27/02/2017

Dedos de Pianista

De Charles Kiefer (amei esse nome)
É um livrinho fino de letras grandes, uma leitura simples e fluída, de um dia só. Não conhecia o autor em nada, mas ele é gaúcho e já teve notoriedade por aqui. Trouxe pra casa por causa do título (gosto de piano) e porque também amo contos, mas não fazia a menor ideia do que esperar. Não lamentei o que encontrei.
Não há muito como eu me alongar nessa resenha pois os contos são pequenos (como o livro todo) e obviamente não irei abordar cada um deles aqui. São 14 contos em apenas 58 páginas, mas devo dizer que o conjunto da obra me surpreendeu de um jeito muito bom. Amei a escrita do autor, ela mescla uma leveza carregada de toques melancólicos aqui e ali que não nos deixam reduzi-la nem a leve nem a pesada, e sim a uma junção das duas características; coisa rara, eu diria.
Kiefer tem vários livros mais longos e densos, mas resolveu reunir nesse um apanhado de seus contos distribuídos e publicados em diferentes jornais e outras mídias literárias. Dedos de Pianista é o título de um dos contos que o compõem (um dos meus favoritos, por sinal), e não se pode dizer que ele descreva numa sentença todos os títulos que compilam esse livro, pois os contos são inteiramente independentes entre si, sem nenhuma ligação entre eles.
Gaúcho, ele faz notar sua origem através de várias palavras tradicionais apenas ao Sul, mas não de forma muito rebuscada e ininteligível a quem nasceu depois de 99 e não vive num CTG. A leitura acabou se fazendo mais divertida pra mim por conta dessa característica.
No mais, devo dizer que a profundidade da escrita me tocou, me envolveu, me cativou e ganhou meu respeito. Há tantos trechos bonitos e singelos, até sagazes, espalhados por essas 58 páginas que tive que marcá-las a lápis (ainda tenho dó de usar caneta definitiva) várias vezes. As palavras, ditas por Kiefer, me conquistaram.
Não li nem um único romance dele, nem um único livro além desse, e talvez a forma com que ele discorre em suas publicações mais longas se demonstre diferente do que ele fez aqui, nesses contos, de maneira que não é certa uma aprovação de minha parte, uma simpatia quanto a seus outros livros; mas depois de ler esse, certamente estou disposta a arriscar, se outros exemplares dele cruzarem o meu caminho. Tô precisando aumentar o rol de escritores nacionais cujas páginas passaram sob meus olhos. ;)
Como previsto, esse resenha (isso chega a ser resenha?) vai ficar bem pequeninha, por conta da pequenez do exemplar abordado, então estou acabando ela por aqui. Consideremos uma pausa nos meus textões que ninguém aguenta ler. :)

Uma citação:
''O MENINO SENTIU UM CAROÇO NA GARGANTA, E NO PEITO UMA ANGÚSTIA MEDONHA; A FELICIDADE, QUANDO É DEMAIS, TAMBÉM MACHUCA.''
-Dedos de Pianista, o conto

25/02/2017

Bel-Ami

Guy de Maupassant
Era o último livro que eu tinha pra ler da coleção Grandes Sucessos (aquela que eu meio que roubei de estantes abandonadas e blablabla) e vou sentir falta de saber que ‘’tem uma fileira de exemplares clássicos pra você ler, Carolina’’, porque agora já tá tudo lido (a não ser que eu roube mais de outro lugar, hihihi). Mas será que fechou com chave de ouro?
Bel-Ami trás na última capa aquela resenha básica que habitualmente aparece em quase todos os exemplares livrísticos (o corretor nunca aceita essa palavra mas ela PRECISA EXISTIR E DANE-SE), e nela tive a impressão de estar prestes a encontrar um Charlie Harper (ou Charlie Sheen mesmo; o ator era tão doido quanto o personagem) do século XIX, extremamente versado na conquista (mesmo a meia boca que se baseia em atração física e status, basicamente), que consegue todas as mulheres que quer e que usa e abusa delas como bem entende. Até a capa representa ele cortejando uma moça, enquanto são observados por uma fileira de outras mulheres. Um lobo desvairado nas ruas parisienses, em suma. Mas não foi bem isso o que encontrei.
Essas capinhas de ares meio vintage <3
Georges Duroy, chamado de Bel-Ami (só um apelido que pegou), tem sua dose de cretinice, só que ele não se assemelha tanto a esses galãs cafajestes estereotipados que a gente vê na TV hoje em dia porque todas as suas tramas são desenvolvidas com muita sutileza. Digamos que ele não sai pra beber com os amigos no sábado à noite se gabando de quantas mulheres ‘’pegou’’ durante a semana, entendem? A coisa toda se desenrola por baixo dos panos, só bel-ami sabe de suas reais intenções e conhece os entrames de suas estratégias. Mais ninguém, nunca.
Aos olhos alheios, ele é um moço super respeitoso e direito, responsável e bem intencionado, que passa longe de qualquer suspeita.
Acontece que essa minha síntese acima, sobre sua personalidade, também passa uma imagem um pouco distorcida do que de fato vemos no livro. Bel-Ami não é nenhum gênio dentro das relações sociais, nenhum especialista em enganadas que sempre garante o resultado dos próprios planos; ele é muitas vezes ingênuo e inseguro, como um meninão bobo que não sabe bem como proceder pra se sair bem, mas sempre resolve apostar. Ele de fato consegue subir de nível em status e projeção profissional, através dos próprios meios, mas o livro deixa claro que isso poderia muito bem não ter acontecido; são golpes de sorte.
Mas enfim, me limitando a isso nas descrições sobre o personagem, posso dizer que, embora ele seja, rudemente falando, um bosta, o autor demonstrou uma habilidade incrível ao construí-lo e encaixá-lo em seu contexto, de maneira que fica fácil fluir na leitura e passar pelas trezentas e poucas páginas sem nem perceber. A coisa é fluída, leve, até mesmo agradável, a despeito da cretinice do Georges. Porque o escritor é bom. O livro todo poderia ficar bem odioso, mas Guy (vou chamar de Guy, como se fossemos íntimos, porque deuzolivre ter que escrever aquele sobrenome do mal de novo) conseguiu escrever um livro bom com um personagem bem cretino, e tem mérito por isso.
Gostei do livro, especialmente do final, porque ele passa uma mensagem. Tem uns diálogos bons e umas reflexões filosóficas de um velhinho, em certo ponto, que tive que grifar. O desfecho não é dos mais louváveis e certamente não demonstra uma justiça implícita à vida, mas a mensagem não precisa ser essa porque a vida não é sempre essa.
E que mensagem é essa? Claro que não vou dar de bandeja...mas digamos que, às vezes, as pessoas cretinas são as que se dão mesmo bem no final.

Uma citação (não resume o livro de maneira geral, mas gostei e resolvi deixar aqui):

''UM TERROR CONFUSO, IMENSO, ESMAGADOR, PESAVA SOBRE A ALMA DE DUROY: O TERROR DO NADA ILIMITADO, INEVITÁVEL, DESTRUINDO INDEFINIDAMENTE TODAS AS EXISTÊNCIAS TÃO RÁPIDAS E MISERÁVEIS. JÁ CURVAVA A SUA FONTE, SOB A AMEAÇA. PENSAVA NAS MOSCAS QUE VIVEM ALGUMAS HORAS, NOS ANIMAIS QUE VIVEM ALGUNS DIAS, NOS HOMENS QUE VIVEM ALGUNS ANOS, NAS TERRAS QUE VIVEM ALGUNS SÉCULOS. QUE DIFERENÇA HÁ, ENTÃO, ENTRE UNS E OUTROS? ALGUMAS AURORAS A MAIS, EIS TUDO.''

22/02/2017

Como vão as coisas e como eu vou com as coisas.

As últimas semanas têm sido complicadas pra qualquer coisa, que dirá sentar e escrever um texto coerente para um blog inexplorado... Esse é um dos motivos pelos quais não tenho aparecido aqui para nada além de postar resenhas literárias.
Sabe aqueles estágios da vida em que você olha pra trás e percebe, sente que todos os problemas que eclodiram na sua cara agora estavam se amontoando e se preparando há muito para esse momento? É nesse ponto que me sinto.

Trezentas coisas saíram dos eixos e correm desgovernadas numa trama de linhas de trem diferentes, e fico com aquele medo, aquele receio de que elas se choquem. Não sei como colocar nem uma delas nos rumos.
Meu futuro como estudante, que me garantiria um futuro como profissional, continua incerto e isso me preocupa -como também me preocupa o desânimo que às vezes me acomete quando penso nas mudanças a empreender para mudar essa inércia.

Eu ainda não falei aqui (nem sei se pretendo) sobre a comédia que anda minha vida amorosa de uma maneira aberta, direta e franca; só mencionei de forma meio metafórica, como se fosse um conto sobre a vida de outro alguém. Mas enfim, corroborando, a coisa tá uma comédia que só faz chorar (literalmente), e no cenário atual em que se desenvolve a peça da minha vida, ela tem sido um personagem bem triste e dramático. 

Minha relação familiar é outro drama, um dos mais difíceis de lidar. Às vezes me sinto mais deslocada que uma peça de lego num tabuleiro de xadrez (altas metáforas) quando estamos juntos (o que já ocorre com raridade). Me sinto errada, defeituosa, como se tivesse um defeito de fábrica. A ovelha negra, sabe? Isso acontece há muito, esse sentimento de ''não pertenço a esse lugar'', mas tem se feito notar no últimos tempos especialmente por causa do momento em que me encontro, nessa fase problemática de transição entre adolescência-vida adulta. Tenho que arranjar emprego e parece que nada dá certo: frustração pessoal e reprovação familiar. Tenho que entrar na faculdade e isso ainda não aconteceu: autorrecriminação pessoal e incerteza familiar. Tenho que ACHAR O RUMO DA MINHA VIDA e até agora n.a.d.a. engrenou e parece que o ambiente ao meu redor (predominantemente familiar na maioria dos dias) pesa com a consciência dessas questões e isso tem sido uma droga.
Também percebi, recentemente, que a relação com algumas pessoas da família não melhorou coisa nenhuma, não evoluiu para algo mais amigável não, como eu achei que havia. Meu contato com essas pessoas apenas tinha rareado, dificultando a ocorrência de divergências e conflitos. Mas, em pouco tempo de aproximação, percebi que esses embates de diferenças continuam tão inflamáveis quanto antes e isso foi meio mééh (?). Mas o que foi mais mééh (?) ainda foi vivenciar novamente esses conflitos e brigas aflorando. Sofrer com eles, me enraivecer com eles, me revoltar com eles. Tudo de novo e mais uma vez.
Tenho sentido tanta raiva por tudo isso, por essa hostilidade que vejo me cercando, que conviver com meu próprio enraivecimento tem se tornado insustentável. É como um tumor em minha vida, um tumor que precisa ser cirurgicamente removido logo. Mas não sou cirurgiã (altas metáforas²).

Se bem que toda essa sensação premente de inadequação decididamente não acontece só dentro da família...É, não mesmo. E isso merece todo um textão bem dramático e ''vamos cortar os pulsos'' por si, mas fica pra outra hora porque de chororô já tá bastando esse aqui, né? É. Então nem vou abordar muito minha autoestima fracassada e a autoimagem cagada, porque né.

Sabe aqueles dias em que uma vontade de simplesmente deitar e chorar fica sufocando e comprimindo teu peito? Você está no meio de um monte de gente que obviamente não entenderia nada e te perguntaria ''por quê?'' e você SÓ. PRECISA. CHORAR. Só isso. Mas não dá, porque você não está sozinho e não quer chamar a atenção de ninguém, não quer que percebam que você está um caco.
Então aquela vontade, que passa a ser uma necessidade exigente, só aumenta, aumenta e aumenta. Começa a te consumir por dentro e ameaça explodir. Sabe? Tenho sentido isso toda semana.
Senti esses dias. Estava na casa da minha cunhada (porque meu irmão mais novo tá namorando, já falei? Eu nem pra isso sirvo, ao que parece...) com parte da família, e sentia uma vontade terrível de chorar. Tinha brigado em casa, recebi os xingamentos habituais e aquelas críticas de merda que ninguém aguenta ''por que tu tem que ser assim?'', além daquela penca de olhares reprovadores que sempre acompanham esse tipo de situação, e estava me sentindo um lixo. Não queria ficar nem comigo mesma, com os outros, então... Queria chorar, só queria chorar, mas tinha que ficar lá socializando, sorrindo e simulando aquela expressão de ''tá tudo bem'' que eu passei a desaprender como se faz.
Fugi na primeira oportunidade. Íamos a uma praça ficar fazendo nada mas consegui desconversar. Meus irmãos foram e vim pra casa sozinha. Vim tentando reter as coisas pelo caminho mas quando cheguei em casa simplesmente deixei tudo correr. Entrei chorando, troquei de roupa chorando, deitei chorando e assim fiquei, por um bom tempo. Chorei, chorei, chorei. Foi preciso, tudo em mim urgia por esse momento.

Sabe esses dias em que você simplesmente só consegue sentir essa vontade insana e desesperadora de chorar?
Tô cansada de viver eles.
(Uma foto meio aleatória porque não gosto de deixar os posts sem efeito visual e porque postar foto de rosto com lágrimas já é depressivo demais até pra mim, né -além de inaceitável demais pra qualquer um.)

Não sei como tem gente com blogs assim totalmente públicos e conhecidos por seus ciclos sociais, porque como é que ficam os parentes, amigos e conhecidos lendo esse tipo de drama existencial da gente?
Fica a dúvida.

14/02/2017

O Pequeno Príncipe

De Antoine de Saint-Exupéry (wtf)
Peguei emprestado de um amigo (oiiii, Danieeel) que tava me devendo ele há meses e com quem me reencontrei esses dias depois da criatura ter sumido do mapa... e finalmente reaparecido.
A informação mais consistente que eu tinha sobre O Pequeno Príncipe era ‘’é o livro das misses’’. Quem ainda não ouviu essa? A frase ficou famosa depois da quantidade de concorrentes de concursos de miss darem o título desse livro, diante das perguntas sobre cultura que fazem nessas competições. Mas como detesto esses concursos babacas, vamos parar por aqui.
Então eu basicamente não sabia o que esperar, e me surpreendi quando recebi o exemplar em mãos. Embora eu tenha ouvido também outra frase ‘’é um livro de crianças que serve também para os adultos’’, aquelas páginas cheias de ilustrações fofinhas (feitas pelo autor, vale constar) e com uma letra enorme me pegaram desprevenida.
Logo comecei a pensar: ‘’como assim um livro de crianças para adultos? Sobre o que é essa bagaça, afinal?’’ E pra quem quer a resposta a essas perguntas, ela é uma só: leia o livro. ;)
Mas vamos ver se consigo responder de outra forma aqui, também.
Logo na primeira página entramos na cabeça de um homem que não sabe desenhar e discorre sobre como, quando criança, os adultos nunca acertavam os desenhos que ele fazia. Logo percebemos o descontentamento desse cara com o universo adulto e a maneira com que ele parece estar em constante desacordo com o universo infantil e com todas as coisas belas e simples que aparentemente só as crianças conseguem ver e eprceber. Depois descobrimos que esse cara se tornou um piloto de avião que tá caído no Saara (pois é) e que, em meio à confusão e desespero de não saber se vai conseguir consertar o aeroplano a tempo de não findar o estoque de comida e água, dá de cara com um menininho pequeno de cabelo dourado em trajes engraçados: O Pequeno Príncipe.
Ele mostra seus desenhos de infância ao principezinho e este de cara acerta o que eles retratam. Sua simpatia por essa criaturinha incógnita começa por aqui.

*Observação: há, na primeira página, o desenho de um...chapéu? (NÃO é um chapéu) que esse homem desenhou e fica exposto no livro. A figura ficou famosa e quem leu jamais vai esquecer (até porque constantemente ele aparece na internet).*

Descobrimos que o Príncipe veio de um planeta distante (o asteroide B612) e minúsculo, onde ele habitava sozinho e onde existiam uma rosa falante e três pequenos vulcões, além de, vez ou outra, árvores enormes, os Baobás, que por terem quase o dobro do tamanho do planetinha, poderiam destruir tudo. O Príncipe se ocupava em proteger sua plantinha do frio, cuidar dos três vulcões, impedir o crescimento do Baobás e ver quantos pores do sol ele quisesse (num planetinha pequeno, bastava andar alguns passos para estar do outro lado) até que resolve sair em exploração por outros planetas. E cai na Terra.
Para mim, o ponto alto do livro é quando ele visita diversos planetas e em cada um deles encontra um adulto diferente demonstrando uma característica específica do ‘’universo adulto’’; há o rei, o vaidoso, o empresário, o bêbado e por aí vai, cada parada recheada de diálogos bonitinhos e inteligentes  que nos fazem sorrir ironizando hábitos, costumes e modelos típicos de ‘’pessoas crescidas’’.
Na história a coisa toda é abordada de uma maneira muito alegórica e engraçada, o que nos faz esquecer que aquelas figuras são reais e MUITO. Estão entre a gente, são a gente. Todo mundo conhece um vaidoso, um bêbado vagabundo ou alguém que se acha rei, porque o universo do livro retrata, em outros planetas, o que existe na Terra.
Além dessa grande excursão do principezinho, os outros trechos do livro trazem diálogos cobertos de divagações acerca do tópico ~vida adulta que se torna tosca ao tentar se afastar da simplicidade da infância~.
Eu sou apaixonada pela psicologia desse assunto, gosto de entrar em devaneios sobre a vida, velhice, morte, infância e tudo mais (42 –pegaram a referência?), e o livro é um prato cheio pra quem gosta de mergulhar nesse tipo de reflexão. Só que, claro, a coisa toda é abordada de maneira bem simplista e singela, em contexto de livro infantil.
Fiquei pensando bastante sobre todas as diferenças que permeiam esses dois mundos, infantil e adulto, e sobre como, em mim, não quero que um se dissocie do outro completamente, jamais. Não tenho vergonha de saber e admitir que boa parte de mim ainda é uma criança, mesmo com quase 19 anos de idade. Corro com elas, brinco de esconde-esconde, subo em árvore e tá tudo bem, isso é bom, é saudável. A doença começa quando começamos a esquecer que já tivemos menos de um metro e trinta, sem emprego e luxos, e éramos felizes assim, na beleza da simplicidade que nem notávamos ser tão simples.

Claramente fiz um ensaio fotográfico com o livro, mas ok.

Sempre me pego observando adultos em conflito com crianças de maneira, olha só que irônico, infantil (infantil de um jeito imaturo, não bonito) e fico tentando imaginar como eles conseguiram esquecer completamente que já foram como esses pequenos, porque uma incompreensão óbvia se estampa em seus rostos barbudos e desenvolvidos e você só não compreende o que não conhece, certo?
Quando os adultos deixam de conhecer a criança que já foram? É nesse ponto que a tristeza da velhice (que não tem razão pra ser triste) começa.

Não vou contar o desfecho do Pequeno Príncipe e do piloto de avião grande; deixo isso pra você descobrir, se quiser.

Dedicatória do autor:
A Léon Werth
Peço perdão à crianças por dedicar esse livro a uma pessoa grande. Tenho um bom motivo: essa pessoa grande é o melhor amigo que possuo. Tenho um outro motivo: essa pessoa grande é capaz de compreender todas as coisas, até mesmo os livros de criança. Tenho ainda um terceiro motivo: essa pessoa grande mora na França e ela tem fome e frio. Ela precisa de consolo. Se todos esses motivos não bastam, eu dedico então esse livro à criança que essa pessoa grande já foi. Todas as pessoas grandes foram um dia crianças -mas poucas se lembram disso. Corrijo, portanto, a dedicatória:
A Léon Werth
quando ele era criança

(Só eu achei isso lindo demais?)

13/02/2017

História de Pobres Amantes

De Vasco Pratolini
Tirei da estante pelo título (eu sei, eu sei que normalmente é burrada) porque gostei do que ele insinuava...uma história talvez triste e melancólica retratando relações a dois meio conturbadas. Gosto dessas coisas, me fazem pensar.
Mas não foi bem isso que encontrei, não. O que se desdobrou à minha frente foram páginas e mais páginas de uma narrativa densa e um pouco confusa, com pouquíssimos diálogos a se observar. E sem a dose de melancolia que eu estava esperando.
Somos levados a Via Del Corno, uma ruazinha a princípio pacata, mas que abriga diversos moradores peculiares com histórias engraçadas e interessantes a compartilhar. Tem a Senhora, uma velha rica e dona da rua que nutre um interessa nada convencional por jovenzinhas que ela faz questão de hospedar; tem os jovens e homens amigos metidos a fascistas ou ferrenhos opositores dessa frente política que recorrentemente se envolvem em conflitos  que acabam chafurdando toda a paz das redondezas; tem Os Anjinhos, grupo de adolescentes amigas e próximas que com sua beleza, inocência (temporária) e simplicidade encantam todos da rua por onde passam; há também os diversos trabalhadores pobres e donos de empreendimentos pequenos que lutam pra levar a vida... Enfim, variadas histórias se desenvolvendo num mesmo enredo.
Acho que o diferencial do livro é justamente essa gama de linhas simultâneas correndo numa mesma trama. São vários pontos de vista distintos, várias personalidades a explorar, várias histórias a conhecer, e isso obviamente não ocorre em livros que centralizam-se num protagonista único. No entanto, o que é glória pode ser também desgraça, e isso torna difícil o aprofundamento dos personagens. Nós os conhecemos de maneira superficial, embora ampla em alguns aspectos.
Porque pensem só, vinte a trinta (sério) personagens a se fazerem conhecer em menos de 400 páginas. Não dá pra divagar muito em cima de cada um, individualmente. Ainda assim até conseguimos nos aproximar mais de uns do que de outros e desenvolver uma certa simpatia ao longo do enredo. MAS, e agora vêm minhas lamentações, todo esse envolvimento é dificultado pela densidade da narrativa.
De maneira geral, sinto afirmar, não gostei do livro. Principalmente porque só consegui me envolver um pouquinho em suas últimas 50 páginas, aproximadamente. A narrativa é meio confusa, pula de um observador pra outro do nada e é muito complicado pro leitor que pegou o livro começar a se situar naquela doideira de múltiplos ângulos. Um dos motivos pelos quais me interessei pelo livro (esse prisma infinito de histórias correndo simultaneamente) foi também o que acabou me fazendo desgostar dele. Mas, porém, todavia, entretanto, não obstante, a coisa poderia ter sido desenvolvida de uma maneira mais leve, com mais diálogos quebrando o número aparentemente infindável de PURA narrativa em cima de narrativa. Isso tornou o livro pesado e cansativo.
Na resenha de fundo de capa também somos levados a acreditar que a questão do fascismo também é bastante abordada. De autor italiano, poderíamos ler esse relato (embora fictício) sobre como pessoas simples em ambientes pacatos foram atingidas pelo fascismo na Itália. Mas tudo acaba sendo abordado de maneira meio superficial também. =/
Então vou ter que acabar essa resenha com um não recomendo bem o livro. Pois é.
Apesar de, no finalzinho, eu me deixar encantar um pouco por abordagens filosóficas do autor, em trechos melancólicos que divagam sobre diferentes retratos de vida, isso não chegou a valer as quase 400 páginas de muito patinar sem sair do lugar em cima do livro.
Ele se demonstra uma leitura mais maçante do que prazerosa, apesar da diversidade dos personagens que eu gostaria de poder conhecer melhor, em outras circunstâncias e, quem sabe, em outras páginas.

Uma citação:
''Somente quem não tem passado pode demorar-se na ilusão da felicidade. Quem tem uma história atrás de si, deve continuamente queimar detritos, acumular cinzas em seu caminho.''

03/02/2017

Marnie

De Winston Graham
Peguei aquela capa (já alterada pelo tempo de abandono numa estante qualquer) que mostra o rosto sério de uma mulher e a fotografia de uma criança triste, li aquele título que é um nome meio incomum, ‘’Marnie’’, e pensei: esse livro vai ser dramático. Leva um nome como título, tipo aquelas biografias de gente que sofreu muito pra vencer na vida, sabe?
Quando mergulhei na leitura me deparei com uma mulher decidida e que escolhe os próprios rumos sem hesitar. Nem um pouco melodramática ou piegas, ela vai se mostrando uma ladra de inteligência admirável que usa a esperteza e a beleza natural para arquitetar os planos que lhe angariam altas quantias em dinheiro, que ela usa para sobreviver e sustentar a mãe que mora distante.
Os roubos de Marnie ocorrem em espaços de tempo consideráveis, pois eles exigem uma estruturação complexa: Marnie, sob uma identidade falsa, se candidata a empregos em lugares em que facilmente se identifica o sucesso financeiro; grandes empresas, bancos, cargos que constantemente lhe permitem entrar em contato direto com dinheiro. Ela cria um novo nome para si, uma nova aparência, se relaciona com os colegas do novo local de trabalho com naturalidade, mas nunca se deixando revelar a fundo, nunca criando laços concretos. Com sua inteligência notável, ganha a confiança dos superiores e em semanas sobe de cargo nas empresas, ficando cada vez mais perto do encargo das quantias monetárias que tanto almeja. E, quando o momento se mostra oportuno, quando ninguém espera que aquela moça respeitável, dedicada e reservada cause algum tipo de alvoroço, ela dá o golpe, pega um bom valor em notas e some do mapa. Como criou personalidades que nunca existiram, não é difícil extingui-las de fato e se tornar ilocalizável.
No entanto, no livro só acompanhamos em ampla perspectiva um dos golpes de Marnie, cujas consequências se desenrolam ao longo das trezentas e uma páginas. Acontece que Mark, um dos líderes da empresa que ela rouba, se apaixona pela moça, e num golpe de sorte consegue localizá-la depois de sua fuga. Mark convence Marnie a voltar à firma, coisa que só é possível porque ele repôs o dinheiro roubado sem que ninguém percebesse, porque já estava apaixonada e queria poupá-la das consequências. Ela volta com ele e, quando ele propõe, acabam se casando. E é aí que começa o drama que eu esperava desde o início.
Acontece que Marnie só aceita se casar com ele e finge uma paixonite porque concluiu que era isso ou a cadeia. E, pior, ela tem pavor da relação entre homem e mulher, acha sexo uma selvageria, uma coisa animalesca, e o mais simples contato com Mark a repudia. É a partir desse ponto do livro que vemos a personalidade de Marnie em toda a sua complexidade. Ela deixa de ser aquela ladra convicta do próprio caminho e passa a ser uma moça que, olha só, é confusa, cheia de traumas, dramas e medos.
Depois de uma lua de mel totalmente fracassada, Mark compreende que não está lidando com uma moça de hábitos comuns (AHH VÁ), e a convence a começar a se tratar com um psicólogo, para ver se os dois poderiam, algum dia, realmente construir uma relação saudável –diferentemente do que estavam vivendo, cada um em um quarto/canto da casa, com conversas rodeadas de muita tensão e desconforto. Nessas consultas com o psicólogo nós também vamos nos aproximando da real pessoa Marnie, que vive se escondendo e fugindo da própria história e de si mesma. Nos capítulos que se seguem, se desdobra uma criatura nova, que não imaginaríamos encontrar depois das páginas que introduzem aquela ladra do início do livro. A pessoa que parecia totalmente apática e incapaz de nutrir sentimentos significativos se mostra, pelo contrário, uma ciatura intensa.  O autor conseguiu criar uma personagem profunda e complexa, cheia de dramas reais que envolvem o leitor.
As constantes personalidades que ela cria e a forma como vive imergindo a própria vida nesses teatros reais em que busca por dinheiro levanta questões sobre o interior da personagem. Sua relação com o dinheiro também; a maneira com que coloca sobre as somas que arranja a esperança de toda a sua autossuficiência toca o leitor atento. Pelo controle sobre a própria vida ela cria disfarces para todos os que estão ao seu redor, incluindo sua mãe. A única criatura a quem Marnie se mostra sem reservas é Forio, um cavalo ao qual ela se dedica em todo tempo que sobra de suas andanças.
Eu já falei aqui da coleção Grandes Sucessos (que eu roubei da biblioteca abandonada da antiga escola, mas não conta pra ninguém), e boa parte dos livros que já resenhei fazem parte dela. Tem sido uma experiência interessante fazer essas leituras, porque vi por experiência que não é todo livro aclamado pela crítica e que leva o título de ‘’clássico’’ que consegue me envolver de fato. Li muitos que me deixaram indiferente, mais do que o número de volumes que fizeram eu me envolver por completo.  Marnie foi uma das exceções; afundei até o pescoço nos conflitos dessa moça, e me identifiquei com sua confusão em vários momentos. Eu amo quando um bom escritor consegue retratar com clareza, de forma tocante e convincente uma personagem feminina complexa, e Graham decididamente fez um bom trabalho com Marnie, nesse aspecto e em muitos outros. Fiquei fascinada pela personagem. Os dramas dela não me pareceram do tipo que cansam o leitor com muito melação, e sim do tipo que instiga o espectador a querer descobrir a origem de tantos traumas, além de torcer do início ao fim para que a personagem encontre um descanso, um aconchego, uma saída de seus medos e problemas.
No fim descobrimos um pouco dos motivos de todos os sentimentos pesados que Marnie carrega no peito e que têm origem em sua infância. O final também trás sua dose de surpresa, e, melhor, a chance de torcermos mais por Marnie, diante da possibilidade de que ela se liberte de suas amarras emocionais, mesmo que de maneira conflituosa. Torci tanto por ela e Mark (ele é, sim, um cara legal), que aquilo, apesar de problemático, foi um alívio ante o desastre que eu estava começando a temer.

Ficou curioso(a)? Leia.

Uma citação:
''CONCENTRE-SE NO SOFRIMENTO DE ALGUÉM, EM VEZ DE SE CONCENTRAR NO SEU. CHEGA DE CHORAR TANTO POR SI PRÓPRIA E TRATE DE DAR UMA OLHADA PELAS REDONDEZAS. AFINAL DE CONTAS, OS SOFRIMENTOS DOS OUTROS NÃO SÃO TÃO DIFERENTES ASSIM.
'HÁ APENAS UMA SOLIDÃO NA VIDA', PENSEI, 'E ESTA É A SOLIDÃO DE TODO MUNDO.' ''