19/10/2015

1984

Certo dia estava eu a assistir vlogs livristicos, e em um vídeo específico um rapaz falava sobre 10 livros que lhe marcaram muito. Alguns títulos eu já havia lido, pois era uma coletânea bem variada. Entre eles o primeiro livro da saga A Torre Negra, de Stephen King, que li com 16 anos, e um livro do Zafón, que é um de meus escritores favoritos, juntamente com o King. Ia o moço falando sobre os livros quando ele pega o exemplar que vos encara abaixo em mãos e diz algo como:

-Ahh, o que dizer sobre esse livro? Como descrevê-lo? Quem já leu sabe o tormento que estou passando ao me deparar com tais questões...

Preciso lê-lo. Pensei na hora.
Porque este é o sentimento mais pungente que tenho ao final de uma leitura memorável: como descrever essa obra? Entendi com experiência o que o rapaz falava, pois me vi recordando as diversas vezes em que eu acabara um livro incrível e ficara estupefata, sem palavras encarando a última página com um vago sentimento de ''GEN-TE, o que foi isso que acabei de ler?!?!''.
Desde então este livro estava entre os tantos outros de minha lista de leituras pretendidas, apenas aguardando o momento em que eu me deparasse com ele em uma estante aleatória e sentisse que havia chegado a hora da leitura. E foi o que se sucedeu na biblioteca do colégio dia desses, quando dei de cara com ele.

~Detalhe da grama em que eu estava
 sentada lendo ele quando tirei a foto.~
O incrível 1984, de George Orwell, nos situa em uma realidade diferente da que se encontra a sociedade atual, mas que carrega suas notáveis similaridades, e são elas que dão sentido à obra. A história de passa num continente chamado Oceânia, resultado da anexação de diversos países após uma fatídica revolução mundial em que foi instaurado o que conhecemos no livro como ''uma deturpação do socialismo'' (ou o que se prega como tal, na conjuntura do que foi implementado como sendo esse modelo de comando na história). A Oceânia permanece em constante guerra contra dois outros continentes rivais, a Lestásia e Eurásia, intercalando rivalidade e aliança entre as duas potências. O novo estado que se instaurou é de métodos extremamente radicais e ditatoriais, e as ações -e isso inclui pensamentos, vontades e resquícios de sentimentos que sejam possíveis nutrir em meio a tanta rigidez imposta- dos cidadãos são rigorosamente policiadas pela Polícia das Ideias, que garante a dominação sobre todos perante O Partido, sem que seja possível notar tal forma de controle, uma vez que nenhuma forma de pensamento individual consegue mais ser concebida.

''A realidade existe apenas na mente do Partido. Tudo o que o partido reconhece como verdade é a verdade. É impossível ver a realidade se não for pleos olhos do Partido.''

Dividindo a população em três esferas, os membros do Núcleo do Partido -os que realmente estão no encargo da forma ditatorial com que conduzem a sociedade e detém o conhecimento acerca do próprio método de comando-, os membros do Partido Exterior -uma subseção do Partido que trabalha às ordens do Núcleo, em sua maioria sem ter um conhecimento tangível da situação opressiva em que se encontram as coisas- e os proletas -classe social pobre obrigada a engolir goela abaixo o que o Partido lhe determina-, vemos ambos as duas últimas classes sendo vítimas do sistema opressor, embora um grupo subjugue outro.
Temos como personagem protagonista Winston Smith, um membro do Partido Exterior, não do Núcleo, instituição que rege com totalitarismo tudo e todos e que tem como símbolo principal O Grande Irmão, figura pintada como responsável por todas as maravilhas, privilégios (que inexistem) e ordem que vigoram no sistema político em que são inseridos os cidadãos. Winston, no entanto, não é um membro que ocupa seu cargo com muita notoriedade, uma vez que seu trabalho consiste numa tarefa que convenientemente não deve ser de conhecimento público: ele exclui, reescreve, edita e altera toda e qualquer informação divulgada em veículos de mídia que, de alguma forma, possa ir contra alguma das verdades que o Partido apregoa. Nessa função, Winston tem o dever de alterar ''mentindo em nome do Partido'' dados lançados anteriormente pela própria instituição, uma vez que ela é detentora de todo o controle sobre o que é propelido pela da mídia. Coisas pequenas, como detalhes acerca do número de sapatos que foram produzido para se distribuir à população, meta que foi estabelecida mas não atingida, portanto a informação originalmente divulgada precisa ser alterada, uma vez que o ocorrido demonstra a infalibilidade e erro do sistema através do qual o tão aclamado Partido gere suas ações.
O ofício de Winston nos revela explicitamente e com justiça os meios pelos quais o Partido age: tudo que representa, mesmo que minimamente, uma possível ameaça a sua credibilidade é exterminado completamente, de modo que o modo de governo siga inexpugnável e resista sem dificuldade alguma às consequências geradas por suas decisões errôneas, uma vez que o conhecimento geral acerca das mesmas é totalmente impossibilitado por setores tais quais aquele em que Winston faz parte, administrados rigorosamente pelo totalitarismo ditatorial em voga, que ocultava seus erros do povo.
O que impera em cada indivíduo é a rigidez a que foi submetida toda a população; não existem mais sentimentos próprios, expressões pessoais de contrariedade nem liberdade de pensamento, que é plenamente condenada pelo poder do Partido, uma vez que controlando instintos e comportamentos básicos que caracterizam um ser humano, sua natural propensão a questionar os meios pelos quais é controlado é suprimida.
Em meio a tantas pessoas subjugadas por esse mesmo sistema, Winston se vê como um solitário e possível lunático, o único em meio à massa ainda dotado de alguma capacidade de formular ideias e opiniões próprias, tais como contestar o que é imposto pelo Partido... até conhecer Julia, semelhante a ele em sua condição de mantenedora da individualidade humana. Juntos, os dois iniciam um relacionamento, nesta sociedade em que até mesmo o impulso sexual e a pura atração física e/ou mental entre duas pessoas é considerada abominável, sendo admitido o intercurso somente com o fim natural da reprodução.

''O que o Partido fizera de terrível fora convencer as pessoas de que meros impulsos, meros sentimentos, não servem para nada, destituindo-as, ao mesmo tempo, de todo e qualquer poder sobre o mundo material. A partir do momento em que você caísse nas garras do Partido, o que você sentia ou deixava de sentir, o que fazia ou deixava de fazer, não fazia nenhuma diferença.''

Escondendo dos demais sua maneira de encarar a realidade em que viviam, os dois alimentam a esperança de que em algum momento, em algum lugar, seja possível a ocorrência de uma revelia contra o sistema. Mas como, se todos têm cada aspecto de suas vidas controlados e castrados de modo a permitir a manutenção do poder absoluto do Partido? A resposta estaria na mítica sociedade secreta, a Confraria, fundada por um famoso personagem, Goldstein, sobre o qual se ouvia muito no cotidiano normal de todo cidadão da Oceania, uma vez que não cansava de se pregar odiosamente contra a lendária sociedade, posto que ele ia contra o Partido e seus ideais e buscava, justamente, romper tal controle.
E é vivendo abaixo de tamanha tensão, expectativa, conflitos e medo que nos inserimos dentro do universo temeroso criado por Orwell.

Este livro nos faz pensar -e temer- até que ponto pode ir a ganância pelo poder absoluto, e do que ele é capaz quando alcançado, subjugando as massas. E juntamente com essa reflexão nos pomos a indagar a nós mesmos até que ponto conseguimos carregar nossa individualidade e essência humanas, sem se deixar corromper por toda uma sociedade e controle que vão contra nossas características pessoais mais básicas, julgando-nas erros, falhas a serem reparadas. Até que ponto somos nós mesmos? Quando chegamos ao limiar do que podemos ser livremente e do que é imposto a nós? Até onde somos controlados pelo sistema no qual somos inseridos -e todos somos inseridos em sistemas dos mais variados- e delimitados por ele, passando a corresponder a um protocolo que faz de nós criaturas robotizadas e sem autonomia alguma, em meio a uma miríade de outras pessoas condicionadas na mesma rotina que a nossa? Até onde conseguimos defender nossos valores pessoais, nossas verdades e convicções, se tudo e todos estiverem contra eles?
Um controle total tal como é descrito no livro não é tão difícil assim de se imaginar, principalmente se levarmos em conta os avanços tecnológicos na era da comunicação e difusão de informações as quais somos submetidos sem sessar por uma mídia inquieta. Vale lembrar que no livro, o poder do Partido era resultado mor de uma mídia sempre ativa e inquisitiva, que regia tudo o que chegava à população, dominando suas ideias.
Embora eu não seja nem um pouco inclinada a vir aqui com teorias da conspiração e, de fato, ache isso meio bobagem, o cenário total do livro nos faz pensar em coisas como a espionagem por parte de grandes governos que já é uma realidade, os diversos ataques de hackers, o totalitarismo que alguns líderes políticos vêm demonstrando etc.

Só nos resta torcer, zelar e lutar por nossa individualidade, e orarmos pela possibilidade de mantê-la.

''O fato de ser uma minoria, mesmo uma minoria de um, não significava que você fosse louco. Havia verdade e havia inverdade, e se você se agarrasse à verdade, mesmo que o mundo inteiro não o contradissesse, não estaria louco.''
-1984

13/10/2015

Pensamentos mortos.

Sou uma criatura reflexiva. Não sei por que não virei filósofo, se isto é ficar pensando e pensando nas coisas da vida. Não é só isso, claro. Não quero manchar e desmerecer a imagem  e esforço de quem se dedicou nesta área lançando minhas concepções deformadas a respeito do assunto, mas enfim. A questão é que penso muito, reflito em uma intensidade e constância que vai muito além do que é saudável para o cérebro de qualquer ser humano.
Eu penso. Isso é o que faço. Faço muito. Penso muito.
Mas não sou filósofo. Sou ator.
E o que desencadeou a corrente de pensamentos que se sucederá foi o novo papel que me incumbiram de incorporar num personagem de uma peça.
Serei um morto.
Só isso. Só alguém que morreu. Uma criatura branca-arroxeada estirada no caixão preto (para contrastar de vez com minha palidez) com forro vermelho.
Ali, parado, enquato os amigos/familiares/conhecidos transitam pela sala em silêncio sepulcral. Aquele silêncio de velórios que parece ensaiado, com coxixões aqui e ali, e troca de olhares (menos com o morto; o roteiro diz que estarei de olhos fechados) em desespero cúmplice entre uns e outros. O tipo de situação para a qual preparam você a vida toda...
''Filho, tio Olavo morreu. Fique em casa quietinho enquanto a mãe vai ao enterro, tá?''
...E sua mãe, vestida de preto dos pés à cabeça, sai pela porta naquele dia que parece estar ensolarado demais só para o brilho do dia poder zombar de você, que está triste... Sua mãe passa pela porta, cabisbaixa, com um olhar vago e sem foco, quase tão sem vida quanto o do morto, a não ser pelas lágrimas no rosto, que no morto nunca mais escorrerão.
E é vendo esse tipo de situação ao longo de sua vida inteira que você sabe, a vida e o tempo te ensinaram, que o lugar de um morto (o velório, não a cova, no momento) é um lugar para ficar em silêncio. Como respeito.
Como nervosismo, desespero. Como pura e intensa tristeza.
Como a própria morte.
Por isso parece ensaiado. Porque o foi, de fato. Ao longo de toda a sua vida. Desde a primeira situação em que se deparou com a morte e com sua mãe chorando. Quando ainda era pequeno e jovem demais, e nem sabia que ela -a morte- veio para levar embora. Alguém.
Em todas as situações em você vê pessoas de preto indo tristes ao primeiro e último encontro com o morto; situações em que seus familiares ficam em silêncio por alguns minutos após dizer que aquele primo de Santa Catarina, que vocês quase não viam por causa da distância, agora não verão nunca mais, por causa da morte. Aqueles momentos em que você vê lágrimas escorrendo para logo serem escondidas ou deixadas lá, após a fatídica sentença pronunciada: ''ele(a) morreu''.
Eles te ensaiam, esses momentos. Te preparam. Então, quando alguém morre, você sabe que terá de ir de preto, ficar em silêncio, de cabeça baixa, e se deixar ser triste. Ser triste porque é adequado, o protocolo dita. Ou porque você simplesmente está triste de verdade.
Está triste.
Não tem mais aquele buraco negro que tinha na barriga enquanto fulano estava adoentado no hospital, porque agora não tem buraco nenhum, em lugar nenhum. Nada. Está tudo vazio, triste. Fulano se foi e o buraco também.

Bom, quando alguém morre, você sabe o que fazer -a menos que não fique com vontade de fazer nada, senão também morrer.
Mas em geral você simplesmente sabe o que fazer.

Viu? Eu penso e discorro. Penso e reflito. Demais.
Mas não sou filósofo. Sou ator.
Só penso. Minha mente é a criatura mais ativa e reflexiva que conheço. A mais viva.
E foi nisso que me pus a pensar... Não, não me pus a pensar, na verdade. Os pensamentos simplesmente me acometeram e pronto. Se tocaram sobre mim como loucos esfomeados em busca da presa, insanos e completamente desorganizados. Eles me atacam, e nem sempre é possível sair vivo da carnificina. Nem sempre saio. Às vezes morro. Mas ressuscito.
Ressuscito depois de algum tempo pensando. Ressuscito da morte que meus pensamentos me trouxeram...
Céus, como penso!
E foi nisso que me emaranhei. Foi esse o pensamento que me chacinou: minha mente e os pensamentos. A ativa e viva mente. E a morte.
Como compreender a ideia de que a mente do morto não viverá, deixará de ser ativa e não produzirá mais? Nada. Não pensará mais. Nunca mais.
Reflita comigo por um momento: todos os pensamentos que um dia ele (o morto de agora que era vivo, outrora) poderia vir a ter, todas as ideias, todos os textos, frases, poemas, músicas, composições, livros inteiros que poderiam um dia sair da mente dele, não terão essa chance. Não poderão se libertar e ter o privilégio de existir. Nunca.
Foram embora, juntos com o morto.
Fico pensando quanto conteúdo poderia derivar da mente que era dele, quanta coisa boa, como arte e livros, não existirão porque o tempo não lhes deu essa chance. O monte de vida que poderia sair da mente dele foi para a cova junto com o corpo.
É triste pensar que talvez muita coisa boa, feliz, humana e de qualidade poderia, mas nunca existirá. Jamais. Coisas que só a mente do morto em particular (porque cada um tem uma, em especial, e nenhuma outro já foi, é ou será igual) poderia criar. São possibilidades que morreram, foram enterradas, não tiveram e jamais terão a chance de viver e, talvez, mudar outras vidas.
Não é absurdo pensar que muitas coisas que poderiam viver (muitas coisas que já estavam parcialmente em vida na mente do morto que era vivo), jamais perambularão pelo mundo? Pois alguém morreu, e a morte eternizou a inexistência.
Você está me acompanhando? Está entendendo minha linha de raciocínio?
Pensar nisso é triste. Demais. Pura, simples e profundamente triste.
Essa é a verdadeira morte. Não a do corpo físico, mas a do ''corpo mental'', que vai junto. A morte das possibilidades.
E pensar que talvez muitas das coisas que já citei -livros, músicas, poemas- já estivessem no limiar da mente do indivíduo, quase já fora dele, como inspirações a serem reveladas, faltando só um pouquinho para ele externar seus sentimentos e pensamentos em arte em forma de livros, músicas...Quase saindo da cabeça dele para um papel ou estrofe... Quase lá e...Não deu tempo.
Ele morreu.
Me faz pensar que cemitérios são os lugares mais ricos do universo, pois lá estão milhões de livros, músicas, poemas que a mente humana poderia ter um dia criado.
Mas agora é tarde, estão enterrados, pois o moço que tocava violão e queria ser músico bebeu demais em uma festa e mesmo assim dirigiu...até pechar num poste e morrer num milésimo. E toda a sua música foi com ele.
Enterrados pois a jovem que ''comia'' livros e seria escritora ficou até tarde na rua, um homem grande passou, a estuprou e matou. E os livros que ela ia escrever foram com ela. Esterrados. Para jamais poderem viver e transitar no universo de nossa mentes.
Pensar em quanta riqueza de pensamento humano tem nas covas dos mortos, enterradas e sem a chance de sair de lá nunca mais, como os corpos. Quanta riqueza e conteúdo mental tem no cemitério inteiro. Riqueza que poderia, mas nunca existirá, pois foi levada pela morte, e agora só fica em sua inexistência mesmo, na cova.
Uma riqueza inalcançável. Tesouros impossíveis enterrados com o morto que morreu e os levou com ele, para nunca dividir com ninguém mais. Muito possivelmente o morto foi sem nem mesmo saber que os estava levando, pois ele ainda não tinha pensado nas ideias, nas coisas, nos pensamentos. É desesperador!

Bem, foi nisso que pensei, nas ideias e pensamentos dos mortos, pensamentos que nunca tiveram a chance de viver. Que nunca, NUNCA, fluirão pelo universo, passando de mente para mente, enriquecendo ou acrescentando coisas (ideias, recordações, sentimento singelos) às vidas de cada um.
Pensar nisso é triste. Os pensamentos mortos. Os que poderiam, mas nunca chegarão a existir.
Esse triste e singular pensar pôs os braços ao meu redor e me emaranhou no seu abraço profundo e eterno. Nunca mais me largará ou me deixará partir. Nem eu a ele, pois é isso que faço: penso e não deixo de pensar. Não os largo também.
Mas esse pensamento em especial me inquieta e atrai mais que os outros -como quase tudo que é referente à morte.
Não sei por que é assim, mas ele -esse pensamento- não me deixará jamais. Mesmo após eu fazer o papel do morto no roteiro, ele não me deixará. Ele me levará e eu o levarei para o túmulo comigo.
E então, a não ser por esse escrito aqui que deixei em vida e não sei se alguém algum dia lerá, talvez, ele será um pensamento morto também.
Mas que teve a chance de viver no meu alguém.

Fim.


Texto inspirado no conto Os Bolsos do Morto, de Luis Fernando Veríssimo.
Escrito em 16/04/2014

09/10/2015

O Mundo de Sofia

Há algum tempo esse grande exemplar compilava em minha lista de livros para ler, após comentários que ouvi a respeito da história e da recomendação de uma professora de sociologia que me era próxima. Quando vi o livro entre as prateleiras da biblioteca da escola, me programei para pegá-lo logo. E peguei. E li.
                                        
                                          ~Capinha fofa~
O Mundo de Sofia (de Jostein Gaarder) tem uma narrativa que mescla o cotidiana de uma menina de 14 anos, Sofia, que começa a receber pelo correio (o livro é ambientalizado no fim do século 20, de modo que e-mails e internet ainda não eram uma opção viável para nossos personagens) cartas e mais cartas de um filósofo anônimo que começa a lhe dar um curso grátis de iniciação à filosofia; paralelamente ao cotidiano da jovem, temos os escritos das cartas que ela recebe do tal filósofo, escritos que vão contando a Sofia e a nós, os leitores, como, quando e por que a filosofia se desenvolveu. A partir de dois questionamentos iniciais na primeira carta que chega a Sofia, ''quem é você?'' e ''de onde veio o mundo?'', somos levados a refletir junto com a protagonista sobre essas e outras questões que cercam a existência humana, traçando uma linha reta a anos atrás, no início do que começou a ser conhecido como humanidade. Dos primeiros filósofos naturalistas que buscavam na natureza a gênese do nosso mundo, aos contemporâneos das últimas décadas, a história começa a abordar a miríade de questões que o pensamento filosófico procura elucidar, à sua maneira.
O Mundo de Sofia não é uma leitura leve, de uma sentada só. É um livro denso, conteudista, com mais informações do que nosso cérebro poderia comportar ao chegar ao final da leitura. Embora não nos seja possível fixar todo o seu conteúdo (que é vasto) de uma só vez (com exceção de alguns raros super-dotados), a leitura vale muito a pena, em especial àqueles que se interessam por história, num geral.
O livro não trata apenas de filosofia, ele abrange um pouco de tudo o que se pode abordar na área de humanas, o que dá grande peso ao que faz parte da narrativa.
Embora eu tenha muitos elogios a fazer ao livro, devo dizer que a personagem Sofia não me agradou muito. Achei-a irritante, teimosa e prepotente, pronta a distribuir críticas ao menor acontecimento que a contrariasse. Entendo a necessidade do autor de colocar uma personagem questionadora como protagonista da história, visto que uma criatura que pouco instigasse o filósofo que a está ensinando não abriria muitas possibilidades ao que seu professor estaria disposto a lhe passar. Mas mesmo entendendo Sofia, não gostei muito dela, fazer o que...
A despeito de minha opinião negativa sobre a personagem, o conteúdo e história do livro não deixaram de me agradar e a muitos outros leitores, tendo em vista que O mundo de Sofia foi publicada há mais de 20 anos e ainda se fala muito, em ciclos filosóficos e estudantis, principalmente, sobre essa tal de Sofia e seu curso de filosofia (a semelhança na sonoridade e significado das duas palavras foi de conveniência proposital do autor, inclusive).
Aos amantes de humanas, é uma leitura recheada de oportunidades a novos conhecimentos e questões, muitíssimo recomendada! Aos preguiçosos, nem tanto, pois o propósito primordial do livro é levar à reflexão o leitor interessado e sagaz. Se não há reflexão, não há uma finalidade em execução.

Uma citação:
''-Tudo é possível. Mas também é preciso duvidar de tudo.
-Pois toda a nossa vida pode não passar de um sonho.''
-O Mundo de Sofia  

29/03/2015

Como Salvar Uma Vida

Achei esse livro (Como Salvar Uma Vida, de Sara Zarr) na estante de novos exemplares na biblioteca e o título me chamou a atenção. Gosto do que trata da vida. Abrangente, eu sei. Mas nem tudo que se diz tratar da vida o faz realmente.
Este livro sim.
Eu estava em cima de uma árvore lendo quando tirei a foto.

Logo nas primeiras páginas somos recepcionados por duas personagens protagonistas cuja existência está mergulhada na incerteza resultante de acontecimentos naturais, mas trágicos, que acometeram suas vidas; Jill e Mandy.
Jill é uma menina adolescente que tinha uma vida agradável que beieava à perfeição, mas se vê perdida quando seu pai é morto em um acidente de carro e tudo começa a desmoronar. Sem saber ou querer lidar com o próprio luto e perda, ela se torna uma pessoa diferente, fechada, com mágoas, angustiada, que repele todos ao seu redor pois tem medo do que se tornou e não quer encarar as dores do que o passado lhe trouxe.
Jill se perde, literalmente. A Jill de antes não mais existe, a menina otimista, feliz, alegre e esperançosa foi substituída por uma Jill que não vê mais perspectiva alguma de um futuro bom e agradável, uma vida que valha a pena. Mas Jill quer se reencontrar, quer salvar a si mesma, essa vida que se perdeu; no entanto, não sabendo por onde começar a procurar o que era antes de toda a tragédia que caiu sobre sua vida, uma vez que seu maior ponto de referencia para si mesma era o pai, agora morto, ela não sabe como ou se poderá se reencontrar, se conhecer novamente e salvar a si mesma.
Então Mandy entra, também perdida, em sua vida.
Mandy é uma adolescente de 18 anos, grávida fruto de uma relação com um menino por quem se apaixonou e com quem ficou por apenas uma noite. Diferentemente de Jill, Mandy não teve, em período algum, uma vida boa. Filha de uma mulher que só não a abortou porque tinha esperança de conseguir dinheiro do homem casado de quem engravidou, Mandy sofreu, durante toda a sua vida, o abandono de uma mãe que a tratou com indiferença e desimportancia desde que não conseguiu lucrar com a filha, uma vez que o homem/pai fugiu antes mesmo de conhecer a criança.
Tendo sido abusada pela grande maioria dos namorados que a mãe já teve (inclusive o último, de quem também fugiu), Mandy tem uma vida marcada por feridas que lhe foram infringidas ao longo de toda a infância e adolescência, e após descobrir a respeito da própria gravidez, se vê querendo oferecer uma vida diferente ao seu bebê.
Mandy sabe que não conseguiria isso estando no lugar onde estava, com a mãe e o padrasto que a abusava, assim decide oferecer o bebê a uma adoção aberta, onde outras pessoas assumem a maternidade de acordo com os desejos da mãe biológica, sem envolvimento de advogados.
Assim ela acha a mãe de Jill, que também perdida com a morte do marido, decide que quer algo a mais, uma criança a quem dedicar amor e se sentir completa novamente. Através de um anúncio que a mãe de Jill posta em um site de adoção aberta, informando que quer oferecer um bom lar a uma criança a quem amar, ela e Mandy começam a se comunicar através de e-mails e estabelecem os parâmetros da adoção, os quais, decididos por ambas, definem que Mandy vai morar na casa de Jill e sua mãe até o nascimento do bebê.
A partir de então seguem-se as histórias das duas jovens que são impelidas, pelas ocorrências naturais da vida, a aprender a conviver entre si e encarar o próximo de uma forma mais altruísta e amável, mesmo que sua situação seja muitíssimo diferente da nossa.
Os personagens são apaixonantes como raramente se encontram em histórias, me apeguei a cada um deles e senti saudades quando terminei a leitura. De temperamentos bem variados, nos envolvemos com cada um; de Jill, a menina explosiva, rebelde e forte, a Mandy, frágil, perdida, com uma ingenuidade infantil a respeito da vida. A narrativa torna latente o contraste entre as duas personalidades e isso marca as páginas com os fracos e fortes de cada uma, as oscilações em seu humor e expressões de seus sentimentos.
Devo dizer que o livro me surpreendeu, pois nos primeiros momentos da leitura me pareceu de uma linguagem e perspectivas meio infantis, mas minha opinião inicial se demonstrou errada, nada além de um equívoco, e a história e a escrita permitiram ao livro ganhar espaço entre os favoritos na minha estante, tal como me renderam várias linhas transcrevendo muitas citações que achei dignas de nota.
O próprio título nos brinda com uma reflexão; numa primeira lida desatenta somos levados a pensar que a semi-orfã Mandy é quem precisa de salvação, mas no decorrer da história, aos poucos compreendemos que status social, dinheiro e condições de vida confortáveis, como as de Jill e sua mãe, são apenas a pontinha do iceberg na lista de prioridades humanas, muito abaixo daquilo que apenas o afeto e amor compartilhado pode proporcionar. 
Acima de tudo, o livro nos faz lembrar que, em maior ou menor urgência, todos nós, uma hora ou outra, precisamos de uma salvação.
Recomendadíssimo!


                                                                     Uma citação:
   ''Não quero que seja assim, mas não sei como fazer não ser.''
 -Como Salvar Uma Vida

04/02/2015

Os mortos mais vivos.

Estou de olho no Zacarias.
Não sei por que escolheram -seja quem for o responsável por esse feito- meu ser singular para essa tarefa, mas a questão é que o fizeram, e aqui estou.
Veja bem, Zacarias é um ótimo sujeito: simpático, com um olhar tranquilo que disfarça a inteligencia que percebo através dele, e tem um certo ar sarcástico que adoro. É até meio bonito -embora eu não me julgue uma boa pessoa para notar tais coisas- . Zacarias é tudo de bom, e por isso não me sinto tentada a cortar o seu barato aqui na terra.
Mas não é pra ser assim. Um cadáver vivo não pode ficar andando por aí... Estou aqui, e estou morta.
Certo. Mas nem mesmo eu estava por aqui. Estava confortavelmente bem em um lugar agradável, e apenas fui a criatura que mandaram para cá com a missão de orientar o Zacarias de que ele precisa ir pro além. Esse é meu papel, por menos agradável que esse fato me pareça. Mas o mundo não é mais o lugar dele. Ele precisa ir para o seu lugar -o qual não sei qual é, mas oriento-o a seguir em frente.
Olha, não me pergunte de onde eu vim, ok? Provavelmente saberei tanto quanto você, com exceção de que tenho conhecimento de que era um lugar bom. Essa questão não cabe a mim responder, então apenas saiba que estou aqui para ajudar o Zac. Ponto. Depois da cumprir o dever, volto para o lugar de onde vim, assim como ele irá para o seu. E por mais que me doa estragar a alegria do Zacarias (ele parece bem feliz e realizado aqui), eu não poderia voltar para o meu lugar antes de tê-lo levado para o dele. Então eu teria que fazer isso logo, pois o lugar de onde vim era bom, e eu gostaria de poder voltar pra lá quanto antes possível.
Mas existe um problema.
E o ponto crucial dessa questão -o problema- é que há algo com Zacarias. Algo que faz parecer com que ele pertença a esse lugar. Esse plano físico/espiritual indefinido parece completá-lo intensamente; ou o contrário: ele completa esse plano. É como se esse lugar, diferentemente do resto dos seres humanos, fosse o ideal para ele. Fosse o que torna sua existência tão intensamente completa que fez com que ele atingisse a perfeição na percepção que ele tem do que está ao seu redor. A percepção do amor, gratidão, felicidade, prazer, e por que não também raiva, dor, aflição etc? E as cores! Como ele sente as cores! Sente tudo nelas. A única coisa que ele não sente, em lugar nenhum, é o medo. Zacarias não tem o maior medo dos vivos: o medo de sentir. Aqui é isso o que ele faz; o seu papel: sentir. Zacarias sente. E como ele sente e é perfeito nisso!
Aí está o problema. Depois de observar tanto Zacarias e avaliar tão minuciosamente os fatos e percepções, concluo que ele pertence, sim, a esse lugar, pois aqui ele é completo. Zacarias é melhor sendo morto do que vivo.
E por mais que esse seja o meu problema ''principal'' -não conseguir levar Zac de volta em função dele pertencer aqui- outra questão chama muito a minha atenção, uma questão que me desespera: será assim com todos os vivos? Passam por sua longa existência nessa vida extremamente curta sem atingir a verdadeira e completa essência de sua vivência, da vida? Serão todos os que passam se escondendo atrás do muro do estupor que constroem ao seu redor para, na comodidade inativa, se proteger dos sentimentos? Por medo de não sentir? Cada vez mais penso que sim. Admitir isso para mim mesma me causa extrema dor, um buraco na alma -a alma na qual estou pairando por aqui, para ''ajudar'' o Zacarias- que se aprofunda ao engolir a tristeza do que essa consciência -de que eles passam pela vida sem sentir- me causa. O que é a vida senão a soma do sentir? O que resta dela sem sentimentos?
Dessa resposta sim tenho medo, pois percebo que esses corpos com calor que andam por aqui se pensam vivos, e não são, de fato. Todos mortos em sua essência. Mortos.
E medo agora também tenho de roubar isso do Zacarias. Não posso tirar isso dele, pois o ''morto'' Zacarias, diferentemente dos que apenas perambulam por aqui com batimentos cardíacos, tem o que é a essência da vida. O ''morto'' é o único que realmente sente. O ''morto'' é o único vivo.
Irônico, não? Pode-se dizer que sim. Mas também é triste.
Aqui Zacarias é inteiro, completo, perfeito, bom. Pertence aqui. É vivo.
O problema volta: não levando-o para onde ''tem que ir'' -o que farei, digo, não levarei ele, não o tirarei de seu sentir- também não poderei voltar ao lugar de onde vim. É a regra, disseram-me.
Mas já não importa, e o problema não é mais problema, é solução. Quero ter também o que Zacarias tem. Não quero e não vou mais voltar para aquele lugar. Vou ficar com Zacarias, nós dois juntos na beleza da percepção dos sentimentos, andando entre os pobres coitados e iludidos mortos que enganam a si mesmos dizendo serem vivos.
Viverei, com Zacarias, os sentimentos.
***
-Zacarias, ficarei aqui!
-Não vai partir?
-Quero sentir!

 FIM

 Releitura do conto O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Escrito em 22/11/2013