04/02/2021

2020, das nuvens ao miojo com amendoim japonês

Se tivessem me falado em janeiro do ano passado quando publiquei a retrospectiva de 2019 que eu só voltaria a pisar neste blog agora, um ano inteiro depois na próxima retrospectiva anual de costume, eu lamentaria muito, mas teria em mente possíveis motivos aos quais atribuir essa ausência, porque àquela altura já tinha planos importantes traçados para esse ano que passou. "Não devo ter parado em casa pra nada além de cair exausta na cama", eu pensaria.

Se tivessem me falado que eu e o resto do mundo todo (os preocupados, conscientes e privilegiados, pelo menos) ficaríamos isolados em casa durante meses a fio numa quarentena que engoliria o globo graças a uma pandemia viral que arruinaria parte dele (vidas, famílias, negócios, a nesga final de sanidade e dignidade que restava à nação...) e que, como efeito colateral muito mais insignificante, até fútil, mas profundamente sentido por mim, eu cairia numa estagnação apática e teria dificuldade extrema de redigir um parágrafo sequer de qualquer coisa pela falta brutal de rotina e pararia em casa até demais, claustrofobicamente demais, eu... Bom, eu ficaria em choque, como todo mundo, porque não sou especial.

Todo mundo que escreve escreveu seu texto de quarentena (me sinto extremamente imbecil resumindo as coisas assim, como se essa catástrofe não passasse de uma pauta pra blog que só uma dezena de pessoas lê, mas não consigo colocar a coisa de outra forma agora, desculpe), e eu me sentiria uma traidora de minhas próprias memórias se não deixasse nada disso tudo registrado em algum lugar. Pode ser também só uma desculpa indulgente pra eu me permitir pensar que o peso morto que fui durante boa parte do ano acabou me rendendo, afinal, pelo menos um texto.

Se 2019 foi a perda da minha mãe, 2020 foi pandemia, quarentena e a perda de muitos que não são meus, mas são de alguém. Foram de alguém.

Mais particularmente, 2020 também foi pra mim um lembrete diário de como fico completamente disfuncional sem rotina e exigências diárias que me coloquem nos trilhos dia após dia. Se teve quem surtou e subiu pelas paredes quando os planos saíram do controle, eu sou do grupo dos que caíram num poço de apatia e ficaram atirados encarando o teto por quatro horas - metaforicamente mas nem tanto.

Tenho a forte impressão de que esse rompante de inspiração motivacional que supostamente acometeu algumas pessoas nesse período e as levou a ler trocentos livros acumulados, fazer exercícios, executar vários projetos, se inscrever em cinco cursos ead diferentes e aprender a tocar harpa não passa de lenda urbana, mas talvez só me pareça absurdo porque não foi minha realidade. Eu vi várias séries e filmes, mas que atividade é mais passiva do que essa? Desde que comecei a manter um registro de minhas leituras, nunca li tão pouco quanto em 2020, já que a tarefa me exigiria uma mínima disposição mental que eu não estava disposta a dar, mesmo passando 24 horas por dia em casa. Num contraponto, em 2018, quando eu passava nove horas por dia no trabalho, dormia cinco horas por noite e chegava em casa para me atirar num episódio da série da vez até apagar, houve meses em que li seis, sete, oito livros. 

A força da rotina, sabe. Não sei existir de verdade sem ela, sem o incômodo do despertador que me levante às sete e vinte pra encarar o dia e a pressão dos ponteiros que ditem meus prazos e metas. 2020 abstraiu o tempo de tal forma que pensar nele deixou de fazer sentido - e eu penso muito no tempo, é um dos meus assuntos, é a única ''moeda'' que realmente me interessa. Ser lembrada (porque essa não é a primeira vez em que percebo isso, naturalmente) da facilidade que tenho em me acomodar é uma derrota. Detesto ser inativa, procrastinadora, infinitamente mais inclinada a encarar o teto atirada por quatro horas do que fazer mil coisas pra me distrair no micro quando o macro desanda. Quando os quatro principais temperamento humanos são assunto, sempre fico com melancólico e fleumático, mas não deveria ser uma maldição, rs.

Mas apesar de detestar e cultivar com muito sucesso uma culpa diária por não estar fazendo nada direito, eu também tive bastante facilidade em resvalar pra ilusão de que estava numa espécie de fratura no meio da trajetória linear do tempo e que durante essa falha ele congelou me deixando encapsulada esperando que algo ou alguém costurasse o que se rasgou pra que as coisas continuassem de onde pararam e os ponteiros do relógio voltassem a girar. Até lá, talvez eu pudesse me estender a indulgência de fazer umas coisinhas bestas por estar numa espécie de realidadezinha paralela, uma pausa onde atividades e experiências antes impensáveis por causa das exaustivas ocupações cotidianas se tornavam viáveis dado o excesso de '''''tempo parado'''''. Muito disso só foi possível, claro, porque toquei algumas responsabilidades pro alto em alguns momentos e não me orgulho, mas estaria sendo desonesta se não dissesse que, no fim, aproveitei parte do processo, mesmo com um pouquinho de culpa.

Pois foi então que nesse interlúdio (eu amo essa palavra, sempre quis usar ela num texto) etéreo eu participei de horas e horas infindáveis em chamada com amigos no discord enquanto a gente xingava o Bolsonaro ou assistia a chorumes do YouTube (conheci os melhores amigos do meu melhor amigo assim, e agora eles meio que são meus amigos também); fiz watch parties vendo filmes enquanto berrava através do meu fone com mais cinco outras pessoas que eu nunca tinha visto ou que não via há meses e estavam a quilômetros de distância; joguei RPG pela primeira vez na vida (cada vez mais me tornando o clichê que nasci pra ser) porque os rolês de sábado viraram isso, arranjar desculpas pra ter a companhia de outras pessoas numa telinha do meu pc sem sair da cama; joguei jogos online em voice call o suficiente pra viciar a bateria do meu computador e entrei em grupos de whats que foram criados pra gente dizer quando ia logar e fugir da realidade e viraram fonte de risadas diárias e lugar de conforto com rostos amigos; fui a primeira convidada do piloto de um podcast (!!!) que meus amigos criaram porque são inventivos, têm energia e não aguentavam mais estar sem fazer nada... Fiz essas e mais um monte de outras coisas que não teriam acontecido se a rotina não tivesse parado bruscamente do jeito que a pandemia impôs.

Também pude ver como algumas amizades que eu sempre tive um receio silencioso e melancólico de que se esvaíssem sem a força da rotina que nos impelia a nos vermos toda semana se mantiveram muito bem com a distância sem data pra ter fim que se interpôs entre nós. Comentando um storie, enviando um meme, rindo num áudio idiota ou passando toda a véspera de Natal pandêmico em chamada até amanhecer, o companheirismo esteve lá. Se informações catastróficas de '''''desastres naturais''''' e gente desgraçada nos fuzilavam o dia inteiro, esse era o lugarzinho seguro ao qual eu podia ir mentalmente toda noite ao deitar a cabeça no travesseiro pra tentar dormir se não com um sorriso, pelo menos com o mínimo de paz.  

No entanto, não seria interlúdio se não tivesse um fim e o tempo não parou de verdade, eu continuo envelhecendo minuto a minuto, oportunidades passam e as desgraças continuam acontecendo, o noticiário me lembra. Quando o vírus for vencido (isso é otimista demais?) e a quarentena acabar, as coisas obviamente não vão estar onde pararam no início disso tudo, a água correu embaixo da ponte, o que vivi não foi uma pausa, e continuar indefinidamente com essa mentalidade seria tão tolo (pelo menos pra mim, pra minha vida e meus planos; sei que tem gente que precisa se permitir parar pra respirar de verdade, mas não é disso que falo) quanto a ideia de que quando o ano virasse e fosse dia primeiro de janeiro de 2021 o vírus magicamente desapareceria do ar. 2020 ainda vai ser computado no tempo, mesmo que eu sinta que me deixei cair num buraco negro.

No início do ano passado, antes de fazer minha Primeira Grande Viagem (uma hora falo dessa minha voltinha no paraíso que é a Bahia, agora tão infinitamente distante, aqui), eu me inscrevi num cursinho pré-vestibular bem conceituado e caro da cidade, algo que meus pais nunca, nem em um milhão de anos, conseguiriam bancar durante minha ''época de vestibular'' (kkkkrying) sem afundar as finanças da família, mas agora sou assalariada, amém. Irônico foi que escolhi sem saber justamente o ano da pandemia pra organizar meu orçamento e ter finalmente coragem de embarcar nessa depois de tanto bater a cabeça na parede, e optei pelo presencial, bem mais caro (inaceitável e inacreditavelmente caro, se querem saber, mas como todo mundo aqui eu sou refém do capitalismo) porque sei que não funciono ead; preciso do desconforto da classe, do olho no olho e do já neandertal pó de giz. Estava com aquele friozinho que mistura temor com empolgação na barriga, esperançosa, contente com a oportunidade de pisar em sala de aula de novo, dessa vez como aluna (trabalho numa escola municipal, pisavao em sala todo dia mas com outros pés), no meu cursinho presencial pago com suor... E então todos os cursos do mundo viraram ead e meus planos nesse sentido derraparam feio. 

No início da pandemia, muita gente do meu nicho na internet ironizava o fato de que faziam quarentena antes de se moda, porque não são pessoas festeiras, se sentem alienígenas em baladas, não saem pra dar rolê todo finde e conseguem ficar em casa com um livrinho, um café e a própria companhia por meses ininterruptos sem grandes tormentos, e eu faço parte desse grupo. Houve uns bons cinco meses aí em que fiquei quase imperturbável com o impedimento de colocar a cara na rua, essa ideia de pausa da sociedade (ah, a ilusão) tinha sua sedução e quando avaliada unilateralmente, era bem-vinda para mim a perspectiva de poder desligar o medo de estar perdendo algo nessa era de bombardeamento de informações em que sempre tem um zilhão de coisas acontecendo e é fácil se sentir excluído de todas visualizando dezenas de stories por dia, já que na pandemia ninguém com o mínimo de autopreservação e respeito à vida humana, ninguém que me importava estava fazendo nada divertido. Ou seja, durante a maior parte desse percurso até aqui, não sair pra dar rolê na rua não foi uma grande perda pessoal e quem leva esse prêmio foi meu plano de estudos que não foi nada como eu queria e em algum momento aí no meio desandou. Eu sei que tem um monte de gente querendo bater com a cabeça na parede por causa do ead e muitas outras mais marginalizadas sem o menor acesso a ele, minha frustração não é especial, eu até tive sorte, mas fiz esse blog pra poder choramingar sobre meus dramas de vez em quando mesmo, e esse foi o drama pessoal de 2020.

Sei que não sou a única, e também sei que, do jeito que estivemos (alô, Brasil) em 2020, apesar da minha imensa frustração, eu fui das mais sortudas. Porque pelo menos tive a opção da aula ead, porque pude ficar longe do trabalho em isolamento em casa com o salário caindo na conta sem medo de ficar sem um prato de arroz e porque não tive nenhuma grande perda nesse ano, não fui enterrar nenhum dos mais de duzentos e vinte mil mortos até agora. Sinto por eles e suas famílias e chorei vendo os vídeos de Manaus porque, quem está aqui há um tempinho sabe, conheci essa dor em 2019. Durante 2020, pandemia e quarentena inteiros um pensamento que sempre me acompanhou foi o de certo alívio porque minha mãe que eu perdi há pouco pôde viver seu último ano sem a menor e mais remota sombra de nenhuma das incontáveis preocupações e medos que embalaram o mundo esse ano, poucos meses depois de ela partir, e que seriam infinitamente potencializados no microcosmo da nossa casa, já que ela estaria com a saúde extremamente debilitada por causa do câncer e das químios que a exauriam. Pensei muito como seria aterrorizante pra todo nós vivermos com o medo de chegar perto dela, tocar, abraçar; como seria triste se ela fosse privada de sair, ver as coisas, sentir o vento, olhar as árvores em seus últimos dias nessa terra. Em seu último ano aqui, ela pôde amar, abraçar e beijar, pôde ser amada, abraçada e beijada por todos que a amavam, como deve ser, e sou grata por isso.

(Falando nisso, falando nela e porque fico animadinha e boba demais quando faço coisas de gente grande, 2020 também foi o ano em que fiz minha primeira tatuagem, em homenagem a ela junto com meus irmãos. <3)

Meu natal pandêmico foi risível, beirando o hilário, mas me rendeu um ''antes e depois'' fajuto que serve pra ilustrar toda a quebra de expectativas que esse ano representou pra mim. Eu comecei em êxtase com minhas viagens a Gramado e depois à terra da alegria, andava pelas ruas baianas como uma sortuda que teve a chance de realizar um grande sonho e me permiti viver tudo ao máximo naqueles cinco dias lúdicos, de alegria quase mística, porque sabia que voltaria para casa e para um ano cheio de desafios e promessas. Terminei esse ano com mais de metade das promessas quebradas, desviando o olhar de boa parte desses desafios porque sério que tenho que buscar evolução pessoal no meio disso tudo, não dá pra ser depois de dar banho no meu pacote de wafer que chegou do mercado? e sozinha no Natal depois de fugir de uma ceia de família que não senti que seria segura, comendo minha ceia improvisada na cama: um Cup Noodles, um pacote de amendoim e duas 51Ice. Um anticlímax e tanto, se você quer saber. Isolada no meu quarto na noite de 24 de dezembro, me atingiu a ironia daquele momento, e ri pensando como um ano em que comecei chegando mais perto do céu do que jamais estive acabava comigo sentada na cama sozinha fugindo da morte invisível num dia de festa, assistindo a um vídeo no YouTube e cuidando pra não deixar miojo escorrer no meu pijama. Pelo menos rolou chamada com amigos depois até o sol raiar e amendoim japonês é meu favorito, sou viciada.

No fim de 2020 eu voltei a ler depois de meses e uma quarentena ''inteira'' sem virar uma página dos meus livrinhos, e quem é leitor ativo sabe que nossa rotina de leitura reflete nossos ânimos e muitas vezes serve como parâmetro na hora de avaliar nossos dias bons e ruins. Como já disse, nunca li tão pouco quanto em 2020 em toda a última década e isso me diz algumas coisas. E se o trocar do calendário não resolve nada num passe de mágica, não erradica a Covid-19, não garante um impeachment e nem me dá a aprovação no vestibular de uma hora pra outra, O Último Mês, A Última Semana, O Último Dia do ano carregam em si a força fatalista de nos mostrar com mais nitidez do que tínhamos mês passado, semana anterior e ontem que o tempo passa, as coisas acabam, você está envelhecendo e morrendo dia após dia como todo mundo e não tem todo o tempo do mundo, Carolina, e esse acordar pra consciência da finitude de tudo serve como força motriz na hora de transformar a virada de ano nesse símbolo de mudança que vai além dos dias no calendário e faz a gente dar GRAÇAS A DEUS porque 2020 acabou enquanto acordamos no mesmíssimo mundo no dia primeiro de janeiro de 2021, mas prontos pra fazer diferente de alguma forma. A Virada sempre me deprimiu, mas reconheço que não é por acaso o uso da palavra réveillon (reanimar, despertar, em francês) pra esse momento. Espero continuar saindo do torpor do qual comecei a me livrar quando decidi que voltaria a ler como sempre, escrever aqui (senti saudade) e fazer as minhas coisas de novo, porque já fiquei no interlúdio tempo suficiente. Espero mais um monte de outras coisas também, um bom ano pra mim e pra você.

Se todas ou a maioria das outras resoluções para 2020 deram errado, pelo menos meu cacto sobreviveu; tá surrado, sofrido e respirando com ajuda de aparelhos, mas sobreviveu. Somos dois aqui.

Feliz 2021.

2 comentários:

  1. VOCÊ VOLTOU, UHUUU!!! \o/\o/o/

    Sim, 2020 foi foda pra todo mundo. E acho que já tá de bom tamanho a gente ter chegado em 2021 inteiro (ou em partes, mas ter chegado), mesmo não tendo feito tantas coisas.

    Sou muito dependente de rotina para "render" bem. Acho que não senti taaanto o peso de 2020 porque a minha rotina não foi muito alterada.

    Aaaahhh, uma coisa que a pandemia não me trouxe foi fazer parte de grupinhos na internet. Me sentindo A excluída agora ashuashuashu Queria ter participado de pelo menos um clubinho de leitura...

    O que você falou sobre a tua mãe me lembrou uma passagem do livro Os Sonhadores, da Karen Thompson Walker: "É assim que a doença se alastra melhor: percorrendo os mesmos canais que o carinho, a amizade e o amor." Você tem que postar foto da tatuagem <3 Não pode jogar essas informações assim e sair correndo kkkk

    Enfim, espero que a vontade de blogar tenha voltado com a vontade de ler, porque morri de saudade de ler posts novos no teu blog, mesmo a gente conversando por e-mail!

    Enfim, feliz 2021 para nós!

    Vanessa
    tristezinhascotidianas.blogspot.com

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    1. EU TAVA COM SAUDADE TAMBÉM, DE TUDO ISSO, de escrever aqui e comentar nos bloguinhos que eu acompanhei em silêncio esse ano todo porque sentia que se comentasse ia dar sinais de que tava viva e minha falta com o blog ia ser ainda mais perceptível (?????) kkkkkkkk. <33

      Pior que esses grupinhos marcaram em PESO minha quarentena hahaha, eu também brinco de ser A Excluída sempre, mas dessa vez tive sorte. XD

      Own, achei tão tocante esse trecho, muito real. Não li esse livro mas vi muito a capa dele nas internets em 2020.
      Vou te enviar uma fotinho da minha tattoo enquanto não posto aqui, mas é muito muito simplesinha hahahah.

      Meu coração fica quentinho de saber que tu gosta de me ler assim, e a apreciação é recíproca, tu sabeee. Mais um ano em que nossos emails me dão motivos a mais pra sorrir, mais um ano de nós, amo a gente! <3

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Eu provavelmente vou amar qualquer coisa que você comentar, das obras-primas às porcarias, e sempre s e m p r e respondo, então volte aqui pra ler. Obrigada, mesmo. :)