04/06/2016

Última ida ao psicólogo.

-Oi.
-Oi.
-Tudo bem contigo hoje?
-Estou OK.
[Mentira.]
-Teve alguma queda durante a semana?
-Não, tudo OK.
[Mentira.]
-Bom, bom... Isso é bom.
-Hoje é nossa última consulta?
-É. Algo a me dizer?
-Tipo uma despedida? Não... Eu já dei o desenho que fiz dos teus olhos semana passada. Foi um desenho de tchau. Pensei que nossa última consulta seria semana passada.
-Aahh, OK. Bom, tenho algumas coisas a dizer. Acho que deve ir atrás do seu sonho. Disse que quer ser médica desde que nasceu, deve ir atrás de um desejo tão genuíno assim.
-Sim. Eu sei.
-Só que às vezes não parece que você tem vontade e quer de verdade. Sei que é difícil, mas foda-se a dificuldade, se você quer muito, é só tentar muito. Não fique triste por ser difícil.
-Nunca fiquei triste por achar que era difícil.
-Não?
-Não. Fiquei triste por achar que era impossível.
-Sabe por que achou isso? Que era insuperável para você?
-Talvez porque minha auto estima seja uma droga.
-Por que sua auto estima é uma droga?
-Por que a auto estima de alguém fica uma droga?
-Não sei, me diga.
-Ninguém nasce se achando um lixo, se odiando, se achando feio(a). Você aprende isso. Aprende autodidaticamente ou te ensinam.
-Te ensinaram?
-É, acho que sim. Não sei...de algum jeito eu aprendi. Acho que uma das coisas que mais determinam a felicidade ou infelicidade de um adulto é o que ele aprendeu em seu processo de crescimento. A se odiar ou a se amar.
-Entendo...
-Talvez por isso as crianças sejam mais felizes do que adultos. Não tiveram tempo suficiente pra aprender a se odiar.
-Você sabe que essa é uma opinião bem pessimista, não sabe?
-Pode ser.
-E o que fará sobre isso?
-Não tenho certeza se é possível desaprender algo assim.
-Pretende tentar?
-Também não tenho certeza. Cheguei em um ponto de minha depressão em que tudo que consigo pensar é dane-se. Deixei de me importar. Se me sinto um lixo, dane-se. Se me odeio, dane-se. Se estou triste, me achando feia, inútil e burra, dane-se. Dane-se tudo. Estou numa espécie de limbo entre o baque inicial de medo, desespero e tristeza da depressão e entre seus resquícios finais em que já se pode vislumbrar um horizonte com cores que vão além de tons cinzentos. Esse limbo é preenchido por vazio, estupor, entorpecimento e um silencioso e calmo atordoamento.
-Não é uma boa maneira de encarar a vida.
-Provavelmente não. Mas é minha única maneira no momento.
-É curioso o que está acontecendo aqui.
-O que?
-Você está se abrindo, falando francamente pela primeira vez em nossas consultas. Durante todos esses meses você não pôs pra fora nada substancial sobre si mesma. Só se eu perguntasse especificamente.
-Os outros pacientes falam sobre si mesmos de forma espontânea?
-A maioria, sim. Mas você só tecia comentários espontâneos quando era pra perguntar sobre minha vida.
-Sempre gostei mais de ouvir do que de falar.
-Mas também precisa falar, não? Por que não fala sobre si mesma?
-Porque me treinei a não precisar. Me treinei a conseguir ficar sem depender de mais ninguém. Isso inclui não sentir necessidade de falar com outra pessoa sobre o que me perturba. Conseguir lidar com isso sozinha.
-Mas isso não é aconselhável. Por que não contar com os outros, alguma ajuda que não parta unicamente de suas próprias costas?
-Porque não quero me acostumar e contar com algo que possa partir. Me recuso a sentir a velha dor de quando eu ficava feliz por ter alguém para subitamente me ver sozinha novamente, perder alguém para outro alguém. Doía. Demais. E não foi só uma vez. Foram uma, duas, três, outra depois outra e mais outra... Até que decidi dar um fim nisso. Fechar a porta da frente para não ter que, mais tarde, abrir a porta de trás pra me despedir de alguém.
-Mas se manter sempre a porta da sua vida fechada ela não passará disso: uma porta fechada, um lugar trancado. Não uma porta aberta para todas as possibilidades e belezas de uma vida. Uma porta fechada não somente pra ninguém entrar, mas também pra você não poder sair. Uma porta fechada é uma possibilidade interrompida.
-Humm, sei...entendi.
~~~
-Você entendeu o que eu quis te dizer?
-Sim.. Acho que sim.
-Tudo bem.
-Então eu acho que tchau...?
-É, tchau. Me dê um abraço.
-Tá..
-Boa sorte.
-Obrigada.
-E você vai continuar vindo aqui pra se consultar com a psiquiatra, certo?
-É. Vou continuar com a medicação.
-Então nos vemos por aqui...?
-Nos vemos.
-Então tá. Tchau.
-Tchau.
-Ei!
-Sim?
-Você vai tentar, não vai?
-O que?
-Abrir a sua porta. A porta da tua vida, pra deixar alguém entrar...
-É, acho que sim, vou...
-Vai mesmo?
-Vou.
~~~
[Mentira.]