25/10/2016

Análise da Inteligência de Cristo - Série

Eu não gosto muito de ler Augusto Cury -embora tenha lido pouquíssimos livros e o considere, sim, um bom escritor e psiquiatra- porque acho que ele ''enfeita demais'' a narrativa, tornando-a irreal e sem a naturalidade necessária para que possamos mergulhar no enredo genuinamente. MAS, acho que isso se aplica especialmente a suas obras ficcionais, portanto os livros de estudos psicológicos sobre figuras reais (como os dessa resenha) ficam além do tolerável. Dá pra ler.
Digo ''além do tolerável'' porque, de fato, amei essa série -que chegou até mim porque minha mãe comprou o box há anos, mas só agora eu li (e fui a única da família a ler todos, diga-se de passagem -shame on you, mom).

''Por ser um psiquiatra, um pesquisador da mente humana, e por ter sido um dos mais ardentes ateus que já pisaram nesta terra, estudar os enigmas da mente de Jesus Cristo foi e ainda é para mim um projeto espetacular.''

Assim, logo na segunda página, adentramos no universo real desse quinteto de livros:

1. O Mestre dos Mestres
2. O Mestre da Sensibilidade
3. O Mestre da Vida
4. O Mestre do Amor
5. O Mestre Inesquecível


Em cada volume se aborda um aspecto essencial da personalidade de Cristo, que no conjunto da obra nota-se configurarem a totalidade dessa figura tão marcante de maneira a estabelecer uma extrema conexão entre si; as características se interligam plenamente, sustentando umas às outras.
Cury tenta abordar o assunto de maneira lógica, sem ''entrar na esfera da fé'', frase que ele incessantemente repete, para que este seja um estudo concreto dessa figura tão famosa na humanidade que possa ser levado em consideração por todos, crentes e ateus, cristãos ou membros de outras religiões, sem restrições -sempre permeado por referências bíblicas para que o leitor possa consultar na Bíblia a informação. CLARO que, vez ou outra, tratando-se dessa pessoa em especial, Jesus, seus milagres e grandes -embora sempre humildes- ''feitos'' são mencionados, mas o enfoque total da coleção são as >atitudes< do Mestre, as quais não exigem um reconhecimento na fé, e sim nos fatos registrados até mesmo em livros e documentos históricos.
O homem Jesus, através de estudos das escrituras bíblicas que o autor empreendeu, é explorado inteiramente, quase todas as facetas de sua personalidade são esmiuçadas num conjunto de livros que ao todo configuram 880 páginas. E as pessoas que o acompanharam não fogem dessa análise -o quinto livro é especialmente relacionado a seus discípulos.
Não há muito como eu me estender narrando especificamente todo o conteúdo da personalidade de Cristo, pois numa resenha eu obviamente não conseguiria abranger sua totalidade, então além dessas informações básicas, me limitarei a relatar o que a obra deixou em mim, quais foram suas marcas na minha pessoa; livros que não nos deixam marcados não devem ser lidos. 
Os livros me tocaram muito, nossa. Achei incrível ver o quão pouco eu conhecia desse cara com quem vivi e que conheço desde criança, incrível ver o quão limitada era minha visão acerca de Jesus. Eu o conhecia de maneira muito vaga, e Jesus não é o tipo de personalidade desinteressante passível de ser conhecida de maneira vaga; ele é o tipo de pessoa que deve ser estudada, destrinchada, abordada através de todos os ângulos.
Ele é incrível, sua personalidade é de uma inteligência que vai além da lógica humana, transcende o fascínio. Jesus surpreendeu os personagens, até mesmo os mais coadjuvantes e secundários, de sua história, e suas atitudes foram contra as expectativas de todos. Quando esperavam que ele falasse, ele calava; quando esperavam que ele repreendesse, ele acalentava; quando esperavam que fosse o mais imponente dos homens, ele foi o mais simples; quando esperavam que ele fosse um líder supremo, ele baixava a cabeça, lavava os pés de seus discípulos e se fazia servo deles. Era um apreciador da vida em suas formas mais simples (''olhai os lírios do campo'') e humildes, mas tinha uma sabedoria e conhecimento dignos de reis e imperadores. Jesus era um filósofo no sentido mais puro da palavra, viveu a psicologia humana antes de Freud sonhar em imaginá-la, e esse é um dos aprendizados essenciais dos livros: a psicologia de Cristo. Devemos atentar a ela. Os quatro Evangelhos transbordam lições e aprendizados de vida, sabedoria emocional e psíquica. Eles precisam ser estudados. Jesus precisa ser estudado.

''Graças à sua intrigante e instigante inteligência, Cristo provavelmente foi o maior causador de insônia em sua época.''

Augusto Cury tocou nesse ponto de uma maneira que mesmo eu, há 18 anos cristã, nunca tinha parado pra prestar atenção: por que Cristo e toda sua filosofia e psicologia não é levado em consideração nos meios/centros/ambientes de estudo? Por que não configura entre os filósofos se seu ensinamentos contém sabedoria inegável -e apreciada, abordada e empreendida até mesmo por vários desses nomes da filosofia? Por que seus ensinamentos não são mais explorados dentro da psicologia, se obviamente procedem, em sabedoria e em milênios, os primeiros psicólogos?
Seria por sua imagem atrelada à religiosidade (embora muitos, aparentemente, ignorem o fato de que suas maiores críticas e adversões foram dirigidas aos religiosos de sua época) e espiritualismo, e isso, de certa forma, ir contra os ideais laicos de grande parte das instituições de ensino? Não pode ser isso, vários filósofos e psiquiatras defenderam e propagaram posturas espirituais em seus estudos e ensino.
Por quê, então? Por que os ensinamentos de Cristo -e falo aqui de seus ensinamentos psicológicos, sem apelar, em nenhum momento, à fé e religiosidade- são tão renegados nesse cenário? Não sei, e não ficarei gerando especulações aqui porque tomar algum ''partido'' não é meu objetivo nessa resenha. Mas esse é um bom assunto no qual pensar.
Fato é que, por fechar os olhos pra o que viveu esse que foi o maior dos mestres, trouxe-se grandes prejuízos e perdas às ciências humanas.
Mas enfim, mudando o foco, outra coisa interessante de saber é a tragetória dos discípulos após a morte do Mestre, isso é abordado no último livro. Que fim levaram aqueles que por três anos contínuos beberam direto da fonte da sabedoria de Cristo? Esqueceram seus ensinamentos, mudaram seus caminhos e trilharam uma vida que seguia longe de tudo aquilo que o Mestre os fez viver? Suas histórias depois de Cristo dizem muito sobre quem Ele foi na vida daqueles com quem conviveu.
Por fim, direi que esses livros agiram em mim, como cristã, como um regozijo intenso por meu amor por Jesus; amei tanto, tanto, poder ler sobre ele, conhecê-lo mais de pertinho e com maior intimidade. Por várias vezes eu comecei a chorar durante a leitura, não por ler algo triste ou arrasador, mas por me sentir tocada por esse que foi Jesus. Eu lia uns trechos simples sobre coisas simples que ele fez ou disse, e aquilo me soava tão bonito, tão único, que eu simplesmente tinha vontade de chorar porque, ''puxa, Jesus disse mesmo isso? Nossa, ele fez mesmo isso com essas pessoas feridas? Cuidou delas dessa forma? Falou isso para seus próximos que o seguiam até o Calvário?'' Aí eu ia na referência bíblica, via que sim, ele realmente fez/disse isso, e era tão bonito perceber quão bonito e singelo >Ele< foi que eu tinha vontade de chorar. E chorava.
Então é isso, foi importante para mim, como pessoa, ter lido essa coleção, e espero que outros mais façam isso, além dos leitores dos milhões de exemplares já vendidos. 
Simplesmente porque vale a pena, vale muito, muito a pena, conhecer Jesus.

Uma citação:
''Esperavam alguém que os libertasse do jugo romano, mas veio alguém que queria libertar o ser humano de suas misérias psíquicas. Esperavam alguém que fizesse uma revolução exterior, mas veio alguém que propôs uma revolução interior. Esperavam um poderoso político, mas veio alguém que nasceu numa manjedoura, cresceu numa cidade desprezível, Nazaré, e se tornou um carpinteiro, vivendo no anonimato até os trinta anos.''

22/10/2016

Vozes na Casa

 entendi Vozes na Casa em suas ultimas páginas. Fiquei quase o livro todo me perguntando o que a autora estava querendo dizer, e só no fim compreendi bem. Deve-se considerar a possibilidade de isso ser um ponto contra o livro, afinal de contas, pra quê ficar cerca de 180 páginas lendo algo que você não sabe bem por que está lendo? (A menos que você, antes de mim, saque a moral; mas acho que foi quase deliberação da autora fazer com que as coisas se encaminhassem paulatinamente.) Mas enfim, cada leitor, um leitor. Você escolhe.
O livro nos leva ao cotidiano de uma casa numa área mais suburbana dos arredores de Nova York, onde moram um bem sucedido advogado e sua esposa, sr. e sra. Asher, e seus empregados, Herbert, o copeiro e motorista, Bertha, a governanta, e Jéssica, filha de Bertha.
O sr. Asher, depois de uma vida movimentada com a criação dos filhos e o escritório de advocacia, anseia, enfim, por um momento de sossego para gozar da tranquila companhia de sua esposa. E agora que os três filhos estão crescidos e fora de casa e ele está próximo de sua aposentadoria, esse momento parece ter finalmente chegado.
Mas então, depois de anos recusando, Jéssica aceita se casar com Herbert, e por causa de um sutil desequilíbrio mental da moça e brutalidade do marido, os desentendimentos entre os dois começam a afetar a paz do casarão.
E como acompanhamento a esse desgosto, a filha dos Asher decide se casar com Pete, um jovem ignorante, inconseqüente e sem nenhuma instrução. Mais um incômodo a tratar.
Aos poucos as duas situações adversas para o sr. Asher começam a tomar conta de seu tempo e descanso, envolvendo todos os habitantes do casarão num desassossego contínuo e, aparentemente, interminável -para dar uma palinha do pequeno caos, vale dizer que uma investigação de homicídio e uma internação em manicômio chegam a se desenrolar.
E do início ao fim da narrativa vemos as tentativas que o sr. Asher emprega para tentar contornar a situação e instaurar sua tão desejada paz.
E no meio disso tudo, o que a autora quer que absorvamos são os antagonismos que permeiam todos os cantos da sociedade.
Na casa dos Asher vemos realidades de pessoas cujas características básicas se opõem entre si, tal como é na vida: ricos e pobres, instruídos e ignorantes, educados e brutos.
Há um sutil contraste entre esses lados avessos, que é permeado não só pela desigualdade social, como também pelo conflito de gerações que se desenvolveram nos mesmos parâmetros econômicos, vamos dizer assim; isso se nota entre o sr. e sra. Asher e os filhos.
Herbert, Jéssica e Bertha se destoam dos donos do casarão porque pertencem a uma classe social diferente da deles; mas por que também a filha do casal, que cresceu com todos os meios de que eles também desfrutaram, contra as expectativas dos pais e ao contrário do que seu grau de instrução indicaria, acaba se envolvendo com um moço ignorante, bruto e inculto? E por que o filho mais velho também "não seguiu os passos do pai" se transformando não num executivo, mas num mero pai de família? 
Porque seu crescimento se deu num mundo e sociedade que já não são mais os mesmos em que seus pais cresceram. Porque mesmo ao se desenvolverem em condições muito semelhantes umas das outras, as gerações, uma hora ou outra, se diferenciam, se opõem.
Um outro questionamento a que chegamos ao final do livro, junto com Asher e sua esposa, ao refletirem sobre Jessica, Bertha, Herbert e Pete, é sobre as fronteiras do sucesso de uns advindo de sua real capacidade intelectual, se contrapondo ao insucesso que se acomete sobre outros não por sua falta de esforço ou vontade, mas, por que não, por uma triste mas real incapacidade intrínseca a eles?
Há aqueles que vencem na vida. Por esforço e trabalho árduo? Sim. Mas também porque nasceram com inteligência e capacidade cognitiva e intelectual que lhes possibilita isso.
Pois então, sendo assim, não devem existir também aqueles que, sem terem nascido com inteligência e as mais variadas capacidades que o mundo exige de todos, estariam fadados ao fracasso -sendo ele o que a sociedade representa como tal?
Não por falta de esforço, de vontade, ou por culpa da inexistência de um sistema socioeducativo que lhes impulsione adiante. Mas porque, simplesmente, não podem. Não têm as capacidades requeridas. Porque simplesmente não são os escolhidos pela vida para ocupar o pódio dos vencedores.
E o que resta a esses, que em algum momento serão desgarrados? E o que podem fazer por eles os que têm a possibilidade de ter a vitória como seu destino certo?
O que poderia sr. Asher, um intelectual, homem instruído e culto, advogado de sucesso, que nasceu com uma inteligência e inclinação natural aos altares da vida fazer por Pete...ou Bertha...?
Tolerá-los, e oferecer seu mais sincero apoio na tentativa de elevá-los em espírito e entendimento.
Saber e reconhecer, sim, que sua intelectualidade e cognição é inferior, mas não relegá-los, espelhando-se na sociedade, a uma esfera desmerecedora e simplória. Dispor de todos os seus meios e privilégios para ajudá-los, tentar mudar a visão de vida que os condicionou à mediocridade.
O livro, como dito, baseia-se na exposição de antagonismos, e esses normalmente compõem discussões muitíssimo pertinentes; o que não gostei foi da forma com que a autora abordou a questão. A meu ver, a obra poderia ser tão mais rica e lúcida se seu assunto central fosse claramente esclarecido desde o princípio da história...mas não. Pelo menos não pra mim.
Sendo franca, embora a questão da desigualdade ocasionada pela realidade social (e portanto influenciável, passível de sofrer alterações por empreendimentos e esforços humanos) seja a mais importante aqui, o assunto que mais me fez parar pra pensar foi esse questionamento de será que, como livros de autoajuda, textos de motivação e pessoas bem intencionadas dizem, todo mundo tem mesmo condições de alcançar os próprios objetivos intelectuais e sonhos? E se eu - ou outro alguém - não posso? E se, não importa o quanto eu tente, eu não tiver condições reais de ver minhas pretensões se realizando? O que eu faço então?
Não sei. Mas o livro me fez pensar nisso.
Bom, essa resenha chega ao fim. Eu recomendo o livro? Olha...não. Me fez refletir (depois de ficar quase duzentas páginas lendo eu não sabia o quê), mas acho que há tantos outros livros que fazem isso de uma forma tão mais plena e apreciável que simplesmente não me convenço de que vale muito a pena lê-lo.
Mas, isso fica a seu encargo. Como eu disse lá em cima, cada leitor, um leitor. É você quem sabe. ;)

Uma citação:
"SonhosEram o sopro vital de toda alma humana equando morriammorria com eles a almaE se os sonhos dele jamais se houvessem transformado em vidaE se não tivesse havido essa casa e todo o amor que contiveraou se os seus sonhos houvessem excedido o poder do seu cérebro de realizá-los?"

21/10/2016

Luther

Chega outubro e todo mundo (todo mundo quem?) já começa a pensar em certas datas específicas que marcam esse mês, como dia das crianças, dia do professor, halloween e até mesmo o outubro rosa, campanha em prol da conscientização a respeito do câncer de mama. (Inclusive eu fiz uma pesquisa rápida no Google sobre datas pseudo comemorativas desse mês e descobri que, além da que vou tratar aqui, também se incluem o dia da música, dia da natureza e dia do livro -três coisas que eu amo mas havia esquecido que tinham seu próprio espaço no calendário nacional. Enfim.)
Mas há uma data importantíssima (importância indiscutível, me desculpe, mesmo que você não seja ligado em história ou religião) que passa batida em praticamente todos os meios -dificilmente é discutida nas escolas (apesar da sua notoriedade óbvia na construção da sociedade), provavelmente no intento de ''não transgredir'' o Estado Laico (é o único argumento que me vem à mente, realmente não sei por que não se fala dessa data): o dia da reforma protestante.
Curiosamente, uma data tão fatídica para a cristandade divide espaço com o mesmo dia do halloween, 31 de outubro. Mas não vou falar sobre isso aqui, apenas deixarei a indicação de um filme que vi recentemente e que me encantou muito sobre a história dessa data e sua repercussão e resultado na sociedade.
Lutero, ou Luther, no original, é um filme alemão produzido em 2003 (embora ele pareça bem mais antigo) e dirigido por Eric Till.
Ele conta a história de ninguém mais, ninguém menos que o próprio Martinho Lutero (ahh, jura? pensei que se chamava Lutero mas retratava a história dos Jonas Brother's), desde seus primórdios como monge germânico até seu envio, ocasionado por seu superior no convento, a Wittenberg, onde deveria dar aulas na universidade e trabalhar como pregador na igreja da cidade. Após uma ida a Roma, o jovem volta decepcionado com tudo que vê lá, no que se referia a ação dos religiosos que regiam os cidadãos ditando seus dogmas abusivos -com destaque à compra de indulgências- e em contraversão com a bíblia na qual o monge tanto acreditava. A partir de então ele começa a questionar pra si mesmo esses ditames da igreja com base no seu conhecimentos das escrituras, e conclui que o catolicismo da época estava totalmente subversivo, atolado em dogmas religiosos irreais que se baseavam em explorar os simples com o medo do inferno para render riquezas à igreja na forma da venda de indulgências (pedaços no céu e passagem de saída do purgatório -o filme aborda esse absurdo de maneira quase cômica).
É então que ele começa sua luta ''pública'', digamos, contra toda essa heresia, publicando livros sobre a questão e pregando, na porta da igreja de Wittenberg, suas 95 teses, as quais contestavam, com base nas escrituras, a procedência da igreja ante seus fiéis. E então vemos desenrolar todo o conflito ocasionado por esse homem que se tornou figura central na reforma protestante.
Eu vi o filme no grupo de jovens, na igreja (sou cristã), e estava esperando uma coisa totalmente monótona e massante -até o líder fez piada daquele filme ''super emocionante estilo Tom Cruise em seus longas de Hollywood -sqn e o pessoal todo já começou a olhar com aquela cara de ''me acordem quando acabar'', e talvez tenha sido justamente por isso -essa total inexistência de grandes expectativas- que ele me surpreendeu e encantou tanto. Eu fiquei fascinada pelo filme, vidrada -lá pelas tantas já tinha tomado uns quinhentosenoventaenovemil copinhos de suco mas não fui ao banheiro porque bexiga, se acalme amiga, NÃO QUERO PERDER NADA!
Sério, ele nos expõe um desenvolvimento tão bom da construção da figura Lutero que torna tudo bastante interessante e assistível, apesar de sabermos que retrata uma época em que as pessoas tocavam seus queridos baldinhos de cocô pela janela por motivos de ainda não inventaram saneamento básico nessa desgraça.
Aí você pensa, bom, ela é cristã, deve estar ''puxando a brasa pro assado dela'' (alguém realmente usa essa expressão?) dizendo que o filme é bom porque fala num dos caras que encabeçou a principal reforma do cristianismo porque esse é o tipo de coisa que crente fala mesmo.
Mas amigo, venho te dizer que, apesar de ser realmente fascinada por esse tema, tendo em vista que, por ser cristã, eu de certa forma ''faço parte'' dele, numa perspectiva atual, o que eu mais acho louvável no filme não é bem o tema cristão retratado, e sim a personalidade do homem Lutero.
Sério. O cara era IN-CRÍ-VEL.
Pra começar, sabem por que o responsável dele no convento o enviou a Wittenberg? Para fazer com que aquele menino que vivia sempre afundado nos próprios pensamentos, fazendo mil reflexões por minuto e ''vivendo no munda da lua'' tivesse uma distração, uma ocupação que o libertasse de seus profundos momentos de introspecção (isso está na biografia de Lutero). Já amei porque IT'S ME CAROLINA MARIO. Eu sou muito assim, tô sempre perdida nos meus próprios pensamentos e isso vive preocupando quem convive e lida comigo -oi, mãe.
Mas o mais incrível é a convicção e força que ele tinha -e que vemos no filme- pra defender essa verdade na qual ele tanto acreditava e que viraria DO AVESSO a sociedade da época, se fosse exposta e levada adiante. Algo tão grande assim, claramente não seria de graça, e ao longo da trama vemos todas as ameaças (principalmente morte) que cercaram Lutero e às quais ele resistiu, perseverando apesar de todo o medo e tensão que certamente o cercaram -em certo ponto ele tem que abandonar tudo, a universidade em que lecionava, a igreja em que pregava, seus amigos e vida para viver confinado num quarto, escondido para fugir daqueles que queriam seu pescoço.
E O QUE ELE FEZ DURANTE ESSE TEMPO DE CONFINAMENTO?, eu te pergunto. Ficou chorando as pitangas e lambendo as feridas? Não! (embora talvez um pouco, né?) O cara ficou estudando latim, grego, hebraico e sei lá mais que língua pra traduzir A BÍBLIA (não um gibi da Mônica, minha gente, A BÍBLIA) para que as pessoas, os simples como eu e você talvez fôssemos se estivéssemos naquela época, pudessem, simplesmente, entendê-la, lê-la. Eles não dispunham desse privilégio, na época, motivo pelo qual era tão fácil pra qualquer pregador tomar o púlpito e enfiar goela abaixo dos cristãos que ''se você não colocar quarenta moedas de ouro nesse baldinho sua vovó querida vai ficar tricotando casaquinhos no purgatório pra sempre'' -era isso que eles viviam. Só os religiosos e monges podiam entender aquele livro que para os fiéis era cercado de ordens impossíveis de cumprir pra quem não tivesse dinheiro pra comprar seu pedacinho no céu. E foi Lutero que possibilitou isso a essas pessoas, enfiando a cara em trezentos livros de idiomas e rachando a cuca enquanto estava confinado numa masmorra (não sei se era uma masmorra, mas vamos fingir que era porque esse termo é legal) para não morrer queimado pela inquisição como um peru no ano novo.
Eu li bastante sobre ele e o conteúdo ao qual tive acesso só me fez achá-lo ainda mais incrível do que o filme relatava. Enfim, amei o cara.
Uma coisa muito bonita também é ver como sua visão de Deus vai se modificando ao passo que ele para pra ler a bíblia com sinceridade (sem a obrigação de ''tenho que fazer isso porque sou um monge''), singeleza e delicadeza, realmente buscando sua verdade. Lutero, no início, tinha medo de Deus e vivia atormentado por conta disso -uma das aflições que o faziam ficar imerso nos próprios pensamentos de culpa e castigo-, mas ao passo que vai se aprofundando em conhecimentos sobre a bíblia, passa a conhecer o Deus de amor que acalenta suas aflições e medos, e conhecer esse Deus tão bom sobre o qual ninguém na época parecia ouvir falar inflamou sua vontade de dividí-lo com todas as pessoas que viviam embaixo do mesmo medo, culpa e aflição.
A reforma aconteceu porque alguém conheceu, realmente conheceu, Deus. E quis contar isso ao mundo.
Enfim, é isso. O texto ficou enorme (pra variar), vish... Mas that's it. Contra várias expectativas, gostei do filme e espero que, se alguém for assistir por ler isso, goste um pouco (ou muito) também.
Até porque OLHEM ESSE LUTERO.
(No filme o penteado tá horrível -coisa de monge-, mas o rosto é esse.)

17/10/2016

Cansada

Estou cansada de acordar de sonhos em que eu sentia seu toque,
que é substituído pelo roçar insípido dos lençóis ao meu despertar.
Estou cansada de passar minutos, horas, dias, meses
Imaginando como minha pele reagiria a seus dedos.
Estou cansada de pensar em tudo que poderíamos ter sido,
Antes de meu medo dizer que não seríamos nada.
Estou cansada de pensar em você quando ando, quando corro, quando falo, quando calo
Sem andar ou correr pra você, sem falar ou calar com você.
Estou cansada de te ter com meus gritos e com meu silêncio,
Mas não te ter comigo.
Estou cansada de perceber que você é a primeira pessoa em que penso ao acordar, a última em que penso ao adormecer,
Mas cansada de nunca acordar ou adormecer com você.
Estou cansada de procurar seu cheiro em estranhos,
Sabendo que nunca encontrarei pois nenhum estranho é você.
Estou cansada de ouvir sua voz, seus sussurros, suas palavras
Quando tudo que me cerca são silêncios e sons que não são teus.
Estou cansada de imaginar como seria seu olhar ao me ver,
E cansada do medo que tenho de que, quando ou se tu fosse me ver, não fosse me querer.
Estou cansada de querer saber que gosto você tem, cansada de querer conhecer a textura dos teus lábios,
Mas cansada demais da vergonha que me impede de prová-lo.
Estou cansada, estou muito cansada, de saber de tudo o que você é,
Tudo que é e que nunca será comigo.
Estou cansada de ir aos céus ao te imaginar,
E aos abismos mais profundo também.
Estou cansada de passar 25 horas a te imaginar em dias que findam na hora 24.
Estou cansada de não conseguir pensar em nada além de você,
E ter que continuar tentando te esquecer.
Estou cansada, você não imagina o quanto estou cansada, de ver minha mente progetando sua presença constante comigo em minha solidão.
Estou cansada do cativeiro em que você me colocou,
Mas cansada de não querer minha libertação.
Estou cansada de me perder em devaneios sobre você,
Devaneios que sozinhos não satisfazem meu querer.
Estou cansada de imaginar suas mãos e seus lábios passeando por mim,
Estou cansada de ~querer~ suas mãos e seus lábios passeando por mim,
Estou cansada de só poder imaginar.
Estou cansada de viver contigo em minha mente,
Em minha mente, somente.
Estou cansada de me encontrar perdida em você.
Estou cansada de querer seu beijo, seu abraço, seu toque, seu sussurro, seu olhar, suas palavras, suas mãos sobre mim.
Estou cansada de só querer.
Estou cansada de nunca cumprir a promessa que fiz a mim
De que iria te esquecer
E o problema disso tudo é que não estou, nem um pouquinho, cansada de você.