31/12/2017

Mescelânea - Dezembro 2017

ÚLTIMO POST DO ANOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO AAAAAAHHHHHHHHHH
Em dezembro relaxei um pouco na vida - e as leituras, principalmente, seguiram o mesmo fluxo. Com a molezite aliada a uma rotina mensal relativamente movimentada por causa de natal, réveillon e as correrias habituais de fim de ano, o saldo de livros lidos e filmes/séries assistidos não foi dos mais cheinhos.

Lidos
De Siobelee.art
Foram quatro livros em dezembro: Vozes de Tchernóbil (Svetlana Alexijevich), Insana - Meu Mês de Loucura (Susannah Cahalan), A Abadia de Northanger (Jane Austen) e Homens Sem Mulheres (Haruki Murakami).
Eu fiquei MUITO feliz em ler um livro da Svetlana porque há tempos queria conhecer o trabalho dessa mulher incrível e ela não me decepcionou nem um pouquinho. LEIAM JÁ, TODOS VOCÊS. (Esse também foi o livro do qual mais gravei e transcrevi trechos pro tumblr desde que criei a conta lá. Foram 50 trechos guardados que me exigiram DUAS HORAS de vida folheando as páginas pra encontrar meus grifos e passando tudo pro tumblr pelo celular.)
Insana também foi muito ótimo. História incrível de conhecer e escrita linda de ler.
Susannah é uma jornalista do Post e eu não sei se ela tem outros livros, mas torço muito para que a carreira de romancista da criatura não acabe aqui, porque me apaixonei pela escrita da mulher. <3
Por outro lado, sobre A Abadia de Northanger: fuen fuen fuen fuen total mais uma vez com a Jane Austen.
Nas primeiras vezes em que fui "reclamar" dela, ao ler Razão e Sensibilidade e Orgulho e Preconceito (PELO. AMOR. DO. PAI. alguém me explica o que as jovens veem no Mr. Darcy, por favor, porque toda vez que vejo alguém babando por ele como se fosse o cara dos sonhos eu concluo que devo ter alguma disfunção mental por discordar TANTO de todas nesse sentido), fiquei bem receosa. Afinal de contas, é A Jane Austen, amada por todos.
Mas olha, nessa terceira e obstinada tentativa de me encantar com a escritora, em que falhei miseravelmente de um jeito cabal MAIS UMA VEZ, eu tô é com raivinha. Frustração extrema com os livros dessa mulher, cês me desculpem (ou não, não dou a mínima).
Eles são muito bem escritos e impecáveis em sua construção, e se percebe aquele humor subliminar e satírico (que eu gosto) da Jane Austen por trás de cada linha, mas Eles. Não. Me. Dizem. Absolutamente. Nada.
Eu termino os livros e fico ?¿?¿?¿ Era pra isso me tocar de alguma forma? Me envolver? Qual foi a intenção aqui? Porque eu não peguei nada...
Fico completamente cagando pros personagens e pro rumo da história e se uma bomba explodisse tudo eu ia flexionar os ombros um pouquinho com cara de "fazer o quê?" e seguiria minha vida na completa paz.
Acho os personagens absurdamente chatos e insuportáveis. Quando falei de Orgulho e Preconceito, eu disse que se a intenção da Jane Austen era ridicularizar os hábitos e personalidades de sua época, ela foi completamente bem sucedida na tarefa, porque eu leio seus livros querendo mandar todo aquele povinho besta e mesquinho ir pra longe. Essa vontade se repetiu nessa terceira leitura.
O dramatismo exacerbado também acaba sendo um porre. É uma identidade narrativa de algumas dessas obras mais antigas e clássicas (se você ler Dracula ou Frankenstein, por exemplo, vai ver que os personagens são fatalistas num nível teatral que, hoje em dia, flerta com a comicidade), e sei lidar com isso de maneira compreensiva de modo geral, mas nos livros da Jane esse traço só consegue me cansar.
Eu ainda quero ler seus outros títulos restantes (sei lá por que tenho essa meta como leitora, "ler todos os livros da Jane Austen"), mas isso não vai ocorrer tão cedo, porque no momento tô com muita preguiça mental da mulher.
SIM
Homens Sem Mulheres é uma coletânea de contos do Murakami, com o título da última história do volume.
Acho essas coletâneas de contos de romancistas um pouco perigosas, porque geralmente elas me passam a impressão de que são uma junção de várias ideias que o escritor teve mas não achou onde colocar, então acabou criando um conto meio inconclusivo e vago pra cada uma, de um jeito que não convence muito.
Com esse livro do Murakami essa impressão me acometeu algumas vezes, mas não com todos os contos, e de maneira geral gostei de ter lido mais alguma coisa dele além da trilogia 1Q84. Ainda pretendo repetir a dose. :)

Assistidos
Foram dois filmes e três temporadas de duas séries diferentes maratonadas esse mês:

Uma Nova Chance Para Amar
Uma mulher de idade perde o marido de décadas que morre afogado, e enquanto se recupera da perda do grande amor da vida, ela acaba encontrando um homem fisicamente idêntico ao falecido parceiro, que também enfrenta uma situação delicada. Os dois iniciam um relacionamento, sem que ele saiba de sua semelhança com o antigo marido da nova namorada, mas as coisas começam a se complicar quando ela fica suspensa entre a realidade e a vontade de ter o marido morto de volta, flutuando entre o real e a ilusão que beira à loucura.
É um filme bem sensível, mas não vai mudar sua vida. Eu não diria pra investir um tempo precioso nele e não é o tipo de coisa que valeria a pena pagar pra ver no cinema, mas se estiver dando no corujão e você não estiver com um pingo de sono (#eu), assista.
Mas o complicado é que o filme nos faz torcer pelos personagens e aí... Enfim. =/
Anyway, quero envelhecer como a Annette Bening e ter um marido que envelheça como o Ed Harris, AMÉM.

Guardiões da Galáxia
AMO filmes de heróis e tava querendo assistir desde que vi a Emi falando sobre (mas ainda não vi o dois! =/), além de só ter ouvido críticas ótimas a respeito do filme.
Eu tava achando aquele grupo impossível atípico de um guaxinim falante, bicho-árvore (?), ETÉIA (?) verde, ET musculoso e um único humano uma mistura WTF demais (quer dizer, um guaxinim falante? Sério isso?), mas como todo mundo que se apaixonou pelo filme, a variedade absurda do grupo foi o que acabou me encantando.
O enredo segue uma fórmula bem clichê (um grupo inicialmente antipático que se une para defender a galáxia da destruição completa), mas a gente acaba não sentindo que já viu aquilo um milhão de vezes e que é só mais uma história como muitas outras, porque ele tem uma direção e elementos específicos únicos.
Gostei muito dessa nova trupe de heróis que tá tomando conta do cinema e do coração das pessoas e QUERO MAIS.
O único probleminha foi que, por falta de opção, eu vi na globo (raise your hands se você também tava sintonizado no 12 na última segunda só por esse filme), e mesmo sem conhecer a versão com áudio original deu pra perceber que a dublagem ESTRAÇALHOU grande parte do brilho da coisa. Quer dizer, sério que colocaram aquela voz no Michael Rooker (o Merle de TWD)? Vocês fumaram crack?!
Preciso ver em inglês urgente pra poder manter minhas esperanças no mundo.

Downton Abbey
Terminei as duas últimas temporadas da série esse mês.
Ela não virou uma favorita da vida, mas tem uma qualidade inegável em todos os aspectos, gostei muito, recomendo e ela é, sim, uma queridinha.
Já falei sobre o enredo aqui, então nesse post me limito a impressões mais particulares que só quem também assistiu vai identificar, porque preciso extravasar:
GAÇAZADEUS deram um desenvolvimento digno pra Edith ao longo da série, porque seria um crime deixá-la só como a irmã com poucos atrativos e meio ciumenta porque não é tão linda e não parece tão interessante quanto Mary e Sybil, como vimos na primeira temporada.
Quem sofreu mais, a Edith ou o casal Bates? Eis a questão. Nunca entraremos em consenso.
SEN. HOR. a chuva de desgraçamento daquela terceira temporada, hein, meuzamigos.
Ainda não sei se gosto ou se reviro os olhos pro Mr. Carson.
Mas o Barrow ainda deve ser o personagem de toda a história da dramaturgia moderna que mais conseguiu dividir meu coração e levá-lo a oscilações dignas de uma montanha russa do parque da Disney em Orlando (mas Beto Carrero: meu coração ainda é seu).
Gostei do final. Achei digno, achei justo, achei lindo.

Mad Men
Olhei a terceira temporada de Mad Men esse mês, depois de me arrastar como uma condenada pelas duas primeiras.
A série ainda não me fisgou, mas estou conseguindo me envolver mais, sim.
Mad Men tem um ritmo mais arrastado e lânguido, então não acho que seja bem uma série pra se maratonar, vendo sete episódios por dia; pode ser cansativo demais (talvez esse tenha sido meu erro com Gilmore Girls e por isso saí da maratona EM COMA, mas enfim, tarde demais pra me queixar...).
Eu estava planejando assistir aos episódios esporadicamente (ainda assisto com calma, cerca de um episódio por dia, bem diferente da insanidade com que vi Stranger Things, por exemplo), intercalando com outras séries, mas comecei a escrever sobre Mad Men e percebi que teria agonia de publicar o texto (já finalizado) sem ter concluído a série antes; eu ficaria com a impressão de deixar pontas soltas ou algo do tipo. Então estou terminando de assistí-la, e nossa relação está um pouco mais harmônica e empolgante do que foi nas duas primeiras temporadas. ;)
Como também já falei do enredo por aqui, não vou me alongar nisso de novo. Mas caso surja interesse, a wikipedia está aí pra salvar nossa vidas como sempre.

Links, LINKS EVERYWHERE
-Começo com a autopromoção descarada linkando meu perfil no CuriousCat, que (re)fiz recentemente, porque é necessário ter um lugar mais prático que o email e a caixa de comentários pra me comunicar com quem aparece por aqui. Acho que todo mundo da interneta devia ter um espaço assim principalmente as pessoas com que quero ter conversas mais longas mas não tenho ousadia o suficiente pra pedir o whats nem força de vontade pra mandar um email. É pra conversas toscas mesmo que eu criei a bagaça, então sigo firme.

-A JoutJout fez um vídeo falando sobre como ela repudiou o rosa por muito tempo porque era uma cor associada ao feminino, hostilizada por ela, que não se sentia nada feminina. Me identifiquei DEMAIS lembrando da verdadeira INQUISIÇÃO que fiz contra as peças rosas do meu guarda-roupa quando tinha uns 13 anos. Só tenho uma peça rosa hoje em dia (que ganhei) e ainda detesto a cor, mas agora por questão estética e não ideológica. ;) 

-Embora livros sejam a MINHA VIDA, só recentemente me aventurei por alguns canais literários. O Literature-se tem sido um dos meus favoritos e essa foi a melhor crítica de Lolita que já vi. (Ainda vou escrever sobre esse livro por aqui, EU SINTO.)

-O Jimmy Fallon perdeu a chance de ter um encontro decente com a NICOLE KIDMAN RAINHA DAS NOSSAS VIDAS e ela contou tudo no talk show dele, numa das entrevistas mais engraçadas (num nível vergonha alheia mesmo) que vi esse ano. 

-O Pipocando fez uma seleção com os melhores filmes de 2017 e eu gostei bastante, além de ficar me roendo pra assisti-los (a completa impossibilidade de ir ao cinema por causa da pobreza, ELA DESTRÓI VIDAS).

-O Alfonso Ribeiro fazendo a dancinha do Carlton no Dança dos Famosos americano (?) faz o coração doer de nostalgia.

-Um ex-engenheiro da Nasa transformou areia em líquido (?!?!?!) e colocou os sobrinhos pra brincar nela e MDSDOCÉU A CIÊNCIA É MUITO LOKA.

-O talento do Julius Horsthuis pra construir animações gráficas é incrível.

-Alguém PELOAMORDEDYOS inventa o Nobel do Realismo Artístico pra dar pro desenhista Marco Grassi, porque POR FAVOR.

-16 momentos históricos vistos por uma outra ótica; artigo-galeria muito legal na Superinteressante, com título autoexplicativo. Amo de paixão esse tipo de coisa, e minhas favoritas são as fotos 7, 9, 10, 11, 12 e 13. <3

-Duas mães denunciam o racismo, mas só uma delas é levada a sério; texto (é curtinho) na LadoM sobre a diferença de tratamento que Tais Araújo e Giovanna Ewbank, uma negra com um discurso desmerecido por muita gente e a outra branca que foi aplaudida por todos (nem preciso dizer que reconheço a legitimidade da luta das duas, né?), receberam ao denunciar a violência racial sofrida por seus filhos.

-E ainda sobre essa discrepância ridícula com que discursos de negros e brancos são recebidos, a Analu escreveu esse texto ótimo no Valkirias, transitando pela temática da novela O Outro Lado do Paraíso e abordando a mesma questão.
E concluo o post desejando feliz natal atrasado e boas festas com essa foto que tirei com minhas renas enquanto passeávamos no shopping da cidade, que levou dois amigos meus, imensamente sábios e certíssimos, a me chamarem de Rainha de Nárnia no instagram. #MelhoresZamigos #ACâmeraDoMeuCelularÉUmaDrogaEuSei

25/12/2017

Crisis

Tive mais uma crise das brabas, à qual esse blog não sobreviveu... Não plenamente, pelo menos; ele não morreu, mas levou um tombinho, sim. É a primeira vez que isso (esse espaço sofrer consequências diretas) acontece.
Eu ainda não tenho ânimo condições capacidade vocabular mínima estrutura emocional pra discorrer sobre isso de maneira concisa e nítida, mas basta dizer que o término de 2017 reservou desgraças e tristezas o suficiente pra que o último ciclo de 365 dias fosse elevado ao posto de Pior Ano Entre Os Últimos Anos, surpreendentemente ultrapassando 2016, coisa que eu achei que não aconteceria tão cedo.
O homem faz planos e a vida ri de escárnio, mastiga e cospe eles na nossa cara, como diz aquele dito popular, mais ou menos...
Eu tive uns dias que, olhando em retrospecto (e com moderada incredulidade, porque tive depressão e desde então adquiri uma consciência implícita de que nada poderia ser pior do que aquilo...), têm sério potencial de elencar Os Piores Dias da Vida de Um Ser Humano (no caso eu; não tenho nem 20 anos, então esse título é meio pretensioso, mas entendam).
E com piores MESMO dias da vida, não tô falando daqueles dias zoados num nível cômico que beira o teatral, que você poderia jurar que ganhariam espaço no trecho fracassado da vida da heroína de uma comédia romântica, com salto do sapato quebrando e fazendo ela tropeçar dentro de uma poça enquanto o vento vira o guarda-chuva do avesso no meio de uma tempestade que ela, coitada, pega no caminho de uma entrevista de emprego com a qual sonhou durante meses. 
Tô falando de ficar dias na cama, direto, sem ter ânimo pra levantar e tentando fingir pros conhecidos que é só mais uma cólica menstrual. Tô falando de passar o dia inteiro só com uma xícara de café e um pão seco com chimia que você comeu por pura encenação, porque a tristeza era tanta que a fome, esse instinto tão primitivo e natural, virou um conceito vago e descabido.
Tô falando de, basicamente, querer morrer. Ou dormir por um longo, longo, looooongo tempo, sem pausa pra comida ou banheiro que pudesse aflorar os pensamentos cotidianos agora insuportáveis.
Dormir, dormir, acordar e querer dormir, adormecer, acordar, lamentar, dormir, despertar, pesar, acordar, deitar, dormir. E assim 24, 48, 72 horas se passaram.
Pra poder dar a quem lê (tem alguém aí?) uma noção, estou escrevendo isso porque sou incorrigível da sala de espera do bloco cirúrgico de um ótimo e bem conceituado (graças a Deus; eu espero) hospital de grande porte aqui em Porto Alegre. 
Sala de espera é aquele lugar aflitivo em que você, sabendo da situação delicada e crítica de alguém que te é próximo e querido (afinal de contas, você não iria ficar parado por horas - mais de quatro, até agora - numa cadeira que não chega perto do conforto de um lar familiar por alguém que não é querido em algum nível), só pode parar e... Esperar. 
Incrível como a espera dói mais que muitas feridas. Mais que quase todas, ouso dizer.
Esses parágrafos acima contam um pouco (pouquinho mesmo) da história que desencadeou meu pequeno colapso, embora essas linhas breves não consigam transmitir um terço sequer do drama todo.
Mas o que eu estava falando é que me vi afundada numa crise horrível como poucas são, e como esse blog, de um jeito que é até bonito e querido pra mim, tem representado boa parte do que sou e sinto, quase como uma segunda entidade Carolínica pairando no mundo, ele acabou absorvendo isso de maneira contundente.
É engraçado como nossos perfis na internet acabam refletindo e abrigando uma parte tão significativa de nós, até mesmo nossa essência do momento, e viram alvos diretos de nossos despejos emocionais em meio a tribulações. Eu já excluí várias redes em momentos de crise existencial, e de um jeito quase bobo que só a geração millennial (por criação ou opção) habitante da internet deve entender, aquilo servia como uma fuga real que, de alguma forma que nem sei, suavizava uma guerra interna. Eu queria poder excluir minha existência por um tempo, mas como isso era impossível (sem recorrer ao suicídio, quer dizer), meus perfis na internet é que recebiam o golpe e eram eliminados.
Foi o que aconteceu com esse blog, por mais ou menos uma semana (não consegui aguentar o buraco da inexistência por muito tempo, notem).
Junto à minha crise com a existência, a vida e tudo mais, acabei pensando nesse endereço online despretensioso (really) que você, pessoa estranha, está acessando agora. 
Quer dizer, eu levo muito a sério (embora de maneira espontânea e inconsciente) o escrever pra mim mesma, acima de tudo. Porque é bom e porque me faz bem. Porque preciso.
Mas se é pra mim, faz sentido publicar publicamente (ignoremos a redundância, por favor)? Faz sentido sequer continuar? Não é idiota estar falando sozinha? E se na verdade for pros outros, como eu me sentiria sabendo que, com algo tão pessoal e íntimo para mim (a escrita), releguei meu contentamento a segundo plano, mesmo acreditando fielmente que esse deve ser o foco principal? E se for pros outros e poucos entre esses outros lerem, ainda faz sentido escrever? E se ninguém ler? Não é pretensioso demais? Não é tolo? Não é idiota achar que tem alguém aqui quando na maior parte do tempo essa página é um deserto?
Não sei. Eu ainda não consigo definir nitidamente o porquê de estar aqui, com esse espaço sendo o que ele é. Eu também estava convicta de que a existência dessa parte de Carolina na internet não seria abalada e seguiria plena e inexpugnável, com uma constância intocável até mesmo por mim.
Não queria tocar todo esse grande pouco no lixo por causa de uma crise qualquer, como vejo que acontece com muitos blogs extintos por aí (ocorrências sempre lamentadas por mim). Eu pensava (e queria pensar) nesse espaço como a única representação de mim na internet que seria plena e autônoma, uma espécie de porto seguro inabalável, porque esse blog me é necessário e fundamental demais pra ser esdruxulamente eliminado como uma conta no twitter, facebook ou ask.fm. Ele é intrínseco a mim demais.
Ele sou eu e somos um, é assim que eu queria que as coisas fossem. É assim que eu pensava nelas, por mais presunçoso que isso seja. 
Também não queria migrar pra outro blog na mesma plataforma, mudando de nome, endereço e tudo mais, nem para uma newsletter (que, francamente, fica aquém do veículo bloguístico em todos os sentidos, formato e praticidade, e eu não sei que raios de benefícios conseguem ver nelas além do aconchego da caixa de entrada, mas ok), médium ou sei lá, porque minha intenção era que o blog, esse website que já é um Pseudo Ser para mim, incorporasse minhas nuances e oscilações, minhas inconstâncias e até mesmo minhas crises (fail), e as reciclasse, afinal de contas assim é a vida, assim sou eu e assim eu quero que isso aqui, que vejo como uma extensão de mim, seja.
Então mesmo que tudo estivesse mal e errado, colapsando; ou ótimo, bom, maravilhoso... Do jeito que fosse, assim KraheLake ficaria e se manifestaria.
Não quero extinguir esse lugar. Quero que, apesar de tudo, ele permaneça. Sempre.
Mas não posso ter garantias, não é mesmo? Ninguém faz um blog pensando em excluí-lo, e as certezas de outrora são diluídas com o girar do ponteiro e o trocar do calendário.
Como dito e a despeito da prolixidade nesse texto, não sei elucidar com precisão e concatenar as palavras certas pra expressar graficamente as razões de manter isso aqui. Mas sei que verdadeiramente preciso disso. Pelo menos por enquanto (e espero que esse enquanto se prolongue indefinida e, ouso, infinitamente - tanto quanto a efemeridade a que estamos condenados permitir), eu preciso. Muito. 
E por mais que eu o encare com uma abordagem demasiadamente particular, não me incomodaria se alguém mais precisasse dele, nem que fosse um pouquinho, também.
Então permaneço.

21/12/2017

Insana - Meu Mês de Loucura

Da Susannah Cahalan
Poucos temas me atraem tanto quanto psicologia e transtornos mentais diversos. Pode ser fácil me enquadrar na categoria "carniceira" (o pessoal que gosta de desgraças e que popula o mundo e a internet com suas câmeras sempre em prontidão para captar os perrengues alheios), e eu geralmente tenho um pouco de receio de dizer que esses são assuntos que me atraem, dada toda a dramaticidade que permeia qualquer tipo de condição psicologicamente instável, mas eu gosto dessa pauta por dois motivos: a mente humana é simplesmente fascinante demais pra ser desinteressante e não chamar minha atenção e conversas a respeito de problemas psíquicos normalmente trazem narrativas das quais posso me apropriar um pouquinho, colhendo relatos e experiências aqui e ali que me digam um pouco sobre meu próprio histórico psiquiátrico (acho que posso colocar as coisas assim).
Eu nunca tinha ouvido falar desse livro, nem de sua autora, mas quando soube do que se tratava, e que era uma história verídica descrita pela jornalista que a protagonizou, trouxe pra casa direto, numa locação assumidamente impulsiva da qual não me arrependi.
Susannah Cahalan era uma jovem (24 anos) e dedicada repórter do New York Post, renomadíssimo jornal americano, com diversos textos publicados e vários outros em andamento. Uma moça simpática, bem humorada, falante e extrovertida (como ela e os conhecidos enfatizam diversas vezes ao longo do livro), com uma família, amigos e colegas de trabalho que gostavam muito dela, um namorado companheiro e gentil, um apartamento em Manhattan que ela dividia com sua gata, e toda uma carreira pela frente, no exercício de uma profissão que ela amava de paixão.
Tudo ia bem até que um dia ela começou a ter uma preocupação obsessiva com supostos percevejos que contaminavam sua casa e a picavam sem que ela visse; uma paranoiazinha básica. Logo depois, num ritmo assustadoramente rápido, ela passou a manifestar uma série de sintomas desesperadores em sequência: começou a ouvir vozes, ter experiências extracorpóreas e apagões de memória que duravam horas; desenvolveu uma sensibilidade extrema à luz, tinha picos de humor bizarros que a faziam rir, chorar e ficar histérica num intervalo de três minutos e também passou a sofrer de diversas alucinações. Além disso, frequentemente era acometida por convulsões que deixavam seu corpo inteiro duro, com os braços esticados pra frente feito um zumbi e com baba saindo pela boca, como um cão raivoso. Todo um quadro digno de um filme de terror com possessões demoníacas.
Em semanas a Susannah como a conheciam se perdeu de vista, dando lugar a uma moça completamente psicótica que tinha surtos no meio da rua e em balcões de lanchonetes; passou a ter mania de perseguição, alegando que pessoas aleatórias e até o próprio pai (que ela não reconhecia) queriam lhe fazer mal, além de sofrer de paranoia, vendo seu rosto em noticiários e jornais que contavam ao mundo quão louca ela estava - isso e toda uma sorte de outros fenômenos psíquicos que obliteraram sua antiga personalidade. 
Mas as alterações não se restringiam ao seu psicológico, e Susannah também passou a apresentar problemas graves de coordenação motora (ela falava, andava e se movia como um paciente em estado avançado de alzheimer, segundo a descrição de alguns médicos que trabalharam em seu caso) e aparente retardo (não conseguia responder a questões simples, escrever, desenhar um relógio, nem resolver problemas matemáticos rudimentares). 
Nessa altura do campeonato, a família já tinha internado a moça num grande e conceituado hospital de Nova York (desculpa, não consigo escrever ''Iorque''; meu coração dói e a mão entorta), e os pais, alguns amigos e familiares e o sempre presente namorado Stephen (desenvolvi uma crush pelo Stephen, ignorem) se revezavam cuidando dela e tentando coibir os surtos que a faziam arrancar a aparelhagem hospitalar que a auxiliava (diversos fios na cabeça, soro na veia etc) e sair correndo numa tentativa de fuga alucinada, como uma verdadeira psicótica.
Em uma semana ela era uma jovem normal e saudável, e na outra uma desvairada sem qualquer controle sobre si mesma.
Susannah Cahalan ficou completamente insana.
Os médicos, familiares e às vezes até a própria Susannah, nos raros momentos em que ela se deixava entrever em meio a toda aquela loucura (momentos que reacendiam a esperança de seus próximos com a consciência remota de que ela ainda estava lá, em algum lugar), se jogaram numa busca frenética pela doença que havia impulsionado sua mente a esse poço de inconsciência sem fim, depois que os primeiros diagnósticos óbvios (esquizofrenia, transtorno bipolar e até mesmo alcoolismo) foram descartados, ao passo que seus sintomas transcendiam os dessas patologias e a cada dia uma nova característica peculiar e perturbadora de sua condição era revelada.
Numa corrida desesperada contra o tempo - pois a cada dia sua condição se agravava e seu cérebro definhava mais num ritmo extremamente nocivo e possivelmente fatal -, foram realizadas dezenas de exames, experimentos, testes, avaliações, tratamentos, remédios e mais exames e testes all over again, com toda uma equipe de vários doutores, enfermeiros e dois renomados psiquiatras que ficaram semanas buscando uma explicação para O QUE RAIOS TAVA ACONTECENDO COM A CRIATURA?!?!?! a misteriosa condição da moça, numa investigação médica ao melhor estilo House M.D. (o seriado, não por acaso, é citado várias vezes no livro - é o favorito dos pais da Susannah), da qual os antes tão familiares e agora tão distantes normalidade e pleno restabelecimento de sua saúde - e vida - dependiam.
E é nesse fluxo frenético que acompanhamos a história de Susannah em seu mês de loucura - embora a cronologia da narrativa acabe abarcando períodos anteriores e posteriores ao seu diagnóstico, preenchendo mais de um mês, naturalmente.
Eu me apaixonei pela escrita da Cahalan (e não CaLAhan, note-se), porque além de ser uma exímia escritora, ela tem aquele bom humor cru, sutil e flexível que torna qualquer conversa divertida e leve sem que a gente perceba. O livro, então, apesar de abordar um tema tão pesado e dramático, acaba fluindo, na maior parte do tempo, com certa tranquilidade e mansidão, sem que tenhamos grandes percalços durante a leitura - o que não significa, de maneira nenhuma, que ele seja superficial em qualquer sentido.
Foi uma experiência um tanto peculiar e até comovente pra mim acompanhar detidamente o processo psíquico que levou Susannah da condição de uma mente sã a uma mentalidade completamente desequilibrada e insana, porque, como dito, é uma narrativa da qual posso me apropriar um pouquinho (embora não em mesma intensidade, claro), e esse tipo de identificação torna a leitura mais complexa e pungente - e extremamente tocante. 
Entre outras coisas, senti um verdadeiro medo ao ler as precisas descrições que ela faz, nos primeiros capítulos do livro, dos momentos em que sentia que sua mente estava se perdendo e sua sanidade se esvaindo.
Mas pra fugir da exposição pessoal, vale constar que a autora levanta vários questionamentos pertinentes a respeito da manutenção do sistema de saúde (como um todo, não se restringindo ao panorama isolado de cada país - no qual se enquadraria o SUS brasileiro, por exemplo) nessa obra. 
Vou partir do pressuposto de que você, lendo isso aqui, tenha inferido automaticamente que Susannah se recupera de sua misteriosa doença (cuja natureza você vai ter que ler pra descobrir, mas já adianto que foi um diagnóstico ao qual os médicos chegaram por pouco, tamanha era a peculiaridade da coisa), visto que escreveu um livro sobre a experiência e obviamente não daria pra ter obtido êxito nessa tarefa se ela tivesse continuado com a cabeça na piração mucho lok@ do período em que esteve internada.
Mas fato é que após sua recuperação ela escreveu uma matéria no jornal em que trabalhava, intitulada "My misterious lost month of madness", na qual esse livro é inspirado. E o artigo obteve um retorno gigantesco e significativo que ajudou a intensificar as reflexões que ela começou a fazer sobre as falhas do sistema médico desde que reconheceu que sua recuperação, possibilitada pelo diagnóstico correto da patologia que a afligia, tinha sido um TREMENDO golpe de sorte, quase um milagre. 
Vários emails pipocaram em sua caixa de entrada, vindos de diversas pessoas desesperadas porque tinham familiares que apresentavam os mesmos sintomas que ela descreve em seu artigo e que haviam sido relegados aos limites de um diagnóstico generalista que não oferecia esperanças de recuperação (tal qual os primeiros diagnósticos que Susannah recebeu antes de seus pais baterem o pé e dizerem que VOCÊS VÃO DESCOBRIR O QUE TEM DE ERRADO COM A NOSSA FILHA, SIM, CARAMBA, PORQUE CRISE DE ALCOOLISMO É UMA PINÓIA), e que condenava essas pessoas a uma vida em sanatórios e clínicas especializadas em transtornos mentais.
Susannah foi uma privilegiada por ter recebido cuidados de dois especialistas cuja participação em seu tratamento foi crucial e definitiva para o sucesso de seus resultados, e ela ficou muito ciente desse privilégio. Então começou a se perguntar quantas pessoas sofrendo da mesmíssima doença estariam mofando como doentes irrecuperáveis em sanatórios ao redor do mundo. Quantas não tiveram a mesma sorte que ela, de serem tratadas num dos hospitais mais bem conceituados de seu país, com dois especialistas incríveis, e acabaram encerrando sua luta quando receberam um diagnóstico errôneo de esquizofrenia, por exemplo? E quantas morreram (porque a doença era sim letal) porque lhes foi dito que todos os sintomas eram sinais de uma crise de abstinência alcoólica e receberam um tratamento errado e voltado a isso, que não lhes deu qualquer chance de recuperação?
Ela contatou o médico que a dispensou dizendo que aquelas alucinações eram fruto do alcoolismo e percebeu que, tendo que atender um alto numero x de pessoas num pequeno número y de horas na clínica em que trabalhava, não era surpresa nenhuma que ele tivesse chegado a um diagnóstico raso, visto que só conseguia ter, sei lá, dez minutinhos rápidos, no máximo, de conversa com cada paciente. 
E essa situação não era um caso isolado, uma exceção; era a regra. Susannah, com a doença que teve, obtendo sucesso no tratamento e conseguindo a plena recuperação, é que era a exceção.
Seu artigo foi um marco na divulgação daquela doença, que abriu os olhos de muita gente (pacientes, familiares/amigos de pacientes e médicos) e, inclusive, chegou a salvar vidas - além de apontar falhas graves na esfera do sistema de saúde -, tamanha foi a importância de seu alcance.
São várias questões e a jornalista disserta com propriedade e lucidez sobre elas nos últimos parágrafos de seu livro, trazendo várias informações e dados esclarecedores.
Apesar de saber conduzir toda a narrativa a respeito do drama pelo qual sua doença a fez passar com leveza, a história de Susannah é um relato vívido e cruel, até visceral, difícil de encarar, porque ela expõe sem dó a fragilidade da nossa mente e quão sensível e suscetível ela é a danos estimulados por fatores externos e internos, aos quais muitos de nós estão sujeitos - e sobre os quais não temos controle algum.
Ao ler Insana, o sentimento que fica, além de uma sincera fascinação pela intrincada complexidade do nosso cérebro, é um pouquinho de medo e receio também, porque Susannah viveu mais de vinte anos sem saber que tinha um gatilho no cérebro pronto para ser puxado, desencadeando uma série de insanidades que imergiram sua mente numa loucura irrefreável que anulou sua existência durante um bom tempo, e não dá pra saber quantos de nós estão no mesmo barco... Sem falar daqueles que sabem já ter embarcado nesse curso há muito tempo.
Esse livro virou um favorito da vida pra mim, e apesar dos assombros - embora eu esteja muito inclinada a dizer que justamente por causa deles -, eu recomendo muito que você, seja lá quem for, leia já. ;)

A MENTE É COMO UM CIRCUITO DE LUZINHAS DE NATAL. QUANDO O CÉREBRO FUNCIONA CORRETAMENTE, TODAS AS LUZINHAS PISCAM E BRILHAM E ELE SE ADAPTA BEM O SUFICIENTE PARA QUE AS DEMAIS CONTINUEM ACESAS, CASO ALGUMA DELAS QUEIME - O QUE OCORRE COM CERTA FREQUÊNCIA. MAS, ÀS VEZES, DEPENDENDO DO PONTO EM QUE O DANO FOR CAUSADO, UMA ÚNICA LÂMPADA QUAIMADA É O SUFICIENTE PARA QUE TODO O FILAMENTO FIQUE NO ESCURO.”

12/12/2017

Vozes de Tchernóbil

Da Svetlana Aleksiévitch
Comecei a ouvir sobre o trabalho da jornalista Svetlana há pouco tempo, quando li pela primeira vez artigos sobre seus livros-reportagem que contam histórias antes ignoradas pelo mundo e pelo entretenimento popular, publicados no Brasil só em 2016. Ela nos apresenta narrativas de pessoas de verdade que passaram por eventos reais, adquirindo uma carga de conhecimentos vívidos que só cabe aos protagonistas - muitas vezes vítimas - de experiências verídicas, as quais geralmente é difícil rememorar. A famosa literatura da vida real, um dos gêneros textuais que mais me atrai.
Eu logo soube que ia amar conhecer o trabalho dessa mulher e que afundar nesses textos e nessas histórias seria uma experiência única e fascinante; por isso, quase gritei quando vi esse livro perdido (e deslocado) nas estantes de ficção da biblioteca, e o trouxe pra casa ainda mais interessada (e até mesmo empolgada, admito) ao ver que se tratava desse evento tão marcante, memorável e cruel da história humana: a explosão na usina nuclear de Chernobyl, na Ucrânia (onde nasceu Svetlana), a poucos (ainda mais se levarmos em conta a rápida e letal disseminação radiativa) km da fronteira com a Bielorrússia (onde Svetlana cresceu), áreas então sob a jurisdição da União Soviética.
Durante mais de vinte anos a escritora pesquisou, coletou material e entrevistou pessoas que foram atingidas pelo acidente das mais diversas formas para escrever esse livro, uma das mais emblemáticas obras da carreira dessa vencedora do Nobel de Literatura 2015. Cerca de 90% do volume é composto pelas entrevistas e relatos que ela colheu de terceiros, e embora as vozes que mais ouçamos aqui não saiam diretamente dos lábio de Svetlana, sua presença paira sobre o livro inteiro, em cada página. Fica nítido o envolvimento e a coautoria dela, o timbre também da voz dela se unindo em conjunto aos relatos e sentimentos de seus entrevistados, porque Svetlana não escreveu esse livro só pra ouvir e revelar a história de outrem, mas também pela necessidade pungente, e gritante dentro dela, de destrinchar a própria história, dissecar e descobrir o antes inexato tom de uma narrativa que ela divide com as pessoas que aparecem em sua obra. A autora, afinal, também é uma russa nascida na terra em que o desastre ocorreu, uma menina que cresceu nas regiões próximas à explosão do reator - acontecimento, este, que assombrou toda a sua vida e que permeou sua existência e a memória de seu país. 
A história de Chernobyl é também a história de Svetlana. Entre as pessoas de Chernobyl (''o homem e a mulher de Chernoby'', que como uma entrevistada diz em dado ponto do livro, se apartam do resto do mundo, diferenciando a humanidade entre pessoas normais e pessoas de Chernobyl), também está ela.

''Se antes, quando escrevia os meus livros, eu observava o sofrimentos dos outros, dessa vez éramos, a minha vida e eu, parte do acontecimento. Fundiram-se numa só coisa, não havia distância.''

Num dos poucos, mas preciosos, momentos do livro em que a autora fala diretamente conosco, sem estar subentendida por trás da voz de um entrevistado, fica clara sua insatisfação com o que foi difundido e popularizado com maior abrangência sobre Chernobyl até então: ela não estava mais contente com artigos científicos recheados de termos e conceitos técnicos, com reportagens/filmes/documentários que alardeavam as consequências grotescas da explosão, reveladas através de deformidades e anomalias físicas, nem com os dados veiculados nas grandes mídias, cheios de números, porcentagens e nomes de autoridades governamentais e instituições. Svetlana queria contar ao mundo e escrever um livro sobre a história das pessoas, sobre o mundo que restou a quem ficou após o desastre, sobre o cotidiano daqueles que são lembrados todo dia de que sua terra abrigou o maior acidente nuclear da humanidade. Ela queria falar das pessoas, da história das pessoas, e não do átomo. E é por isso que ela escreveu esse livro.
Viajar entre essas palavras é uma experiência tocante e sensível, porque vemos o quanto a memória desse povo gira em torno desse evento ocorrido há mais de trinta anos, mas que é rememorado todo dia por aqueles que viram sua terra, tão amada e especial, se tornar venenosa e nociva em questão de horas. Essas vozes ecoam que Chernobyl não é lembrada só como um evento, um episódio, um ocorrido; Chernobyl virou a cultura dessa gente, algo em que pensam todo dia, uma consciência e lembrança constantes que carregam consigo pra cima e pra baixo - muitas vezes travestidas de medo e sempre com uma tristeza nostálgica.

''Tchernóbil para elas não é uma metáfora ou um símbolo, mas a sua casa.''

Svetlana teve o cuidado de entrevistar toda a sorte de sobreviventes do desestre, para que o maior número possível de ângulos fosse abordado, resultando num panorama final bastante completo e diverso. É tão comovente transitar entre a história de esposas de bombeiros e liquidadores (responsáveis por eliminar os detritos radiativos da explosão) que pularam janelas, escalaram paredes e enfrentaram médicos e enfermeiras para cuidar de seus esposos moribundos no leito de morte, que padeceram de forma cruel e gradativa em sua frente; ouvir o lamento de mães que deram à luz filhos frágeis, doentes e cheios de anomalias, que morreram poucos dias depois ou que passaram a vida morando em hospitais, oscilando entre vida e morte; ler sobre crianças (há um capítulo inteiro, muito tocante, dedicado só às vozes delas) que deixaram pra trás, chorando inconsoláveis, seus bichinhos de estimação (cachorros, gatos, hamsters com comida pra dois dias na gaiola), que nunca mais reencontraram, porque não foi permitido levar animais, já contaminados pela radiação, na evacuação; saber de famílias que escreveram frases de despedida e lamento nas paredes de suas casas (''adeus, casa amada!''; ''se entrar aqui, pode levar tudo, só não machuque nosso gato''; ''essa casa querida pertenceu à família Petróvna''; ''sentiremos saudades''), antes de serem removidas da cidade; ler sobre a triste tarefa do membro de um grupo encarregado de matar todos os animais de grande e médio porte que ficaram na região (inclusive os bichinhos de estimação dos antigos habitantes), para que eles não levassem a radiação a outros lugares (um dos capítulos que mais me desgraçou); e, claro, saber também daqueles senhores e senhoras que amavam sua terra e se recusaram a deixar suas casas, brigando com unhas e dentes com os responsáveis pelo transporte dos moradores a outra região e esvaziamento da área.
Chernobyl abriga vários tipos; de relatos, de sentimentos, de histórias e de pessoas, e Svetlana fez um trabalho incrível captando e registrando a maior variedade de narrativas possível.
Outro aspecto a mencionar, que cito aqui resumidamente, é a negligência das autoridades soviéticas e de gestores da usina nuclear, que, "pra não causar tumulto e desespero", ocultaram informações cruciais dos habitantes da região, que só ficaram inteirados acerca da gravidade da situação quando vários danos à sua saúde já tinham sido provocados. Os primeiros bombeiros que se dirigiram ao "incêndio" não tinham ideia da nocividade do que enfrentavam, para eles era mais um um incêndio normal, e há vários relatos de poucos privilegiados que souberam quão severa a situação era e que saíram da cidade de antemão, sem terem a permissão de alertar os vizinhos para "evitar pânico", mas aflitos por ver crianças de famílias desavisadas brincando na terra e na água, ambas com contaminação avançada.

''Hoje, como eu entendo... Sim, podemos tirá-los [os pequenos, as crianças] do país e levá-los para se tratar. Mas como devolveremos a eles o mundo de antes? Como lhes devolveremos o seu passado? E o seu futuro?''

Há muitas outras facetas desse livro que não abordarei aqui com a devida atenção para que a resenha não fique inescrupulosamente grandeMas além de não querer me alongar nesse texto, também reconheço que há muitas coisas entre essas páginas que precisam ser explorada por cada leitor individualmente. Essas histórias precisam ser lidas, e sabendo dessa necessidade não tenho a intenção de revelar todos os pontos aqui; você deve ler e conhecer essas narrativas por conta própria. As pessoas retratadas através dessas palavras e esse livro como uma obra integral merecem sua atenção.
Durante a leitura, uma coisa que me sensibilizou bastante foi perceber com certo assombro quão ignorante eu era da existência desse povo e dessas narrativas. Me senti quase negligente por desconhecer durante tanto tempo a história de um acontecimento tão significativo para a tragetória do mundo e da humanidade, porque ao fim desse livro algo que fica nítido para o leitor é a importância de saber sobre o que aconteceu em Chernobyl e sobre como isso afetou e continua afetando a vida de diversas pessoas. Devemos ter essa consciência.
Vozes de Chernobyl é uma obra tão, tão importante porque ela expõe o que antes esteve oculto, porque ela dá voz a narrativas silenciadas, porque ela tira das sombras rostos, nomes e histórias que antes eram desconhecidos e que precisavam vir à luz. Esse livro é uma parte (uma grande parte) de nós, a humanidade; uma fatia da nossa trajetória no mundo, um testemunho histórico de um evento que não pode ser esquecido e sobre o qual devemos refletir sempre, porque não é nada insignificante o que é tratado aqui: Chernobyl é como lidamos com o fim, com a guerra, com o apocalipse, com a morte, com a natureza e com nós mesmos, e essas questões acompanham a humanidade desde seus primórdios.
Svetlana escreveu um daqueles emblemáticos livros que devem ser lidos e conhecidos por todos - pela realidade que ele carrega e pelo simbolismo atrelado a ela, com sua gama de significados. 
Mas além disso, Vozes de Chernobyl é uma obra que, antes de ser lida, deve ser encarada, porque as ruínas que ela retrata refletem imagens projetadas pelo âmago de muitos de nós.

''ESSE LIVRO NÃO É SOBRE TCHERNÓBIL, MAS SOBRE O MUNDO DE TCHERNÓBIL. SOBRE O EVENTO PROPRIAMENTE, JÁ FORAM ESCRITOS MILHARES DE PÁGINAS E FILMADOS CENTENAS DE MILHARES DE METROS EM PELÍCULA. QUANTO A MIM, EU ME DEDICO AO QUE CHAMARIA DE HISTÓRIA OMITIDA, AOS RASTROS IMPERCEPTÍVEIS DA NOSSA PASSAGEM PELA TERRA E PELO TEMPO. ESCREVO OS RELATOS DA COTIDIANIDADE DOS SENTIMENTOS, DOS PENSAMENTOS E DAS PALAVRAS. TENTO CAPTAR A VIDA COTIDIANA DA ALMA.''

05/12/2017

O Amor Começa no Inverno

Do Simon Van Booy
Existem livros bons, ótimos e maravilhosos, cuja qualidade, gostos à parte, ninguém questiona. Esses livros ganham prêmios, menções, fãs e notoriedade, além de render muito dinheiro - o que é ótimo; eles são bons mesmo. Merecem.
Mas existe uma outra coisa também: livros que não são só bons ou ótimos, mas preciosos. Esses a gente encara como as pérolas raras que eles são, agradecendo pelo iluminado momento em que, depois de hesitar e ponderar um pouco, enfim decidimos tirá-los da estante pra levar pra casa, graças a Deus!, mesmo que nunca tivéssemos ouvido falar no título ou no nome do autor. Porque existem muitos livros bons, mas a gente (nós, os leitores) sabe que os verdadeiramente preciosos, que nos fazem ter vontade de agradecer ao universo pelo nascimento do(a) artista que os criou, são um em mil ou um milhão.
Só que claro, cada leitura é uma experiência íntima e pessoal, e não se pode afirmar como verdade absoluta que um livro será recebido por todos os leitores da mesma maneira. Ainda assim, O amor começa no inverno, para mim, foi uma verdadeira preciosidade. Uma jóia rara, uma espécie de bênção.
"Nossa, que bom que eu trouxe isso pra casa."
A escrita de Van Booy é poética, daquele tipo que parece conter o sentido da existência em cada linha, em cada ponto, no espaço entre uma palavra e outra. Numa mesma página ele me levava a parar de puro encantamento diversas vezes, encarando diferentes frases suas, pensando que meu Deus, como isso é lindo, como essa escrita é linda, como a vida através das palavras desse autor é linda. Risquei no livro (com lápis, porque é da biblioteca e eu vou precisar apagar depois de passar os trechos amados pro tumblr) as frases que me encantaram mais vezes do que seria aceitável pra borracha já gasta que eu vou ter que usar pra remover meus traços toscos depois, porque aqueles versos eram tão belos que eu não me perdoaria se os deixasse pra trás.
Em 221 páginas Van Booy nos conta cinco contos, cinco histórias sobre a vida de diversas pessoas diferentes. Todas elas transbordam sentimentos profundos e ancestrais que só quem faz parte desse espetáculo chamado vida pode reconhecer - ainda bem que todos nós fazemos; pena que teimamos em esquecer disso. Mas essas histórias estão aqui para lembrar a quem quiser ler, de forma intensa e com palavras poéticas de significados nem sempre fáceis de digerir, como existir é uma experiência tão densa, arrebatadora e intensa, e quão incrível é o simples ato de sentir. 
Em poucas linhas (o livro é curto, afinal) o autor nos faz mergulhar naquelas vidas que ele retrata e que parecem tão absurdamente reais e sensíveis, e essa é uma viagem sem volta da qual só nos libertamos (parcialmente, porque é impossível não ficar sentindo muito mesmo após o fim) ao término da ultima página.
Já disse por aqui que o que catapulta ou não livros lidos à minha estante de favoritos é o quanto eles me fazem sentir (da maneira que for), e esse livro elevou essa capacidade a seu nível máximo: eu ficava absolutamente boba, derretida e desconcertada ao fim de cada conto (por mais que uns sejam melhores do que outros), encarando a última página sem conseguir elaborar um pensamento coerente sequer.
O dom de Van Booy, como um crítico (de ótimo julgamento), fez questão de apontar, é, antes de ter uma escrita complexa e personagens bem desenvolvidos, conhecer a fundo a alma humana - e passar esse conhecimento pro papel com pureza, fluência e plenitude.
Eu não vou me alongar demais nessa resenha, porque o espaço pra descrições sobre o enredo não vai ser muito explorado, já que falar das cinco histórias seria muito dispendioso (ainda mais quando eu tenho um problema de "inchações na escrita", como já disse Stephen King, e me alongo demais). Mas fica aqui o registro de que minha favorita foi a primeira, cujo título também dá nome ao livro, sobre um violoncelista chamado Bruno e suas pedras, que encontra a moça Hannah e suas sementes, ambos feridos emocionante e carregando um peso debilitante originado no passado. 
Leiam pra descobrir o resto. Me fez sentir demais.
Eu peguei esse livro pensando que só faria uma menção breve a ele aqui no fim do mês, porque faz mais sentido pra mim escrever resenhas sobre histórias integrais, não coletâneas, como é o caso. Ele serviria como uma folguinha nas minhas resenhas, durante a qual eu poderia me debruçar sobre outros textos que estão nos rascunhos há um tempo. Mas no meio da primeira página (sim), mais ou menos, eu soube que ele me tocaria demais pra que eu o reduzisse só a algumas linhas rasas, e não a um texto inteiro. Eu não conseguiria me permitir tal omissão (sem querer ser piegas mas já sendo).
O Amor Acontece no Inverno me cativou demais. As palavras de Van Booy conversaram comigo como poucos autores conseguiram até então. Gosto dessas coisas que nos lembram como a vida pode ser linda, feliz... Ou triste e feia, do jeito que ela for. Mas de um jeito ou de outro, ela continua, acontece e é especial, e isso me aquece o coração.
Esse foi o único livro do autor que li até então, o segundo publicado por ele (o primeiro também era uma coletânea de contos), mas sei que ele tem pelo menos um romance por aí (segundo a orelha do livro), e fiquei com muita vontade de ver o que esse cara consegue fazer com uma história que correrá por mais de setenta páginas (mais ou menos o número de páginas do maior conto), porque se ele conseguiu me conquistar em dois parágrafos e com vários contos rápidos e pequenos, um romance inteiro parece uma experiência muito tentadora.
Tô querendo aumentar o cânone dos meus escritores favoritos da vida (de quem já li mais de um livro, no caso), que não tem visto nomes novos há um tempinho, e ele parece ser uma boa aposta.
Declaro oficialmente iniciada a temporada de caça a livros do Simon Van Booy nas estantes do (meu) mundo.

''ENTÃO ELE PENSOU NA IDEIA DE UM MUSEU: O REGISTRO FÍSICO DAS COISAS; A HISTÓRIA DE MILAGRES; O MILAGRE DA NATUREZA E O MILAGRE DA ESPERANÇA E DA PERSEVERANÇA, ARRANJADO PARA NUNCA SER ESQUECIDO, OU PERDIDO, OU SIMPLESMENTE CONFUNDIDO COM COISAS COTIDIANAS SEM IMPORTÂNCIA.''

30/11/2017

Mescelânea - Novembro 2017

O mês livrístico e cinematográfico até que rendeu... pena que a vida insiste em não seguir o mesmo ritmo. Mas vamos lá.
Lidos
Da annyamarttinen (de novo)
Foram seis livros lidos em novembro (esse número se repetiu bastante nos últimos meses, coincidentemente): 1Q84 - volumes 2 e 3 (Haruki Murakami), Múltipla Escolha (Lya Luft), O Amor Começa no Inverno (Simon Van Booy), Mar Inquieto (Yukio Mishima) e Charles Darwin - Personagens que mudaram o mundo (Anna Sproule).
Terminei os dois últimos livros da trilogia 1Q84, que já resenhei aqui, e repito: leiam. É bizarrinha de um jeito ótimo e virou uma favorita, apesar dos pesares.
O Amor Começa no Inverno é uma coletânea de contos desse autor que eu não conhecia, Simon Van Booy, e achei o livro lindo demais pra não escrever detalhadamente sobre, numa resenha já pronta que vai sair daqui a pouco. Por hora, fica mais essa recomendação histérica: LEIAM.
Sobre os que não resenhei/não vou resenhar:
Múltipla Escolha é mais um daqueles livros da Lya em que ela fala diretamente com o leitor, como numa crônica estendida. Nesse ela desconstrói algumas convenções e pensamentos enraizados que limitam e alienam as pessoas.
Quando leio e penso na Lya Luft, imagino uma mulher que viveu muito, observou muito e aprendeu muito, e que, depois de toda a sabedoria adquirida, se senta numa cadeira vendo o mundo acontecer e escreve aos seus leitores tudo o que aprendeu sobre a vida, na esperança de tentar mudar pra melhor o universo de cada um. Tive o mesmo sentimento com esse livro. Recomendo muito, claro.
Mar Inquieto eu peguei porque tava a fim de ler mais um livro de autor(a) japonês(a) e esse pareceu bonitinho (julguei pela capa e pela fonte oriental fofinha do título, não nego). Li a sinopse que diz ser sobre um garoto pescador numa ilha reclusa que conhece e se apaixona por uma forasteira que chegou lá há pouco e pensei que seria um livro sensível, bonito, delicado... Mas foi bem mééh, insípido, tedioso e sem graça.
Sabe aquele GIF do John Travolta em Pulp Fiction, um baita meme, em que ele fica procurando alguma coisa enquanto gesticula confuso? Foi assim que fiquei ao fim desse livro, tentando entender por que ele foi escrito.
Se existe um motivo pra vir aqui falar de livros que me deixaram completamente indiferente, é poder advertir quem está me acompanhando aqui (tem alguém aí?) de que a leitura não vale a pena - mesmo que o escritor tenha cometido suicídio ritual ao término de sua última obra, e desgraças naturalmente atraiam a curiosidade alheia...
Não recomendo.
A biografia do Charles Darwin é de uma série sobre a qual já comentei na mescelânea passada. As edições são muito boas, com uma linguagem simples, várias imagens e informações passadas através de tópicos curtos (mas suficientemente elucidativos), já que, como descobri quando folhei todos os volumes que tenho, cada um tem exatamente 60 paginas (+ notinhas).
O legal dessas biografias é que a imagem intocável dessas grandes personalidades é desconstruída um pouquinho quando a gente descobre que elas eram gente como a gente: que Darwin colocava a cama dos filhos dentro do escritório em que trabalhava quando eles estavam doentes, pra ficar sempre próximo a eles (own); que ele pedia pra que eles observassem e perseguissem (haha) as abelhas e insetos do pátio, pra ajudar na pesquisa dele, e que ele deitava no meio da grama sob a sombra das árvores quando a família ficava no jardim à tarde, pra ficar em contato com a natureza que ele admirava tanto. ;) Sabe, esses detalhes que a gente não imagina que também existiram na vida dO Grande e Admirável Darwin.
Recomendo bastante a série (editora Globo).
Assistidos
Foram três filmes vistos e quatro temporadas de uma série maratonadas esse mês.

Capitão Phillips
Minha cunhada organizou uma festa surpresa modesta (só família) pro meu irmão na casa dela, e depois de nos empanturrarmos, eu, ela e ele assistimos a esse filme na netflix.
É baseado na história real de um capitão (eu me sinto muito em Piratas do Caribe falando "capitão", altas emoções) de um navio cargueiro que atravessava uma região marítima do continente africano famosa por sofrer saques de piratas. E os piratas vêm mesmo, tentam ferrar tudo, tocam o terror na tripulação com metralhadoras e ameaças, e o capitão, como responsável supremo pela embarcação, tem que tentar manejar a situação e manter a tripulação em segurança, pondo-se em perigo por ela sempre que preciso.
Se me dissessem que as duas horas de filme se passariam apenas dentro de um navio e de um submarino, eu poderia ficar meio desanimada pela perspectiva de imobilidade (o submarino é MINÚSCULO e a câmera fica cerca de uma hora inteira só dentro dele), mas em nenhum momento o filme fica arrastado ou ruim por conta disso; muito pelo contrário, a perícia com que as cenas são dirigidas faz com que não nos entediemos em nenhum momento, apesar do cenário limitado, e cada minuto de filme é um ataque cardíaco diferente. Incrível.
Tom Hanks (que homem) está sendo Tom Hanks (assim mesmo, como um elogio - porque é mesmo) o tempo inteiro e entrega uma atuação de deixar a gente com vontade de abraçar o cara e agradecer por ele ter nascido, porque que atorzão da por**.
Umas curiosidades sobre esse filme: o roteiro da cena em que os piratas invadem o navio não foi inteiramente passado ao Hanks, então ele acabou improvisando mesmo, com uma surpresa real e sincera a cada movimento ameaçador dos saqueadores. Um brinde ao realismo pelo qual o diretor zelou na hora de filmar essa pérola.
Outra curiosidade é que boa parte (senão todos, não sei) dos atores escalados para os papéis de pirata eram completos amadores e reais moradores daquelas regiões miseráveis retratadas, treinados só pra fazer o filme, seu único trabalho no cinema (sim, eu acompanho uns canais de cinema pra saber dessas coisitas).
Ambas as decisões da equipe de direção do filme renderam ótimos frutos e tenho que recomendá-lo aqui, porque OLHA: ÓTIMO. VEJA AGORA SOB PENA DE [insira aqui seu maior medo].

Mandela: Longo Caminho Para a Liberdade
Eu, o Mateus e a Taiane (meus irmãos) vimos numa noite de sábado, na Globo (porque TV aberta é a única opção aqui). Os dois tavam se rendendo ao sono e pensando em abandonar a sessão, mas ao passo que o filme ia se desenvolvendo eles iam se ajeitando no sofá, e ficamos vidrados até a madrugada (são duas horas de filme, mais ou menos).
Morgan Freeman (esse homi <3) em Invictus sempre será meu Mandela favorito (depois do próprio Mandela, claro), e no início foi um pouco difícil me acostumar com o Idris Elba no papel, mas depois a coisa fluiu.
Era uma dor atrás da outra atingindo o coração da gente, sentados nos sofá e vendo as injustiças terríveis que fizeram pra coibir a luta por igualdade do cara, especialmente quando ele esteve por mais de 20 anos (!) na prisão. Eu e o Mateus víamos as cenas (extremamente incômodas) praguejando e falando como, se fosse conosco, íamos matar todo mundo bem lentamente e tacar fogo na por** toda assim que tivéssemos a chance. Sabe quando você pensa "aaaahhh, não, mas se encostarem nele e fizerem alguma coisa contra ele mais uma vez eu invado essa TV de merda, espanco todo mundo e toco o terror em tudo!!!"? A gente fica o filme inteiro assim.
Então, por nos projetarmos no lugar dele e naquela situação, fica mais incrível ainda ver o pacifista que Mandela foi, saindo de lá pregando a paz e sem instigar a comunidade negra (insatisfeita e querendo justiça, óbvio) a estripar os coleguinhas racistas que vissem pela frente.
O filme acaba quando ele é eleito, mas a gente passa por muito drama, choro, sofrimento e raiva até lá. Mas já recomendo (de novo) Invictus, cuja narrativa se desenvolve a partir do momento em que ele recém começa a exercer o cargo (também tem muito drama, choro e raiva depois disso, fica a certeza de que o ser humano é mesmo uma bela bosta o aviso), quase como uma continuação.
Mandela: o maior homão da por** entre todos os homões da por** que já existiram.

Amor à Toda Prova
Que nome porcaria deram no Brasil, hein. Crazy, Stupid, Love é bem melhor.
Esse filme é velhinho, até, mas eu ainda não tinha visto em nenhuma das TROLHOCENTAS vezes que passou na globo.
É um daqueles filmes que desenvolve a trama de vários personagens diferentes, até que a gente descubra como elas se conectam (e eu ADOREI esse spoiler final; a zorra que rola no fim é bem o tipo de baderna que me faz feliz no sofá da minha casa #imatura).
Tem um cara (Steve Carell <3) traído pela esposa, depois de anos de casamento, que fica na fossa até virar projeto de um gostosão (Ryan Gosling) que quer ensinar ele a "despertar a própria masculinidade" (pfvr) pegando todas por aí (bem estereotipado, eu sei); tem a garota (Emma Stone <3) recém aprovada no teste de direito que se joga na cama (ou tenta) com o gostosão depois de uma desilusão amorosa; tem o filho do cara quadradão que é apaixonado pela própria babá, que por sua vez é apaixonada pelo pai dele (#a#vida#é#uma#merda); tem a mulher (Julianne Moore <3) que pediu o divórcio do caretão e tem suas próprias desilusões e motivos, e por aí vai. Uma salada de frutas bem divertida com um final digno de circo.
Foi uma das melhores comédias que vi no ano (vocês já perceberam como é difícil achar comédias boas?). Me proporcionou risadas necessárias depois de uma semana péssima e eu recomendo demais pra quem quiser fugir da vida com uma produção engraçada e despretensiosa, a nível comfort movie total. Tem todas aquelas piadas e momentos constrangedores de vergonha alheia que me confortam com a certeza de que #Não #Estou #Sozinha #Nessa.
E tem esse elenco querido pra somar pontos também, né (eu já falei que adoro a Julianne Moore?, mas repito: adoro a Julianne Moore)(e plmdds, os olhos da Emma Stone são maravilhosos)(Steve Carell me faz rir sem fazer nada, basta ele aparecer na tela que eu já tô morrendo engasgada no meu próprio riso, É UM DOM)(o Ryan Gosling tem cara de bebê demais pra que eu consiga me sentir fisicamente atraída, desculpa).

Downton Abbey
Vi as quatro primeiras temporadas (são 6) de Downton Abbey esse mês. Comecei a ver porque me pareceu bonitinha mesmo, queria uma série querida na qual me aconchegar.
É sobre uma família aristocrata inglesa do início do seculo XX que mora num casarão e controla toda uma vila, naturalmente enfrentando alguns perrengues por conta disso (a filha que não arranja casamento e não pode herdar a propriedade, a produção agrícola que tá capenga e pode falir a família, as tramoias pra prejudicar toda a política de Downton, estratagemas armados pra ferrar pessoinhas etc). Mas a série não foca só na família e divide espaço com toda a criadagem que trabalha na mansão, e nesse segundo plano também vemos muitos conflitos.
Pra mim o encanto de toda a produção é esse: ver duas classes de pessoas tão distantes, hierarquicamente falando, mas que, no fim, têm tantos problemas naturais à vida em comum. A filha riquíssima acaba, muitas vezes, sendo tão triste quanto o mais humilde dos lacaios - e as duas tristezas são reais e válidas.
Eu demorei pra me envolver, e só acabei maratonando depois da segunda temporada, quando a série me pegou de vez com uns dramas mais pesados (eu gosto de sofrer com filmes, séries e livros mesmo, não tem jeito) - porque as primeiras duas eu vi me arrastando, sem conseguir me interessar pelo conflito inicial de problemas com alianças matrimoniais, herança, sucessão etc.
Os cenários são incríveis de lindos e toda a estética (figurinos, locações, fotografia e tudo mais) é bem construída e encantadora.
Depois de uma reação inicial meio insípida, a série tem me conquistado, viciado e aconchegado cada vez mais. Tô gostando bastante.
É um tanto engraçado pra mim assistir porque SE-NHOR, eu não saberia viver num tempo em que as pessoas recebiam ajuda de empregados(as) até pra vestir e tirar roupas ao acordar/antes de dormir, sem conseguir piscar os olhos sozinhas, porque pelamor, que aflição, que agonia.
Recomendo muito e ela ainda vai aparecer mais por aqui - mas advirto que a terceira temporada provavelmente vai destroçar o seu coração lindamente. :)

Links, LINKS EVERYWHERE

-A Lolla (hellololla) tá postando um apanhado de links legais no blog dela toda sexta (ou quase) e os dois próximos foram descaradamente tirados desse post (eu quero comer todas aquelas suculentas unicornianas do arco-íris encantado):

-Please Don't Tell Me I'm Beautiful; texto bem sensível e tocante sobre não se ver, não ser vista e não se sentir bonita (além de não ser tratada como tal), e, paralelamente, ter que tentar lidar com elogios esporádicos que não conseguem enganar/anular esse sentimento contínuo e atemporal.
Deixemos de lado o papinho "o importante é você se achar bonita, beleza vem de dentro, tenha uma boa autoestima blablabla", por favor, obrigada.

-Uma fotógrafa ficou quatro anos acompanhando os bastidores da produção de filmes pornôs e fez um ensaio sobre isso, além de dividir esse relato, que eu achei um tanto interessante.

-The Opposite of Loneliness: esse discurso de formatura lindo que resume todo o meu sentimento nostálgico com o tempo de escola, escrito por Marina Keegan, formanda da classe de jornalismo de Yale em 2012, que morreu num acidente de carro poucos dias depois da formatura. #Crying

-11 Last known pictures of our beloved celebrities; artigo do 9gag (AMO ESSE SAITE) com título auto explicativo. (Nunca vou superar a morte do Steve Jobs - muito menos a do Robin Williams.)

-Hoje eu fui violentada; texto no medium sobre a aprovação da pec 181 que proíbe o aborto em casos de estupro e RISCO À VIDA DA GESTANTE. Quem chamaram pra votar? DEZOITO homens (a favor) e apenas UMA mulher (contra) - não sou a favor da legalização do aborto em TODOS os casos (pois é, que louco, me julgue), mas SENHOR, dar voz a uma cambada de homens num assunto que diz respeito às mulheres e cujas consequências cairão, acima de tudo, sobre elas me indigna em níveis que a ciência não explica (e nos dois casos mencionados sou a favor da legalização porque ÓÓÓÓÓÓÓÓBVIOOOOOOOOOOO, só pra constar e pra não ter que levar o rage esperado na cara).
The Handmaid's Tale é mais real do que a gente imagina.

-Texto ótimo sobre a Mary Maravilhosa Shelley, que inventou a ficção científica com Frankenstein e provou pra sempre (embora o pessoal goste de esquecer) que esse tipo de história não é só ''coisa de menino''.

-Vídeo da Carol Moreira com curiosidades sobre Breaking Bad, depois de 10 anos da estréia da série, porque aparentemente eu não falei dela o suficiente aqui. (Eu CASO com quem comprar o livro da DarkSideBooks pra mim.)

-Entrevista engraçadinha com parte do elenco infantil de Stranger Things no The Tonight Show, falando da cena do beijo entre Mike e Eleven.
O que me encanta nessa série (além das bizarrices, claro) é ver crianças sendo crianças, e isso elas fazem de novo nesse vídeo: "Kissing Sucks!!!" #QueroAdotarTodas

-Lugares de fala e lugares de escuta na publicidade; texto na Revista TRENDR sobre a necessidade de encarar a publicidade de maneira responsável e consciente, admitindo o peso que ela tem na hora de representar classes/grupos e ditar comportamentos.

-Texto da Aline Velek sobre produzir conteúdo pra internet (ou fora dela) e a recorrente sensação de que você não tem público (#eu) e está sozinho dando gritos inauditos no meio do deserto (altas analogias).

-Jon Bon Jovi cantando Hallelujah no Madison Square Garden me faz ter vontade de chorar porque esse homi momento é claramente a coisa mais linda que a humanidade presenciou em seus milhares de anos de existência e isso é o mais próximo que a gente pode ter do famigerado céu na Terra.
NÃO. SEI. LIDAR. COM. ESSA. CENA.
Esse ser deve ser o único homem com mais de quarenta anos que me deixa babando VOCÊ NÃO LEU ISSO, MÃE.

-Texto da Fernanda (uma das editoras do Valkirias; amo a escrita dessa mulher) na Revista Pólen sobre uma HQ com a biografia da Anne Frank e sobre como é importante não esquecermos dos terrores do nazismo e do mal que ele representou, que muitas vezes perdura.

-Texto bonito, também na Pólen, sobre família. Minha família é bem diferente dessa (sadly) e leio esse tipo de coisa como uma testemunha distante e exclusa, mas não deixo de admirar e achar bonitinho.
E como eu nunca sei como terminar e me despedir nesses textos, fique com essa foto (uma das minhas favoritas) do Snoopy, meu cachorro de outrora (ele sumiu esse ano, nunca mais voltou e eu ainda não superei isso também, tal qual a morte do ícone Robin Williams) te encarando com cara de WTF.
Ele não era perfeito? Era. <3 /// Até! (Vou ali chorar no cantinho...)

26/11/2017

1Q84 - Trilogia

Do Haruki Murakami
Eu amo trilogias. Porque elas são compridas o suficiente para que a paixão do leitor pelos personagens, ambiente e história possa se estender para além de um único volume, durando mais, e porque elas são suficientemente curtas para limitar a possibilidade de se perderem no meio do caminho, virando enrolação nas mãos de um escritor que pode se deixar levar pela perspectiva de lucro ascendente e decida prolongá-las ad infinitum, até que ninguém aguente mais. Pra mim, trilogias são a medida certa para séries – livrísticas e cinematográficas (o que não quer dizer que eu necessariamente desgoste de sagas que vão além desse número, claro).
Quando vi os três livrinhos de 1Q84 posicionados lado a lado na estante da biblioteca, compondo um retrato coeso de tons harmônicos com as cores das capas que falam entre si, meu primeiro pensamento foi ‘’êêêê, uma trilogia!”, e logo levei os três pra casa dentro da bolsa, tudo no mesmo dia - aqueles trambolhos que juntos totalizavam 1280 páginas. Se é pra carregar peso, que seja em livros. 
Valeu a pena.
Os três volumes são de uma linguagem bem simples e direta, mas ainda assim encantadora e envolvente; na verdade, a simplicidade dela é o que faz muitos atribuírem essas duas características aos escritos de Murakami. Não foi diferente comigo: a narrativa me envolveu do início ao fim das mais de mil páginas, sem que eu conseguisse largá-las.
Temos dois protagonistas nessa história, com capítulos que se intercalam e cuja ligação só vamos descobrindo aos poucos: Aomame, uma profissional de educação física que trabalha dando aulas de exercício numa academia, e nas horas vagas olha só que divertido mata abusadores de mulheres (com a ajuda de uma senhora, pra quem ela dá aulas particulares, que administra um abrigo para mulheres vítimas de abuso e que dá o nome de cada alvo masculino a Aomame) com uma técnica especial que ela, profunda conhecedora do corpo humano, desenvolveu pra não deixar rastros; e temos Tengo, um professor de matemática que leva uma vida pacata, reclusa e desinteressante, e que é escritor nas horas vagas.
Os dois estão levando suas vidas cotidianamente (o cotidiano de Tengo é fazer cálculos e escrever, o de Aomame é matar pessoinhas), até que coisas estranhas acontecem, levando-os, quase sem que percebam, a um outro mundo, uma realidade paralela em que tudo parece exatamente igual mas as diferenças vão se revelando aos poucos e sutilmente, na forma de notícias e leis que mudam, por exemplo - num mundo o uniforme dos policiais é de um jeito e as armas são pistolas, no outro o uniforme muda e as armas são automáticas; num mundo determinado atentado ocorreu, dizimou tantas pessoas e saiu nos jornais, no outro, nunca se ouviu falar -, de modo que a percepção de troca de realidade não se dá de forma automática, e sim gradativa (ambos demoram um tempo considerável pra perceber que algo mudou).
A única característica gritante (que ainda assim demora a ser percebida) que delata essa troca de ‘’dimensão’’ é a aparição de uma segunda lua, menor e esverdeada, no céu. O mundo 1Q84 tem duas luas, mas só os protagonistas parecem atentar a esse fenômeno.
Aomame chega a essa realidade paralela quando pega uma escada secreta de emergência, no meio de uma avenida, para fugir do congestionamento e não se atrasar para um compromisso (uma execução), e Tengo parece migrar pra esse mundo depois que se envolve, como ghost writer, na publicação de um livro misterioso, A Crisálida de Ar, escrito originalmente por uma mais misteriosa (e peculiar) ainda garota de 17 anos, Fukaeri, cujo enredo se desenvolve num mundo que também tem duas luas – e muitas outras bizarrices mais, que aos poucos vão saindo das páginas de A Crisálida de Ar e se transportam à realidade dos nossos dois protagonistas.
Como o ano em que tudo acontece é 1984 (sim, há referências à obra de George Orwell), Aomame denomina essa realidade paralela de 1Q84, com ‘’q’’ de ‘’question’’ – porque questões (para nós e para os personagens) são o que não falta.
Nessa segunda realidade, os personagens de súbito se vêem envolvidos num conflito de vida ou morte com uma seita religiosa misteriosa, com domínios numa montanha reclusa próxima a Tóquio e cujos propósitos são desconhecidos, mas visivelmente malignos. Ao passo que esse antagonismo perigoso vai se desenvolvendo, a peculiar ligação entre Tengo e Aomame vai sendo revelada ao leitor. Tudo, não vamos esquecer, nesse mundo paralelo onde existem crisálidas de ar, um Povo Pequenino, maza e dotha, duas luas no céu, suspeitas de conspiração, Tengo e Amomame sem respostas, Fukaeri parecendo conhecer todas as respostas mas estranhamente indiferente a elas, uma realidade que parece seguir os contornos de uma obra fictícia, forças ocultas que se contrapõe e determinam o equilíbrio do universo e mistérios pra todo lado.
E é mais ou menos isso que a gente sabe. Se parece que as informações ficaram vagas e confusas demais, é essa a impressão que eu quero que você tenha, porque com esse propósito a narrativa é construída: 1Q84 é mistério do início ao fim. Os três volumes nos deixam com uma enxurrada de dúvidas, perguntas, questões, hipóteses e mistério, mistério, mistério. O livro inteiro nos envolve em especulações e é até surpreendente (parando pra pensar agora que já concluí a leitura) ver como, sem sanar quase nenhuma dúvida, Murakami conseguiu me prender até a conclusão. Lembro de estar na primeira centena de páginas do primeiro livro, com a maior cara de QQQQ e cheia de dúvidas, e olhar pras páginas finais pensando quando eu chegar aí já terei muitos questionamentos respondidos... Aí terminei o primeiro livro, comecei o segundo, terminei o segundo, comecei o terceiro e já tava no fim dele com a mesma cara de ?¿?¿?¿ do início.
Eu amo mistérios e a presença deles não me desencoraja a embarcar numa leitura, mas devo considerar o que, para muitos, pode ser encarado como um defeito ou buraco na narrativa: muitas dessas dúvidas que mencionei permanecem sem serem sanadas, em aberto, o que nos deixa com uma leve impressão de inconclusividade. Tá, mas onde foi parar tal personagem? E qual era o propósito daquelas pessoas? E o significado e origem de blablabla? Qual será o desfecho desse ponto da narrativa?, etc e tal. Vários mistérios permanecem insolucionados e isso pode ser frustrante pra muitos leitores, justificadamente. Mas ainda não sei se pertenço à parcela de insatisfeitos, porque embora eu queira muitas respostas, consigo conviver razoavelmente bem com a ideia de que 1Q84 foi escrito para deixar pontas soltas num mar de mistério que permite continuidade - nos pensamentos e especulações pessoais de cada um, porque a trilogia foi encerrada e ponto.
Ainda assim, ficaram muitas questões em aberto para que eu pudesse ignorar isso e excluir da resenha, e preciso considerar, sim, como uma falta porque ao embarcar no universo cheio de promessas construído por um escritor, sempre esperamos poder entender ou absorver o melhor possível toda aquela realidade subjetiva que nos é apresentada, e ao fim de 1Q84 esse processo não se completa de maneira satisfatória.
Mas, ainda assim, o romance é muito envolvente e a possibilidade de imersão que ele nos oferece me conquistou completamente e eu me esbaldei com ela, escalando a trilogia à minha lista de favoritos da vida.
A história é bastante excêntrica e atípica, fazendo com que a tarefa de tentar sintetizá-la se torne um tanto dificultosa, e isso também me cativou bastante.
Os personagens também me deixaram muito apaixonadinha: amei Aomame, amei Tengo e amei Fukaeri, demais.
Porém, ao contrário do que li em algumas resenhas internet afora, 1Q84 não é, para mim, impecável - embora isso não diminua meu favoritismo.
O livro tem várias cenas de cunho sexual e isso por si não é problema; muito pelo contrário, se numa trilogia de mais de mil páginas, com dois jovens protagonistas (geralmente sexualmente ativos), esse tema tão fundamental não fosse abordado em nenhum momento, aí sim seria estranho. Mas as primeiras cenas descritivas da vida sexual da Aomame (abordada sem pudores e com naturalidade, o que acho ótimo) me pareceram meio artificiais; me parece que naquele princípio (nos dois livros subsequentes não percebi isso) o autor não soube retratar com propriedade como funciona a cabeça de uma mulher em determinada situação. Mas essa foi uma percepção bem íntima e não me surpreenderia se mais ninguém tivesse sentido o mesmo. 
Outro probleminha foi a pseudo sexualização meio awkward (você vai ter que ler os livros pra entender essa) da Fukaeri, uma adolescente de 17 anos, retratada, em dado momento, como a típica garotinha pura (embora não fosse virgem), angelical, novinha, delicada, sem pêlos pubianos e extremamente atraente, que chega a transar com um cara mais velho de uma forma meio ritualística. Todo o caráter meio mitológico da trama, com seus elementos sobrenaturais, nos leva a justificar a cena como nada mais que um ritual necessário para o desenvolvimento da história, no fundo, despido de grandes apelos sexuais ("nem foi sexo de verdade"), mas é preciso reconhecer que essa é uma representação muito perigosa.
Também torci um pouco o nariz pra maneira com que uma personagem feminina vive muito em função da expectativa de reencontrar um personagem masculino com quem ela teve um contato ínfimo no passado. Esse sentimento é recíproco por parte do homem, mas não parece ser em mesma intensidade. Me pareceu inverossímil demais essa ligação aparentemente TÃO significativa e fundamental pra vida da moça, meio no estilo idealização do príncipe encantado, sabe? Ainda bem que existe certa mutualidade, porque do contrário seria reduzir muito e pra nada o valor individual da personagem. Enfim.
Essas questões à parte, Murakami nos oferece um universo apaixonante e peculiar, com situações, personagens e elementos únicos que realmente nos prendem até a última página e nos deixam querendo mais, sem parar de pensar sobre aquele monte de coisas loucas que lemos, não entendemos muito bem mas das quais não conseguimos nos desprender.
1Q84 não é uma trilogia com uma grande tirada no final, que nos passa algum ensinamento, moral ou mensagem de algum peso e significado especiais. Esses livros são uma ficção complexa escrita para o simples e puro deleite e lazer do leitor, e não deixam de ser menos notórios por isso. São livros espertos que você deve pegar por PURA diversão depois da leitura de vários clássicos pesados e cheios de ensinamentos atemporais em sequência, sabe?
Eu amei de paixão e ENGOLI os livros, querendo camiseta com estampa da trilogia, pote de pipoca com logo de 1Q84 e canecas temáticas, além de ficar com muita vontade de caçar outras obras do autor.
Se eu pudesse dar uma dica, diria pra fazer a leitura nas férias, quando você pode se dar ao luxo do total e completo descompromisso.
De um jeito ou de outro, leia 1Q84. Divirta-se.

"A LUA CONTINUAVA SILENCIOSA, MAS NÃO ESTAVA MAIS SOZINHA."

22/11/2017

Vamos falar sobre Gilmore Girls.

Esse texto contém vários spoilers de Gilmore Girls. E alguns de mim também.
(E provavelmente vai ser um textão enorme do tipo que você vai ter que fragmentar em parágrafos até chegar ao final. Fica o aviso.) 
Gilmore Girls não mudou minha vida. Eu não me apaixonei à primeira vista, não fiquei viciada sem saber o que era viver sem aqueles 42 minutos (aproximadamente) de episódios diários ou releguei a ela o posto de minha comfort série número 1 (Todo Mundo Odeia o Chris), e, embora eu tenha me tocado numa montanha de textos e mais textos sobre, ao concluí-la (foi significativo pra mim ver o que as pessoas pensavam na hora de tentar organizar melhor e de maneira mais lúcida o que eu mesma penso, já que depois da maratona meu cérebro saiu virado numa papa, embora algumas impressões fossem detectáveis nitidamente), reparei que não compartilho do mesmíssimo entusiasmo que muitos fãs têm (e é bem engraçado ver como o pessoal leva a sério esse ofício) em desenvolver teorias e discutir e rediscutir vários aspectos da série over and over again (até porque acho que já fiz isso o suficiente aqui, nas mescelâneas durante o período em que vi a série), esmiuçando cada temporada vista, cada personagem em tela e cada diálogo sagaz do script (foram vários).
Não é uma série que eu veria e sobre a qual teria, por mim mesma, MUITA vontade de escrever (aquele impulso irrefreável que me acomete com meus favoritos), se não fosse a quantidade de questões que vejo outras pessoas levantando sobre ela - as quais eu contesto, muitas vezes. Eu me envolvo nesses textos, mas não consigo me livrar do sentimento de ser uma expectadora distante que observa o show de fora, mas não participa ativamente dele, sabe? Não tanto quanto muitas pessoas que vejo falando da série na internet. (Talvez isso se deva ao fato de que ela não foi uma produção que eu cresci vendo, como sei que ocorreu com grande parte dos fãs; só fui ouvir falar de GG nos meus 18 anos pra cima.)
Quer dizer, Gilmore Girls não virou A Série da Minha Vida, que é Todo Mundo Odeia o Chris (pois é, uma série sobre um guri afro-americano que mora numa comunidade afundada na marginalidade, fica perdido numa escola de brancos que fazem bullying com ele e com seu único amigo, igualmente nerd, é A Série da Minha Vida, olha que louco) - e não acho isso tão ruim, porque cada um é cada um amor é amor e um lance é um lance e GG já tem uma porrada de corações apaixonados pra sonhar com ela (uma possível retomada depois do revival, será?) todos os dias, além de já ser A Série da Vida de muita gente (gente cujos textos a respeito eu adorei ler, inclusive).
Veja bem, não estou dizendo que não gostei da série; sei que meu monólogo desconexo (vocês ainda não viram nada) pode estar soando assim. Preciso deixar claro que ela ficará guardada num cantinho especial e quentinho do meu coração, sim, porque é uma série muito amorzire - e eu só relego esse adjetivo a pouquíssimas coisas, só às verdadeiramente amorzires mesmo.
Eu gostei de Gilmore Girls; eu ri e sorri com Gilmore Girls; eu achei o Kirk hilário; eu tive muita vontade de abraçar o Luke porque, de um jeito estranho, acho ele um fofo; eu conseguia sentir o cheiro da comida da Sookie e sonhava em encontrar uma pousada tão aconchegantemente perfeita quanto a Dragonfly; eu me via carregando caixas e mais caixas de livros pra cima e pra baixo como a Rory; eu me permiti detestar vários dos namorados delas e acho que Lorelai Gilmore é um dos melhores personagens já inventados na cultura pop, em todos os tempos (SIM).
Gilmore Girls só não foi TUDO AQUILO pra mim, tal como é pra muita gente - e tal como eu esperava que ela fosse se tornar também para essa que vos fala. Não virou uma eterna referência para os meus dias (eu já falei de Todo Mundo Odeia o Chris?) e nem me deixou naquele estado de êxtase e completo encantamento, com um sentimento desesperado de qq eu vou fazer da minha depois de ter visto isso mds? - sensações que me acometeram ao término das minhas produções favoritas (aconteceu com Chris, com Breaking Bad, com House...) de todos os tempos. É a vida, essas coisas acontecem and no problem, the show must go on.
Uma frase que repeti bastante nas outras vezes em que falei sobre GG por aqui foi "meus sentimentos pela série são meio conflituosos", e essa sentença tão "chavão popular" resume muito bem as coisas, porque é a melhor maneira de dizer que eu gostei de Gilmore Girls mas, olha, às vezes (varias vezes) não gostei tanto assim não.
Esse texto está aqui pra que eu possa destrinchar essa incoerência.
Entre outras coisas, percebi com GG que desaprendi o que é desfrutar com tranquilidade de algo que se enquadre na categoria comfort (comfort série, no caso). Fazia tempo que eu não parava diante de uma sitcom ou de uma série despretensiosa simplesmente pra anuviar a cabeça e passar o tempo, e fazendo isso agora com GG, percebi que parece que se não houver alguma coisa bem pesada e dramática rolando (gente quase morrendo, conflitos com a sociedade do tráfico e a Narcóticos, uns zumbis aqui e ali, mortes, perdas, traumas, dramas terríveis etc; não que esses sejam temas superiores ou que GG seja tediosa, minha cabeça só aprendeu a reagir de maneiras diferentes a cada abordagem) arrematando as tramas do enredo, eu fico... Cansada. Exausta.
Maratonar GG foi extremamente exaustivo para mim. Quando eu disse no primeiro parágrafo desse texto que eu saía da maratona de episódios com o cérebro transformado numa papa disforme e cansada, que precisava de uns bons minutos olhando pro horizonte com cara de paisagem pra voltar ao ritmo normal, eu estava falando sério. Só que não era aquela exaustão de arrebatamento, consequência da maravilhosidade que recém se presenciou... era uma exaustão cansada mesmo. 
Durante umas boas temporadas eu fiquei pensando se era só impressão minha, se aquilo não acontecia com todas as séries que eu via, se assistir a sete episódios diretos na verdade sempre me deixava MORTA, com qualquer série... Mas aí eu terminei GG e vi toda a última temporada de Bates Motel e mais umas três de GoT em menos de cinco dias, pedindo mais e sem nada daquela exaustão toda. Parece que meu cérebro foi condicionado a tramas mais... pesadas?, dramáticas?, e eu passei a estranhar o conceito de comfort série. What a sad thing. São questões.
Essa imagem não se encaixa no texto de nenhuma forma, mas sempre há espaço para pizza.
Mas uma coisa a que esse tópico me remete é o estereótipo de ''coisa [série] de mulherzinha'', ao qual muitos reduzem produções como Gilmore Girls.
Não estou dizendo que ela não é uma série voltada majoritariamente ao público feminino, porque bom, eu acho que é sim. Não consigo imaginar meus irmãos Tiago e Mateus assistindo à série empolgadíssimos, por exemplo (embora eles tenham rido quando eu disse que o Luke falou que beber o drink rosa, doce e fofinho que os avós da Rory fizeram para o aniversário dela era como beber um My Little Pony). O problema é assumir que isso seja indicativo de superficialidade, besteirol, futilidade e falta de conteúdo.
Embora esteja lá pra corresponder à necessidade do puro e simples entretenimento, GG carrega muitos questionamentos sérios e reais no pacote, principalmente a respeito do papel da mulher na sociedade - conversa na qual os homens também precisam ser introduzidos pra deixarem de falar e pensar certas merdas.
Há vários momentos na série em que nos vemos subitamente envolvidos nas questões pessoais da tríade principal - Lorelai, Rory e Emily -, e meio sem perceber caímos num mar de reflexões em que as cenas, os diálogos e os personagens em tela nos inserem.
Eu percebi muito disso com o arco da Emily na série. Em diversos momentos do enredo ela se pega em conflito com o que é ser a mulher que ela é na sociedade em que ela está. Como quando o novo sócio do Richard (marido dela) organiza uma espécie de viagem (não lembro bem os detalhes, então pequenas informações podem estar meio trocadas aqui) pra comemorar o sucesso da empresa que eles fundaram juntos e Emily fica frustrada e decepcionada, porque sempre ficava a cargo dela organizar essas confraternizações que envolviam o trabalho de Richard, e ela sempre fez isso com maestria: porque ninguém cuidava da manutenção, da ordem e dos afazeres de uma casa como Emily Gilmore, que sabia onde cada talher e cada arranjo de flor deveria ficar; sabia qual era a ordem dos pratos e qual era a comida adequada para servir aos convidados em cada ocasião; sabia a quem convinha enviar o convite e tinha em mente o comentário certo a proferir em recepção a cada um dos diferentes visitantes.
Tendo crescido num meio que ditavam serem estes os deveres de uma mulher e esposa, Emily se apropriou do que lhe foi dito e aprendeu a exercer sua função como nenhuma outra conseguiria e pra ninguém botar defeito, sempre com total e ab.so.lu.ta perfeição e destreza. Quando alguém a privava da oportunidade de exercer a função a que ela acreditava ser incumbida e na qual ela havia se especializado, ela ficava frustrada (compreensivelmente), porque parte de sua razão de ser era descartada no processo, fazendo com que ela se debatesse com o pensamento de que não tinha utilidade e que tudo que ela podia oferecer havia se tornado obsoleto com o passar das gerações.
Não sou do time I <3 EMILY RAINHA porque achei completamente desprezíveis muitas atitudes dela durante a série, movidas pelo esnobismo (uma das coisas que eu mais odeio nesse mundo) e pela arrogância; mas, por causa de vários outros aspectos, parte de mim olha pra ela com a admiração que ela merece por tudo o que construiu - e gosto dela, sim.
Temos esse exemplo e muitos outros envolvendo as três protagonistas (desde os primeiros episódios, embora ela apareça menos, percebi que era essencial inserir a Emily nesse ciclo principal) durante a série.
GG não é uma série fútil, vazia, tosca e superficial. Não foi por nenhuma ''falta de conteúdo'' que ela me exauriu um pouco, porque isso ela tem de sobra e evidencia ao trazer questões muito válidas e reais para a tela. É ridículo, preconceituoso e sexista assumir que por ser voltada ao público feminino (embora, para alguns, isso ainda seja discutível) ela é uma produção frívola em que só vemos reclamações sobre penteados que deram errado ou experiências ruins no salão de beleza (estereotipagem pura).
Então, digo que Gilmore Girls é uma série de mulheres, sim (ou mesmo ''de mulherzinha'', se o diminutivo te faz sentir maior e melhor em sua santa ignorância), e ISSO É ÓTIMO. Porque coisas de mulheres são ótimas. É uma série de mulheres sendo incríveis e fazendo coisas incríveis (apesar das incontáveis falhas e do meu perrengue pessoal com cada personagem), oferecendo ao expectador um vislumbre de todo o complexo, rico e fascinante universo que nós criamos e ocupamos - nós, mulheres -, e que deve ser reconhecido e bem representado.
Saindo um pouco dessa questão mais crítica, quero falar sobre a minha identificação pessoal com a série.
Eu fui assistir GG pronta pra me encontrar na Rory, por causa de toda a faceta mais nerd diferentona (desculpa por usar esse termo, sociedade) dela. Nem pensei muito na Lor. Tal foi a minha surpresa quando vi que a Lorelai É A MINHA CABEÇA.
Sabe como ela não cala a boca, vive fazendo comentários bizarros sobre tudo que a cerca, deixando as pessoas sem entender nada e sem conseguir acompanhar o fluxo de raciocínio, porque parece incompreensível e não dá pra assimilar como ela faz aqueles links entre ocorrências cotidianas e as milhares de informações que povoam a mente dela? Eu me vi bastante nisso, nesse fluxo de pensamentos bizarros que ela propele - e eu, por minha vez, me policio pra conter.
Estava falando com um amigo esses dias, e depois do quinto ''hãn?'' dele, com a expressão de confusão que se seguiu a um comentário rápido meu durante o assunto que ele desenvolvia, pensei algo do tipo ''Carolina, SI ACALME, não dá pra exigir que as pessoas entendam essa baderna da tua cabeça em tempo real e sem um tempinho pra tomar fôlego, então deixa ele falar o que tem pra falar e fica quietinha durante o processo, pra soltar a enxurrada de pensamentos que tu tem só no final, quando vai dar tempo de explicar tudo''. Literalmente preciso mandar o meu cérebro calar a boca.
Isso vive acontecendo. Eu vivo tendo que parar o que estou dizendo pra adotar outra abordagem (ou encerrar de todo minhas participações nos diálogos, que normalmente me cansam mais do que me satisfazem) na minha forma de expressão porque percebo que as pessoas simplesmente tão com cara de wtf sem entender nada do que eu estou dizendo. 
Interações sociais são um tanto dramáticas e traumáticas pra mim por isso, já que além de não ver muito significado no que grande parte das pessoas ao meu redor discute (uiiii, diferentona - sou mesmo), eu deixo todo mundo meio confuso (não por ser transcendental, genial ou superior, mas por motivos de ESQUISITICE CONGÊNITA mesmo) quando surge algo de meu interesse e eu decido opinar.
Me sinto um alien nas rodinhas de diálogo, e pra evitar todo esse estranhamento e inadequação, opto por me eximir de ter qualquer participação mais significativa quando essa atividade surge, e acabo sendo uma pessoa de monossílabos (aham, sim, sei, bah, pior, verdade isso aí, hahaha, também acho, será? não sei...) pra evitar as caras de ''o que raios você tá falando?!'' quando abro a boca pra externar meus pensamentos.
Então foi meio engraçado pra mim não me perceber somente em uma ou em outra, mas como um híbrido entre as duas personagens: por fora eu sou a Rory e todo o seu comedimento calculado; por dentro, a bagunça Lorelai toma conta.
Fico imaginando quem mais teve o mesmo sentimento, e até considero um traço meio intencional pensado pelos roteiristas e criadores das duas, porque o dualismo é bastante óbvio e gritante.
Ainda falando sobre identificação, mas esquecendo um pouco a Lorelai para falar da minha conexão (ou falta de) com a Rory: talvez o principal motivo pelo qual fui assistir à série (além de não aguentar mais ver referências a ela e outras pessoas falando sobre sem entender nada) foi pela promessa de que eu me encontraria demais na Rory, e a personagem poderia vir a ser o epítome da minha representação pessoal num seriado de TV.
Eu ouvia que a Rory era uma leitora compulsiva que carregava livros pra cima e pra baixo, fazia melhores amigos dentro das páginas e era o tipo de pessoa que acabava virando BFF de bibliotecários(as) pela frequência com que se encontrava com eles(as) entre as estantes (David, meu bibliotecário, te venero); ouvia que ela era uma das melhores alunas da turma e o tipo de pessoa a quem os colegas pagariam para fazer seus trabalhos (semanas atrás escrevi um texto pra faculdade da minha vizinha, que pediu minha ajuda, e eu cobrava 3,50 por trabalho - normalmente resenhas - feitos na nona série; vários pastéis foram custeados com essas somas ilegais no recreio, então digamos que esse tipo de coisa acontece na minha vida); li que ela era meio deslocada por viver mais dentro dos livros (e outras referências culturais) do que na vida real, e que normalmente causava estranhamento nas pessoas, que não conseguiam entender a acidez dos comentários dela; eu soube que a Rory tinha dificuldades de interação (TÃO EU que vou me poupar de maiores comentários, porque plmdds) e que era aquela pessoa que ficava com um livro no recreio, enquanto todo mundo fazia guerra de comida na cantina ou whatever... 
Ao ler todas essas coisas sobre a personagem, fui induzida a pensar e fui me convencendo de que, quando eu encontrasse a Rory na tela, ela seria, basicamente... eu.
Comecei a ver Gilmore Girls, entre outras coisas, porque na minha cabeça Rory Gilmore me representaria dentro da cultura pop melhor do que ninguém, e toda vez que eu precisasse de uma referência externa pra ilustrar algo do meu cotidiano, era a GIFs dela no tumblr que eu recorreria.
Pode parecer meio nonsense, mas enfim, espero que tenha dado pra entender o pensamento.
Rory com os livros é meu espírito animal.
Só que, em vez disso, o maior motivo pelo qual fui assistir à série se tornou também o que mais quebrou meu encantamento com ela. Porque eu esperava me ver muito em Rory Gilmore, e quando nosso encontro finalmente ocorreu, a Rory com quem me deparei era... perfeita demais.
Passei os primeiros episódios me vendo nela, especialmente por causa da ~coisa com livros~, mas isso se rompeu quando percebi que ela era a melhor filha do mundo, a melhor neta do mundo, a melhor amiga do mundo, melhor vizinha do mundo (Stars Hollow inteira venerava a Rory), melhor aluna do mundo, melhor pretendente do mundo (víamos caras, literalmente, saindo no soco por ela), melhor tudo do mundo. Ela era uma garota modelo em praticamente todos os aspectos (até fisicamente, porque a atriz parece um anjo; mas não quero entrar nesse mérito aqui, é algo secundário).
Rory era perfeita. Perfeita demais... e eu não consigo mais comprar a ideia de perfeição, porque já tentei muito sustentar esse estigma e isso só me rendeu frustração e desapontamento. A figura de menininha perfeita me cansava, não me convencia e eu passei a achá-la um saco.
Muita gente que olha de longe me vê como uma espécie de modelo em certos aspectos – quase na mesma intensidade em que causo estranhamento por outros aspectos socialização cof cof. Porque leio muito e todo mundo sabe disso, porque tiro boas notas (ou tirava; já concluí o ensino médio, afinal), porque alguma coisa em mim parece gritar que eu sou a intelectual, esperta e esforçada da turma (devo ter uma BAITA cara de nerd, porque basta me verem pra concluírem automaticamente que eu sou muito CDF e dizerem coisas do tipo "pergunta pra ela, ela é esperta e sabe" ALL THE TIME; não preciso nem dizer nada, é incrível). E eu sou algumas dessas coisas, sim, em certa medida. Mas não é a medida real que as pessoas veem, e sim algo muito mais idealizado e distante, que eu (e aparentemente apenas eu) sei que está além da realidade. 
Eu vivo muito debaixo da expectativa de terceiros nos ciclos sociais que frequento, e gasto um bocado de energia tentando fazê-los perceber que em incontáveis aspectos eu não sou o que eles acham.
Ver a Rory sendo tão perfeita, se vendo tão perfeita (e isso fica ainda mais claro no revival) e sendo vista como tão perfeita acabou sendo cansativo, extenuante e inverossímil demais pra mim, porque é uma ilusão recorrente na minha vida e eu trabalho muito para desconstruí-la.
Lá pelo começo da segunda temporada, eu comecei a ficar genuinamente incomodada e até um pouco irritada com aquela superestimação toda, com a maneira com que todo mundo gritava que RORY GILMORE É UMA GAROTA PERFEITA (as primeiras cenas em que ela aparece, logo no primeiro episódio, são visivelmente projetadas pra que essa seja a nossa primeira impressão, e todos sabemos que gealmente é ela que fica), e comecei a me perguntar se algum outro expectador tinha visto isso e se incomodado com esse olhar idealizado tanto quanto eu. Quer dizer, SERÁ QUE NINGUÉM MAIS TÁ VENDO QUÃO ERRADO ISSO É?! 
Mais tarde, lendo alguns textos, vi que isso incomodou muita gente além de mim e esse ponto ainda é uma das coisas mais discutidas da série. Que bom. 
Eu vi muita gente adotando a trama de GG como se fosse sua própria narrativa e tomando partido das personagens para, se não defendê-las, no mínimo, entendê-las, e é legal quando é possível ocorrer essa imersão no conteúdo que consumimos; indica qualidade e competência no que foi produzido. Tendo isso em vista, acho que as pessoas levantam tantas questões e desenvolvem tantos textões (como eu estou fazendo agora, mesmo não me sentindo tanto parte do "clubinho Gilmore Girls", essa comunidade tão unida e doce) em cima da série porque ela retrata muitos conflitos com os quais vários de nós nos deparamos - inclusive eu, que vivia me debatendo com a ideia de perfeição que projetavam sobre mim e eu sabia ser extremamente errônea.
E quando eu via os episódios, essa coisa idílica ia além da Rory; li muitas frases em que as pessoas diziam se identificar com a série pela maneira com que tudo parecia real, e essa foi outra percepção que não me acometeu na mesma intensidade; as coisas em GG me pareciam bonitas e quadradinhas demais, sabe? Davam certo demais. Stars Hollow já tem todo aquele clima meio lúdico em que todos os vizinhos se conhecem, existem tradições bonitinhas pra unir a comunidade, mesmo as rixas entre os habitantes compilam discussões e momentos fofos, há emoticons de coraçãozinho voando pelos ares ao som da melodia doce que sai do violão do trovador da cidade... Enfim, tudo parecia muito comercial de margarina pra mim. 
Não que isso seja necessariamente ruim (não é); a cidade é o que torna o ambiente da série tão aconchegante. Só estou tentando enfatizar como tudo se mostrava tão bucólico aos meus olhos.
Mesmo com dificuldades financeiras, Rory não sofreu nenhuma privação, e embora ela tenha se esforçado por muito do que conquistou com mérito, não podemos negar que várias outras coisas caíram no colo dela - sorte que nem todos os personagens Paris cof cof da série tiveram. Ela fazia parte da sortuda e escassa parcela de privilegiados com recursos no mundo (e ignorava completamente esse fato, como a gente vê no episódio em que ela escreve um artigo ridicularizando "os riquinhos" do universo do Logan, como se ela fosse algo muito distante daquilo - coisa que ela não era); conseguiu a melhor escola, conseguiu ser a oradora da turma, conseguiu a faculdade que queria (até agora acho meio wtf a Paris não ter conseguido entrar em Harvard, sendo tão ou mais esforçada quanto Rory; me pareceu uma tentativa de destacar ainda mais, de maneira gritante e não muito natural, toda a imaculabilidade da Gilmore), o posto de redatora chefe, etc etc...
Tudo isso, essa perfeição que aos meu olhos aparecia em neon verde limão com glitter piscando na tela, me fez começar a achar as coisas um pouco toscas e a me cansar da série, contando os segundos para que os 42 minutos de cada episódio passassem logo.
Da promessa de algo que viria a ser uma referência pessoal para mim, Rory se transformou numa personalidade impalatável e fatigante. 
Tão idealizada, correspondendo tanto às expectativas (com exceção da COMPLETA CAGADA final com o Dean), tão perfeita, tão diferente de mim...

...Até o fim da quinta temporada.
No fim da quinta temporada (o seriado tem 7 ao todo), tudo parece errado, incerto, confuso e falho. Rory levou uma rasteira profissional do chefe no estágio dela (e pai do namorado Logan), que disse que ela, basicamente, não tinha talento pra ser jornalista (O Sonho de sua vida) e que não iria pra frente. Depois de cinco temporadas ouvindo que ela era a número um em tudo, a menina especial e impecável que sempre se destaca, a primeira porta é fechada em sua cara. Obviamente, ela se descontrola, perde as estribeiras, começa a questionar toda a construção que fez de si mesma e do seu futuro, e passa a considerar a possibilidade de não ser tudo isso que todos sempre disseram que ela era - coisa na qual ela acreditou.
No maior nervous breakdown da série, ela larga a faculdade (a ponte para o seu maior sonho), briga sério com a mãe e vai morar na casa dos avós, fazendo parte da sociedade da qual ela e Lorelai sempre quiseram fugir (reuniões do DAR, jantares chiques, chá com senhorinhas ricas, eventos aristocráticos etc), e basicamente mandando um dane-se pra tudo que ela construiu até ali.
No fim da quinta temporada, tudo está errado. Tudo é um grande ?! piscando no mesmo neon verde limão que antes gritava PERFEIÇÃO. Tá tudo uma baderna, um drama, em crise, colapsando.
Foi a minha season finale preferida.*
*Até porque tem a cena da Lor pedindo o Luke em casamento depois de um discurso inflamado dele, inconformado com a situação da Rory e planejando sequestrar (!) ela pra levar de volta pra Yale; talvez seja minha cena favorita da série toda.

Eu sei que a vida já é bem complicada e difícil por si só, fora das telas de TV, computador, smartphone ou das páginas de um romance, e que a gente recorre a seriados, filmes e livros pra fugir de toda essa merda que é jogada no ventilador diariamente. Mas, como eu disse, eu não consigo mais comprar a ideia de perfeição (ainda mais quando ela se apresentaria em sete temporadas seguidas, com 22 episódios cada) e isso passou a ser algo incompatível pra mim.
Eu precisava de um pouco de imperfeição, de falha, de crise, de uma mostra de que Rory Gilmore era sim uma semelhante, afinal. E a quinta temporada me deu isso, de forma bem mais contundente que qualquer outra crise já retratada antes.
Quando vi a cena em que Rory vai à casa dos avós, completamente desamparada emocionalmente, encontra o vô, solta umas frases desconexas que diziam basicamente TÁ TUDO ERRADO NÃO SEI MAIS O QUE TÔ FAZENDO SOCORRO, e, enquanto o Richard releva e só diz que está meio atarefado (porque ele ainda não entendeu a gravidade da situação), ela começa a chorar sozinha no meio da sala, escondendo o rosto e pressionando as mãos sobre a barriga num jeito de abraçar o próprio corpo desconsoladamente - porque não tinha ninguém ao lado e ela precisava urgentemente de um abraço -, eu finalmente me vi em Rory Gilmore. Pra caramba.
Naquele abraçar desesperado o próprio corpo, eu me vi tapando o rosto e fazendo o mesmo, plantada sozinha no meio da cozinha da minha casa, com meus pais olhando sem entender nada, quando tive uma crise nervosa que me deixou à beira de um surto psicótico no terceiro ano do ensino médio. Me vi abraçando a mim mesma sentada na sala da orientadora da escola, pedindo lenços de papel pra assoar o nariz enquanto ela dava batidinhas no meu joelho e dizia que ia ficar tudo bem - mesmo depois de eu ter fugido de uma aula de educação física no ginásio, por causa da sensação de carregar um peso terrível ao ver que todos pareciam tão felizes e empolgados com o futuro e eu só conseguia me sentir engolida pelo pavor e pela incerteza. Me vi no meio da sala de uma psiquiatra querida que parou comigo, pegou um papel e uma caneta e começou a desenhar os meus neurônios (sim), explicando tudo o que estava acontecendo na minha cabeça, enquanto eu tentava (e falhava) não me debulhar em lágrimas e ela me perguntava se ela não era uma boa médica (ela era), e dizia que eu poderia ser uma também; tudo isso no 24horas da cidade ao qual meus pais me levaram quando não sabiam mais o que fazer quando a bomba relógio (eu) tinha explodido no colo deles.
Ao ver a Rory ali, daquele jeito, chorando e se abraçando, Gilmore Girls me tocou pela primeira vez, porque além de me parecer real mais do que nunca, me lembrou de mim mais do que nunca.
Eu sei que pode parecer uma visão bem negativista: o momento mais difícil da personagem foi o que mais me fez me reconhecer nela - coisa na qual todas as outras inúmeras características que tínhamos em comum LIIIIIIVROOOOS não foram tão certeiras. Mas eu já passei do tempo de encarar esses conflitos e dramas com realismo, de frente, reconhecendo que eles existiram, aconteceram e fizeram parte do que, pelo menos por um momento, fui eu.
Aquela cena foi um divisor de águas na minha maneira de enxergar a série. Foi o que me reconciliou com Gilmore Girls (depois da ruptura que tinha havido entre nós a partir da segunda temporada, mais ou menos) e fez ela conseguir, finalmente e apesar de várias ressalvas, um espacinho querido dentro do meu coração.
Não é como se de repente eu passasse a ignorar todos os outros aspectos da série que me incomodavam um pouco - muitos dos quais continuaram se repetindo no roteiro, mesmo depois da quinta temporada (e no revival também, inclusive; fica claro que Rory ainda se tem em bem alta conta - mas eu gostei de ver a desconstrução de vários estigmas que encobriam a personagem); não é como se agora eu tivesse sido arrebatada e só soubesse despejar elogios e declamar meu amor; não é como se agora meu coração não estivesse mais dividido (ele está) e meus sentimentos não fossem mais conflituosos ou até meio incoerentes (eles são; esse texto tá aqui pra ilustrar isso, afinal) a respeito da série. 
Não penso nela como aquela produção confortável que eu vou colocar na tela pra ficar olhando até adormecer, porque a perspectiva de encarar vários episódios ainda me remete a um cansaço sem sono.
Mas depois do que estava passando a ser quase uma antipatia (embora, durante todo esse tempo, eu ainda reconhecesse a série como a ótima produção que ela é), Gilmore Girls se transformou em algo que verdadeiramente falou comigo, e que conquistou um espaço em mim.
Entre tapas e beijos (às vezes mais tapas, às vezes mais beijos), nos entendemos.
A série não é perfeita para mim; mas, como eu fiz questão de frisar várias vezes nesse texto, eu não consigo comprar a ideia de perfeição. Nessa última frase, esse conceito é aplicado de diferentes formas: em uma, diz respeito à qualidade; em outra, a uma representação duvidosa. Mas, abrindo mão da semântica aqui e abraçando toda a enorme confusão e incoerência desse texto (sério, alguém entendeu o que eu quis dizer?), finjo que é tudo a mesma coisa e digo que talvez justamente por ser imperfeita é que eu acabo, no fim, conseguindo comprar Gilmore Girls e ter ela um pouquinho pra mim também.
'*'*'*'*'*'*'
Foi meio complicado escrever e publicar esse texto (ele tá há semanas nos rascunhos), porque é uma tarefa delicada falar (nem em todos os momentos de forma lisonjeira) de uma produção tão significativa pra muita gente (A Série da Vida não é pouca coisa, não). Mas seria injusto me eximir de escrever sobre (ainda mais quando a escrita tem cumprido uma função tão terápica pra mim) por receio de como ele vai ser recebido por algumas pessoas.
Mas enfim, a despeito dos meus dramas, reforço aqui que Gilmore Girls é muito boa, merece ser vista, tá no meu coração com carinho etc e tal. 
Não sei se deu pra entender. Por via das dúvidas, assista à série... Mas não prometo que isso vai ajudar a interpretar corretamente esse meu monólogo interminável (desculpa por isso, a propósito).