31/12/2016

Jornada de Esperança

De Brian Aldiss
Peguei aquela capinha empoeirada que há muito andava parada na minha estante e pensei ''o que será? Tem capa de livro meio chato e entediante''. Mas realmente levo a sério o ditado não julgue um livro pela capa e sei MUITO bem que as aparências enganam e enganam muito, então não devem ser lavadas muito em consideração. Aí me toquei de cara na leitura.
Entramos logo num mundo pós apocalíptico totalmente transformado e diferente daquilo que conhecemos presentemente. O globo não é mais o mesmo, a natureza está extremamente danificada, os animais foram extintos em grande escala e a existência humana é levada com sofrimento por cada sobrevivente dessa metamorfose pela qual a Terra passou. As civilizações em sua formação ''normal'' não mais existem, restando diferentes aglomerações de pessoas que se viram como podem e, vez ou outra, iniciam conflitos entre si. Comida, água e banho são luxo e roupas boas e moradias em bom estado inexistem.
Mas o que aconteceu?
O que temos achado, há muito tempo, que uma hora vai acontecer: com o crescente avanço do poder de destruição em massa dos homens na corrida armamentista constante que tomava conta da humanidade, diversas experiências nucleares foram empreendidas com o intuito de oferecer vantagem nas guerras e conflitos que frequentemente assolavam os países. Só que, por um abuso e inconsequência, a coisa saiu do controle. Aconteceu o que todos passaram a chamar de O Acidente. Testes nucleares realizados no espaço não acabaram bem e resultaram numa potente onda de radiação que passou a ser constantemente direcionada e absorvida pelo planeta Terra. Não preciso dizer que ferrou e ferrou muito, né?
A natureza e os animais começaram a morrer aos poucos, até minguarem ao extremo, sobrando pouquíssimas espécies e algumas novas que se transmutaram em pestes devoradoras: os arminhos. O câncer assolou por todo lugar e entre as vítimas dele, também houverem as vítimas de outra doença que eclodiu em todos os cantos, a cólera. Com mortes e destruição sem precedentes, a humanidade entrou em crise, fronteiras foram fechados no intuito de conter as doenças, guerras estouraram, autoridades caíram e a ordem se perdeu de todo, até que a organização da civilização, estados, cidades e países se extinguisse. Até que a humanidade se transformasse.
E não é só isso, a grande jogada do livro é outra: quem não sucumbiu ao câncer e à cólera, não se suicidou ou acabou morrendo na guerra teve outro preço a pagar: a esterilidade, total e completa. 
A esterilidade humana. Já imaginou? 
Bebês não nasciam mais; não era possível porque a radiação afetou de maneira contundente as gônadas humanas (órgãos reprodutores), tornando toda a população incapaz de ter filhos. E qual o resultado disso? A última geração humana habitando a terra. Uma geração majoritariamente idosa, ninguém abaixo dos quarenta e cinco anos. Olha que louca a coisa.
O título original do livro é Greybeard, barba cinza em inglês, porque ele ilustra justamente isso, os velhinhos que sobraram na terra, já que quando eclodiu O Acidente, a maioria dos bebês e crianças não resistiu; só os de vinte anos pra cima que, cerca de duas décadas depois, quando a narrativa do livro começa, já eram adultos quase velhos (hãn?) ou completamente idosos.
E é com Barbagris Timberlane, um cinquentão e personagem principal, sua esposa e alguns outros amigos (velhinhos decrépitos já) que empreendemos uma jornada de esperança por essas terras que não oferecem esperança alguma. Esse pequeno grupo sai da comunidade em que estavam há 11 anos, fugidos das guerras, pra desbravar o que restou do mundo ao seu redor, na esperança de encontrar...o quê? Nem mesmo eles sabem, nem mesmo admitem ter alguma esperança. Só saem de onde estão porque ficar naquela cidadezinha decadente com um líder meio lunático e moradores desesperados não era bom pra ninguém. Com um barco seguindo o fluxo do rio eles vão parando em várias localidades e explorando o que restou do que antes eles costumavam chamar de sociedade. E o leitor explora junto com eles, descobrindo que sobrou da civilização e no que as pessoas se transformaram no fim do mundo. Descobrem o que é sobreviver nessa nova era.

''Uma emoção próxima do júbilo tomou conta de Barbagris: uma espécie de deslumbramento ante a ideia de que talvez testemunhasse o fim do mundo. Não, o fim da humanidade. O mundo continuaria; talvez o homem morresse, mas a terra seguiria produzindo seus frutos.''

É interessante observar toda essa nova perspectiva, mas como o livro não é muito comprido, foi uma pena o autor não ter conseguido explorar tanto esse brave new world nas páginas de que ele dispunha.
Uma coisa legal do livro é que ele vai intercalando presente e passado, ao passo que os personagens vão recordando suas histórias, o que nos permite conhecer o processo que fez o mundo resultar naquilo tudo. O pai de Barbagris era dono de uma fábrica de brinquedos infantis, mas como fazer o negócio continuar vingando num mundo em que não nascem mais crianças? Vemos todo o crack no sistema e no comércio, consequência da inexistência de jovens e grande população idosa. Produtos para jovens não vendem mais e como resultado disso diversas empresas vão a falência. Idosos não tem a mesma disposição ao trabalho e, bom, pra que trabalhar se não temos mais uma geração de filhos e netos a suprir? Então não há mais mão de obra e o comércio é liquidado por isso. A humanidade muda, a economia muda, o mundo muda e as coisas acabam. É bem interessante pensar no que aconteceria com o mundo se, BUM, assim do nada, crianças parassem de nascer e a população só fosse envelhecendo, envelhecendo, envelhecendo. Desgraçamento total.
Ademais, a grande reflexão do livro não é nova, né? Qual vai ser o resultado de tanta exploração humana sobre a natureza? De tantas guerras e destruição? Qual é nosso limite, afinal? Porque aparentemente ainda não achamos um e vamos só consumindo tudo visando o lucro pessoal -ou nacional. Qual vai ser o fim disso? No que vai acabar? Que desgraça nos espera lá na frente se as coisas -se a nossa atitude- não mudarem e LOGO? 

''Qual seria o fim de tudo aquilo?
Uma pergunta viscosa como poucas; era-lhe difícil livrar-se dela; cada vez mais, ele a sentia consigo.''

Sabe, embora no livro vejamos um final que realmente abre novas portas à humanidade e parece oferecer uma esperança longínqua (a grande sacada final do livro, o aprendizado, a reflexão, é muito boa, maravilhosa), não sei qual é o nosso fim de verdade. Talvez Brian Aldiss tenha adivinhado e Jornada de Esperança só é o relato de um futuro que ainda não chegou. Mas já está a caminho.

''Com fria objetividade, ele já percebia que sua espécie estava chegando ao fim. Ano após ano, à medida que os vivos fossem falecendo, os quartos vazios se multiplicariam por toda parte, à maneira dos alvéolos de uma gigantesca colmeia abandonada pelas abelhas, terminando por encher o mundo. Chegaria a época em que ele, Timberlane, se transformaria num monstro, perambulando solitário pelos quartos, perdido no labirinto das próprias passadas.''

''-O futuro não existe, lembra-se? Nós o liquidamos no passado.''

(Não consegui escolher só uma frase pro fim; as duas ilustram muito bem as coisas.)

30/12/2016

Retrospectiva Literária 2016

Esse meu ano foi quase um fracasso literário. Levaria com certeza esse título se eu fosse olhar apenas pra quantidade de livros lidos: 27. Vergonhoso. Acontece que passei grande parte de 2016 numa total fossa emocional que me tirou ânimo pra praticamente tudo. Sério, a coisa foi mesmo feia e digna de acompanhamento psiquiátrico, pra não parecer que tô dando desculpas.
O ano só não vai pro topo da lista de Decadências de Uma Leitora porque li títulos MARAVILHOSOS e clássicos nos quais estava querendo mergulhar há muito tempo. Por isso, meu 2016 literário valeu sim. Entre trancos e barrancos, valeu.

Aqui abaixo vai a lista de lidos, com os favoritos em negito:
Jesus, o maior psicólogo que já existiu / O chefão / O futuro da humanidade / Na jornada com Cristo / Razão e sensibilidade / Memórias póstumas de Brás Cubas / O morro dos ventos uivantes / O quarto fechado / Orgulho e preconceito / Madame Bovary / O nome da rosa / O sol também se levanta / Eva Luna / O poço da solidão / Vozes na casa / Mosignore / O mestre dos mestres / O mestre da vida / O mestre da sensibilidade / O mestre do amor / O mestre inesquecível / O canto do carrasco / Gente como a gente / O beijo da morte / Horizonte perdido / O repouso do guerreiro / Jornada de esperança
Definição horrível porque é de um print de celular.
Há pouco eu descobri a retrospectiva literário do blog Pensamento Tangencial, que é bem famosa no meio bloguístico e já corre por aí há anos. Aí pensei que nunca fiz uma tag (detesto falar isso) aqui no blog, embora goste bastante da ideia e ache a maioria delas divertidas. E que maneira melhor de começar do que uma tag (eu já disse que detesto falar essa palavra?) livrística? Nenhuma. Então aqui estou, e fique certo de que outros memes (melhorou) aparecerão por aqui, ok?
A coisa consiste basicamente em responder a algumas perguntas sobre volumes que li esse ano (como o meu número foi lamentável espero que dê pra preencher bem sem grandes dramas). Vamos lá \o/ :

 A aventura que me tirou o fôlego: O nome da rosa. Me sinto meio estranha reduzindo O nome da rosa a aventura, mas bom, o que Guelherme e Adso viveram foi isso mesmo, né? Então ok.

O terror que me deixou sem dormir: Infelizmente não li nenhum terror. :/ (Desculpa, King. Eu te amo.)


O suspense mais eletrizante: O beijo da morte. Tem resenha no blog (como também a maioria dos outros títulos). Sério, leiam essa bagaça.

O romance que me fez suspirar: Não romance no sentido casalzinho uiuiui, mas romance enquanto gênero dramático, entendem? Eva Luna. Que livro lindo e maravilhoso. Suspirei mais pelo romance da vida que ele retrata, embora também tenha me apaixonado pelo casal que se forma ao fim. <3

A fantasia que me encantou: Horizonte perdido. Não SUPER me encantei e não é fantasia estilo Nárnia, mas tá valendo.

A saga que me conquistou: A única saga que li, O mestre dos mestres, do Augusto Cury.

O clássico que me marcou: O morro dos ventos uivantes. O clássico que conquistou meu coraçãozinho completamente e vai estar PRA SEMPRE AMÉM na lista de Favoritos da Vida.

O nacional que adorei: O quarto fechado. Lya Luft também já é dona do meu coração há muito tempo. (Tem resenha em algum lugar por aqui.)

O livro que me fez refletir: O futuro da humanidade. Me fez refletir porque tem como protagonista um médico que entra constantemente em conflito com os valores sobre a vida que a maioria das universidades esquece de passar a seus estudantes, se limitando a transmitir o conteúdo científico que eles precisam assimilar. E quero ser médica, então tem um ensinamento que é importante eu levar pra vida e futura (se Deus quiser) carreira.

O livro que me fez rir: O repouso do guerreiro. É um livro mais profundo do que cômico, mas a excentricidade de Renaud e suas tiradas filosóficas acabaram me divertindo no caminho.

O livro que me fez chorar: Vou ter que citar de novo a coleção Mestre dos mestres (vale fazer isso?), simplesmente porque ler sobre Jesus foi lindo pra mim.

O livro que me decepcionou: Orgulho e preconceito. Sério. Desculpa, fãs, mas não deu.

O livro que me surpreendeu: Madame Bovary. Eu estava esperando uma coisa completamente maçante e ''hora de cortar os pulsos'' e a maneira com que a escrita fluiu pra mim foi surpreendente, principalmente em vista dos comentários que muitos dedicam à escrita de Flaubert nesse clássico.

O livro que devorei: Vou ter que repetir de novo aqui, gente. Não tá tendo jeito, desculpa. A resposta é O quarto fechado. Li-o em algumas horas, numa mesma noite.

O livro que abandonei: Nenhum. I'm a winner.

O livro que comecei, mas não terminei: Nenhum de novo. I'm a winner ao quadrado.

A capa que amei: Razão e sensibilidade. O meu exemplar tem uma capa de couro marrom com uma carruagem vitoriana em traços dourados com bordas também douradas por toda a capa. Uma coisa meio retrô chique bonito (what?). Gostei mais da capa do que do livro. (Pois é, Jane Austen realmente não fluiu comigo.)

A capa que detestei: O sol também se levanta. Por motivos de: retrata uma tourada, a cena de abate em que o toureiro enfia a lança no pobre animal. Que NOOOOOOOJO eterno disso. Na resenha (também por aqui) falei de como detestei essa joça. Não gostei do livro também, inclusive. Por quê, Hemingway, por quê?

thriller psicológico que me arrepiou: Acho que o único thriller psicológico foi O beijo da morte, mas será que posso citar Jornada de esperança em vez disso, pra não repetir? Não sei se se encaixa em thriller, mas...pós apocalíptico, dramático, ilustra a decadência humana...acho que vale, né?

A frase que não saiu da minha cabeça: ''Não tive filhos, não transmiti a nenhuma criatura o legado da nossa miséria'', de Memórias póstumas de Brás Cubas. Já amava essa frase antes mesmo de ter lido o livro. (Na verdade, eu me interessei por ele justamente por essa sentença, hihi.)

O(a) personagem do ano: Putz, aí fica difícil. Foram tantos... Guilherme de Baskerville, Eva Luna, Heathcliff, Renaud Sarti... Mas tudo bem, acho que vou ficar com Guilherme, um monge estudioso metido a Sherlock. Muito amor. (Mas fique claro que os outros também tão nas entrelinhas dessa colocação, hein.)

O casal perfeito: Eva Luna (de novo) e Rolf Carlé. Me apaixonei por esses dois, viu?

O(a) autor(a) revelação: Isabel Allende, porque li pela primeira vez esse ano e certamente voltarei a procurá-la pelas estantes da vida. Que mulher, que escritora!

O(a) autor(a) que mais esteve presente entre as minhas leituras: Um autor que nem gosto muito por motivos já ditos aqui, Augusto Cury. O fato de que a saga do Mestre dos mestres foi escrita por ele e tem cinco volumes contribui bastante, né? É que aqui em casa tínhamos esses seis livros dele parados na estante e que minha mãe tinha comprado há séculos que cansei de ficar encarando eles e criei vergonha na cara e fui ler tudo de uma vez.

O gênero literário que mais li: Clássicos da literatura mundial (isso é gênero?). Já disse que meio que surrupiei da antiga escola (em minha defesa eles provavelmente iam tocar fora porque eram ''livros velhos'') um monte de livros da coleção Grandes Sucessos que é inteiramente composta por clássicos? Pois então, como a biblioteca da frente de casa tá em reforma foi o ano de tirar eles da minha estante.

O gênero literário que preciso ler mais: Terror. Na verdade a pergunta se encaixaria melhor se fosse ''autor cujas obras preciso ler mais'', porque aí eu diria Stephen King, heh. Já li vários dele e está entre os favoritos, mas faz tempo que quero fazer uma maratona King pra pegar os títulos que fugiram da minha estante. Só falta dinheiro pra comprar ou amigos pra emprestar. Mas aguardem resenhas por aqui, fica o aviso.

O melhor livro que li em 2016: Sacanagem essa pergunta, hein. Eu teria que tirar no uni-duni-tê entre O nome da rosa, Eva Luna e O morro dos ventos uivantes...mas ok. Fico com O Morro. Só porque com um único livro publicado a autora conseguiu se consagrar com devido mérito por séculos.

Li em 2016 27 livros. (Admitindo com vergonha.)

A minha meta literária para 2017 é: Ler mais que 27 livros Ler o resto dos clássicos roubados na minha estante e fazer a maratona King. =)


Então foi isso. Vou deixar o selinho do desafio Retrospectiva e o link do blog Pensamento Tangencial já citei lá em cima na postagem. Todo mundo é bem-vindo. =) (Eu espero, né? Porque me meti sem mais nem menos.)
Quem sabe em 2017 eu crie minha própria retrospectiva com as categorias que senti falta aqui...
Que tenhamos todos um 2017 de grandes e envolventes leituras, e que se o ano for um fracasso em todos os aspectos, pelo menos não seja no âmbito livrístico. 2017, vem com calma pra cima da gente, kerido, porque estamos cansados de apanhar.

27/12/2016

O Repouso do Guerreiro

De Christiane Rochefort
Eu amo livros sobre mulheres escritos por mulheres. E amei O Repouso do Guerreiro - também, mas não somente, por isso.
Nessa história vemos se desenvolver o relacionamento conflituoso e intenso de Genevieve, uma moça organizada, responsável e, até então, pé no chão, com Renaud, um alcoólatra inveterado, desleixado e de pensamentos e opiniões fortes e questionadoras. Genevieve conhece esse companheiro de comportamento visceral quando entra por engano no quarto de hotel em que ele tentava cometer suicídio, onde ela se hospeda para tratar de assuntos sobre as propriedades que herdara de uma falecida parente. Tendo salvo o rapaz de sua falha tentativa de partir dessa para uma melhor, os dois logo mergulham numa relação voraz e profunda, que acaba submergindo totalmente a moça Genevieve nesse amor, inicial e supostamente (por um bom tempo) não correspondido.
Genevieve, antes tão dedicada à própria vida e a seus deveres e compromissos, se vê, de súbito, deixando tudo para trás, esquecido, perdido e abandonado em segundo foco ante a seu envolvimento intenso com Renaud. Seus dias passam a girar em torno dele, somente. Ela se prende na vontade de mantê-lo ali, sempre e irremediavelmente com ela, e para tanto não poupa nenhum tipo de esforço diante das exigências (bastante excêntricas) do moço em todos os aspectos, especialmente sexual e psicológico. A tudo ela consente para manter constante esse amor e paixão desenfreada, que só ela parece se dar ao trabalho de alimentar, uma vez que de Renaud só vemos, no quesito emocional, a indiferença complacente.
Genevieve se entrega por inteiro, não mais existe sem Renaud. Sua vida se transmuta no suprimento daquele voraz instinto apaixonado. Tudo muda para ela. Genevieve muda, Genevieve se transforma. Descobre, com Renaud, a própria sexualidade, os desejos e vontades de sua carne, que antes desconhecia serem tão irrefreáveis e exigentes. E com essas descobertas se lança na viagem vertiginosa que são seus dias de entrega a esse homem.
A forma com que a autora explora esse desenvolvimento da personagem feminina é muito interessante de acompanhar. A construção de seus quereres e sensualidade é vista crescendo poupo a pouco, de um jeito bastante envolvente.
O personagem Renaud em si também é muito curioso. Ele é um pessimista que desdobra sua visão negativista sobre a vida e si mesmo de uma forma filosófica ao longo de vários diálogos do livro. Descobrimos que ele desacredita no amor porque desacredita em si mesmo e na humanidade como um todo. Suas perspectivas sobre a simples existência que corre sobre a Terra são bem intrigantes de um jeito dramático e fatalista. Ele é um alcoólatra inveterado porque com isso tenta fugir da própria função de ser.
Não vou dizer qual foi o desfecho dessa paixão arrasadora pra evitar spoiler, né? Mas, bom, não foi trágico; digamos que nossos personagens se encontraram. Renaud, perdido em si mesmo e Genevieve, perdida nesse amor, por fim, se acharam. E foi bonito ver.
Mas deixando o enredo em si um pouco de lado, o que tenho a dizer sobre o livro é que ele me causou certa preocupação. Porque aquela paixão que a autora despe de simbolismos e enfeites românticos pode acontecer comigo, pode acontecer com qualquer um. Sem olhar para o belo fim aqui, e discutindo apenas o desenvolvimento de tudo, posso dizer que a ideia de me entregar totalmente a uma paixão que me consome em todos os aspectos, como acontece a Genevieve, me deixa temerosa. Porque tenho orgulho e nela o orgulho é total e completamente abandonado, posto de lado, ignorado. Não há espaço para ele em tamanha entrega, e isso é meio preocupante, não? Porque você deixa de se importar consigo mesmo e passa a olhar somente para o próximo, e, embora essa condição seja essencial para manter um amor vivo muitas vezes, ela também pode ser autodestrutiva. Porque você esquece de si e só lembra do seu amor, você se deixa ser usado mas se recusa a usar o outro. E se esses sentimentos não forem recíprocos em igual medida, você é esmagado. E isso preocupa, porque pode ser seu fim.
Ademais, sei que pode acabar sendo muito fácil, para mim, me entregar dessa maneira. Isso assusta.
Aqui entra toda aquela discussão de "mas isso não é amor, ninguém deve se submeter a tal coisa, não é saudável!", e eu sei, não é mesmo. Mas não sejamos hipócritas, por mais que você se ame, por melhor que seja sua autoestima e valor que atribui a si mesmo(a), pode acontecer. A gente às vezes se perde em paixões que nos envolvem de todo e nelas, às vezes, a ideia de se entregar e se render não nos parece tão ruim assim. Porque você está amando e nas paixões isso acontece. Nas paixões você se perde, você se rende, você se entrega e, de vez enquando, você diz dane-se a si mesmo. E vai ter quem diga que isso não é ''se dar ao respeito'', e talvez essas pessoas até estejam certas. Mas acontece. Às vezes, acontece.
E saber que pode - que provavelmente vai, um dia (se já não aconteceu) - acontecer comigo me preocupa muito, sim. Eu posso querer me precaver agora e me munir de proteções, de autodefesa e de amor próprio desmedido, mas pode ser que isso não baste, pode ser que eu acabe me perdendo mesmo.
Pode acontecer. E tenho que viver com isso - todos temos. E, sabe, embora pareça ser falta de amor próprio e blábláblá, desde já, embora me perturbe, a ideia não me parece distante ou improvável; muito pelo contrário. Me envolver numa paixão como me envolvi nesse livro e como os personagens do livro se envolvem entre si? É bem possível que aconteça, e acho que desde já isso mostra que estou mais perdida de mim mesma do que deveria.

''Chorei longa e copiosamente, chorei mais e mais, vi que tudo era uma comédia absurda sem o menor sentido, e perguntei-me se, de fato, eu amava Renaud, ou se toda aquela história não era, por acaso, desde o começo, um delírio de interpretação romântica, encenado pelas circunstâncias, o suicídio patético, a mudança de lugar, o estranho encanto de Renaud, a simples ruptura de meus hábitos; a novidade, vejam só. A tese era tão sedutora quanto meu coração, no momento, estava vazio e frio; e ele a acolheu sem qualquer revolta.''

24/12/2016

Retrospectiva Cinematográfica 2016

Esse ano resolvi fazer uma coisa: anotar numa notinha de celular todos os filmes a que eu assistisse. Deu certo? Sim. E não. Esqueci alguns e comecei a fazer isso lá por fevereiro/março, então um ou dois meses ficaram de fora e a coisa já ficou desfalcada por isso. Mas enfim.
Acontece que tenho um filmow porque gosto da ideia de ter anotadas essas coisas, catalogadas, organizadas... os livros que leio (Skoob), as séries que vejo (Orangotag) e os filmes a que assisto (Filmow). Mas a ideia de ter que sempre atualizar o filmow a cada filme me dá preguiça; o site é meio bosta em alguns sentidos e a ferramenta de busca é meio cansativa, não muito prática. E me era mais difícil atualizar o filmow que o Skoob ou Orangotag porque filmes são mais efêmeros do que séries e livros. Livros duram alguns dias, séries algumas semanas (ou menos, depende do comprimento) e filmes apenas algumas horas. Então digamos que eu tinha menos tempo pra atualizá-los. E menos vontade.
Então optei pela notinha no celular que eu passaria pro filmow no fim do ano. Todos os filmes de uma vez.
Mas como esse blog só começou a ter movimento (meu mesmo, não de público) esse ano, outra ideia me veio à mente: fazer aqui uma retrospectiva cinematográfica (coisa que você, leitor muitíssimo atento, já deve ter percebido pelo título desse post). Então aqui estou!
Ainda falta uma semana pro ano acabar, mas vou adiantando porque ainda tenho a retrospectiva literária pra fazer aqui e não quero acumular as coisas (como já faço com todos os outros compromissos da minha vida, diga-se de passagem). Como dito, alguns títulos ficaram fora da listinha por motivos já citados, e ela está fora de ordem cronológica de assistidas (oi?), mas whatever, here we go:

Chloe / Tropa de elite / Não me abandone jamais / Branca de neve e o caçador / Em chamas / Homem de ferro 3 / Donnie Darko / Lutero / Duff / A dona da história / Gato de botas / Hanna / Agora e para sempre / Beetlejuice / Como eu era antes de você / Arte da sedução / Meia noite em Paris / Colega de quarto / Wolverine imortal / Um brinde à amizade / A estranha vida de Timothy Green / Meu amigo hindu / Pequeno problema mega confusão / Jason x / Quando em Roma / Missão em Marte / Você acredita? / Gamer / O procurado / Do além / Orgulho e preconceito / Missão madrinha de honra / Em má companhia / Mulheres ao ataque / Volcano a fúria / Escritores da liberdade / Codinome Cassius 7 / Minhas mães e meu pai / As bem armadas / Filadélfia / A múmia / Instinto selvagem II / Funcionário do mês / Colateral / Proteção a testemunha / Os excêntricos Tenembaum / Uma ladra sem limites / De volta para o futuro II / Millennium / Crimes cruzados / Carandiru / Entre nós / Columbiana / Divertidamente / Meu namorado é um zumbi / Julie e Julia / Zumbilandia / Truque de mestre / Procura-se uma noiva


Teve de tudo, como sempre. Teve corujão legal (Não me abandone jamais, Os excêntricos Tenembaum), corujão meia boca (Julie e Julia) e corujão bosta que eu vi só porque não tava com sono (Instinto selvagem II); teve filme de livro (Millennium, Orgulho e preconceito, Em chamas) e teve aquele do Tim Burton que eu queria assistir há um tempão (Beetlejuice)... mas acabei achando meio porcaria; teve filme que assisti com o grupo de apoio (Divertidamente) -eu sei, eu tinha um grupo de apoio- e que assisti com o pessoal dos jovens da igreja (Você acredita?, Como eu era antes de você, Lutero); teve filme que realmente era tão ruim quanto todos falavam (Meu namorado é um zumbi) e teve filme que, nossa, até que não foi a desgraça que eu esperava (Columbiana); teve filme de zumbi trizinho (Zumbilândia) e teve filme do Jason totalmente WTF? (Jason X); teve filme que eu nem lembrava de ter assistido (Filadélfia, Codinome Cassius 7) -e continuo não lembrando- e teve aquele que não vai sair da cabeça jamais (Meia-noite em Paris); teve filme que eu posso jurar que o diretor estava sob efeito de LSD quando escreveu (Meu amigo hindu) -quem viu sabe do que eu tô falando- e teve aqueles bonitinhos e verídicos, mas não mais do que isso, também do corujão (Escritores da liberdade); teve um clássico que eu queria assistir há tempos e só consegui graças à pirataria na internet às 3 da manhã (Donnie Darko) e teve aquele que assisti com parte da família na Globo depois que meu irmão mais velho não quis me levar ao cinema quando ele foi (Homem de ferro 3); teve um que eu não gostaria de assistir com meus pais do lado (Chloe) e teve a animação fofinha pra todas as idades -em teoria (Gato de botas); teve um que me fez criar expectativas mas não era tudo isso (Agora e pra sempre) e teve o que minha amiga me pedia pra assistir toda semana (DUFF); teve bastante filme brasileiro (Tropa de elite, A dona da história, Carandiru), filme brasileiro de ''não acredito que perdi tempo vendo essa merda'' (Entre nós) e teve filme de ator adolescente da Diney que eu achaava que ia ser perda de tempo mas acabei rindo junto com minha irmã em cenas ridículas no corujão (Pequeno problema mega confusão); teve filme de super-herói (Wolverine imortal) e teve filme de ser humano que quer bancar super-herói (Proteção a testemunha); teve aqueles filmes que ainda não entendi por que existem (Hanna, Um brinde à amizada, Gamer, O procurado, Missão madrinha de honra, Em má companhia) e teve clichê de ''Boy perseguido e adorado pelas minas'' (Procura-se uma noiva); teve filme visto com a família em noite de sorvete na casa da tia  (Branca de Neve e o caçador) e teve filme visto sozinha no curujão dando risadas e amando a personagem morena dane-se vida (Quatro amigas e um casamento); teve aquelas sessões da tarde meia boca que eu sempre perco tempo assistindo (Quando em Roma, Funcionário do mês, A estranha vida de Timothy Green, Arte da sedução) e teve a Tela Quente com os irmãos (Truque de mestre); teve filme WHAT? (Missão em Marte) e clássico que não me perguntem como eu ainda não tinha visto (De volta para o futuro II); teve ''filme meio sobrenatural'' que minha mãe não recomenda (Do além) e teve comédia pra assistir com a família (Mulheres ao ataque, As bem armadas, Uma ladra sem limites); teve sessão da tarde clássica sobre desastres naturais (Volcano, a fúria) e teve filme que vi há anos mas nem lembrava até rever de novo (Crimes cruzados); teve produção que achei que foi um tremendo gasto de dinheiro (A múmia) e teve um com o Tom Cruise e o Denzel que...bom, o Tom Cruise e o Denzel até fizeram valer a pena (Colateral).
E teve os que esqueci de colocar nessa listinha também, óbvio.

Bom, como eu disse, teve bastante coisa. Não sei dizer qual é mau favorito e meu mais odiado, mas entre os melhores (em minha humilde -e muitas vezes ignorante- opinião) ficaram Millennium, Os excêntricos Tenembaum e Maia noite em Paris (é o que me vem à mente agora). E, no posto de piores, PELOAMOR, gente: Jason X e Meu amigo hindu. Sério, que droga foi aquela? Alguém entendeu o propósito daquelas desgraça? Porque vou te contar, foi daqueles que fiquei 15 minutos encarando a TV com vontade de morrer depois de acabar.
Bom, de filmes foi quase isso.

Vi também uns animes: Gósick, Dance in the vampire bund e Higurashi. 
De série televisiva com gente humana (?) vi a MARAVILHOSA QUERO SUPER ADOREI Breaking Bad que, putz, simplesmente ótima. Um professor de química genial se vê com câncer de pulmão e passa a se preocupar em como garantir o sustento de sua família (esposa e dois filhos) quando ele partir. Como tem um cunhado que trabalha na polícia estilo narcóticos, descobre a quantidade absurda de dinheiro que a venda de drogas proporciona e, bom, ele é químico, ou seja: sabe fazer drogas, e droga dá muito dinheiro e ele precisa de dinheiro pra família, then here we go fabricar metanfetamina!!! Com a ajuda (forçada) de um ex aluno perdido na vida e semi drogado (Jesse), ele começa a própria produção. Só que, entre a disputa de território com os outros traficantes, o cunhado que trabalha pra prender gente que faz o tipo de coisa que ele tá fazendo, a doença terminal e a necessidade de manter o segredo escondido da família, as coisas começam a ficar feias. Bem feias. E empolgantes!!!
Super amei e super recomendo, vá ver já essa bagaça.
Breaking Bad ia até ganhar um post solo aqui (quem sabe) de tanto que gostei! O final (que achei bom, o melhor possível sem ficar tosco) partiu muito meu coraçãozinho por motivos que não direi aqui pra evitar spoiler. #AindaNãoSuperei
Também estou concluindo Dexter (<3) que queria assistir há tempos. Tô na última temporada (são 8). Dexter é um psicopata que foi adotado por um policial que o encontrou em uma cena de crime, quando criança. Harry, o pai adotivo, percebe as inclinações assassinas do filho e, sabendo que não pode contê-las, treina-o para matar somente quem merece morrer: assassinos e criminosos perigosos. Harry dá a Dexter um código que garantirá que ele não seja pego e que não mate nenhum inocente. Ele canaliza seus instintos psicopatas a um propósito maior: limpar as ruas de pessoas más. Dexter cresce e se torna, olha vejam só, analista de respingos de sangue (trabalho de perito em que ele descreve e faz entender certas cenas de crimes através dos vestígios deixados pelo sangue) na delegacia de homicídios (olha a ironia acontecendo) em que seu pai trabalhava e em que sua irmã, Debra, também trabalha. Lógico que um assassino em um lugar em que todos caçam assassinos dá muito pano pra manga nessa história, né? É genial! A gente também acompanha todos os conflitos da cabeça do Dexter de ''como vou viver se não sei amar, como vou parecer normal se sou anormal, como poderei ter uma família, como vou matar só quem merece se às vezes tenho vontade de sair matando geral? Aii, quantas questões!''. E, bom, chega um momento em que as coisas também ficam BEM feias.
Um serial killer de seriais (cereais, seriales, séries?) killers, gente. Como não amar? EU. NÃO. SEI.
Bom, é isso. Foi o que teve na tela em 2016. 
Que venha um 2017 com muitos animes tri, séries viciantes, filmes bem pensados e nenhum Meu amigo hindu, peloamor, eu imploro! pra todo mundo. =)

18/12/2016

Horizonte Perdido

De James Hilton
Em meio a uma guerra (que não é muito abordada no livro), um grupo de quatro pessoas + piloto sai em evacuação com o objetivo de fugir do conflito, indo para não lembro onde, hih. Fato é que os quatro passageiros de diferenças gritantes entre si não chegam ao destino previamente estabelecido, uma vez que o piloto acaba se revelando um sequestrador que os leva para Shangri-la, uma aldeia em meio a montanhas extremamente desconhecidas e inexploradas no Tibete. Os quatro, Conway, o principal, Bernard, um criminoso fugidio, Mallinson, um jovem altivo e impaciente, e Ms. Brinklow, uma missionária, após a morte do piloto sequestrador, se veem perdidos em meio a uma cadeia montanhosa de clima frio e impetuoso, até que um grupo de lamas, habitantes de um mosteiro, aparece e os leva para conhecer a tão peculiar instalação localizada naquele fim de mundo horizonte perdido.
Durante o longo tempo à espera de carregadores que supostamente os levariam de volta a suas origens, a dinâmica do mosteiro passa a ser paulatinamente familiarizada aos novos e temporários só que não inquilinos, sob a supervisão de um lama chamado Tchang. No entanto, somente Conwya passa a conhecer de fato o real significado de todo aquele lugar de ares encantados, pois, por algum motivo, é o único que o grande chefe supremo do mosteiro deseja conhecer e com quem fala face a face. 
E é nesses encontros que nós, leitores, também descobrimos a razão de ser daquele remoto e perdido lugar, que abriga perspectivas totalmente diferentes das do mundo acerca da vida, tempo, velhice e futuro. Acontece que, anos atrás, o lugar foi fundado por um homem que, prevendo a futura e completa degradação da raça humana e sua civilidade, ao passo que é consumida pelas guerras, armas, conflitos e violência, decide iniciar aquele santuário de preservação da sabedoria, cultura, racionalidade, arte, sentimentalismo e espiritualidade humanas, para que, após toda a destruição desses valores através dos anos de guerra, o mosteiro seja um manancial que terá a função de restabelecer todas estas virtudes ao mundo.
É isso mesmo, o mosteiro é como uma espécie de redoma que deverá seguir inexpugnável à destruição da sociedade para depois servir de salvação à mesma.
Conway também é o único a saber que, na verdade, os quatro estão lá não por acaso, mas como resultado de uma prévia escolha; eles são especiais, foram chamados para entrar no rol de habitantes do mosteiro com a missão de adquirirem sabedoria e conhecimentos no tempo em que habitarem o lugar, para no futuro, após todo o conflito que sobrevirá sobre a humanidade, transmitirem essa mesma sabedoria e conhecimento àqueles que sobreviverem.

''Aqui ficaremos com nossos livros, nossa música e nossas meditações, conservando as frágeis elegâncias de uma época moribunda e buscando a sabedoria de que os homens hão de precisar quando tiverem esgotado todas as suas paixões. Temos uma herança a conservar e transmitir. Tiremos dessas coisas todo o prazer que pudermos, até que venha esse dia.''

Por isso o local é como um centro de preservação de milhares de livros, discos e toda forma de arte. No entanto, esse não é o único segredo do mosteiro; passamos a ver que, por uma razão singular que não revelarei aqui, a velhice e juventude também possuem, naquele lugar, uma mutabilidade em relação ao resto do mudo.
E é aqui que paro de descrever a história, se não darei muito mais spoilers do que os que você já encontra nessa resenha.
Sabe, eu demorei a me envolver porque o livro demora a nos revelar o real intento do mosteiro; quando este passou a ser conhecido por mim, fiquei um tanto maravilhada por sua perspectiva. Porque isso sempre foi uma espécie de sonho secreto e obviamente inatingível pra mim.
O que eu quero dizer com isso? Bom, as atividades dos habitantes do mosteiro basicamente se resumem a leituras, estudos sobre arte e música e plena contemplação das culturas e conhecimentos que a humanidade cultivou ao longo de sua trajetória, e eu, Carolina, não vejo nenhuma outra ocupação de vida com tão bons olhos quanto enxergo essa. Fiquei imaginando o contentamento que eu teria em poder me desligar de uma rotina cansativa de trabalho que consume nós, cidadãos em sociedade, ou de eventos sociais esdrúxulos que não me atraem mas nos quais compareço pela exigência implícita de socialização, ou mesmo de todo tipo de gasto tediante e vazio que temos -que somos obrigados a ter- com nosso tempo, pra poder simplesmente ficar fazendo isso: lendo e aprendendo. Imagina que bom poder não se preocupar com contas a pagar, idas ao mercado, contratos sociais, provas de vestibular, salário insuficiente no fim do mês e tantas outras coisas que enfrentamos e, em vez disso, se dedicar sem medida a leituras prazerosas, músicas lindas a escutar e quadros artísticos a observar! Seria tão prazeroso!
Eu sempre tive esse apelo em mim, essa vontade de largar tudo, dar adeus às responsabilidades exaustivas só pra poder, olha só, ficar lendo, ouvindo música e mergulhando em todo tipo de cultura que está aí no mundo, pronta pra ser explorada na forma escrita, musical e artística. Quantas vezes não desejei poder fazer isso, poder me dedicar só a estudos pelo simples prazer de aprender, a meus livros tão amados e mais nada, sem me preocupar com a falta de tempo ou disposição e excesso de cansaço... É uma espécie de sonho meu que, infelizmente (ou não, não sei), jamais poderá ser alcançado. Porque as responsabilidades batem na nossa porta e precisam ser cumpridas. Porque o mundo exige. Porque a sociedade exige. Porque assim é.
O livro acaba e ficamos sem saber se foi um sonho, se Conway viveu tudo aquilo mesmo ou se é, como é pra mim, uma ilusão que ele projetou de tanto querer em secreto. Não sabemos se é real, não sabemos se todos aqueles livros, música arte e cultura realmente estão sendo cuidados como herança naquele lugar, não sabemos nada. 
O que sei é que pode parecer um tanto omisso esse desejo, um dane-se ao que devo (ao que todos devemos) fazer e que não pode ser deixado de lado, porque a vida exige e ponto, e entendo essa exigência; mas não consigo deixar de pensar no quão bom seria poder, um dia, fugir um pouco de toda essa loucura que é a vida, de todos os papéis que temos que desempenhar nesse palco imenso, pra poder passear por umas montanhas no Tibete e, em meio a neve, frio, vento e busca por uma fuga de tudo, encontrar esse lugar encantado, esse horizonte perdido e especial, diferente de tudo, essa Shangri-la que eu adoraria, por um tempo ou pra sempre, poder habitar.

''Mas de repente sentiu que todos, ali, eram atore num palco imenso, cujo pano de fundo só ele avistava, e, como não pudesse comunicar o que sabia, assaltou-o repentino desejo de estar só.''

10/12/2016

O Beijo Da Morte

De Ira Levin
Eu só percebi a falta que sentia de um bom livro de investigação, assassinato e mistério quando já estava totalmente envolvida nessa obra de Ira Levin (mesmo autor de O Bebê de Rosemary). Ultimamente eu tenho embarcado em vários clássicos, e embora esse livro esteja entre eles, é um dos poucos com esse tipo de enredo. A maioria deles -os clássicos da coleção Grandes Sucessos- é sentimental, reflexivo e trás alguma lição de vida, uma moral inspiradora que o leitor deve assimilar. Então foi um pouco surpreendente me deparar com essa trilha de homicídios intrincados na mesma coleção que lista Orgulho e Preconceito, entendem? Uma boa surpresa.
O Beijo Da Morte (no original -e fazendo MUITO mais sentido, pra variar- A Kiss Before Dying) nos apresenta a um jovem de beleza notável, inteligência também considerável que lhe garante sucesso nos estudos, simpatia, cordialidade e, principalmente, ambição. Ele garante que está destinado a um futuro brilhante e nada menos que isso o satisfará. No entanto, sendo pobre e já que essa carreira promissora na qual ele tem tanta fé não engrena mesmo depois de seus 20 anos, ele acaba apelando a um atalho: vira um caça dotes. Se envolve com uma moça, Dorothy, filha do diretor de uma grande empresa nacional de cobre, com a certeza de que, inteligentíssimo e brilhante como é, um futuro entre a comissão dessa mesma empresa não é menos do que ele merece, ao se casar com a moça. Mas Dorothy fica grávida e ele sabe que não cairá nas graças de seu pai com essa surpresa; e sustentar ela e um bebê, ainda por cima, obviamente o privaria da oportunidade de seguir seu destino certamente fenomenal.
Então Dorothy precisa morrer. Ele faz com que ela escreva um bilhete de suicídio e a engana, dizendo estarem indo se casar no civil... e a toca de um prédio. Problema aparentemente resolvido. Simples assim. E na corrida pelo sucesso do jovem, ela acaba não sendo a única pedra em seu caminho nem a única morte em seu currículo -pelo contrário, uma teia de assassinatos a procedem.
E é nos mistérios dessa teia que o leitor se envolve.
Por que eu não disse o nome do ambicioso assassino?, você pode se perguntar. Pois então, aí está a mágica do livro. Ele é dividido em três partes: Dorothy, Ellen e Marion, as três irmãs. Na primeira parte, as primeiras noventa páginas, aproximadamente, ocorre o assassinato (suposto homicício) de Dorothy, e em NENHUM momento sabemos o nome de seu assassino, embora vejamos toda a coisa acontecer de dentro da cabeça dele -todos os pensamentos, os planos, o crime sendo executado, tudo. Menos seu nome. E isso foi genial! O autor foi muito esperto em arquitetar as coisas assim, porque na segunda parte Ellen, desconfiada e tendo percebido, através de alguns indícios que só ela nota, que a moça achava estar indo ao próprio casamento, volta ao local (uma universidade) pra procurar esse tal conhecido que se envolveu com ela.
E aí é que começa a coisa louca: Ellen começa a se envolver com alguns caras do passado de Dorothy pra investigá-los e vemos tudo acontecer...sem saber, assim como Ellen, qual deles matou a moça, já que embora tenhamos lido a coisa toda, também não temos o nome do infeliz! É frustrante e eletrizante, você se sente impelido a investigar junto com Ellen porque, caramba, vi/li o cara matando, sei que ele matou e sei como mas não sei quem é porque não tenho o maldito nome! Ellen conhece um, conhece outro e mais outro cara e nós, leitores, ficamos pensando ''tá, será que é ele? Ele parece pensar parecido com o assassino, pode ser..'' E não há jeito de sabermos (por um bom tempo). O autor nos oferece um doce (uma vista de camarote do assassinato) e sai correndo com ele, nos deixando ali babando, querendo descobrir a coisa toda. Genial!
Na terceira parte é Marion, a outra irmã, que entra em cena, e não vou dizer qual é a dinâmica do livro então, vou deixar você descobrir: LEIA.
Ira Levin me pegou de jeito com essa história, vou te contar...Conseguiu me enganar direitinho, mas não vou dizer nada além disso porque: spoiler. Eu me envolvi completamente naquele jogo de gato e rato em que o assassino sempre parecia ser o gato e, olha, que carinha desgraçado! O que ele acaba fazendo com a família Kingship, a manipulação que ele emprega, todas as artimanhas maquiavélicas que a gente vê acontecendo sem poder fazer nada...é de agoniar o leitor! E prender o leitor naquela leitura alucinante que você não quer largar até descobrir tudo.
Os sentimentos de grandeza do assassino também são uma coisa bem louca e interessante de se observar, fazem pensar no tipo de estrago que o envolvimento com uma pessoa assim poderia causar na vida de qualquer um, coisa que acontece na realidade. Os noticiários são cheios desse tipo de personalidade: maníacos convencidos que não poupam esforço para conseguirem o que querem, a qualquer custo. A qualquer custo mesmo.
Ira Levin me cativou, hein. E sugiro pra qualquer um que esteja lendo essa resenha se permitir cativar também.
Sério: LEIA. ;)

05/12/2016

Gente Como a Gente

De Judith Guest
Tenho muitos volumes dessa coleção muito boa chamada Grandes Sucessos, da editora Abril Cultura, que ''meio que'' surrupiei das estantes abandonadas da minha antiga escola porque, no fim, o pessoal que organizava a biblioteca teria tocado fora, como fizeram com uma série de outros ''livros velhos''. Sacrilégio.
Já li vários (tem resenhas aqui pelo blog) e o da vez foi Gente Como a Gente. No original, Ordinary People.
Ele conta a história de uma família de três integrantes, pai, mãe e filho, que vem sobrevivendo e lidando em silêncio com um trauma terrível: a morte do irmão mais velho num acidente de barco que resultou em seu afogamento. Um detalhe: o irmão mais novo, Conrad, estava com ele e sobrevive, mas carrega consigo um sentimento constante e sutil de culpa e recriminação. Por isso, meses depois, tenta suicídio e vai parar numa clínica de tratamentos psicológicos. A narrativa começa depois que Conrad já voltou para casa e está tentando reconstruir sua rotina de ''vida normal'' após a tragédia. Mas o presente dos personagens é assaltado por diversos flashes que nos levam ao passado, tornando conhecidos os acontecimentos que vão se revelando aos poucos no desenrolar do enredo. Outro detalhe da narrativa é que grande parte dela é composta por fluxos confusos e súbitos de pensamentos dos personagens protagonistas, que são Conrad, o filho, e Calvin, o pai. Somos jogados sem prévio aviso em meio à teia de pensamentos e reflexões deles, que se desenrola num ritmo frenético e por vezes meio desconexo, como realmente acontece com a mente de todos nós. Isso confunde um pouco o leitor, mas nada que prejudique significativamente o entendimento geral da obra; pelo contrário, esses momentos de divagação são importantes na narrativa.
Os capítulos intercalam o protagonismo de Conrad e Calvin, então somos levados da visão de um pra outro ao longo do livro. E os detalhes técnicos acabam por aqui.
Essa é uma história extremamente sensível, e o tema é abordado com tanta sutileza pela autora que é muito fácil se ver lendo trinta páginas adentro da narrativa sem saber -sem notar- bem do que ela está se tratando.
Ela fala de silêncios, de fuga, de entorpecimento -do querer o entorpecimento- de omissão ante a sentimentos, assuntos e pesares que precisam ser tratados, precisam ser abordados, precisam ser enfrentados. Precisam ser sentidos. Porque você só supera aquilo pelo que já passou; não se supera nada deixando o assunto num cantinho escondido do bolso, pois ele não está sendo trabalhado e, por isso mesmo, não há possibilidade de ser superado. E só depois de cuidar da tristeza que algo causa a felicidade que esse algo também já causou e que precisa ser lembrada pode aparecer novamente.
Essa família mergulhou num ''não devemos falar/pensar sobre isso'' constante com relação à perda do filho mais velho e tentativa de suicídio do mais novo. E nesse silêncio gigantesco e externo vários gritares internos ficaram retidos, suprimidos, contidos, gerando uma existência insustentável que vivia à base da evitação de sentimentos necessários e reais.
Conrad não sabe como lidar consigo mesmo, com a culpa, nem sabe direito que existe essa tal culpa. Calvin fica perdido querendo ajudar o filho, guardá-lo seguro contra si mesmo ao passo que também tem que dirigir sua atenção à união com a esposa introspectiva, fechada e supostamente imperturbável. A mãe e esposa, por sua vez, adota uma postura defensiva ante aos sentimentos ruins que poderiam assolá-la se se entregasse a eles e à responsabilidade que Conrad parece empurrar para ela em decorrência de sua tentativa de suicídio.
Vemos uma família aparentemente perfeita ruir aos poucos pois suas bases estão sendo deterioradas por conflitos internos que, permanecendo internos, não são tratados e viram veneno para cada personagem individualmente, resultando num grande corrosivo da família como um todo.
E é esse o desenrolar do livro. Vou parar por aqui pra não dar spoiler, embora o enredo não tenha grandes deles. Direi apenas que é uma história real -não porque aconteceu, mas porque é possível- de uma simplicidade realística, e assim é o seu fim. Tem um fim bonitinho, concebível e simples.
Tenho que fazer menção ao psicólogo que o Conrad passa a consultar depois que recebe alta da clínica, ôÔô carinha legal. Gostaria de ler um livro em que ele fosse o protagonista, daria coisa boa -que tal, Judith?
Enfim, eu recomendo sim o livro, embora ele não tenha me tocado taaaanto assim; talvez justamente porque, como eu disse, a perda, a tragédia, é abordada de uma maneira muito sutil e calma, não avassaladora -como acontece com os dias que seguem esse tipo de ocorrido: eles se arrastam, se demoram, se prolongam, e o choque, pânico e aflição não são sentidos de maneira arrebatadora em todos eles. Há também o entorpecimento e a tristeza apática, e vemos muito isso no livro.
Não se tornou um favorito pra mim, embora eu goste muito desses temas dramáticos e pesados, como acho que já deu pra perceber porque ô pessoa que lê drama e tristeza: eu (talvez por gostar tanto seja difícil algo corresponder a minhas expectativas), mas vale sim a pena ser lido. E refletido.
É bonito. Como eu já disse aqui, nem tudo que é triste precisa ser feio.

''-Escute, o que aconteceu hoje de manhã foi que você se permitiu sentir um pouco de dor. O sentimento é um todo, já lhe disse várias vezes. Se você não consegue sentir dor, também não vai sentir mais nada. E o mundo está cheio de dor. E também de alegria. De maldade. De bondade. De horror e de amor. É só você nomeá-los e aí estão eles. Por isso, não adianta querer fugir, querer se eximir, entende?'' 

01/12/2016

O Canto do Carrasco

De Norman Mailer
Trouxe pra casa porque jurei já ter ouvido aquele título em algum lugar, não sabia onde, e gosto dessa coisa de jornalismo criminal. Demorei um pouco mentira, muito pra começar a ler porque aquelas letrinhas miudinhas não me pareceram tão convidativas e simples quando eu tinha tantos outros títulos me chamando. Mas enfim, criei vergonha e peguei o livro.
Ele nos conta a história real de Gary Gilmore, assassino condenado que demandou ser executado por seus crimes e foi o primeiro a cumprir a sentença após um novo estatuto de condenação entrar em vigor nos EUA. Gary também foi, durante um bom tempo, o último a ser executado por um pelotão de fuzilamento, pois assim escolheu, como pena pelo assassinato de dois homens.
Vemos desde sua adolescência e parte da vida adulta conturbada entre uma prisão e outra até sua soltura, os nove meses de relações com o mundo -e pessoas- de fora durante sua liberdade condicional até os processos de condenação pelos crimes e o fatídico cumprimento da sentença. O livro completo, volume único, escrito pelo jornalista Norman Mailer (e que lhe redeu o prêmio Pulitzer) tem mais de mil páginas, mas o exemplar que tenho em mãos é o primeiro de uma série de livros de bolso que dividiu o volume em dois. Portanto, só li parte da história. O meu volume acaba quando Gary já foi condenado à morte mas seus advogados ainda estão tentando recorrer, embora ele já tenha manifestado a decisão de cumprir, sim, o seu destino já traçado. Não li nessa ~quase~ biografia sua morte, não cheguei nessa parte, mas pesquisei muito sobre tudo na internet e sei como a coisa termina.
O livro nos conta sobre todo tipo de pessoas envolvidas no caso, familiares de Gary, conhecidos, detetives e policiais que o caçaram, advogados e vítimas. Eu quase estava começando a simpatizar pelo Gary (desculpa), ele passa uma impressão de criatura desalentada e perdida na vida, entende? Mas quando li a história do primeiro homem que ele matou, um rapaz querido e correto, com uma família linda a começar, putz... deu um desgosto tremendo tudo aquilo. Mas enfim.
Há uma discussão muito válida que permeia o livro: quanto vale uma vida? Temos -alguém entre nós vivos- o direito de condenar à morte, de maneira constitucional, outro ser humano, a despeito do que quer que ele tenha feito? Cabe a nós esse tipo de decisão? Como qualquer um de nós pode determinar a morte de um outro alguém? Deve-se pensar nisso levando em conta o valor INSUBSTITUÍVEL da vida. Não só a vida ~de alguém~ tem valor, mas a ~condição de estar vivo~ em si, também. Um valor absurdo de tão precioso. E com um bater do martelo esse direito e condição são condenados a um fim irremediável.
Claro que sei que a coisa não é feita de uma maneira sumária, desleixada e instantânea -pelo menos não deve ser. Todo um processo judicial trabalhoso e cansativo precisa ser encaminhado para que se chegue a tal decisão, abordada através de diversos ângulos. Mas ainda assim, mesmo que seja uma coisa ''bem pensada'', temos mesmo esse direito de decretar a morte alheia?
Eu sei que se eu tivesse uma filha que foi estrupada certamente minha maior vontade seria poder extinguir com dor a existência daquele que cometeu tal ato. Ia querer que ele pagasse com a morte, sim. Mas eu teria esse direito? -não estou falando de direito legal, mas de direito enquanto ser humano. Eu teria? Acho que não.
Sei que um policial deve atirar quando um criminoso estiver pondo em risco a vida de uma pessoa inocente e concordo plenamente com isso. Mas são situações diferentes, é a escolha entre a prisão perpetua e a morte definitiva que cabe ao júri. Ainda assim fico pensando se a partir do momento em que tu negou o direito à vida de outra pessoa, ao matá-la, tu também deva ser poupado desse direito e condição tão fundamental, pois o infringiu quando se tratava do próximo. Entendo isso, entendo que, bom, Gary mereceu morrer. Mas ainda penso na tristeza da coisa toda e por mais que eu saiba que ele foi um desgraçado bosta, não deixo de sentir certa compaixão -que, eu sei, provavelmente não sentiria se ele tivesse ferido alguém próximo a mim. Enfim.
Essa discussão toda me lembra de um filme muito bom sobre a questão, deixo como recomendação pra quem se interessar: A Vida de David Gale.
Meu objetivo com essa resenha não é entrar no mérito institucional e legislacional nem discutir as consequências de se manter uma quantidade ainda maior de presos em regime perpétuo. Só quero explicitar meu sentimento sobre essa questão simples, crua e bela (ou não) que é o direito à vida, acima de quaisquer outros, entende? Acho legítimo pensar sobre.
No livro outro ponto de vista muito interessante em defesa da pena de morte e sobre o qual eu não havia pensado antes da leitura foi o de um diretor de presídio chamado Campbell:

''-Antes morto do que viver aqui nesta espelunca.
Campbell compreendia-o perfeitamente. no geral, a igreja LDS era apologista da pena de morte. E Campbell também. Achava que estar a ver um homem degradar-se, tornar-se mais odioso, mais vingativo e mau, tanto em relação a ele próprio como em relação aos outros, era de uma crueldade terrível. O indivíduo seria melhor assim, mudaria menos, seria mais ele próprio depois de executado. Era mais sensato passar para o mundo do espírito -e esperar pela ressurreição. Aí havia mais oportunidade de se lutar por uma causa. No mundo do espírito havia mais facilmente assistência do que degradação.''

Achei muito interessante essa perspectiva e me pus a pensar que, se for da vontade do preso -afinal de contas a morte seria dele-, a pena de morte realmente seria uma opção mais humana do que uma vida inteira de degradação atrás das grades. É um aspecto interessante que eu ainda não tinha abordado por mim mesma -e que sinceramente até renderia um post inteiro de dissertação, tão interessante é o assunto; mas vou parar por aqui.

Mas mudando um pouco o foco agora, outra coisa que me fez pensar com a leitura foi uma presença sempre constante no livro: Nicole Barrett. A namorada do Gary, que o conheceu assim que ele saiu da prisão. Eles construíram uma relação intensa e voraz durante o tempo em que Gary esteve solto e que se prolongou durante sua custódia antes de cumprir a sentença de morte. Nicole, mãe solteira de dois filhos, sem emprego e moradia fixos, sem formação e meio perdida, levando a vida a trancos e barrancos; e Gary, recém saído da cadeia e também perdido nesse mundo novo que num instante se abriu pra ele. Muito culto, entendedor de literatura e arte -o tempo na prisão serviu pra estudar trancafiado na sela e lhe deu conteúdo pra escrever longas e densas cartas a Nicole no tempo que antecedeu sua morte. Esse casal meio esquisito se forma. Mas não vou falar sobre eles enquanto completos um com o outro, com Gary em vida. Vou falar de Nicole depois que ele se foi.
Fiquei pensando comigo, como eu poderia continuar levando minha vida sabendo que minha alma gêmea -porque aparentemente eles eram isso um para o outro- partiu de um jeito tão dramático? Eu conseguiria? Não ficaria com a sensação permanente de estar sem um pedaço, com algo faltando, algo que não volta mais? Como eu lidaria com isso?
Porque é assim que Nicole, a real, dos dias de hoje, se sente. Ela não sabe se superou -e teria como? Não sabe bem como lidar com a vida depois daquilo. Ela e Gary, os dois combinados, tentaram se matar com remédios, mas não deu certo. Mais tarde ele morreu de fato e ela ficou, tendo que viver com tudo isso.

"The things I went through are still in me," Baker said. "I still feel them sometimes, like on a cold winter morning, I look out the window and I get that same lonely feeling I felt when I . . . knew I wasn't going to see Gary anymore."
-Nicole diz em entrevista

Porque veja bem, Gary não morreu num acidente ou com uma doença. Morreu porque outros assim escolheram por ele -e por ela. Uma decisão que no fim ele acatou. Gary concordou. Gary quis morrer. Quando a sentença saiu e ele viu que provavelmente não tinha mais jeito, disse aos advogados que parassem de tentar. Ele queria morrer, sentia que era sua responsabilidade. Viver seria errado.
E isso me parece diferente de perder alguém num acidente ou coisa parecida. Mais complicado de digerir, mais pedante, mais profundo. Certamente a reflexão sobre o ocorrido embalaria muito mais sonos meus do que se a procedência da morte fosse outra.
Fiquei pensando como eu me sairia na vida sabendo que o homem que amei matou duas pessoas e por isso foi condenado ao mesmo destino -e o abraçou. Não seria quase -e digo quase porque, independente da situação, PRECISAMOS aprender a lidar com ela- insustentável viver com isso?
A Nicole de hoje diz que se apaixonou por um fantasma, e ele acompanha ela em lembranças e em presenças diariamente. Li uma matéria em que ela dizia que queimou algumas cartas dele (em certo ponto o livro é recheado delas) numa tentativa de enterrá-lo mais uma vez, porque tê-las ali não ajudava. E ela continua com esse acompanhante invisível em sua vida -sempre. Tive dó dela. Quis abraçar Nicole e dizer que entendia essa sensação esquisita e triste que ela enfrenta. Mas a verdade é que não posso entender ~plenamente~. Não tenho esse tipo de fantasma comigo e não quero nunca ter.
Diferentemente de Nicole, quero poder enterrar os que morrem em mim, quero ser completa, sem faltar nenhum pedaço, quero ter a liberdade de saber que quando sozinha estou assim eu basto.
Mas Nicole não pode. E talvez nem Gary.

''-Nunca ninguém é totalmente livre, Gary. Desde que viva com outro ser humano, nunca se é livre.''