eles estavam doentes, pra ficar sempre próximo a eles (own); que ele pedia pra que eles observassem e perseguissem (haha) as abelhas e insetos do pátio, pra ajudar na pesquisa dele, e que ele deitava no meio da grama sob a sombra das árvores quando a família ficava no jardim à tarde, pra ficar em contato com a natureza que ele admirava tanto. ;) Sabe, esses detalhes que a gente não imagina que também existiram na vida dO Grande e Admirável Darwin.
Recomendo bastante a série (editora Globo).
Assistidos
Foram três filmes vistos e quatro temporadas de uma série maratonadas esse mês.

Capitão Phillips
Minha cunhada organizou uma festa surpresa modesta (só família) pro meu irmão na casa dela, e depois de nos empanturrarmos, eu, ela e ele assistimos a esse filme na netflix.
É baseado na história real de um capitão (eu me sinto muito em Piratas do Caribe falando "capitão", altas emoções) de um navio cargueiro que atravessava uma região marítima do continente africano famosa por sofrer saques de piratas. E os piratas vêm mesmo, tentam ferrar tudo, tocam o terror na tripulação com metralhadoras e ameaças, e o capitão, como responsável supremo pela embarcação, tem que tentar manejar a situação e manter a tripulação em segurança, pondo-se em perigo por ela sempre que preciso.
Se me dissessem que as duas horas de filme se passariam apenas dentro de um navio e de um submarino, eu poderia ficar meio desanimada pela perspectiva de imobilidade (o submarino é MINÚSCULO e a câmera fica cerca de uma hora inteira só dentro dele), mas em nenhum momento o filme fica arrastado ou ruim por conta disso; muito pelo contrário, a perícia com que as cenas são dirigidas faz com que não nos entediemos em nenhum momento, apesar do cenário limitado, e cada minuto de filme é um ataque cardíaco diferente. Incrível.
Tom Hanks (que homem) está sendo Tom Hanks (assim mesmo, como um elogio - porque é mesmo) o tempo inteiro e entrega uma atuação de deixar a gente com vontade de abraçar o cara e agradecer por ele ter nascido, porque que atorzão da por**.
Umas curiosidades sobre esse filme: o roteiro da cena em que os piratas invadem o navio não foi inteiramente passado ao Hanks, então ele acabou improvisando mesmo, com uma surpresa real e sincera a cada movimento ameaçador dos saqueadores. Um brinde ao realismo pelo qual o diretor zelou na hora de filmar essa pérola.
Outra curiosidade é que boa parte (senão todos, não sei) dos atores escalados para os papéis de pirata eram completos amadores e reais moradores daquelas regiões miseráveis retratadas, treinados só pra fazer o filme, seu único trabalho no cinema (sim, eu acompanho uns canais de cinema pra saber dessas coisitas).
Ambas as decisões da equipe de direção do filme renderam ótimos frutos e tenho que recomendá-lo aqui, porque OLHA: ÓTIMO. VEJA AGORA SOB PENA DE [insira aqui seu maior medo].

Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade
Eu, o Mateus e a Taiane (meus irmãos) vimos numa noite de sábado, na Globo (porque TV aberta é a única opção aqui). Os dois tavam se rendendo ao sono e pensando em abandonar a sessão, mas ao passo que o filme ia se desenvolvendo eles iam se ajeitando no sofá, e ficamos vidrados até a madrugada (são duas horas de filme, mais ou menos).
Morgan Freeman (esse homi <3) em Invictus sempre será meu Mandela favorito (depois do próprio Mandela, claro), e no início foi um pouco difícil me acostumar com o Idris Elba no papel, mas depois a coisa fluiu.
Era uma dor atrás da outra atingindo o coração da gente, sentados nos sofá e vendo as injustiças terríveis que fizeram pra coibir a luta por igualdade do cara, especialmente quando ele esteve por mais de 20 anos (!) na prisão. Eu e o Mateus víamos as cenas (extremamente incômodas) praguejando e falando como, se fosse conosco, íamos matar todo mundo bem lentamente e tacar fogo na por** toda assim que tivéssemos a chance. Sabe quando você pensa "aaaahhh, não, mas se encostarem nele e fizerem alguma coisa contra ele mais uma vez eu invado essa TV de merda, espanco todo mundo e toco o terror em tudo!!!"? A gente fica o filme inteiro assim.
Então, por nos projetarmos no lugar dele e naquela situação, fica mais incrível ainda ver o pacifista que Mandela foi, saindo de lá pregando a paz e sem instigar a comunidade negra (insatisfeita e querendo justiça, óbvio) a estripar os coleguinhas racistas que vissem pela frente.
O filme acaba quando ele é eleito, mas a gente passa por muito drama, choro, sofrimento e raiva até lá. Mas já recomendo (de novo) Invictus, cuja narrativa se desenvolve a partir do momento em que ele recém começa a exercer o cargo (também tem muito drama, choro e raiva depois disso, fica a certeza de que o ser humano é mesmo uma bela bosta o aviso), quase como uma continuação.
Mandela: o maior homão da por** entre todos os homões da por** que já existiram.

Amor à Toda Prova
Que nome porcaria deram no Brasil, hein. Crazy, Stupid, Love é bem melhor.
Esse filme é velhinho, até, mas eu ainda não tinha visto em nenhuma das TROLHOCENTAS vezes que passou na globo.
É um daqueles filmes que desenvolve a trama de vários personagens diferentes, até que a gente descubra como elas se conectam (e eu ADOREI esse spoiler final; a zorra que rola no fim é bem o tipo de baderna que me faz feliz no sofá da minha casa #imatura).
Tem um cara (Steve Carell <3) traído pela esposa, depois de anos de casamento, que fica na fossa até virar projeto de um gostosão (Ryan Gosling) que quer ensinar ele a "despertar a própria masculinidade" (pfvr) pegando todas por aí (bem estereotipado, eu sei); tem a garota (Emma Stone <3) recém aprovada no teste de direito que se joga na cama (ou tenta) com o gostosão depois de uma desilusão amorosa; tem o filho do cara quadradão que é apaixonado pela própria babá, que por sua vez é apaixonada pelo pai dele (#a#vida#é#uma#merda); tem a mulher (Julianne Moore <3) que pediu o divórcio do caretão e tem suas próprias desilusões e motivos, e por aí vai. Uma salada de frutas bem divertida com um final digno de circo.
Foi uma das melhores comédias que vi no ano (vocês já perceberam como é difícil achar comédias boas?). Me proporcionou risadas necessárias depois de uma semana péssima e eu recomendo demais pra quem quiser fugir da vida com uma produção engraçada e despretensiosa, a nível comfort movie total. Tem todas aquelas piadas e momentos constrangedores de vergonha alheia que me confortam com a certeza de que #Não #Estou #Sozinha #Nessa.
E tem esse elenco querido pra somar pontos também, né (eu já falei que adoro a Julianne Moore?, mas repito: adoro a Julianne Moore)(e plmdds, os olhos da Emma Stone são maravilhosos)(Steve Carell me faz rir sem fazer nada, basta ele aparecer na tela que eu já tô morrendo engasgada no meu próprio riso, É UM DOM)(o Ryan Gosling tem cara de bebê demais pra que eu consiga me sentir fisicamente atraída, desculpa).

Downton Abbey
Vi as quatro primeiras temporadas (são 6) de Downton Abbey esse mês. Comecei a ver porque me pareceu bonitinha mesmo, queria uma série querida na qual me aconchegar.
É sobre uma família aristocrata inglesa do início do seculo XX que mora num casarão e controla toda uma vila, naturalmente enfrentando alguns perrengues por conta disso (a filha que não arranja casamento e não pode herdar a propriedade, a produção agrícola que tá capenga e pode falir a família, as tramoias pra prejudicar toda a política de Downton, estratagemas armados pra ferrar pessoinhas etc). Mas a série não foca só na família e divide espaço com toda a criadagem que trabalha na mansão, e nesse segundo plano também vemos muitos conflitos.
Pra mim o encanto de toda a produção é esse: ver duas classes de pessoas tão distantes, hierarquicamente falando, mas que, no fim, têm tantos problemas naturais à vida em comum. A filha riquíssima acaba, muitas vezes, sendo tão triste quanto o mais humilde dos lacaios - e as duas tristezas são reais e válidas.
Eu demorei pra me envolver, e só acabei maratonando depois da segunda temporada, quando a série me pegou de vez com uns dramas mais pesados (eu gosto de sofrer com filmes, séries e livros mesmo, não tem jeito) - porque as primeiras duas eu vi me arrastando, sem conseguir me interessar pelo conflito inicial de problemas com alianças matrimoniais, herança, sucessão etc.
Os cenários são incríveis de lindos e toda a estética (figurinos, locações, fotografia e tudo mais) é bem construída e encantadora.
Depois de uma reação inicial meio insípida, a série tem me conquistado, viciado e aconchegado cada vez mais. Tô gostando bastante.
É um tanto engraçado pra mim assistir porque SE-NHOR, eu não saberia viver num tempo em que as pessoas recebiam ajuda de empregados(as) até pra vestir e tirar roupas ao acordar/antes de dormir, sem conseguir piscar os olhos sozinhas, porque pelamor, que aflição, que agonia.
Recomendo muito e ela ainda vai aparecer mais por aqui - mas advirto que a terceira temporada provavelmente vai destroçar o seu coração lindamente. :)

Links, LINKS EVERYWHERE

-A Lolla (hellololla) tá postando um apanhado de links legais no blog dela toda sexta (ou quase) e os dois próximos foram descaradamente tirados desse post (eu quero comer todas aquelas suculentas unicornianas do arco-íris encantado):

-Please Don't Tell Me I'm Beautiful; texto bem sensível e tocante sobre não se ver, não ser vista e não se sentir bonita (além de não ser tratada como tal), e, paralelamente, ter que tentar lidar com elogios esporádicos que não conseguem enganar/anular esse sentimento contínuo e atemporal.
Deixemos de lado o papinho "o importante é você se achar bonita, beleza vem de dentro, tenha uma boa autoestima blablabla", por favor, obrigada.

-Uma fotógrafa ficou quatro anos acompanhando os bastidores da produção de filmes pornôs e fez um ensaio sobre isso, além de dividir esse relato, que eu achei um tanto interessante.

-The Opposite of Loneliness: esse discurso de formatura lindo que resume todo o meu sentimento nostálgico com o tempo de escola, escrito por Marina Keegan, formanda da classe de jornalismo de Yale em 2012, que morreu num acidente de carro poucos dias depois da formatura. #Crying

-11 Last known pictures of our beloved celebrities; artigo do 9gag (AMO ESSE SAITE) com título auto explicativo. (Nunca vou superar a morte do Steve Jobs - muito menos a do Robin Williams.)

-Hoje eu fui violentada; texto no medium sobre a aprovação da pec 181 que proíbe o aborto em casos de estupro e RISCO À VIDA DA GESTANTE. Quem chamaram pra votar? DEZOITO homens (a favor) e apenas UMA mulher (contra) - não sou a favor da legalização do aborto em TODOS os casos (pois é, que louco, me julgue), mas SENHOR, dar voz a uma cambada de homens num assunto que diz respeito às mulheres e cujas consequências cairão, acima de tudo, sobre elas me indigna em níveis que a ciência não explica (e nos dois casos mencionados sou a favor da legalização porque ÓÓÓÓÓÓÓÓBVIOOOOOOOOOOO, só pra constar e pra não ter que levar o rage esperado na cara).
The Handmaid's Tale é mais real do que a gente imagina.

-Texto ótimo sobre a Mary Maravilhosa Shelley, que inventou a ficção científica com Frankenstein e provou pra sempre (embora o pessoal goste de esquecer) que esse tipo de história não é só ''coisa de menino''.

-Vídeo da Carol Moreira com curiosidades sobre Breaking Bad, depois de 10 anos da estréia da série, porque aparentemente eu não falei dela o suficiente aqui. (Eu CASO com quem comprar o livro da DarkSideBooks pra mim.)

-Entrevista engraçadinha com parte do elenco infantil de Stranger Things no The Tonight Show, falando da cena do beijo entre Mike e Eleven.
O que me encanta nessa série (além das bizarrices, claro) é ver crianças sendo crianças, e isso elas fazem de novo nesse vídeo: "Kissing Sucks!!!" #QueroAdotarTodas

-Lugares de fala e lugares de escuta na publicidade; texto na Revista TRENDR sobre a necessidade de encarar a publicidade de maneira responsável e consciente, admitindo o peso que ela tem na hora de representar classes/grupos e ditar comportamentos.

-Texto da Aline Velek sobre produzir conteúdo pra internet (ou fora dela) e a recorrente sensação de que você não tem público (#eu) e está sozinho dando gritos inauditos no meio do deserto (altas analogias).

-Jon Bon Jovi cantando Hallelujah no Madison Square Garden me faz ter vontade de chorar porque esse homi momento é claramente a coisa mais linda que a humanidade presenciou em seus milhares de anos de existência e isso é o mais próximo que a gente pode ter do famigerado céu na Terra.
NÃO. SEI. LIDAR. COM. ESSA. CENA.
Esse ser deve ser o único homem com mais de quarenta anos que me deixa babando VOCÊ NÃO LEU ISSO, MÃE.

-Texto da Fernanda (uma das editoras do Valkirias; amo a escrita dessa mulher) na Revista Pólen sobre uma HQ com a biografia da Anne Frank e sobre como é importante não esquecermos dos terrores do nazismo e do mal que ele representou, que muitas vezes perdura.

-Texto bonito, também na Pólen, sobre família. Minha família é bem diferente dessa (sadly) e leio esse tipo de coisa como uma testemunha distante e exclusa, mas não deixo de admirar e achar bonitinho.
E como eu nunca sei como terminar e me despedir nesses textos, fique com essa foto (uma das minhas favoritas) do Snoopy, meu cachorro de outrora (ele sumiu esse ano, nunca mais voltou e eu ainda não superei isso também, tal qual a morte do ícone Robin Williams) te encarando com cara de WTF.
Ele não era perfeito? Era. <3 /// Até! (Vou ali chorar no cantinho...)

26/11/2017

1Q84 - Trilogia

Do Haruki Murakami
Eu amo trilogias. Porque elas são compridas o suficiente para que a paixão do leitor pelos personagens, ambiente e história possa se estender para além de um único volume, durando mais, e porque elas são suficientemente curtas para limitar a possibilidade de se perderem no meio do caminho, virando enrolação nas mãos de um escritor que pode se deixar levar pela perspectiva de lucro ascendente e decida prolongá-las ad infinitum, até que ninguém aguente mais. Pra mim, trilogias são a medida certa para séries – livrísticas e cinematográficas (o que não quer dizer que eu necessariamente desgoste de sagas que vão além desse número, claro).
Quando vi os três livrinhos de 1Q84 posicionados lado a lado na estante da biblioteca, compondo um retrato coeso de tons harmônicos com as cores das capas que falam entre si, meu primeiro pensamento foi ‘’êêêê, uma trilogia!”, e logo levei os três pra casa dentro da bolsa, tudo no mesmo dia - aqueles trambolhos que juntos totalizavam 1280 páginas. Se é pra carregar peso, que seja em livros. 
Valeu a pena.
Os três volumes são de uma linguagem bem simples e direta, mas ainda assim encantadora e envolvente; na verdade, a simplicidade dela é o que faz muitos atribuírem essas duas características aos escritos de Murakami. Não foi diferente comigo: a narrativa me envolveu do início ao fim das mais de mil páginas, sem que eu conseguisse largá-las.
Temos dois protagonistas nessa história, com capítulos que se intercalam e cuja ligação só vamos descobrindo aos poucos: Aomame, uma profissional de educação física que trabalha dando aulas de exercício numa academia, e nas horas vagas olha só que divertido mata abusadores de mulheres (com a ajuda de uma senhora, pra quem ela dá aulas particulares, que administra um abrigo para mulheres vítimas de abuso e que dá o nome de cada alvo masculino a Aomame) com uma técnica especial que ela, profunda conhecedora do corpo humano, desenvolveu pra não deixar rastros; e temos Tengo, um professor de matemática que leva uma vida pacata, reclusa e desinteressante, e que é escritor nas horas vagas.
Os dois estão levando suas vidas cotidianamente (o cotidiano de Tengo é fazer cálculos e escrever, o de Aomame é matar pessoinhas), até que coisas estranhas acontecem, levando-os, quase sem que percebam, a um outro mundo, uma realidade paralela em que tudo parece exatamente igual mas as diferenças vão se revelando aos poucos e sutilmente, na forma de notícias e leis que mudam, por exemplo - num mundo o uniforme dos policiais é de um jeito e as armas são pistolas, no outro o uniforme muda e as armas são automáticas; num mundo determinado atentado ocorreu, dizimou tantas pessoas e saiu nos jornais, no outro, nunca se ouviu falar -, de modo que a percepção de troca de realidade não se dá de forma automática, e sim gradativa (ambos demoram um tempo considerável pra perceber que algo mudou).
A única característica gritante (que ainda assim demora a ser percebida) que delata essa troca de ‘’dimensão’’ é a aparição de uma segunda lua, menor e esverdeada, no céu. O mundo 1Q84 tem duas luas, mas só os protagonistas parecem atentar a esse fenômeno.
Aomame chega a essa realidade paralela quando pega uma escada secreta de emergência, no meio de uma avenida, para fugir do congestionamento e não se atrasar para um compromisso (uma execução), e Tengo parece migrar pra esse mundo depois que se envolve, como ghost writer, na publicação de um livro misterioso, A Crisálida de Ar, escrito originalmente por uma mais misteriosa (e peculiar) ainda garota de 17 anos, Fukaeri, cujo enredo se desenvolve num mundo que também tem duas luas – e muitas outras bizarrices mais, que aos poucos vão saindo das páginas de A Crisálida de Ar e se transportam à realidade dos nossos dois protagonistas.
Como o ano em que tudo acontece é 1984 (sim, há referências à obra de George Orwell), Aomame denomina essa realidade paralela de 1Q84, com ‘’q’’ de ‘’question’’ – porque questões (para nós e para os personagens) são o que não falta.
Nessa segunda realidade, os personagens de súbito se vêem envolvidos num conflito de vida ou morte com uma seita religiosa misteriosa, com domínios numa montanha reclusa próxima a Tóquio e cujos propósitos são desconhecidos, mas visivelmente malignos. Ao passo que esse antagonismo perigoso vai se desenvolvendo, a peculiar ligação entre Tengo e Aomame vai sendo revelada ao leitor. Tudo, não vamos esquecer, nesse mundo paralelo onde existem crisálidas de ar, um Povo Pequenino, maza e dotha, duas luas no céu, suspeitas de conspiração, Tengo e Amomame sem respostas, Fukaeri parecendo conhecer todas as respostas mas estranhamente indiferente a elas, uma realidade que parece seguir os contornos de uma obra fictícia, forças ocultas que se contrapõe e determinam o equilíbrio do universo e mistérios pra todo lado.
E é mais ou menos isso que a gente sabe. Se parece que as informações ficaram vagas e confusas demais, é essa a impressão que eu quero que você tenha, porque com esse propósito a narrativa é construída: 1Q84 é mistério do início ao fim. Os três volumes nos deixam com uma enxurrada de dúvidas, perguntas, questões, hipóteses e mistério, mistério, mistério. O livro inteiro nos envolve em especulações e é até surpreendente (parando pra pensar agora que já concluí a leitura) ver como, sem sanar quase nenhuma dúvida, Murakami conseguiu me prender até a conclusão. Lembro de estar na primeira centena de páginas do primeiro livro, com a maior cara de QQQQ e cheia de dúvidas, e olhar pras páginas finais pensando quando eu chegar aí já terei muitos questionamentos respondidos... Aí terminei o primeiro livro, comecei o segundo, terminei o segundo, comecei o terceiro e já tava no fim dele com a mesma cara de ?¿?¿?¿ do início.
Eu amo mistérios e a presença deles não me desencoraja a embarcar numa leitura, mas devo considerar o que, para muitos, pode ser encarado como um defeito ou buraco na narrativa: muitas dessas dúvidas que mencionei permanecem sem serem sanadas, em aberto, o que nos deixa com uma leve impressão de inconclusividade. Tá, mas onde foi parar tal personagem? E qual era o propósito daquelas pessoas? E o significado e origem de blablabla? Qual será o desfecho desse ponto da narrativa?, etc e tal. Vários mistérios permanecem insolucionados e isso pode ser frustrante pra muitos leitores, justificadamente. Mas ainda não sei se pertenço à parcela de insatisfeitos, porque embora eu queira muitas respostas, consigo conviver razoavelmente bem com a ideia de que 1Q84 foi escrito para deixar pontas soltas num mar de mistério que permite continuidade - nos pensamentos e especulações pessoais de cada um, porque a trilogia foi encerrada e ponto.
Ainda assim, ficaram muitas questões em aberto para que eu pudesse ignorar isso e excluir da resenha, e preciso considerar, sim, como uma falta porque ao embarcar no universo cheio de promessas construído por um escritor, sempre esperamos poder entender ou absorver o melhor possível toda aquela realidade subjetiva que nos é apresentada, e ao fim de 1Q84 esse processo não se completa de maneira satisfatória.
Mas, ainda assim, o romance é muito envolvente e a possibilidade de imersão que ele nos oferece me conquistou completamente e eu me esbaldei com ela, escalando a trilogia à minha lista de favoritos da vida.
A história é bastante excêntrica e atípica, fazendo com que a tarefa de tentar sintetizá-la se torne um tanto dificultosa, e isso também me cativou bastante.
Os personagens também me deixaram muito apaixonadinha: amei Aomame, amei Tengo e amei Fukaeri, demais.
Porém, ao contrário do que li em algumas resenhas internet afora, 1Q84 não é, para mim, impecável - embora isso não diminua meu favoritismo.
O livro tem várias cenas de cunho sexual e isso por si não é problema; muito pelo contrário, se numa trilogia de mais de mil páginas, com dois jovens protagonistas (geralmente sexualmente ativos), esse tema tão fundamental não fosse abordado em nenhum momento, aí sim seria estranho. Mas as primeiras cenas descritivas da vida sexual da Aomame (abordada sem pudores e com naturalidade, o que acho ótimo) me pareceram meio artificiais; me parece que naquele princípio (nos dois livros subsequentes não percebi isso) o autor não soube retratar com propriedade como funciona a cabeça de uma mulher em determinada situação. Mas essa foi uma percepção bem íntima e não me surpreenderia se mais ninguém tivesse sentido o mesmo. 
Outro probleminha foi a pseudo sexualização meio awkward (você vai ter que ler os livros pra entender essa) da Fukaeri, uma adolescente de 17 anos, retratada, em dado momento, como a típica garotinha pura (embora não fosse virgem), angelical, novinha, delicada, sem pêlos pubianos e extremamente atraente, que chega a transar com um cara mais velho de uma forma meio ritualística. Todo o caráter meio mitológico da trama, com seus elementos sobrenaturais, nos leva a justificar a cena como nada mais que um ritual necessário para o desenvolvimento da história, no fundo, despido de grandes apelos sexuais ("nem foi sexo de verdade"), mas é preciso reconhecer que essa é uma representação muito perigosa.
Também torci um pouco o nariz pra maneira com que uma personagem feminina vive muito em função da expectativa de reencontrar um personagem masculino com quem ela teve um contato ínfimo no passado. Esse sentimento é recíproco por parte do homem, mas não parece ser em mesma intensidade. Me pareceu inverossímil demais essa ligação aparentemente TÃO significativa e fundamental pra vida da moça, meio no estilo idealização do príncipe encantado, sabe? Ainda bem que existe certa mutualidade, porque do contrário seria reduzir muito e pra nada o valor individual da personagem. Enfim.
Essas questões à parte, Murakami nos oferece um universo apaixonante e peculiar, com situações, personagens e elementos únicos que realmente nos prendem até a última página e nos deixam querendo mais, sem parar de pensar sobre aquele monte de coisas loucas que lemos, não entendemos muito bem mas das quais não conseguimos nos desprender.
1Q84 não é uma trilogia com uma grande tirada no final, que nos passa algum ensinamento, moral ou mensagem de algum peso e significado especiais. Esses livros são uma ficção complexa escrita para o simples e puro deleite e lazer do leitor, e não deixam de ser menos notórios por isso. São livros espertos que você deve pegar por PURA diversão depois da leitura de vários clássicos pesados e cheios de ensinamentos atemporais em sequência, sabe?
Eu amei de paixão e ENGOLI os livros, querendo camiseta com estampa da trilogia, pote de pipoca com logo de 1Q84 e canecas temáticas, além de ficar com muita vontade de caçar outras obras do autor.
Se eu pudesse dar uma dica, diria pra fazer a leitura nas férias, quando você pode se dar ao luxo do total e completo descompromisso.
De um jeito ou de outro, leia 1Q84. Divirta-se.

"A LUA CONTINUAVA SILENCIOSA, MAS NÃO ESTAVA MAIS SOZINHA."

22/11/2017

Vamos falar sobre Gilmore Girls.

Esse texto contém vários spoilers de Gilmore Girls. E alguns de mim também.
(E provavelmente vai ser um textão enorme do tipo que você vai ter que fragmentar em parágrafos até chegar ao final. Fica o aviso.) 
Gilmore Girls não mudou minha vida. Eu não me apaixonei à primeira vista, não fiquei viciada sem saber o que era viver sem aqueles 42 minutos (aproximadamente) de episódios diários ou releguei a ela o posto de minha comfort série número 1 (Todo Mundo Odeia o Chris), e, embora eu tenha me tocado numa montanha de textos e mais textos sobre, ao concluí-la (foi significativo pra mim ver o que as pessoas pensavam na hora de tentar organizar melhor e de maneira mais lúcida o que eu mesma penso, já que depois da maratona meu cérebro saiu virado numa papa, embora algumas impressões fossem detectáveis nitidamente), reparei que não compartilho do mesmíssimo entusiasmo que muitos fãs têm (e é bem engraçado ver como o pessoal leva a sério esse ofício) em desenvolver teorias e discutir e rediscutir vários aspectos da série over and over again (até porque acho que já fiz isso o suficiente aqui, nas mescelâneas durante o período em que vi a série), esmiuçando cada temporada vista, cada personagem em tela e cada diálogo sagaz do script (foram vários).
Não é uma série que eu veria e sobre a qual teria, por mim mesma, MUITA vontade de escrever (aquele impulso irrefreável que me acomete com meus favoritos), se não fosse a quantidade de questões que vejo outras pessoas levantando sobre ela - as quais eu contesto, muitas vezes. Eu me envolvo nesses textos, mas não consigo me livrar do sentimento de ser uma expectadora distante que observa o show de fora, mas não participa ativamente dele, sabe? Não tanto quanto muitas pessoas que vejo falando da série na internet. (Talvez isso se deva ao fato de que ela não foi uma produção que eu cresci vendo, como sei que ocorreu com grande parte dos fãs; só fui ouvir falar de GG nos meus 18 anos pra cima.)
Quer dizer, Gilmore Girls não virou A Série da Minha Vida, que é Todo Mundo Odeia o Chris (pois é, uma série sobre um guri afro-americano que mora numa comunidade afundada na marginalidade, fica perdido numa escola de brancos que fazem bullying com ele e com seu único amigo, igualmente nerd, é A Série da Minha Vida, olha que louco) - e não acho isso tão ruim, porque cada um é cada um amor é amor e um lance é um lance e GG já tem uma porrada de corações apaixonados pra sonhar com ela (uma possível retomada depois do revival, será?) todos os dias, além de já ser A Série da Vida de muita gente (gente cujos textos a respeito eu adorei ler, inclusive).
Veja bem, não estou dizendo que não gostei da série; sei que meu monólogo desconexo (vocês ainda não viram nada) pode estar soando assim. Preciso deixar claro que ela ficará guardada num cantinho especial e quentinho do meu coração, sim, porque é uma série muito amorzire - e eu só relego esse adjetivo a pouquíssimas coisas, só às verdadeiramente amorzires mesmo.
Eu gostei de Gilmore Girls; eu ri e sorri com Gilmore Girls; eu achei o Kirk hilário; eu tive muita vontade de abraçar o Luke porque, de um jeito estranho, acho ele um fofo; eu conseguia sentir o cheiro da comida da Sookie e sonhava em encontrar uma pousada tão aconchegantemente perfeita quanto a Dragonfly; eu me via carregando caixas e mais caixas de livros pra cima e pra baixo como a Rory; eu me permiti detestar vários dos namorados delas e acho que Lorelai Gilmore é um dos melhores personagens já inventados na cultura pop, em todos os tempos (SIM).
Gilmore Girls só não foi TUDO AQUILO pra mim, tal como é pra muita gente - e tal como eu esperava que ela fosse se tornar também para essa que vos fala. Não virou uma eterna referência para os meus dias (eu já falei de Todo Mundo Odeia o Chris?) e nem me deixou naquele estado de êxtase e completo encantamento, com um sentimento desesperado de qq eu vou fazer da minha depois de ter visto isso mds? - sensações que me acometeram ao término das minhas produções favoritas (aconteceu com Chris, com Breaking Bad, com House...) de todos os tempos. É a vida, essas coisas acontecem and no problem, the show must go on.
Uma frase que repeti bastante nas outras vezes em que falei sobre GG por aqui foi "meus sentimentos pela série são meio conflituosos", e essa sentença tão "chavão popular" resume muito bem as coisas, porque é a melhor maneira de dizer que eu gostei de Gilmore Girls mas, olha, às vezes (varias vezes) não gostei tanto assim não.
Esse texto está aqui pra que eu possa destrinchar essa incoerência.
Entre outras coisas, percebi com GG que desaprendi o que é desfrutar com tranquilidade de algo que se enquadre na categoria comfort (comfort série, no caso). Fazia tempo que eu não parava diante de uma sitcom ou de uma série despretensiosa simplesmente pra anuviar a cabeça e passar o tempo, e fazendo isso agora com GG, percebi que parece que se não houver alguma coisa bem pesada e dramática rolando (gente quase morrendo, conflitos com a sociedade do tráfico e a Narcóticos, uns zumbis aqui e ali, mortes, perdas, traumas, dramas terríveis etc; não que esses sejam temas superiores ou que GG seja tediosa, minha cabeça só aprendeu a reagir de maneiras diferentes a cada abordagem) arrematando as tramas do enredo, eu fico... Cansada. Exausta.
Maratonar GG foi extremamente exaustivo para mim. Quando eu disse no primeiro parágrafo desse texto que eu saía da maratona de episódios com o cérebro transformado numa papa disforme e cansada, que precisava de uns bons minutos olhando pro horizonte com cara de paisagem pra voltar ao ritmo normal, eu estava falando sério. Só que não era aquela exaustão de arrebatamento, consequência da maravilhosidade que recém se presenciou... era uma exaustão cansada mesmo. 
Durante umas boas temporadas eu fiquei pensando se era só impressão minha, se aquilo não acontecia com todas as séries que eu via, se assistir a sete episódios diretos na verdade sempre me deixava MORTA, com qualquer série... Mas aí eu terminei GG e vi toda a última temporada de Bates Motel e mais umas três de GoT em menos de cinco dias, pedindo mais e sem nada daquela exaustão toda. Parece que meu cérebro foi condicionado a tramas mais... pesadas?, dramáticas?, e eu passei a estranhar o conceito de comfort série. What a sad thing. São questões.
Essa imagem não se encaixa no texto de nenhuma forma, mas sempre há espaço para pizza.
Mas uma coisa a que esse tópico me remete é o estereótipo de ''coisa [série] de mulherzinha'', ao qual muitos reduzem produções como Gilmore Girls.
Não estou dizendo que ela não é uma série voltada majoritariamente ao público feminino, porque bom, eu acho que é sim. Não consigo imaginar meus irmãos Tiago e Mateus assistindo à série empolgadíssimos, por exemplo (embora eles tenham rido quando eu disse que o Luke falou que beber o drink rosa, doce e fofinho que os avós da Rory fizeram para o aniversário dela era como beber um My Little Pony). O problema é assumir que isso seja indicativo de superficialidade, besteirol, futilidade e falta de conteúdo.
Embora esteja lá pra corresponder à necessidade do puro e simples entretenimento, GG carrega muitos questionamentos sérios e reais no pacote, principalmente a respeito do papel da mulher na sociedade - conversa na qual os homens também precisam ser introduzidos pra deixarem de falar e pensar certas merdas.
Há vários momentos na série em que nos vemos subitamente envolvidos nas questões pessoais da tríade principal - Lorelai, Rory e Emily -, e meio sem perceber caímos num mar de reflexões em que as cenas, os diálogos e os personagens em tela nos inserem.
Eu percebi muito disso com o arco da Emily na série. Em diversos momentos do enredo ela se pega em conflito com o que é ser a mulher que ela é na sociedade em que ela está. Como quando o novo sócio do Richard (marido dela) organiza uma espécie de viagem (não lembro bem os detalhes, então pequenas informações podem estar meio trocadas aqui) pra comemorar o sucesso da empresa que eles fundaram juntos e Emily fica frustrada e decepcionada, porque sempre ficava a cargo dela organizar essas confraternizações que envolviam o trabalho de Richard, e ela sempre fez isso com maestria: porque ninguém cuidava da manutenção, da ordem e dos afazeres de uma casa como Emily Gilmore, que sabia onde cada talher e cada arranjo de flor deveria ficar; sabia qual era a ordem dos pratos e qual era a comida adequada para servir aos convidados em cada ocasião; sabia a quem convinha enviar o convite e tinha em mente o comentário certo a proferir em recepção a cada um dos diferentes visitantes.
Tendo crescido num meio que ditavam serem estes os deveres de uma mulher e esposa, Emily se apropriou do que lhe foi dito e aprendeu a exercer sua função como nenhuma outra conseguiria e pra ninguém botar defeito, sempre com total e ab.so.lu.ta perfeição e destreza. Quando alguém a privava da oportunidade de exercer a função a que ela acreditava ser incumbida e na qual ela havia se especializado, ela ficava frustrada (compreensivelmente), porque parte de sua razão de ser era descartada no processo, fazendo com que ela se debatesse com o pensamento de que não tinha utilidade e que tudo que ela podia oferecer havia se tornado obsoleto com o passar das gerações.
Não sou do time I <3 EMILY RAINHA porque achei completamente desprezíveis muitas atitudes dela durante a série, movidas pelo esnobismo (uma das coisas que eu mais odeio nesse mundo) e pela arrogância; mas, por causa de vários outros aspectos, parte de mim olha pra ela com a admiração que ela merece por tudo o que construiu - e gosto dela, sim.
Temos esse exemplo e muitos outros envolvendo as três protagonistas (desde os primeiros episódios, embora ela apareça menos, percebi que era essencial inserir a Emily nesse ciclo principal) durante a série.
GG não é uma série fútil, vazia, tosca e superficial. Não foi por nenhuma ''falta de conteúdo'' que ela me exauriu um pouco, porque isso ela tem de sobra e evidencia ao trazer questões muito válidas e reais para a tela. É ridículo, preconceituoso e sexista assumir que por ser voltada ao público feminino (embora, para alguns, isso ainda seja discutível) ela é uma produção frívola em que só vemos reclamações sobre penteados que deram errado ou experiências ruins no salão de beleza (estereotipagem pura).
Então, digo que Gilmore Girls é uma série de mulheres, sim (ou mesmo ''de mulherzinha'', se o diminutivo te faz sentir maior e melhor em sua santa ignorância), e ISSO É ÓTIMO. Porque coisas de mulheres são ótimas. É uma série de mulheres sendo incríveis e fazendo coisas incríveis (apesar das incontáveis falhas e do meu perrengue pessoal com cada personagem), oferecendo ao expectador um vislumbre de todo o complexo, rico e fascinante universo que nós criamos e ocupamos - nós, mulheres -, e que deve ser reconhecido e bem representado.
Saindo um pouco dessa questão mais crítica, quero falar sobre a minha identificação pessoal com a série.
Eu fui assistir GG pronta pra me encontrar na Rory, por causa de toda a faceta mais nerd diferentona (desculpa por usar esse termo, sociedade) dela. Nem pensei muito na Lor. Tal foi a minha surpresa quando vi que a Lorelai É A MINHA CABEÇA.
Sabe como ela não cala a boca, vive fazendo comentários bizarros sobre tudo que a cerca, deixando as pessoas sem entender nada e sem conseguir acompanhar o fluxo de raciocínio, porque parece incompreensível e não dá pra assimilar como ela faz aqueles links entre ocorrências cotidianas e as milhares de informações que povoam a mente dela? Eu me vi bastante nisso, nesse fluxo de pensamentos bizarros que ela propele - e eu, por minha vez, me policio pra conter.
Estava falando com um amigo esses dias, e depois do quinto ''hãn?'' dele, com a expressão de confusão que se seguiu a um comentário rápido meu durante o assunto que ele desenvolvia, pensei algo do tipo ''Carolina, SI ACALME, não dá pra exigir que as pessoas entendam essa baderna da tua cabeça em tempo real e sem um tempinho pra tomar fôlego, então deixa ele falar o que tem pra falar e fica quietinha durante o processo, pra soltar a enxurrada de pensamentos que tu tem só no final, quando vai dar tempo de explicar tudo''. Literalmente preciso mandar o meu cérebro calar a boca.
Isso vive acontecendo. Eu vivo tendo que parar o que estou dizendo pra adotar outra abordagem (ou encerrar de todo minhas participações nos diálogos, que normalmente me cansam mais do que me satisfazem) na minha forma de expressão porque percebo que as pessoas simplesmente tão com cara de wtf sem entender nada do que eu estou dizendo. 
Interações sociais são um tanto dramáticas e traumáticas pra mim por isso, já que além de não ver muito significado no que grande parte das pessoas ao meu redor discute (uiiii, diferentona - sou mesmo), eu deixo todo mundo meio confuso (não por ser transcendental, genial ou superior, mas por motivos de ESQUISITICE CONGÊNITA mesmo) quando surge algo de meu interesse e eu decido opinar.
Me sinto um alien nas rodinhas de diálogo, e pra evitar todo esse estranhamento e inadequação, opto por me eximir de ter qualquer participação mais significativa quando essa atividade surge, e acabo sendo uma pessoa de monossílabos (aham, sim, sei, bah, pior, verdade isso aí, hahaha, também acho, será? não sei...) pra evitar as caras de ''o que raios você tá falando?!'' quando abro a boca pra externar meus pensamentos.
Então foi meio engraçado pra mim não me perceber somente em uma ou em outra, mas como um híbrido entre as duas personagens: por fora eu sou a Rory e todo o seu comedimento calculado; por dentro, a bagunça Lorelai toma conta.
Fico imaginando quem mais teve o mesmo sentimento, e até considero um traço meio intencional pensado pelos roteiristas e criadores das duas, porque o dualismo é bastante óbvio e gritante.
Ainda falando sobre identificação, mas esquecendo um pouco a Lorelai para falar da minha conexão (ou falta de) com a Rory: talvez o principal motivo pelo qual fui assistir à série (além de não aguentar mais ver referências a ela e outras pessoas falando sobre sem entender nada) foi pela promessa de que eu me encontraria demais na Rory, e a personagem poderia vir a ser o epítome da minha representação pessoal num seriado de TV.
Eu ouvia que a Rory era uma leitora compulsiva que carregava livros pra cima e pra baixo, fazia melhores amigos dentro das páginas e era o tipo de pessoa que acabava virando BFF de bibliotecários(as) pela frequência com que se encontrava com eles(as) entre as estantes (David, meu bibliotecário, te venero); ouvia que ela era uma das melhores alunas da turma e o tipo de pessoa a quem os colegas pagariam para fazer seus trabalhos (semanas atrás escrevi um texto pra faculdade da minha vizinha, que pediu minha ajuda, e eu cobrava 3,50 por trabalho - normalmente resenhas - feitos na nona série; vários pastéis foram custeados com essas somas ilegais no recreio, então digamos que esse tipo de coisa acontece na minha vida); li que ela era meio deslocada por viver mais dentro dos livros (e outras referências culturais) do que na vida real, e que normalmente causava estranhamento nas pessoas, que não conseguiam entender a acidez dos comentários dela; eu soube que a Rory tinha dificuldades de interação (TÃO EU que vou me poupar de maiores comentários, porque plmdds) e que era aquela pessoa que ficava com um livro no recreio, enquanto todo mundo fazia guerra de comida na cantina ou whatever... 
Ao ler todas essas coisas sobre a personagem, fui induzida a pensar e fui me convencendo de que, quando eu encontrasse a Rory na tela, ela seria, basicamente... eu.
Comecei a ver Gilmore Girls, entre outras coisas, porque na minha cabeça Rory Gilmore me representaria dentro da cultura pop melhor do que ninguém, e toda vez que eu precisasse de uma referência externa pra ilustrar algo do meu cotidiano, era a GIFs dela no tumblr que eu recorreria.
Pode parecer meio nonsense, mas enfim, espero que tenha dado pra entender o pensamento.
Rory com os livros é meu espírito animal.
Só que, em vez disso, o maior motivo pelo qual fui assistir à série se tornou também o que mais quebrou meu encantamento com ela. Porque eu esperava me ver muito em Rory Gilmore, e quando nosso encontro finalmente ocorreu, a Rory com quem me deparei era... perfeita demais.
Passei os primeiros episódios me vendo nela, especialmente por causa da ~coisa com livros~, mas isso se rompeu quando percebi que ela era a melhor filha do mundo, a melhor neta do mundo, a melhor amiga do mundo, melhor vizinha do mundo (Stars Hollow inteira venerava a Rory), melhor aluna do mundo, melhor pretendente do mundo (víamos caras, literalmente, saindo no soco por ela), melhor tudo do mundo. Ela era uma garota modelo em praticamente todos os aspectos (até fisicamente, porque a atriz parece um anjo; mas não quero entrar nesse mérito aqui, é algo secundário).
Rory era perfeita. Perfeita demais... e eu não consigo mais comprar a ideia de perfeição, porque já tentei muito sustentar esse estigma e isso só me rendeu frustração e desapontamento. A figura de menininha perfeita me cansava, não me convencia e eu passei a achá-la um saco.
Muita gente que olha de longe me vê como uma espécie de modelo em certos aspectos – quase na mesma intensidade em que causo estranhamento por outros aspectos socialização cof cof. Porque leio muito e todo mundo sabe disso, porque tiro boas notas (ou tirava; já concluí o ensino médio, afinal), porque alguma coisa em mim parece gritar que eu sou a intelectual, esperta e esforçada da turma (devo ter uma BAITA cara de nerd, porque basta me verem pra concluírem automaticamente que eu sou muito CDF e dizerem coisas do tipo "pergunta pra ela, ela é esperta e sabe" ALL THE TIME; não preciso nem dizer nada, é incrível). E eu sou algumas dessas coisas, sim, em certa medida. Mas não é a medida real que as pessoas veem, e sim algo muito mais idealizado e distante, que eu (e aparentemente apenas eu) sei que está além da realidade. 
Eu vivo muito debaixo da expectativa de terceiros nos ciclos sociais que frequento, e gasto um bocado de energia tentando fazê-los perceber que em incontáveis aspectos eu não sou o que eles acham.
Ver a Rory sendo tão perfeita, se vendo tão perfeita (e isso fica ainda mais claro no revival) e sendo vista como tão perfeita acabou sendo cansativo, extenuante e inverossímil demais pra mim, porque é uma ilusão recorrente na minha vida e eu trabalho muito para desconstruí-la.
Lá pelo começo da segunda temporada, eu comecei a ficar genuinamente incomodada e até um pouco irritada com aquela superestimação toda, com a maneira com que todo mundo gritava que RORY GILMORE É UMA GAROTA PERFEITA (as primeiras cenas em que ela aparece, logo no primeiro episódio, são visivelmente projetadas pra que essa seja a nossa primeira impressão, e todos sabemos que gealmente é ela que fica), e comecei a me perguntar se algum outro expectador tinha visto isso e se incomodado com esse olhar idealizado tanto quanto eu. Quer dizer, SERÁ QUE NINGUÉM MAIS TÁ VENDO QUÃO ERRADO ISSO É?! 
Mais tarde, lendo alguns textos, vi que isso incomodou muita gente além de mim e esse ponto ainda é uma das coisas mais discutidas da série. Que bom. 
Eu vi muita gente adotando a trama de GG como se fosse sua própria narrativa e tomando partido das personagens para, se não defendê-las, no mínimo, entendê-las, e é legal quando é possível ocorrer essa imersão no conteúdo que consumimos; indica qualidade e competência no que foi produzido. Tendo isso em vista, acho que as pessoas levantam tantas questões e desenvolvem tantos textões (como eu estou fazendo agora, mesmo não me sentindo tanto parte do "clubinho Gilmore Girls", essa comunidade tão unida e doce) em cima da série porque ela retrata muitos conflitos com os quais vários de nós nos deparamos - inclusive eu, que vivia me debatendo com a ideia de perfeição que projetavam sobre mim e eu sabia ser extremamente errônea.
E quando eu via os episódios, essa coisa idílica ia além da Rory; li muitas frases em que as pessoas diziam se identificar com a série pela maneira com que tudo parecia real, e essa foi outra percepção que não me acometeu na mesma intensidade; as coisas em GG me pareciam bonitas e quadradinhas demais, sabe? Davam certo demais. Stars Hollow já tem todo aquele clima meio lúdico em que todos os vizinhos se conhecem, existem tradições bonitinhas pra unir a comunidade, mesmo as rixas entre os habitantes compilam discussões e momentos fofos, há emoticons de coraçãozinho voando pelos ares ao som da melodia doce que sai do violão do trovador da cidade... Enfim, tudo parecia muito comercial de margarina pra mim. 
Não que isso seja necessariamente ruim (não é); a cidade é o que torna o ambiente da série tão aconchegante. Só estou tentando enfatizar como tudo se mostrava tão bucólico aos meus olhos.
Mesmo com dificuldades financeiras, Rory não sofreu nenhuma privação, e embora ela tenha se esforçado por muito do que conquistou com mérito, não podemos negar que várias outras coisas caíram no colo dela - sorte que nem todos os personagens Paris cof cof da série tiveram. Ela fazia parte da sortuda e escassa parcela de privilegiados com recursos no mundo (e ignorava completamente esse fato, como a gente vê no episódio em que ela escreve um artigo ridicularizando "os riquinhos" do universo do Logan, como se ela fosse algo muito distante daquilo - coisa que ela não era); conseguiu a melhor escola, conseguiu ser a oradora da turma, conseguiu a faculdade que queria (até agora acho meio wtf a Paris não ter conseguido entrar em Harvard, sendo tão ou mais esforçada quanto Rory; me pareceu uma tentativa de destacar ainda mais, de maneira gritante e não muito natural, toda a imaculabilidade da Gilmore), o posto de redatora chefe, etc etc...
Tudo isso, essa perfeição que aos meu olhos aparecia em neon verde limão com glitter piscando na tela, me fez começar a achar as coisas um pouco toscas e a me cansar da série, contando os segundos para que os 42 minutos de cada episódio passassem logo.
Da promessa de algo que viria a ser uma referência pessoal para mim, Rory se transformou numa personalidade impalatável e fatigante. 
Tão idealizada, correspondendo tanto às expectativas (com exceção da COMPLETA CAGADA final com o Dean), tão perfeita, tão diferente de mim...

...Até o fim da quinta temporada.
No fim da quinta temporada (o seriado tem 7 ao todo), tudo parece errado, incerto, confuso e falho. Rory levou uma rasteira profissional do chefe no estágio dela (e pai do namorado Logan), que disse que ela, basicamente, não tinha talento pra ser jornalista (O Sonho de sua vida) e que não iria pra frente. Depois de cinco temporadas ouvindo que ela era a número um em tudo, a menina especial e impecável que sempre se destaca, a primeira porta é fechada em sua cara. Obviamente, ela se descontrola, perde as estribeiras, começa a questionar toda a construção que fez de si mesma e do seu futuro, e passa a considerar a possibilidade de não ser tudo isso que todos sempre disseram que ela era - coisa na qual ela acreditou.
No maior nervous breakdown da série, ela larga a faculdade (a ponte para o seu maior sonho), briga sério com a mãe e vai morar na casa dos avós, fazendo parte da sociedade da qual ela e Lorelai sempre quiseram fugir (reuniões do DAR, jantares chiques, chá com senhorinhas ricas, eventos aristocráticos etc), e basicamente mandando um dane-se pra tudo que ela construiu até ali.
No fim da quinta temporada, tudo está errado. Tudo é um grande ?! piscando no mesmo neon verde limão que antes gritava PERFEIÇÃO. Tá tudo uma baderna, um drama, em crise, colapsando.
Foi a minha season finale preferida.*
*Até porque tem a cena da Lor pedindo o Luke em casamento depois de um discurso inflamado dele, inconformado com a situação da Rory e planejando sequestrar (!) ela pra levar de volta pra Yale; talvez seja minha cena favorita da série toda.

Eu sei que a vida já é bem complicada e difícil por si só, fora das telas de TV, computador, smartphone ou das páginas de um romance, e que a gente recorre a seriados, filmes e livros pra fugir de toda essa merda que é jogada no ventilador diariamente. Mas, como eu disse, eu não consigo mais comprar a ideia de perfeição (ainda mais quando ela se apresentaria em sete temporadas seguidas, com 22 episódios cada) e isso passou a ser algo incompatível pra mim.
Eu precisava de um pouco de imperfeição, de falha, de crise, de uma mostra de que Rory Gilmore era sim uma semelhante, afinal. E a quinta temporada me deu isso, de forma bem mais contundente que qualquer outra crise já retratada antes.
Quando vi a cena em que Rory vai à casa dos avós, completamente desamparada emocionalmente, encontra o vô, solta umas frases desconexas que diziam basicamente TÁ TUDO ERRADO NÃO SEI MAIS O QUE TÔ FAZENDO SOCORRO, e, enquanto o Richard releva e só diz que está meio atarefado (porque ele ainda não entendeu a gravidade da situação), ela começa a chorar sozinha no meio da sala, escondendo o rosto e pressionando as mãos sobre a barriga num jeito de abraçar o próprio corpo desconsoladamente - porque não tinha ninguém ao lado e ela precisava urgentemente de um abraço -, eu finalmente me vi em Rory Gilmore. Pra caramba.
Naquele abraçar desesperado o próprio corpo, eu me vi tapando o rosto e fazendo o mesmo, plantada sozinha no meio da cozinha da minha casa, com meus pais olhando sem entender nada, quando tive uma crise nervosa que me deixou à beira de um surto psicótico no terceiro ano do ensino médio. Me vi abraçando a mim mesma sentada na sala da orientadora da escola, pedindo lenços de papel pra assoar o nariz enquanto ela dava batidinhas no meu joelho e dizia que ia ficar tudo bem - mesmo depois de eu ter fugido de uma aula de educação física no ginásio, por causa da sensação de carregar um peso terrível ao ver que todos pareciam tão felizes e empolgados com o futuro e eu só conseguia me sentir engolida pelo pavor e pela incerteza. Me vi no meio da sala de uma psiquiatra querida que parou comigo, pegou um papel e uma caneta e começou a desenhar os meus neurônios (sim), explicando tudo o que estava acontecendo na minha cabeça, enquanto eu tentava (e falhava) não me debulhar em lágrimas e ela me perguntava se ela não era uma boa médica (ela era), e dizia que eu poderia ser uma também; tudo isso no 24horas da cidade ao qual meus pais me levaram quando não sabiam mais o que fazer quando a bomba relógio (eu) tinha explodido no colo deles.
Ao ver a Rory ali, daquele jeito, chorando e se abraçando, Gilmore Girls me tocou pela primeira vez, porque além de me parecer real mais do que nunca, me lembrou de mim mais do que nunca.
Eu sei que pode parecer uma visão bem negativista: o momento mais difícil da personagem foi o que mais me fez me reconhecer nela - coisa na qual todas as outras inúmeras características que tínhamos em comum LIIIIIIVROOOOS não foram tão certeiras. Mas eu já passei do tempo de encarar esses conflitos e dramas com realismo, de frente, reconhecendo que eles existiram, aconteceram e fizeram parte do que, pelo menos por um momento, fui eu.
Aquela cena foi um divisor de águas na minha maneira de enxergar a série. Foi o que me reconciliou com Gilmore Girls (depois da ruptura que tinha havido entre nós a partir da segunda temporada, mais ou menos) e fez ela conseguir, finalmente e apesar de várias ressalvas, um espacinho querido dentro do meu coração.
Não é como se de repente eu passasse a ignorar todos os outros aspectos da série que me incomodavam um pouco - muitos dos quais continuaram se repetindo no roteiro, mesmo depois da quinta temporada (e no revival também, inclusive; fica claro que Rory ainda se tem em bem alta conta - mas eu gostei de ver a desconstrução de vários estigmas que encobriam a personagem); não é como se agora eu tivesse sido arrebatada e só soubesse despejar elogios e declamar meu amor; não é como se agora meu coração não estivesse mais dividido (ele está) e meus sentimentos não fossem mais conflituosos ou até meio incoerentes (eles são; esse texto tá aqui pra ilustrar isso, afinal) a respeito da série. 
Não penso nela como aquela produção confortável que eu vou colocar na tela pra ficar olhando até adormecer, porque a perspectiva de encarar vários episódios ainda me remete a um cansaço sem sono.
Mas depois do que estava passando a ser quase uma antipatia (embora, durante todo esse tempo, eu ainda reconhecesse a série como a ótima produção que ela é), Gilmore Girls se transformou em algo que verdadeiramente falou comigo, e que conquistou um espaço em mim.
Entre tapas e beijos (às vezes mais tapas, às vezes mais beijos), nos entendemos.
A série não é perfeita para mim; mas, como eu fiz questão de frisar várias vezes nesse texto, eu não consigo comprar a ideia de perfeição. Nessa última frase, esse conceito é aplicado de diferentes formas: em uma, diz respeito à qualidade; em outra, a uma representação duvidosa. Mas, abrindo mão da semântica aqui e abraçando toda a enorme confusão e incoerência desse texto (sério, alguém entendeu o que eu quis dizer?), finjo que é tudo a mesma coisa e digo que talvez justamente por ser imperfeita é que eu acabo, no fim, conseguindo comprar Gilmore Girls e ter ela um pouquinho pra mim também.
'*'*'*'*'*'*'
Foi meio complicado escrever e publicar esse texto (ele tá há semanas nos rascunhos), porque é uma tarefa delicada falar (nem em todos os momentos de forma lisonjeira) de uma produção tão significativa pra muita gente (A Série da Vida não é pouca coisa, não). Mas seria injusto me eximir de escrever sobre (ainda mais quando a escrita tem cumprido uma função tão terápica pra mim) por receio de como ele vai ser recebido por algumas pessoas.
Mas enfim, a despeito dos meus dramas, reforço aqui que Gilmore Girls é muito boa, merece ser vista, tá no meu coração com carinho etc e tal. 
Não sei se deu pra entender. Por via das dúvidas, assista à série... Mas não prometo que isso vai ajudar a interpretar corretamente esse meu monólogo interminável (desculpa por isso, a propósito).

18/11/2017

O Emblema Vermelho da Coragem

Do Stephen Crane
Eu gosto da temática guerra. Não sei bem por quê; talvez por uma certa ligação pessoal consanguínea que eu tenha com essa ambientalização, visto que meu opa (sobre quem ainda escreverei por aqui) lutou na segunda guerra mundial e eu cresci rodeada por narrativas desse acontecimento histórico, que aos meus olhos adquiria os contornos de um mito; ou talvez seja porque eu encontro um prazer pessoal (já quase meio mórbido, dadas as condições do mundo atualmente) em poder analisar a mente humana: o que pensamos, o que sentimos e o que fazemos em consequência disso (psicologia não está entre minhas opções de carreira por acaso).
E em uma situação extrema (absurda, até) como a guerra, aspectos mais fundamentais da nossa natureza afloram e se deixam mostrar. Então digamos que seria um objeto de estudo interessante.
É claro que eu sacrificaria a possibilidade de qualquer olhar antropológico pela certeza de nunca mais chegarmos ao cúmulo do estrago da bomba de Hiroshima, por exemplo (ou qualquer outra coisa ''aquém'' disso; qualquer conflito estúpido, qualquer guerra); mas enfim, acho que deu pra entender o que eu quis dizer quando disse que é uma temática que me atrai.
Foi por essa atração que logo que vi esse livro, com essa capa, na estante, planejei trazê-lo pra casa. Depois que li a sinopse, então, em que eu soube que ele era sobre um soldado desistente que passa todo o seu período como combatente na guerra civil americana se recriminando pelo momento de covardia que o fez correr dos tiros e fugir pela floresta, minha vontade de ler só aumentou.
Medo, tensão, consciência pesada, culpa, auto-recriminação e um ruminar sem fim sobre atitudes tomadas no desespero... Era bem o que eu estava procurando.
Mas, ao contrário do que eu talvez pudesse esperar se o protagonista fosse um veterano de guerra - possivelmente mais experiente, mais maduro, mais sereno -, os pensamentos do nosso soldado, embora tenham uma boa dose de melancolia, correm de maneira mais crua e frenética, devido ao ambiente em que ele se encontra e, especialmente, à sua imaturidade.
Porque o recruta Henry Fleming não passa de um garoto de seus 18 anos, mais ou menos. Da mesma faixa etária que eu.
Ele é um menino um tanto imbecil e extremamente imaturo que vai à guerra movido por desejos de grandeza (burrice, mas a gente releva), e que, CLARO, leva um banho de água fria quando sente, nos primeiros dias, que não existe nada de grande, nada de heróico, nada mítico, nada bonito em ter que fazer cocô num balde no meio do mato, ver seus parceiros despencando mortos e desfigurados ao seu lado e perder a sensibilidade dos dedos dos pés porque se está com a mesma bota há quatro dias, por exemplo.
A visão romantizada dele sobre a guerra cai junto com os corpos dos companheiros atingidos por tiros ou fragmentos de explosivos, e ele foge no primeiro combate que enfrenta, passando todo o resto (até a guerra terminar ou até a própria morte, vou deixar você descobrir) do conflito – porque ele não foge pra casa, mas pro meio da mata, e depois acaba dando de cara com os companheiros novamente e voltando à frente de batalha - se avaliando através dessa ótica: a de um cara que fugiu de medo, antes de sequer se ferir e poder carregar um machucado de honra, um emblema vermelho (cor do sangue) da coragem que justificasse seu recuo.
Só que se você leu minha resenha até aqui, deve estar pensando que o que se segue são reflexões muito profundas, inspiradas, melancólicas e transcedentais, e é aí que preciso te lembrar do que falei três parágrafos acima: Henry é só um jovem imaturo. O que ele pensa é o que os jovens confusos e incertos que caíram naquele ambiente sem saber direito o que fazer e como fazer certamente pensaram: um fluxo confuso de temores, desespero, picos momentâneos de coragem e bagunça; nada poético, bonito ou iluminado num nível nirvana.
Eu não acho que todos nós fôssemos ser imbecis como o Henry... porque, sinceramente, ele é um ser humano bem medíocre - o que alguns chamariam de ‘’pobre de espírito’’. Não por fugir do combate; isso eu acho totalmente compreensível - e até razoável. Mas por várias atitudes estúpidas que ele tem.
Só que mesmo querendo sacudir o garoto e dizer que ele está sendo idiota, eu também entendo muito o coitado porque, francamente, quem de nós agiria de maneira sensata numa situação absurda (porque a guerra é absurda, no mais puro sentido da palavra; quanto mais você pensa nela, mais se convence disso) como aquela? Vários pensamentos que o acometem, por mais ridículos e ingênuos que sejam, certamente me acometeriam também.
Stephen Crane foi muito aclamado por esse livro, e muita gente, ao lê-lo, concluiu automaticamente que ele era um veterano de guerra: ''só alguém que realmente viveu isso poderia escrever de maneira tão realista'', disseram. O livro foi elogiado (inclusive por veteranos) por seu realismo, mais do que tudo. Mas Crane, na verdade, nasceu 19 (se não me engano) anos depois da guerra civil americana.
Estou dizendo isso pra falar que acho que a essência do livro é esse realismo através do qual Crane quer que a gente veja tudo; essa coisa crua, seca, despida de qualquer romantismo heróico... esse negócio tosco que é o ser humano na guerra.
Porque é assim. É tosco, é ridículo, é vergonhoso, é patético, é um retrocesso no nosso desenvolvimento enquanto civilidade - e, mesmo, humanidade. 
Enquanto avançamos na leitura, nos incomodamos constantemente pensando como conseguimos ser tão estúpidos?
Mas, embora o autor queira que vejamos as coisas da maneira visceral que elas são, ele não esquece da essência do seu personagem, que é um jovem tolo.
Embora tudo seja patético do jeito que é, Henry se deixa levar pelo furor da batalha inúmeras vezes, indo, espiritualmente (ou de outro jeito que você queira nomear), do céu ao inferno, da glória à desgraça enquanto está na frente de batalha. 
Em um momento ele está tremendo de medo e pensando em sair correndo porque viu colegas morrendo, pra no momento seguinte esquecer seu testemunho e se deixar levar por ideais de grandeza e heroísmo, só porque acertou um tiro no alvo certo ou foi elogiado pelos companheiros. Sua memória emocional é curta e ele não guarda as lições que aprende por muito tempo.
Porém, fica claro que isso é menos sobre o menino Henry (ou qualquer outro soldado avaliado individualmente através desse prisma) e sua infantilidade especificamente e mais sobre a natureza primitiva da guerra, esse espírito (nada metafísico) sanguinário que no calor da batalha toma conta de muitos e transforma o homem em besta - como eu não cansei de ouvir do meu opa.
Como eu já disse acima, não revelarei que fim levou Henry; se ele morreu ou saiu vivo da guerra. Mas a verdade é que a integridade física é o de menos e a tristeza do livro chega a nós especialmente através daqueles que findam a batalha com o emocional calejado e ideais deturpados, contaminados pelo sangue, pela violência e pela tragédia. Posso dizer que isso acontece com Henry também, reforçando a ideia de que ele não é uma criatura das mais sábias.
De qualquer forma, a história de um (com quem não se tem uma ligação mais íntima), num panorama geral, facilmente acaba adquirindo um peso secundário, em face a uma narrativa que destroçou milhares.
E ao fim daquelas poucas (nem trezentas) páginas, independente de termos acompanhado somente a trajetória de Henry, é o lamento pelos outros tantos milhares, desconhecidos e eternamente anônimos, que nos acomete.

''TINHAM ENSINADO AO JOVEM QUE, NA BATALHA, TODO HOMEM SE TRANSFORMA EM OUTRA COISA. PARA QUEM DEPOSITAVA SUA SALVAÇÃO NESSA METAMORFOSE, A ESPERA ERA UMA TORTURA.''

14/11/2017

Mescelânea - Outubro 2017

Mudei de novo o nome dessa categoria de post, mas a vida é assim mesmo; a gente planeja e acontece tudo ao contrário e é isso aí, the show must go on. (Posso ouvir um amém?)
É mescelânea pela junção entre mês e miscelânea. Olha que criativo, inovador e genial mentira, é ridículo, mas tenho que tentar vender meu produto.

Lidos
De annyamarttinen
Foram seis livros lidos em setembro: O Apanhador de Sonhos (Stephen King), A Guerra dos Mundos (H.G. Wells), Martin Luther King - Personagens Que Mudaram o Mundo (Valerie Schloredt e Pam Brown), O Emblema Vermelho da Coragem (Stephen Crane), Bilhões e Bilhões (Carl Sagan) e 1Q84 - Livro 1 (Haruki Murakami).
Os dois primeiros foram livros de aliens (<3) e até rolou metalinguagem porque os personagens do livro do King citaram Guerra dos Mundos ("parece até que estamos numa ficção do H.G. Wells") satirizando. Resenhei os dois já.
A resenha do Emblema Vermelho da Coragem também vai aparecer por aqui uma hora dessas. Mas já adianto que é de guerra, eu gostei e recomendo.
1Q84 é uma trilogia com origem e ambientalização japonesa. É uma ficção bem doida que intercala capítulos protagonizados por uma profissional de educação física que mata abusadores de mulheres nas horas vagas e por um professor de matemática metido a escritor, tudo num mundo misteriosos e confuso correndo paralelamente ao ano 1984. O que li foi o primeiro, já estou com os outros dois e tô amando de paixão, então certamente vou falar só sobre a trilogia em um post solo quando concluí-la. <3
Sobre os dois livros lidos esse mês que não resenhei/não vou resenhar:
Martin Luther King - Personagens Que Mudaram o Mundo é uma mini biografia sobre esse homi incrível que liderou o movimento anti segregação nos EUA. O livro é bem curtinho, com várias fotos lindas, e faz parte de uma coleção de biografias de diversas personalidades influentes. Eu roubei da minha antiga escola tenho os volumes sobre a vida de mais quatro cientistas e acho que leio ainda esse ano.
É a coisa mais lindinha e recomendo. Inclusive chorei num trechinho que falava de uma senhorinha negra andando km a pé pro trabalho na greve que a comunidade negra fez, sem andar de ônibus por meses depois do episódio com Rosa Parks (acabei de acessar a página dela na wikipédia e mds, que emocionante ver ela uma senhorinha! Morreu com 92 anos!).
"Não estou andando por mim, estou andando pelos meus filhos, pelos meus netos e pelos meus bisnetos." #ChoreiMares 
Bilhões e Bilhões é um compilado de artigos científicos do Carl Sagan, que vão de temas que abarcam astronomia, política, ecologia, vida, religião and counting [...] É bem legal, uma experiência divertida e prazerosa, ver o cara (gente como a gente) Carl Sagan falando diretamente conosco, sem nenhuma barreira narrativa - como se dá com seus livros fictícios, por exemplo. Por estar falando com o ''público comum'', ele é tão didático quanto possível, e conseguimos acompanhá-lo pelos temas sem grandes dificuldades - o que é ótimo, porque a maioria aborda questões bem pertinentes a respeito das quais todos devemos estar inteirados (e eu tô falando especialmente dos artigos sobre ecologia aqui VAMO PARAR DE DETONAR O PLANETA, CARAMBA).
Eu andei bem boba e curiosamente sentimental no período da leitura desses dois livros e (risos) acabei chorando nos dois (chorei com livro do Carl Sagan; a que ponto chegamos). Acontece que no último artigo ele fala sobre a luta contra a doença que acabou por vencê-lo, e há um ''prólogo'' escrito pela Ann Druyan, sua mulher na época (uma das produtoras de Cosmos e também muito engajada na comunidade científica), falando sobre a história deles juntos e sobre a batalha final que eles travaram até a morte dele. Só que a mulher tem UM SENHOR DOM pra envolver a gente na escrita, então a coisa obviamente acaba sendo triste pra caramba (ele morreeeeeuuuu) e eu derramei várias lagriminhas nas páginas finais, e tive o emocional desgraçado de maneiras que a ciência não explica.
Recomendadíssimo. Se você leu qualquer coisa do cara e gostou, não perca a chance.

Assistidos
Foram dois filmes e cinco temporadas de três séries diferentes (wat?) vistas esse mês.

Mad Max
2017 e eu ainda não vi todos os indicados ao Oscar em 2015, como eu queria.
Me surpreendi com a história. Eu sempre tenho essa meta pessoal de ver todos os indicados a melhor filme, pra ver qualéquié. Nunca consigo fazer isso antes da cerimônia, que eu só posso acompanhar mal e porcamente graças à cobertura meio cagada da Globo (Não sou capaz de opinar foi um fenômeno que presenciei no sofá da minha sala, junto com minha irmã, ligadas na globo como qualquer pessoa pobre sem TV assinada). E, bom, às vezes só consigo ver as obras anos depois, por falta de recursos.
No início do filme fiquei estranhando ele ter sido tão prestigiado pelo Oscar (seis ou sete estatuetas levadas pra casa), porque as coisas pareciam meio forçadas e estranhas. Mas ele foi me convencendo ao longo do tempo e me surpreendi com a trajetória de luta feminina na qual o filme enfoca, porque fui assistir sem ter a MENOR noção de enredo e não tinha premeditado aquilo.
Ele ainda tem uns negócios meio doidos (como aquela COISA tocando guitarra em cima de uma espécie de trio elétrico, pra empolgar a galera durante a caçada às aias que estão fugindo do estuprador), e um furo no roteiro que não sei como ninguém percebeu (ou perceberam e foi mau gosto mesmo): o carinha careca (que fez Meu Namorado É Um Zumbi sim, eu vi essa desgraça) que depois de persegui-las se junta às mulheres em redenção só mudou de lado depois que o estuprador rejeitou ele; não fosse isso, tava até agora caçando as mulheres. Então não engoli aquele papo de "abri meus olhos, estou mudado e vou ajudar vocês" e fiquei o filme todo torcendo pra ele morrer bem lentamente.
Esse bosta à parte, adoro toda a pegada steam punk e terminei achando UM FILMÃO DA POR**.
Recomendo.

Conta Comigo
É baseado num conto do Stephen King e eu só fiquei com vontade de ver porque ele disse que foi a melhor adaptação cinematográfica de uma obra dele (Kubrick bem sabe que ele odeia quase todas).
Quatro amiguinhos saem numa empreitada secreta em busca do cadáver de um menino desaparecido quando escutam boatos de que ele está dentro de uma floresta. Porém, não é um filme de suspense ou terror, e sim de amizade.
Mas me desculpe, foi uma decepção. A jornada inteira pra mim foi meio despropositada (mais ou menos como fazer um filme de uma ida minha à padaria, bem sem graça quando não há a aventura de tentar evitar que certos boys me vejam de pantufa - mentira, nem evito mais; minha reputação está aos cacos na comunidade), e embora eu entenda que fale sobre como a infância é a nossa época mais lúdica, não achei que o filme valeu uma hora e meia da minha madrugada - nem a Taiane (sis)(vimos no corujão).
Fiquei pensando que se o King gostou desse, os outros devem ser MESMO meio bostas.
É um clássico da sessão da tarde, como o pessoal no twitter fez questão de dizer, mas desculpa, não recomendo.

Game Of Thrones
Terminei a sétima temporada. \o/
E olha, ainda tem gente babaca dizendo que a Sansa é só uma menininha sonsa (pra combinar com o nome) e patricinha? Porque ela divou muito e esculachou uma penca de gente em vários aspectos, hein. Não é minha favorita, mas please, vão parar de falar merda da guria, obrigada de nada.
A cara de satisfação da pessoa em posse do Kit
#eupegavasedesse Harington
Jon Snow.
E, tenho que dizer: EU PREVI JONERYS (que palavra horrível, fãs; dane-se se a gente leva 19 anos pra escrever Jon e Daenerys, qualquer coisa é melhor que Jonerys)!
Eu adoro minha intuição, porque é divertidíssimo ver o monte de coisas que eu consigo premeditar, e terminei o quinto livro (no qual eles nem se encontraram ainda e não tiveram absolutamente nenhum contato) pensando certo que esses dois vão ficar juntos no final. Não sei por que eu sei, mas sei.
Não deu outra.
Inclusive eu tenho um registro em que falo dessa previsão numa rede social, há uns três anos atrás, quando terminei os livros. Deixei guardado pra poder provar que eu sou descendente do Sherlock (menos, Carolina, bem menos)!
Também chorei pela criatura que morreu no penúltimo episódio mais do que sofri por qualquer outra morte... Tá, mentira; morri junto com os lobinhos também.
Ainda tô em processo de recuperação das forças pra continuar.

Mad Men
Depois de ler várias recomendações e ver o porrada de premiações que a série recebeu, decidi ver, encantada com o visual de época.
Conta a história de um publicitário de uma agência de sucesso em NY, e mostra a podridão que corre por trás das fachadas dessa indústria, tomando conta especialmente dos homens e afetando especialmente as mulheres (que novidade...).
A série trabalha bastante a questão do machismo, evidenciando ele o tempo inteiro, além de mostrar as degradações daquele ambiente publicitário que só valoriza as aparências.
Mas embora a fotografia e os figurinos sejam apaixonantes, a série não me cativou e foi um perregue chegar ao fim das duas primeiras temporadas (são 7). Eu demorava 3 dias pra ver 2 episódios, porque sempre largava algum no meio, desanimada.
Acho que vou abandonar ela um pouquinho e só assistir um episódio aqui e ali, pontualmente, quando tiver brecha.
Achei arrastada e cansativa, porque não vi uma linha narrativa bem definida. As coisas me pareceram meio soltas, ao acaso, insubstanciais.
Mas, por motivos específicos, ainda vou escrever sobre ela por aqui. ;)

Stranger Things
Estava na minha lista desde que estourou nas graças do público. O clima sombrio e o enredo um tanto bizarrinho da série me atraíram demais. Mas eu só ia começar a olhar quando faltassem umas duas temporadas pro final, porque me dá agonia esperar ANOS pra chegar a uma conclusão - embora o processo seja divertido, muitas vezes.
Porém, num sábado à noite, fui com mais um monte de gente à casa de uns amigos depois de um culto (não esse tipo de culto, juro), e lá conversamos, pedimos pizza e nos entupimos de tanto comer. Passada a meia noite, parte do pessoal começou a ir embora e só ficamos poucos de nós, vendo um filme ruim na TV assinada, até que Will disse "quem já viu Stranger Things? Vamos ver a segunda temporada?" "Vamos!"
E fomos até às quatro da manhã vendo o começo da segunda temporada. 
Eu queria ter começado pela primeira, claro, mas não pude impor minha vontade sobre a maioria, e como só vimos uns dois episódios (tava todo mundo meio zoado depois de tanta pizza, então houve pausas pra banheiro, fazer comida pro amigo louco que chegou no meio da madrugada e dar boa noite pra dona da casa que disse dane-se e foi dormir mais cedo, por isso vimos tão poucos), minha trajetória com a série não foi tão afetada.
Quando chegou quatro da manhã, Will (eu sei que também é o nome do garoto que some na série) tava podre e nos convidou carinhosamente a ir embora ME DEIXEM DORMIR (ele é o outro dono da casa), e eu cheguei em casa e vi que não adiantava nada tentar dormir naquele horário (tenho uns probleminhas pra dormir sem remédio e tal, tópico pra outro post), então fiquei a noite inteira maratonando toda a primeira temporada e parte da segunda em binge watching. Terminei as duas em dois dias e QUE. SÉRIE. MARAVILOUSA.
Como não amar esses amores?
Pra quem ainda não sabe, se passa numa cidadezinha pequena em que um menino some inexplicavelmente e coisas estranhas (desaparecimentos, aparições, mortes...) começam a acontecer. Mas os três amigos do guri, protagonistas da série, não tão nem aí pro perigo e vão atrás do bendito até o fim do mundo (quase literalmente...), junto com a mãe dele e alguns integrantes das família do grupo - além da menina misteriosa e com poderes psíquicos que os três encontram no meio da floresta. Nesse fluxo, como eu (e o título da série) disse, muitas coisas estranhas acontecem.
Adorei o clima sombrio de mistério nos anos 80 (90? 70?) e as coisa que são doidas mas que fazem sentido - diferente de Twin Peaks, aquela desgraça (peguei ranço das demências sem sentido nenhum de Twin Peaks, desculpa fãs).
A Winona Ryder tá fantástica no papel de mãe do Will (guri desaparecido) e que coisa linda ver crianças sendo crianças de maneira bem representada, como eu não via há tempos nas telas.
Dustin, MELHOR PERSONAGEM DA VIDA.
Amo a química que existe entre os amigos, os momentos em que eles se olham com cara de escárnio quando um deles fala alguma coisa estúpida, a coragem boba da infância que torna as coisas mais incríveis e a franca convicção de que eles podem destruir um alienígena carnívoro com pedras e estilingue juntos, por exemplo. Lindo.
A fotografia é de me deixar babando e a trama me prendeu de jeito.
Estou apaixonada e já muito louca pra próxima temporada.
Recomendo com força - não pra quando faltarem duas temporadas pro fim, mas pra agora, VÁ JÁ VER ESSA BAGAÇA, entre na nossa grande família feliz. =)

Links, links everywhere
-A próxima 'vadia' é você!; tava sentada na minha cama lendo uma noite dessas quado ouvi da rua (moro numa avenida movimentada sadly) um grito: VADIIAAAAS. Um grupo de lixos tóxicos caras passou num carro berrando isso pra umas garotas que estavam passando bem em frente à minha casa. Pensei na hora em como esses imbecis ficam todos frustradinhos e revoltados quando não correspondemos às expectativas bostas deles e por isso, claro, se sentem no direito de nos reduzir a essa palavra. Porque, tadinhos, não fizemos suas vontades.
Por coincidências do destino, uns dois dias depois topei com esse texto da Carol Patrocínio na Comum, que fala - de maneira mais elaborada e inteligente - sobre essa ocorrência comum pra cace** pela qual, provavelmente e infelizmente, praticamente todas nós já passamos/passaremos em algum momento da vida.

-A vagina como ela é: nem lembro mais como cheguei nesse artigo da Galileu, mas achei ótimo e, francamente, quase uma leitura obrigatória, porque é bizarra a repressão que qualquer conceito associado a essa palavra (a nossas vaginas, oras; qual é o problema?) sofre em ambientes ''comuns''. Toda essa coibição acaba fazendo com que nem nós, mulheres (e até a comunidade científica!), conheçamos bem a vagina. O artigo fala sobre essa repressão, essencialmente, mas acaba pincelando a crítica com várias informações anatômicas e fisiológicas básicas a respeito desse órgão, além de dados que chegam a ser bizarros sobre a história do descobrimento da vagina. (Só em 2009 - dois. mil. e. nove. GENTE - um artigo oficializou a real função do clitóris e isso - além de várias outras informações estapafúrdias que se difundiram durante décadas sobre nossas vaginas - é bizarro em níveis que eu não sei colocar em palavras. Até na hora de CIENTISTAS, MÉDICOS, BIÓLOGOS estudarem e saberem o que a vagina é a intransigência era medonha.)

-Uma fotógrafa tá fazendo ensaios new born com bichinhos de abrigos aqui do RS pra incentivar a adoção e OWNS não param de sair de mim. Vontade de COMER os filhotes com aqueles enfeitezinhos (?), pelamor.

-TODO o perfil da Paloma Engelke (uma das criadoras do Valkirias) no medium, mas destaco especialmente esse texto sobre por que escrever, que coloca em palavras muito do que penso sobre o assunto.

-Em defesa da lentidão; texto da Fabiane Secches também no medium (tô fazendo as pazes com o medium aos poucos) que fala sobre essa obsessão generalizada que tem tomado conta especialmente de quem produz conteúdo pra internet, e que nos pressiona com a exigência de uma produtividade excessiva e fatigante, e sobre como às vezes é tão melhor darmos um basta nisso e fazermos as coisas com calma e leveza, aproveitando o processo - que, no fim, é o que importa.

-Ler não é uma competição; da série Experiências de Leitura da Mulheres Que Escrevem. Segue a mesma linha do texto recomendado acima e reforça a ideia de que ler com pressa pra atingir alguma meta esdrúxula é desnecessário e estraga o processo, que antes de tudo deve ser plenamente desfrutado.
Guardo aqui especialmente como um lembrete pessoal a mim mesma, que estou sempre me cobrando numa competição neurótica comigo de ler mais e mais, Carolina, porque menos de cinco livros por mês não dá, não. Que besteira.

-A internet e os livros; texto ótimo da Stephanie Borges sobre como falamos sobre nossas leituras virtualmente, questionando, entre outras coisas, a inclinação que temos a falar sobre livros como se isso garantisse status, muitas vezes preocupados, de novo, com a produtividade excessiva que acaba sendo mecânica e faz muitos deixarem de lado a beleza contida na simplicidade do ato de, simplesmente (não quero soar redundante), ler porque gostamos, porque é bom e porque somos apaixonados por isso.

-O jornalismo que odeia mulheres: como falamos sobre feminicídio; texto da Priscila Bellini sobre a omissão, irresponsabilidade e falta de preparo de vários veículos comunicativos na hora de noticiar abusos contra mulheres, e como isso, naturalmente, só ajuda a reforçar a impunidade e indiferença pública diante desses casos.

-Quero abraçar Uber Vamberto.

Vários textos são do medium, como se pode ver. Eu não vou muito com a cara da plataforma porque me parte o coração ver que muita gente tá abandonando os blogs pessoais - que possibilitam a criação de um espaço muito mais característico e íntimo, diferentemente da template fria do medium - pra ir pra lá, mas andei explorando alguns perfis e tem muito conteúdo ótimo sendo produzido. Ainda não sou uma adepta, mas, como dito, ele está me conquistando aos poucos. ;)
Eu tentando fingir que gosto do Medium.
E é isso aí. [O texto tá atrasado e cometi textão de novo, eu sei, mas não teve jeito.] Até!