02/04/2021

Noventa e nove por cento

Acordei para um dia perfeito. Eu tinha marcado há semanas com uma amiga que nos encontraríamos na Feira do Livro de POA seguindo a tradição que quero emplacar e que agora completaria joviais dois anos de vida. Lembro que estávamos com medo da chuva que vinha ameaçando aparecer e tínhamos olhado dúzias de vezes a previsão do tempo naquela semana, contando os dias apreensivas, mas o sol e o frescor que tinham nascido com aquele 15 de novembro eram absurdamente convidativos e carregavam consigo o chamado inconfundível dos dias perfeitos.
Levantei da cama animada com os mil planos e passeios e livros e lanches e ideias pipocando na minha cabeça. Vesti a roupa que preparei só pra isso (ultimamente tenho sido uma pessoa que faz isso, estranhíssimo), uma blusa de botões do Mario (não sei falar esse nome sem pensar na piada infame, me perdoa) ridiculamente colorida, e calcei a alpargata de Hobbit que comprei na praia nas últimas férias por um preço ridículo (pensei que ela dissolveria depois do primeiro uso, feita de papier maché), num impulso de adquirir algo que eu nunca compraria em circunstâncias normais, porque aquele brilho não é pra mim. Tenho predileção por cores sóbrias mas queria que aquele dia fosse especial, mais um ao qual quis emprestar forçosamente ''ares de renovo'', e no figurino eu certamente atingi a meta.
Estava a perfeita representação da expressão ''feliz e saltitante'', como não lembrava mais qual tinha sido a última vez.
Ajeitei a bolsa, a blusa, o calçado, a cara, o cabelo e então lembrei que com um dia de sol daqueles seria insensatez sair de casa sem nada pra segurar as madeixas se o desespero batesse, e então minha mente distraída me levou pra ideia rotineira e natural, ''vou pegar a piranha da mãe'', já que tu deixa sempre uma piranha presa na cabeceira da cama, mãe, quando solta os cabelos antes de deitar pra dormir.

Deixava, soltava, deitava, dormia. Esses verbos no passado são cruéis, sabe.

Nos dias perfeitos eu esqueço que você se foi, porque a tua partida não combina com eles e os parte ao meio, os dois não coexistem. Então minha mente escolhe um desses cenários e bloqueia o outro, e assim acordei num dia que, por ser perfeito, exigia, naturalmente, que você ainda estivesse aqui - pois claro, pois óbvio, pois é assim que as coisas têm que ser e sempre foram, ora.
E se você ainda estava aqui certamente teria deixado uma piranha presa na cabeceira da cama que está quebrada até hoje desde que nós, os teus quatro filhos, pulamos aquela vez, há uma vida atrás - tenho saudade.
Então eu fui procurar a piranha, e estranhamente (ou não, eu não sei) ela estava mesmo lá, exatamente onde tu deixava. Uma piranha transparente que muda de cor quando exposta ao sol. Mágica, tua.
Parei e olhei para aquele objeto tão simplório que agora continha em si um significado tão grande e fiquei inerte percebendo e assimilando dolorosamente, como quem sente um veneno caminhando lentamente pelas veias, que meu dia não era mais perfeito, não podia ser. Estendi a mão e desenganchei a piranha da cama, e nesse meu movimento, com os braços esticados, o tempo parou e por alguns segundos fiquei total e completamente ciente da brutalidade do momento. O dia perfeito desmoronou ao meu redor como um castelo de cartas ao vento, e eu vi direitinho cada pedaço dele caindo em câmera lenta, me deixando ali, olhando pra essa metáfora pronta estilhaçada aos meus pés.

É engraçado como é nos momentos mais bonitos que penso em ti, porque não achei que seria assim e sempre me surpreendo. Quando olho para uma paisagem nova, uma arquitetura bonita no centro histórico, quando sinto os raios de sol sobre minha pele e o vento entre meus cabelos. Achei que eu pensaria mais em ti quando estivesse no fundo do poço deitada na cama e com o nariz escorrendo de tanto chorar com o mais recente fracasso que entrou na coleção, fosse ele qual fosse, porque seria quando eu mais sentiria tua falta e precisaria do teu colo, mas não; tua lembrança me assalta nos momentos e dias perfeitos, a beleza da vida é o que te atrai à minha mente. É assim mesmo que deve ser.
Repentino, sem aviso, teu rosto surge pra mim, se sobrepondo ao céu, ao mar, às árvores e a todas as coisas lindas que cruzam meu caminho e me fazem parar pra suspirar, fechar os olhos e tentar absorver com todos os sentidos aquela paisagem, o momento, as pessoas e os sentimentos, imaginando como seria se tu ainda estivesse aqui, querendo de volta o que eu perdi, o que antes era tudo e agora pode ser no máximo quase, porque não dá pra ser completo se tu não estiver aqui, mãe.
Gosto das tuas visitas, apesar de elas ainda trazerem muita dor, apesar de ser impossível escrever isso sem ficar com os olhos marejados olhando pro teclado e apesar de não poder mais ir a lugar nenhum sem um amontoado de lenços escondidos no bolso porque nunca sei quando a memória de quem tu foi vai me fazer parar pra enxugar as lágrimas.
E como, apesar de tudo, quero que os apesares continuem, uma vez que eles representam tua lembrança, saí daquele momento estático e brutal e juntei todos os pedaços do dia quase perfeito que tinha se estilhaçado e os remendei de um jeito bobo, confuso e falho, mas sincero, pra tentar continuar como consigo, desse jeito que eu sei que nunca mais vai ser 100% (99 talvez, mas nunca, nunca 100), nunca mais vai ser perfeito.

Então, no meu dia agora feito de um punhado de quases remendados, pensei em ti no meio de tantas pessoas e livros, pensei em como seria te dar um livro infantil quando passei pela seção, pensei em ti olhando os quadros no MARGS, as esculturas do museu, pensei em ti subindo as escadas comigo, passeando no shopping, comendo hambúrguer, comprando um lindo colar de plantas em resina, carregando as sacolas cheias e pesadas como fazíamos na lomba do mercado e pensei em ti olhando pela janela do ônibus ao voltar pra casa, claro.
E, ainda pensando em ti, dormi imaginando como seria se o quase pudesse ser tudo de novo.

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