07/11/2019

Só queria que você visse a minha touca nova.

Sabe quando você está apaixonado por alguém e faz tudo pensando nessa pessoa? Você compra uma roupa pensando em como essa pessoa vai te ver com ela; lê um livro pensando em como pode falar dele pra ela; ouve uma música pensando se ela gostaria dos mesmos acordes e o que sentiria com a melodia; senta na janela do ônibus pensando em como seria poder conversar com essa pessoa ali vendo a paisagem passar e o sol bater em vocês. Você faz as coisas mais mundanas querendo que essa pessoa estivesse te vendo, te assistindo, contigo, porque se ela te vê ela te nota, e se ela te nota talvez ela perceba que você é especial. Sabe?
Agora Essa Pessoa é minha mãe pra mim. Tudo que eu faço é pra ela.

Minha mãe morreu. Foram quase dois anos lutando contra um câncer agressivo demais, mal demais, cruel demais, ridículo demais e que me deixa com a certeza de que as coisas só são uma droga mesmo, é isto (ela, como todos os bons, detestaria que eu pensasse assim; mas ela também sempre era a única a me compreender todas as vezes).
Não é justo que ela morra. Não ela. Não porque era minha mãe, mas porque era ela, sabe? Ela, daquele jeitinho que não poderia acabar, não num mundo com tão pouca gente assim e nem em qualquer outro lugar.
Ela morreu, e desde então tem sido a pessoa pra quem eu faço tudo e que eu gostaria que estivesse do meu lado vendo cada coisinha, o café que eu fiz, a nova fofoca do trabalho, a touca que eu comprei.

Eu tinha um vestido favorito que era meu favorito porque era o vestido que eu idealizava vestir no meu primeiro encontro com o menino que eu gosto (gostava?). Ele caía bem em mim (o que é difícil, porque não sou tradicionalmente “curvada”), era de corte simples, como eu gosto, e preto, justinho e meio rodado ao mesmo tempo. A existência desse vestido servia ao propósito único de ser o vestido no qual eu queria que ele, esse menino, essa paixão, me visse. Era um pedaço de pano qualquer que não teria valor algum pra mim se olhado de uma perspectiva em que esse menino não existisse. Porque o vestido era pra ele, porque eu me arrumaria pra ele, porque era ele que eu queria que me visse naquele vestido, e não qualquer outro, ele e ninguém mais, o resto não importava e faria o vestido perder sua razão de ser.
Agora tudo que eu faço é como esse vestido, só que para a minha mãe, e assim como nunca tive esse primeiro encontro e minha irmã pulverizou a peça antes que eu pudesse vesti-la, minha mãe não está mais aqui pra ver nada disso. Tudo perde sua razão de ser, quando só é pra ela, que agora partiu.
Por que eu usaria o vestido se aquele menino nem fala mais comigo? Por que querer ser qualquer coisa mais se a mãe não vai estar aqui pra ver e se orgulhar das minhas conquistas e de quem me tornei?

Eu fui ao centro para uma consulta esses dias (escrevi isso em julho, quando o mundo tinha acabado de virar essa porcaria irremediável) e depois de sair da clínica e parar no ponto de ônibus eu pensei que talvez fosse bom ficar um pouco mais por lá antes de vir pra casa. Ver algumas pessoas, caminhar, sentir a brisa, me distrair (já venho fracassando nisso há quase quatro meses, agora). Acabei comprando uma touca, daquelas que vêm com um pompom no topo e te fazem parecer um Zé Gotinha com problemas degenerativos. Nunca usei essas toucas porque sempre que colocava uma e me olhava no espelho, pensava “você parece um Zé Gotinha com problemas degenerativos, Carolina”, mas na semana depois da morte da sua mãe você não está exatamente ligando pra estética, então fiquei 30 reais mais pobre.
Coloquei a touca numa sacola dentro da bolsa e fui a uma loja onde eu tinha visto um blusão de menino. Eu amo blusões de menino, daquele tipo enorme e pesado (sempre visualizo eles listrados, especificamente com as listras vermelhas e pretas do blusão do Freddy Krueger ???) que você só joga por cima de tudo e tá pronta pra vida.
Quando entrei no provador, vesti o blusão (o meu, já adquirido, é com listras pretas e cinzas, que eu prefiro, porque o neutro/básico me ganha primeiro), coloquei a touca e me olhei no espelho aquela saudade me assaltou e aqueles pensamentos de pessoa apaixonada vieram de novo, quando eu percebi que eu tinha amado aquele blusão e aquela touca, mas não fazia mais sentido comprá-los e ir pra casa com eles se eu não podia mais mostrá-los pra ela, a pessoa por quem sou apaixonada, a minha mãe, essa que eu queria que estivesse me assistindo.

Eu acordo e penso que queria que ela visse esse café que montei em cima do nosso fogão a lenha. Saio pra caminhar e penso que é pra ela que eu deveria poder voltar e dizer que o sol está lindo. Faço carinho no gato Gato e lembro de como ele gostava de sentar em cima das pernas dela na cama e tenho vontade de dizer pra ela que olha, ele tá aqui comigo agora, escolheu a mim, nanananá.

Eu releio esse texto agora, em novembro, meses depois do rascunho original, e choro, porque ela continua ausente.

É tudo pra ela. O amor da minha vida foi tirado de mim e sou abrigada a continuar vivendo aqui pra ele, mas sem ele, porque viver pra mim ou qualquer outra pessoa não faz sentido nenhum.
É como viver fazendo um filme que eu sei que a única pessoa que eu quero que assista nunca vai poder olhar. É como escrever um livro pra alguém que eu sei que nunca o lerá. É como tocar uma música pra alguém que eu sei que nunca a ouvirá. É despropositado, não faz sentido, é ridículo e vazio.

O mundo não faz sentido nenhum agora que eu não posso te mostrar como eu pareço um Zé Gotinha com problemas degenerativos com minha touca nova, mãe.