20/04/2018

Por Skyler

Esse texto contém algumas informações sobre o enredo das cinco temporadas de Breaking Bad, embora não revele o desfecho da série. Considere-se advertido. ;)

Eu fui uma espectadora tardia de Breaking Bad: só assisti à série anos depois de seu ápice, no site pirata (desculpa, sociedade) com a melhor definição que consegui encontrar, quando já não ocorriam mais discussões acaloradas de amor e ódio no twitter após a exibição de cada episódio. 
Por ser uma entusiasta da ideia de que as produções cheguem aos telespectadores tal qual seus diretores e roteiristas idealizaram, ou seja, livres de spoilers e garantindo um contato inicial o mais puro e incólume de qualquer precipitação possível, eu nunca ia atrás de informações sobre o enredo, e evitava ao máximo jogar os nomes dos personagens no google ou em qualquer barra de pesquisa virtual, por saber que havia uma linha bem tênue e acessível entre o enter e os resultados de busca que me exporiam antecipadamente a detalhes de enredo que eu só queria conhecer no tempo certo. Seria fácil demais pegar spoilers de um show muito prestigiado que havia passado anos antes se eu me arriscasse a navegar indiscriminadamente na internet em fóruns de Breaking Bad, e eu não queria spoilers em nenhuma circunstância.
Dessa forma, acompanhando o desenvolvimento da série de maneira independente e completamente livre de estímulos exteriores e perspectivas alheias que me influenciariam a adotar o ponto de vista dos demais telespectadores e do público geral, as opiniões que formei sobre ela e sobre cada personagem (e é aqui que se encontra o cerne desse texto), a afinidade e os sentimentos que desenvolvi com cada um (Walter, Jesse, Skyler, Hank, Walter Jr... Saudades, pessoal </3) foram bastante (inteiramente, eu diria) particulares, pessoais e íntimos. Foram muito meus e só meus - e é muito difícil acompanhar uma série (quando elas comumente duram anos, permitindo um apego emocional bem mais consistente que filmes, por exemplo) na atualidade sem se deixar envolver pela mobilização conjunta que ocorre entre os fãs que militam contra ou a favor de cada personagem ou circunstância sem cessar na internet. 
A internet forma times e rivais, e foi por não me conectar a ela no que dizia respeito à série, nem antes nem durante minha maratona (que deve ter durado uns dois meses), que eu passei pelas cinco temporadas ignorando de todo o maior rage suscitado por Breaking Bad - e também a mais escrachada demonstração de ódio e misoginia, externalizada pelo público médio da série.
Em Breaking Bad temos como protagonista Walter White, um professor de química frustrado, com uma genialidade que foi abafada pela rotina engessante do sistema de ensino em que atua, que se descobre com um câncer de pulmão em estágio avançado. Aflito por encarar pela primeira vez a perspectiva de morte iminente (ou quase) sabendo que morreria sem deixar uma condição estável de sustento para sua família (a esposa grávida, Skyler, e o filho com paralisia cerebral, Walter Jr.), ele descobre e explora a oportunidade de se envolver no tráfico de drogas, produzindo metanfetamina (com uma fórmula magistral como nenhuma outra, que deixa a droga azul e lhe garante ainda mais notoriedade) com a ajuda de um ex-aluno delinquente, Jesse Pinkman, com o objetivo de angariar o dinheiro "fácil" oriundo desse mercado criminoso, para garantir a provisão de sua prole, após sua morte.
Walter White é um anti-herói típico e um dos mais bem-sucedidos personagens a se enquadrar nessa categoria. Sua moral é errática e duvidosa, suas atitudes são questionáveis e sua virtude, ratificada por anos como o pobre professor politicamente correto que tem uma vida pacata e desinteressante, dá uma guinada na primeira temporada e se encaminha a uma ladeira íngreme de marginalização do personagem, numa descida dramática que acompanhamos do início ao fim, num atordoamento frenético que nos deixa sem saber o que pensar, só sentir.
O que quero enfatizar aqui é: Walter White não foi feito para ser amado. Ele não é o personagem queridinho, gentil e bonzinho idealizado para cair nas graças do público.
Walter, de um jeito que até pode chocar o telespectador mais atento quando se percebe o caminho que o show está tomando, acaba se tornando O Grande Vilão da História. Ele ''breakingbadeia'' geral, e era pra ser assim desde o princípio.
Num post declaradamente fanático entusiasta sobre Breaking Bad (é minha série favorita de todos os tempos e além, me deem uma folga) que publiquei aqui em outubro do ano passado, onde também esbocei pela primeira vez a intenção de escrever esse texto aqui, deixo o link de uma entrevista com parte do elenco e Vince Gilligan ESSE GÊNIO, criador da série, em que ele fala de como the whole point (em português não pareceu tão preciso) da série era ilustrar a decadência moral de um indivíduo, e de como uma de suas principais preocupações era conseguir manter o público cativado pelo show mesmo quando o protagonista se revelasse a pessoa horrível que ele estava fadado a ser desde o princípio.
Ou seja: Braking Bad foi pensada de maneira a encarar o momento em que o público se viraria contra >Walter White< e depositaria na procedência dúbia dele todo o seu descontentamento - mas se mantivesse assistindo à série do início ao fim, de preferência, claro; porque apesar dos apesares, a série é boa (e não sou só eu que tô falando: Breaking Bad é a série, de toda a história das séries universais, com a melhor avaliação de público E crítica que já existiu).
Mas ao contrário do que o criador da série tinha pressuposto, Walter não foi o personagem que acabou despertando a maior onda de antagonismo dos telespectadores. Não mesmo.
Eu me considero uma pessoa bastante empática. Mesmo. Geralmente, não tenho dificuldade em entender as pessoas e considerar toda a soma de fatores que as leva a fazerem as coisas que fazem, por mais atrozes que algumas sejam, infelizmente. Então, assistindo a uma série, filme, reportagem etc, acompanhada de alguém, eu percebo que não julgo os outros com a facilidade - e com o impulso irrefreável - que percebo naqueles que me cercam. Ou julgo menos que a maioria, pelo menos.
Eu me coloco no lugar de terceiros com certa facilidade, então é sempre mais natural para mim entender as pessoas e suas atitudes.
Por isso, sempre me foi muito compreensível o despirocamento louco em que a Skyler, esposa do Walter, se afunda depois de descobrir a vida criminosa - e perigosa, para ele, para ela e para os filhos - que o marido vinha levando desde o seu diagnóstico.
Skyler descobre que Walter é um dos maiores drug dealers da região e o principal alvo que o cunhado dela, da polícia antidrogas, busca desmascarar - o misterioso traficante Heisenberg -, graças a toda a notoriedade que o ex-professor de química adquire no mercado. Ela descobre que o dinheiro com que ele vinha bancando o tratamento vinha do tráfico e não dos ex-colegas cientistas que haviam oferecido o valor necessário para custeá-lo, numa solidariedade culposa. Descobre que ele está trabalhando em parceria com um ex-aluno drogado há tempos, com quem começou a produzir a droga escondido num trailer no meio do deserto às margens da cidade, quando ela achava que ele estava fazendo hora extra no trabalho. Descobre que ele é subordinado do principal bambambã do tráfico na região e que se tornou um membro expoente do mercado de entorpecentes, sem o qual toda a indústria da região e além descarrilaria. Descobre que, pelo dinheiro - que ele diz importar por causa da família, num discurso que só é quebrado no último episódio -, ele se sujeitou às consequências e perigos de um submundo marginal e imprevisível que poderia exigir a cabeça dele fincada numa estaca e destruir sua vida por completo a qualquer momento - e, conscientemente (porque ele não era nenhuma criança e sabia onde estava se metendo), subjugou a própria família - a esposa grávida, a criança a caminho, o filho adolescente - a essa série de perigos imensuráveis também.
Skyler descobre que está casada com um desconhecido, que há muito tempo não é mais o homem, a pessoa, o pai, o esposo com quem ela decidiu viver.
Pense só nisso, tente se visualizar na situação: você tá casada com um cara que tem levado uma vida dura, mas digna, como a sua, e com quem tem dividido seu cotidiano, seu íntimo, suas responsabilidades e sentimentos há anos. Vocês têm um filho adolescente juntos, com paralisia cerebral e uma série de delicadezas que exigem cuidado e atenção. Você está grávida, é uma menina, e trabalha sem parar para poder oferecer uma condição saudável e estável de vida para seus filhos, oferecer segurança, como tem certeza que seu marido também está fazendo, cada um em seu respectivo emprego. Você dá duro o dia todo e ainda tem que lidar com uma irmã cleptomaníaca (Marie, meu anjo, VOCÊ ME DAVA NOS NERVOS EM TODO EPISÓDIO ^^) e o cunhado da narcóticos, que já se expõe ao perigo o suficiente pela família inteira. Então você descobre que seu marido tem um câncer gravíssimo no pulmão e que vinha escondendo isso há algum tempo. Você se desestrutura, como vou cuidar dele e das crianças, como vamos sobreviver, o que vamos fazer, e os filhos, a casa, as bocas pra comer? Mas ok, depois de uma intervenção (uma das cenas mais incríveis e primorosas de toda a série, na minha opinião, em que o elenco dá um SHOW de atuação) o marido aceita ao menos tentar o tratamento, antigos amigos se dispõem a custeá-lo, os resultados começam a ser positivos, as coisas parecem estar se encaminhando à normalidade, embora a luta seja constante e dura. Apesar de tudo, você tem filhos amados e um marido fiel e dedicado que os ama tanto quanto você... Mas então, do nada, simplesmente descobre que ele vem escondendo uma segunda vida, que há meses não passa um dia sequer sem mentir pra você sobre tudo, onde esteve, o que fez, com quem andou, de onde tirou o dinheiro. Ele agora é o principal mantenedor do mercado de metanfetamina da sua cidade, do estado, do país. Lida com gente da pesada todos os dias, gente que pode decidir matá-lo (junto com a família, seus filhos, junto com você) a qualquer momento. Ele agora é um traficante, isso mesmo que você ouviu. Vive no perigo. E esse homem que você amou por tanto tempo, com quem amou seus filhos junto, agora volta para a mesma casa em que seu filho mais velho dorme num quarto, a bebê dorme num berço e para a mesma cama em que você dorme, trazendo consigo a marca e a mira do crime e dos criminosos da região, como se isso não fosse nada, como se não significasse morte e destruição. Pra dentro da sua casa, da casa de seus filhos, de toda a vida que vocês construíram juntos durante anos, com muito trabalho. E ele não pediu sua opinião e nem sequer expôs a situação a você em nenhum momento.
Qual é a sua reação? Qual é a reação de Skyler? Qual deveria ter sido a reação de Skyler?
Ela fica atordoada. Não consegue acreditar no que sua vida se transformou, no que seu casamento se transformou, em quem o homem com quj ela divide seus dias se transformou. Skyler fica atônita e sem saber sequer como formular uma reação à altura de todo o absurdo em que Walter colocou ela e os filhos. O que se segue de imediato é uma Skyler errática e hesitante, que flutua entre emoções e reações de maneira incerta e ambígua, como alguém que percebe tarde demais que perdeu o controle da própria vida e agora só resta se deixar ser arrastado pela correnteza, numa resignação inexorável e intransponível, uma vez que ela não vislumbra quaisquer possibilidades ou recursos concretos para recompor sua vida.
Skyler não entra em desespero ou surta violentamente, jogando as mãos para o alto num ímpeto descontrolado e arrasador, mas fica catatônica e se arrasta débil pela própria existência durante alguns dias, porque simplesmente não consegue conceber uma maneira de remediar todo o drama em que se vê imersa.
Mas essa, naturalmente, não é a única síntese do desenvolvimento da personagem após as revelações sórdidas sobre Walt, porque Sky é muito mais complexa e humana, muito mais real do que isso, e temos, na verdade, várias versões suas depois desse clímax.
Primeiro, quando recém começa a descobrir que o marido está escondendo algo muito errado, mas sem ter total conhecimento de causa, ela se revolta e confronta Walter, sem acatar suas contestações, e o expulsa de casa.
Depois, quando o quadro geral já foi revelado a ela, não há mais nenhum segredo e ela reconhece sua impotência depois de tentar sucessivamente remediar aquela situação, falhando miseravelmente, há a supracitada Skyler completamente despirocada e catatônica que continuamente aparece diante das câmeras com um olhar perdido e movimentos hesitantes, formulando frases desconexas em visível perturbação. Essa é a Skyler que entra dentro de uma piscina no meio de um jantar quando ninguém está olhando e fica submersa, sem respirar e com um olhar vazio, TOTALMENTE DESCARALHADA, até que alguém pule para socorrê-la e fique todo mundo com cara de WTF sem entender nada encarando uma mulher encharcada e alheia ao que está ao seu redor.
Pouco depois temos uma Skyler mais autocentrada e aguerrida, que por vezes adota atitudes condenáveis na tentativa de minar os passos trolhocentas vezes mais condenáveis que Walter dá. Essa é a Skyler que transa com o chefe com quem ela sabe que não tem futuro nenhum, só pra poder (ao menos tentar) se colocar na frente de Walter na corrida das mancadas e desestruturá-lo um pouquinho, jogando a traição (física, posterior à traição emocional de Walter) na cara dele assim que chega em casa.
E mais pra frente, quando ela está começando a se recompor do baque de descobrir que toda a sua vida virou do avesso enquanto ela não estava olhando, temos uma Skyler mais resoluta, firme e resiliente, que começa a lavar o dinheiro ilícito dos negócios de Walter num lava-jato que eles compram como fachada, já decidida a lucrar com a situação, como o marido já vinha fazendo, e posicionando as peças do jogo a seu favor, restituindo a si mesma o direito de decidir ativamente que rumo seguirá, se restabelecendo como dona de si, sem espaço para sentimentalismo, análises morais e remorso (e devo admitir que essa faceta antiética e imperturbável da personagem não me desagradava de todo, especialmente quando o quadro geralmente é pintado de modo a fazer com que a mulher seja ou a coitadinha que sofre impassível nas mãos do parceiro sem qualquer revide, ou a piranha absoluta CLARO; Skyler, ao contrário da primeira alternativa, transgrediu o quadro de vitimizada quando passou a agir ativamente no negócio, mas graças a um público irresponsável e raso, sempre foi enquadrada na segunda categoria, e com louvor).
Essa terceira Skyler é uma mulher que está "segurando as pontas", mostrando sua força e resiliência e deixando claro que não vai se deixar vencer e não vai permitir que o marido e as circunstâncias passem por cima dela tão fácil assim e sem nenhuma luta - aliada a uma resistência sobrehumana.
Mas em todas essas versões, uma coisa permanece inalterada: ela nunca mais é a mesma com relação a Walter POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES. Nunca mais é a esposa amável e gentil que está sempre ao lado do marido pronta pra suportar os golpes da vida junto com ele sem olhar pra trás, unidos pelo amor, pelo respeito e pela apreciação mútua.
Skyler pode até continuar amando Walt, no íntimo (esse ponto é discutível), mas ela não gosta mais dele, e não se preocupa em esconder isso, nem do marido nem do telespectador; muito pelo contrário, por um bom tempo faz tentativas incessantes de cortar todos os vínculos e deteriorar ao máximo todos os vestígios das desgraças com que Walt contaminou a vida dela e dos filhos.
O ponto aqui é: Skyler não é legalzinha com Walter POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES^2. Depois das primeiras semanas, quando nem sabia como reagir, ela não é nada compassiva com o marido, não concorda com nada do que ele está fazendo, não o apoia, não fica ao lado dele, não se submete a ele e às suas decisões. Ela passa a ser bem combativa e o enfrenta diretamente, tentando de todas as maneiras frustrar os planos de Walter, uma vez que eles trariam consequências e riscos óbvios aos filhos e a família que os dois, outrora, construíram juntos.
Ela o expulsa de casa (numa tentativa frustrada) e tenta impedi-lo de ter qualquer acesso a ela e aos filhos. Chama a polícia (para pedir uma ordem de restrição), briga, discute, confronta Walter, grita, os dois têm atritos terríveis que facilmente terminariam em cadeiras sendo atiradas contra paredes e taças e vasos quebrados. Ela passa a ser uma pedra no sapato do (ex?) marido - nunca sendo vista como uma inimiga a ser aniquilada, como tantos outros, por ele, que ainda a ama, mas uma indiscutível fonte de tormentos e transtornos.
Não defendo todas as atitudes de Skyler, claro. Ela também comete erros, pisa na bola e não é uma pessoa muito agradável em vários momentos POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES^3. Mas a questão é que, PELOAMORDEDEUS, toda a reação hostil dela é perfeitamente compreensível - é até natural, é cabível, é o mínimo esperado de uma pessoa, uma mulher, mãe e esposa que se vê numa situação absurda como aquela. Seu querido marido agora é o maior traficante da região e um criminoso procurado pela justiça sobre o qual os jornais falam toda semana, caramba! 
Quer dizer, qual era a reação que ela deveria ter? O que estavam esperando? Que ela batesse palmas pro Walt? Que comemorasse? Que o apoiasse e aprovasse tudo o que ele estava fazendo? Que descobrisse que ele vinha mentindo há meses, que era um CRIMINOSO, que estava colocando sua família em risco durante esse tempo todo e simplesmente o abraçasse, congratulasse, dois beijos na bochecha e é isso aí, amor, tô contigo, adorei, vamos festejar! ?
Quer dizer, WWWWWTTTTTTTTFFFFFFFFFF!!!!1?1????/!??1?1?!????! Qual é o problema dos telespectadores?
Era isso que o público estava esperando e querendo de Skyler? Era isso que eles exigiam para que ela fosse uma personagem gostável? Seriously?!?!

Sim, aparentemente, era.
Como eu disse no início do texto, quem foi projetado pra ser o grande vilão da história foi Walter. Era pra ele se tornar o grande antagonista, a pessoa que todos passariam a questionar e aquele a quem direcionariam olhares reprovadores e hostis. Ele, Walter, por tudo o que tinha feito.
Eu já tinha me abituado a essa ideia, e enquanto via Walt tomar atitudes cruéis e inadmissíveis e enveredar por caminhos de natureza cada vez mais sombria, concomitantemente me enternecida com todo o quase-surto de Skyler e suas reações ambíguas e problemáticas. Eu a entendia porque era capaz de sentir não apenas simpatia, mas empatia (essa coisinha que permite que nos coloquemos no lugar do outro), vendo-a naquele contexto sem que lhe tivesse sido oferecida qualquer chance de consentimento ou o direito mínimo de opinar sobre o rumo que sua própria vida estava tomando.
No meu entendimento, era sim fácil simpatizar com Walter (eu mesma ainda gosto muito dele; desculpa, mãe, desculpa, sociedade), afinal de contas ele era o protagonista e éramos seus companheiros por tabela desde o primeiro episódio, numa série que predominantemente partia do ponto de vista dele. Mas sempre me pareceu absurdamente inconcebível justificar e abonar seus atos (independente de seus pretextos e justificativas - o câncer, a morte, a família pra sustentar, a falta de dinheiro!) conferindo-lhe qualquer dose de integridade legítima.
Mas mais fácil - e anterior a - do que simpatizar com Walt, pra mim, sempre foi compreender a postura e a visão de Skyler diante de tudo aquilo. Compreender suas reações e medidas.
Compreendê-la o suficiente para perceber o quanto era injustificável lhe direcionar insultos que iam de piranha a vadia e puta (cito apenas três de uma coletânea bem mais extensa e inventiva de ofensas), ao meu ver, não era, não deveria ser, apenas fácil, e sim natural, um juízo primordial, básico e imprescindível a qualquer um que se outorga o título de "boa pessoa". A qualquer fã de Breaking Bad que se outorga o título de boa pessoa, devo enfatizar.
Ser capaz de compreender as atitudes combativas de Skyler era premissa básica para a averiguação de qualquer razoabilidade humana que eu pudesse identificar no telespectador. Portanto, no meu julgamento, se você é do tipo que grita "SKYLER-VADIA-PIRANHA-PUTA" na internet e mina as páginas da Anna Gunn (a atriz) com insultos e demonstrações ridículas da sua inconformidade tacanha, um recado: VOCÊ É UM BOSTA. 
Se você é uma pessoa de bom senso, compreenderá Skyler, se compadecerá com a situação dela, sentirá empatia. Pode até não gostar dela, mas a compreenderá o suficiente pra mitigar o impulso, já por si injustificável, de destilar seu ódio gratuito e mesquinho na internet ou em qualquer outro veículo midiático. Ponto.
Eu, Carolina, consegui compreendê-la com facilidade; compreendi-a demais, na verdade, e sofri com ela e por ela - talvez por ser mulher, mas certamente por ser uma pessoa, pura e simplesmente.
Então a minha surpresa quanto topei com um meme misógino que pregava ódio à Skyler White foi grande. Foi mais que grande: eu não consegui entender, fiquei perplexa. Me parecia inconcebivelmente ridícula a alienação necessária para que aquelas pessoas chamassem-na de vadia por não ter batido palmas pro Walt e se sujeitado à vontade dele quando ele disse que querida, oi, tô traficando drogas e colocando a vida da nossa família em risco pra vocês poderem ter um sustento quando eu morrer de câncer. :)
No entanto, foi isso que aconteceu: Skyler, a esposa, recebeu o golpe da repulsa. Skyler, e não Walter, se tornou odiosa aos olhos do público. Skyler virou a piranha, a vadia, a estraga-prazeres-do-macho. Skyler, a que talvez tenha sido a personagem mais prejudicada por Walter, a maior vítima da coisa toda, foi transfigurada como a única vilã digna de retaliação aos olhos dos fãs.
Quando vi aquele primeiro meme no twitter (um quadro com fotos de todos os personagens da série, em que cada um era agraciado com a simpatia do público e recebia agradecimentos por ter feito parte de Breaking Bad; no entanto, havia um xis vermelho sobre o rosto de Skyler, acompanhado de um ''YOU DON'T''; parecia uma brincadeira inofensiva, mas quando ampliei a postagem e acessei os comentários, verifiquei com horror que não, não tinha nada de inofensivo naquilo), quase um ano depois de ter assistido à série, fiquei um tanto atônita de imediato, e minha perplexidade foi se potencializando ao passo que eu lia as respostas efusivas naquela tread gigantesca de ódio à personagem, em que cada comentário, cada tweet novo se retroalimentava numa corrente de fúria infindável.
Eu assisti a série inteira sozinha e por conta, sem me contaminar (essa é a palavra) com as opiniões dos outros telespectadores, então a tradição de odiar Skyler era uma perspectiva totalmente nova - e absurda, ininteligível - para mim.
Meu assombro não foi o único a ecoar pela internet (porque claro que fiz questão de discutir, num inglês horrível, com os caras - eram, sim, a maioria homens - babacas que tavam difundindo aquele discursinho ridículo e misógino na pagina do 9gag), e a própria Anna Gunn, atriz que interpretou Skyler, se pronunciou (com uma eloquência que, naturalmente, supera a desse meu texto aqui à velocidade da luz e que eu parafraseei em alguns momentos, admito) a respeito numa matéria maravilhosa (apesar de triste) pra o New York Times.


''As an actress, I realize that viewers are entitled to have whatever feelings they want about the characters they watch. But as a human being, I’m concerned that so many people react to Skyler with such venom. Could it be that they can’t stand a woman who won’t suffer silently or “stand by her man”? That they despise her because she won’t back down or give up? Or because she is, in fact, Walter’s equal?
[...]
Male characters don’t seem to inspire this kind of public venting and vitriol.''

Além dela, Vince Gilligan, o criador da série, também não emudeceu diante do ódio injustificável destilado, lamentavelmente, pelos fãs do seriado que ele criou, manifestando indignação, defendendo a personagem e reforçando que Skyler foi tudo o que tinha que ser, tudo o que ele, seu criador, queria que ela fosse: uma mulher com nervos de aço que não se desesperaria diante das circunstâncias e encararia tudo com muita garra.
O que fica claro para ambos - e para nós -, como eles sintetizaram em suas declarações, é que o ódio contra Skyler não é um ódio contra uma personagem fictícia numa série, e sim contra as mulheres - todo o gênero em si - que transgridem minimamente o "padrão feminino" que é esperado (e exigido) delas. Um ódio contra nós.
Lembrando que tudo bem se você não simpatizar com a personagem, não há problema algum nisso, podemos continuar sendo amigos. Mas a proporção que tomou a onda de ódio contra Skyler e suas óbvias motivações (o simples fato dela não ter concordado incondicionalmente com Walter, o homem da jogada) extrapolaram uma antipatia natural e cruzaram a barreira do desrespeito e da misoginia escancarada.
Walter White se tornou o criminoso mais procurado do país, seu retrato falado saía no jornal todos os dias e ele foi elevado ao posto de inimigo público número um, tamanha foi a abrangência de sua vilania. Causou estragos, provocou mortes, infringiu leis, destruiu vidas (estamos falando de vício em drogas, amigos), desestruturou e feriu toda a sua família, arrasou lares com sua indústria nociva, alimentou o vício mortal de muitos. Virou a representação suprema do que significa a expressão Breaking Bad.
Apesar disso, apesar desse fucking tudo isso, a ele foram concedidos a tolerância e o perdão, até a redenção - coisa que o público conseguiu lhe estender com uma facilidade surpreendente e questionável, manifestando uma benevolência problemática e repreensível ao personagem masculino.
Skyler, a esposa e mãe, a pessoa imersa em uma situação traumática e crítica que foi catapultada ali pelo marido sem poder objetar, por outro lado... Ela, uma das grandes vítimas de Walt, se não a maior, não teve nenhum olhar benévolo direcionado a si nem lhe foi ofertada nenhuma parcela de toda aquela amabilidade oferecida indiscriminadamente ao personagem masculino.
Como a maravilhosa Anna Gunn apontou, além de Vince Gilligan, o que se verifica é uma franca e mesquinha hostilidade e aversão velada a mulheres que não se apresentam como parceiras compassivas e apáticas ao lado de seus homens. Não importa a dimensão das atrocidades e absurdos que eles, os machos, promovam, não importa quão injustificáveis forem suas ações, as personalidades femininas, o lado B, o negativo da relação, são brutalmente antagonizadas quando apresentam oposição, porque o telespectador médio (reflexo da sociedade) não admite uma mulher que bata de frente com o homem, de igual pra igual, sem baixar as orelhas e aquiescer a tudo numa imputada postura submissa.
Uma parte bem irracional de mim gosta de alimentar a ideia de que um dia Vince Gilligan reunisse o elenco novamente pra reencenar tudo quando a verdade sobre Walt é revelada a Skyler. Só que dessa vez ela agiria de acordo com todas as exigências absurdas dos fãs, segundo as quais ela poderia, enfim, ser uma personagem gostável. Teríamos então uma mulher de pensamentos e atitudes descabidos e nada verossímeis. Assim, através dessa Skyler estapafúrdia, os telespectadores seriam confrontados pela própria imbecilidade (se a cegueira deles permitisse; tenho minhas dúvidas), ao perceberem que uma mulher, esposa e mãe que apoiasse o marido sem medidas na situação ilustrada pelos personagens simplesmente Não. Faria. Sentido.
Em TODOS os artigos sobre Skyler com os quais topo na internet (inclusive durante a pesquisa para escrever esse texto), nunca deixo de me assombrar com os comentários e com a completa incapacidade de entender a pessoa Skyler que os internautas apresentam. É surreal, é uma superficialidade que me deixa embasbacada. 
Skyler não foi odiada porque era uma personagem chata, porque teve uma atuação mal interpretada, porque não acharam a atriz bonita o suficiente, porque isso, porque aquilo. Ela foi odiada porque não se demonstrou uma mulher submissa, inerte, resignada e apática que se sujeita ao marido sem questionamentos, baixando a cabeça e apreendendo os golpes calada, correspondendo a uma ideia deturpada de "dever de esposa", aos moldes da mais ideal sociedade patriarcal com que alguns (vários fãs de Breaking Bad, aparentemente) parecem sonhar.
Skyler foi odiada, simplesmente, porque era uma mulher forte que se oporia aos homens, se necessário. E no patriarcado esse tipo de postura e personalidade não podem ser admitidos - e são, portanto, subliminar ou abertamente coibidos e publicamente rechaçados.
Parece uma visão radical e fatalista, excessivamente sombria, uma maneira exagerada de abordar a questão, já que estamos falando só de uma série. Mas não é não: a própria atriz Anna Gunn recebeu ameaças pela interpretação que fez da personagem.


''Besides being frightened (and taking steps to ensure my safety), I was also astonished: how had disliking a character spiraled into homicidal rage at the actress playing her? 
[…] 
But I finally realized that most people’s hatred of Skyler had little to do with me and a lot to do with their own perception of women and wives. Because Skyler didn’t conform to a comfortable ideal of the archetypical female, she had become a kind of Rorschach test for society, a measure of our attitudes toward gender.''

-Anna Gunn falando sobre as ameaças que recebeu, ainda no texto publicado pelo New York Times.

A misoginia e o ódio contra as mulheres ultrapassam os limites da ficção. Estão ao nosso lado, na vida real.
Antes ignorante a todo o rage que envolve a personagem, eu tinha menos consciência a respeito dessa propagação odiosa e pestilenta. Com Skyler meus olhos foram abertos. Com Skyler os olhos de Anna Gunn foram mais abertos.
Skyler foi mais uma em meio a uma lista desesperadoramente extensa de mulheres, fictícias ou não, a abrir os olhos de muitas de nós para o que acontece com as mulheres nesse mundo machista, dentro ou fora de uma tela. 

05/04/2018

Mescelânea - Março 2018

Engraçado, mas o primeiro mês do ano em que eu trabalhei integralmente 8 horas por dia (pois é, acabei conseguindo aquele cargo de pseudo prô que eu achei que só pegaria por milagre PROVAVELMENTE FOI MILAGRE MESMO) foi também meu mês mais produtivo no quesito leituras em 2018. Acho que sou uma criatura que funciona na base da rotina mesmo...

Li
Da Annya Marttinen
Foram sete livros lidos em março: Memória de Minhas Putas Tristes (Gabriel García Marquez), Cartas a Um Jovem Cientista (Edward O. Wilson), A Amiga Genial (Elena Ferrante), Albert Einstein - Personagens que mudaram o mundo (Fiona McDonald), História do Novo Sobrenome (Elena Ferrante), Assassinato no Expresso Oriente (Agatha Christie) e História de Quem Foge e de Quem Fica (Elena Ferrante).
Peguei Memória de Minhas Putas Tristes porque era do Gabriel García Marques e só, sem nem ler a resenha atrás do livro antes de tocar dentro da minha ''bolsa da biblioteca'' (uma daquelas bolsas de pano bem econômicas e simples que eu ganhei da própria biblioteca anos atrás). Aí cheguei em casa e li que era sobre um nonagenário que acorda no dia do seu aniversário de 90 anos com vontade de tirar a virgindade de uma jovem, que ele acaba encontrando no bordel de uma cafetina famosa na cidade, sua amiga de longa data.
Pedofilia. Um cara de 90 com uma criança de 14 (!!!). Eca. Como lidar?
Já fui ler com todo o receio do mundo e o nariz meio torcido.
O que se desenrolou foi uma série de reflexões e sentimentalismo que toma conta desse senhor quando ele começa a olhar em retrospecto para a própria vida, pobre de amores e sem nenhuma riqueza exuberante mesmo depois de 90 anos vividos. Ele é compelido a pensar em tudo isso especialmente inspirado pela antítese que a jovialidade, beleza e inocência da moça representam diante dele, um velho sem muito fulgor e cheio de dores.
Ele acaba nem transando com a moça (spoiler!), mas passa algumas noites na companhia dela, deitados na mesma cama.
A escrita do Gabriel García Marquez é poesia em prosa do início ao fim, me deixava encantada em cada página, apaixonada pela relação de amor e amizade que ele conseguiu estabelecer com as palavras, sendo escritor. Me fez perceber que eu estava com muita saudade de lê-lo, mais de três anos depois de ter me encantado com Cem Anos de Solidão.
O livro consegue ser lindo como só ele poderia deixá-lo, mas ainda me debato com a constatação de que aquilo é, sim, um retrato da pedofilia, por mais romantizado que pareça.
Fico com o coração dividido entre amar completamente a escrita do Gabo e olhar torto para a relação do velho com a menina, por mais bonitas que as coisas se mostrem, glamourizadas naquelas páginas. =\
Cartas a Um Jovem Cientista é um livro muito amorzinho e querido escrito pelo biólogo, cientista e maior autoridade mundial em formigas (soa um tanto irônico, mas essa visão limitada e pequena - ironia de novo, cofcof - que temos sobre o assunto é desconstruída ao longo do livro, quando percebemos que é ciência, afinal, e pra ela TODA a informação verdadeira e verificável importa), para jovens (enquanto principiantes) que querem se aventurar no caminho da ciência.
A linguagem do livro inteiro, apesar de ser *um pouco* de divulgação científica, é bem casual e aconchegante, como uma verdadeira conversa que o autor sustenta do início ao fim sem nos entediar em nenhum momento, e sempre parecendo estar ao nosso lado, falando enquanto tomamos café juntos. 
O livro parte do pressuposto de que o leitor é um cientista em construção, então também foi pretexto pra eu me sentir um pouquinho mais inteligente e engajada na causa durante a leitura, haha.
Apesar de "ser para cientistas", a escrita de Wilson encanta e cativa qualquer um, então sinta-se à vontade pra se jogar de cara mesmo que não queira chegar nem perto da área.
Uma coisa legal é como ele enfatiza que todo conhecimento é valido dentro da ciência, e que o cara que entende e decodifica os sinais que as formigas exprimem pra se comunicar através de feromônios é tão cientista quanto o que vai descobrir (amém) a cura do câncer. Estamos falando de descobertas e de conhecer o mundo ao nosso redor, em cada cantinho.
Esse livro foi um abraço pra mim (interessante sentimento, visto que estamos falando de algo que convencionalmente é visto como frio, racional e inflexível) e virou um queridinho e favorito da vida.
Wilson fala não só ao jovem cientista e suas possíveis futuras descobertas, mas muito sobre a própria carreira e estudos com as formigas. É um livro bastante pessoal também.
Fiquei tentada a escrever uma resenha individual, mas acho que seria mais proveitoso abordá-lo aqui mesmo.
Esse é um livro muito bom, interessante, curto (200 pg) e bonito, feito pra quem gosta de conversar com pessoas inteligentes com as quais você provavelmente nunca toparia em circunstâncias normais... E pra quem simplesmente se interessa por ciência, claro.
Recomendo MUITO.
Albert Einstein - Personagens que mudaram o mundo é mais um de uma coleção de pequenas (sempre 60 páginas) biografias que tenho. Quando falei da biografia de Charles Darwin, da mesma série, observei que uma das coisas bonitas que esses livros proporcionam é a aproximação à humanidade e simplicidade dessas personalidades Grandes com G maiúsculo que temos no mundo. Isso se verifica também nessa biografia do Einstein. Ele era gente como a gente - uma gente excepcional, brilhante e até absurda, mas ainda assim um semelhante, que tinha problemas no casamento, se preocupava com as próprias inclinações antissociais e reclusas (#énóis) e não compreendia bem todo o fundurço que sua própria figura causava, porque aos próprios olhos era "só um homem".
Mas além de gênio da física e da matemática, essa biografia mostra, principalmente através de varias frases de Einstein nos cantos de página e de seus posicionamentos sociopolíticos, que ele era uma pessoa imensamente sábia - e não há genialidade que supere o valor disso.
Assassinato No Expresso Oriente foi meu segundo livro da Agatha Christieeeeeeeeeeeeeeeee.
Eu ADORO o subgênero ''locked room'' (quando ocorre um crime e todos os suspeitos ficam presos em um lugar fechado sem ter pra onde fugir, enquanto nós que estamos de fora nos deleitamos com aquele banquete de suspense, tensão, expectativa e ~medinho~), então esse era um dos livros dela que mais me interessavam (juntamente com O Mistério dos Dez Negrinhos/E Não Sobrou Nenhum ALGUÉM ME CONSEGUE ESSE LIVRO LOGO ANTES QUE EU TENHA UM SURTO PSICÓTICO).
Um assassinato ocorre num trem que liga a Asia à Europa, só que o que o assassino não estava planejando era ficar preso com todos os passageiros e mais o detetive Poirot no meio do nada, graças à neve que se amontoa no meio dos trilhos em determinado ponto da viagem, impedindo a passagem e condenando todos (cadáver, suspeitos, passageiros normais e o próprio assassino) a ficar confinados naquela comitiva até sabe-se lá quando. 
Aí você coloca uma dúzia de passageiros presos no meio do nada junto com um cadáver e a certeza de que alguém ali é um assassino e vê o que acontece: tá feito o livro. :)
Os livros da Agatha Christie acabam sendo um pouquinho confusos no início porque são vários personagens, vários nomes diferentes (um mais excêntrico que o outro), várias características e vários detalhes variados que a gente vai pescando ao longo do enredo pra tentar reproduzir as cenas e tramas na nossa cabeça, enquanto tentamos desvendar o mistério, e não é fácil administrar todas essas informações (AGATHA, MULHER, COMO VOCÊ CONSEGUIAAAAAAA?!). Isso pode ser um probleminha em potencial até certo ponto, mas uma vez que você é fisgado pela narrativa, a coisa só flui.
A gente fica um tanto fascinado pela cabeça da escritora tentando entender como cabia esse monte de tramas e mistérios e detalhes no cérebro de um só ser humaninho, e você começa a admirar bastante a mulher. Se eu a encontrasse na rua, PULAVA NO PESCOÇO batendo palmas e congratulando e abraçando e enchendo de beijos porque PLMDDS VIVA VOCÊ! <3
E ahh, o final, pra mim, foi o único bom possível. Ela acertou em cheio. Em certo ponto eu pensei mas gente, quem quer que seja o assassino, vai ficar meio mééh quando surgir a revelação, porque né? Mas aí veio aquele final e eu AHH MEU DEUS SIM! - Sinta-se obrigado a ler o livro pra poder entender esse parágrafo horrível e totalmente desconexo.
A Amiga Genial, História do Novo Sobrenome e História de Quem Foge e de Quem Fica são os três primeiros volumes da tetralogia Napolitana, essa febre da Elena Ferrante que dominou a humanidade e contaminou pessoas feito uma praga do bem desde o início de sua publicação.
Eu quase tive um treco quando vi os livros na estante da biblioteca municipal de Gravataí (sério, um milésimo de segundo a mais sem autocontrole e eu teria gritado, me contive no último momento possível), porque tava sonhando com essas belezinhas há tempos.
Eu os ENGOLI como só livros excepcionais conseguem fazer com a gente. Eu chegava a ler 130, 150 páginas durante o expediente (quanto profissionalismo Carolina, nossa, tá de parabéns), comendo uma página atrás da outra em todos os momentos livres (mentira, livres nada, deveria estar trabalhando) possíveis, viciada que nem uma craqueira (?) porque simplesmente NÃO CONSEGUIA PARAR.
Eu tô falando sério, esses negócios me viciaram num nível PATOLÓGICO.  
Só que a biblioteca os recebeu como doação e a pessoa querida, cidadão do bem, benfeitor de Gravataí, te venero não mandou o terceiro, e quando eu cheguei lá pra pegar o bendito e não o encontrei ENTREI EM PÂNICO porque EU PRECISO DESSE LIVRO AGORA VOCÊS NÃO TÃO ME ENTENDENDO MDS MI SIGURA.
Fui à biblioteca do SESI, não encontrei. Pedi pra procurarem no sistema, não tinha. Liguei pra biblioteca do Sesc, nada. Liguei pra uma livraria do shopping da cidade pra perguntar o preço, tava em falta e custava os olhos da cara. O UNIVERSO ESTÁ QUERENDO ME FERRAR DE NOVO, TENHO CERTEZA.
Fiquei surtando ao lado dos meus irmãos mais novos até que eles me expulsaram de casa disseram pra baixar em PDF. AH MDS CLARO, baixei, tava com um número menor de páginas, não sabia como funcionavam as tretas dos PDF, mandei recado pra uma senhorinha no Skoob (obrigada, Cecilia!) que o tinha em casa pedindo pra ela conferir a última linha pra mim. É isso? É isso! Então fechou.
Engoli o terceiro mesmo com o pessoal no trabalho me olhando mais torto ainda por estar com o celular na mão, em vez de um livro.
A série conta a história de duas meninas que crescem juntas e constroem por toda a vida uma amizade bem intensa e conflituosa, e esses livros são tão importantes porque eles têm um olhar muito particular e atento, muito real, sobre toda a experiência de nascer, crescer e viver como mulher nesse mundo doente.
Olha, eu tô completamente encantada pela escrita de Elena Ferrante, um tanto OBCECADA querendo ler cada mísera linha que ela publicou na vida, e gostaria que todo mundo lesse esses livros, mas eles são leitura obrigatória especialmente pra nós, mulheres.
Não preciso falar muito além de LEIA JÁ porque certeza que vou escrever um textão só pra essa série aqui. Virou uma questão de saúde emocional.

Assisti
Foram três filmes e cinco temporadas de uma série assistidos em março.

Refém
É um filme baseado em fatos reais que conta a história de uma viciada em drogas que acaba virando refém, em sua própria casa, de um foragido e procurado por assassinato, que a detém desesperado para fugir da polícia que está à sua procura em todos os lugares.
O cara tá totalmente perdido e pronto até pra se matar, mas passando alguns dias com aquela moça, que em dado momento lê pra ele trechos do livro Uma Vida Com Propósitos, acaba (spoiler!) se rendendo à polícia depois de muita tensão, cumprindo sua pena até os dias de hoje (spoiler!).
O filme é meio fraquinho (seria bem lixo se não cumprisse a função de relatar uma história real), mas é interessante pensarmos em todos os desdobramentos que fizeram com que o quase-enclausuramento daquelas duas pessoas tão ferradas na vida resultasse naquele desfecho improvável e de redenção.
Uma viciada feita refém e um assassino fugido da justiça, juntos num ambiente de tensão e degradação. Eles poderiam muito bem ter se matado, mas ele se rendeu à justiça e ela se reabilitou do vício, vive feliz com uma família bem estruturada e deu uma entrevista para a Oprah.
Quem entende a raça humana?

Whiplash
Em 2018 assistindo aos filmes que eu queria ter visto antes do Oscar de 2014, #eudenovo.
É uma história bem clichê (como os críticos no Oscar cansaram de comentar) de professor tirano que exige a perfeição do aluno até quase levá-lo a entrar em colapso, mas clichê ou não (aliás, o que seria o mundo sem seus clichês?) eu entrei na onda do filme até ficar sambando no meio da sala e gostei bastante. 
Você é particularmente impressionável se gostar minimamente de música, não tem jeito.
Recomendo. (E o professor era tão louco de pedra quanto se dizia...)

Garota, Interrompida
Passou no corujão e eu fiquei assistindo até umas quatro e pouca da manhã pra dormir por duas horas e acordar às sete pra ir trabalhar. (Eu no trabalho.)
É um filme com um baita elenco feminino, incluindo Winona Ryder, Angelina Jolie e até a Elisabeth Moss de Mad Men (!), e que se passa num manicômio para mulheres em que a personagem da Winona é internada depois de uma tentativa de suicídio.
Ele acabou se consolidando como um cult através dos anos, e é provável que você já tenha cruzado com alguma imagem ou GIF seus por aí. Eu tava querendo assistir há séculos.
É interessante e um tanto complexo (até de tentar sintetizar aqui, porque ele tem uma abordagem bem subjetiva), se formos avaliar, porque a protagonista fica suspensa entre a sanidade e a insanidade, tem a vida interrompida quando é mandada ao manicômio, porque vai parar lá sem saber por que está lá. Ela sente que não é normal e tem algo de errado, mas não sabe onde está a gênese de toda essa perturbação e fica flutuando pela própria existência, sem saber bem o que tá acontecendo consigo.
Deu pra entender? Enfim.
Esse filme virou minha nova obsessão pessoal e eu fiquei sabendo que tem um livro, que agora tô querendo MUITO ler pra poder mergulhar mais nesse universo que foi criado perpassando as mentes de Susanna e Lisa e que me atraiu demais (eu já disse que sou ligada num desgraçamento mental, né?).

The Office
OUTRA COISA QUE ENTROU NA MINHA VIDA PRA VICIAR FEITO DORGA. Assisti às cinco primeiras temporadas (são nove) esse mês.
The Office nos mostra o cotidiano de um escritório com um chefe doido de pedra e um monte de funcionários bizarros que acabam afundando aquele lugar na insanidade completa durante o expediente na empresa de papel Dunder Mifflin, palco de situações absurdas e grotescas que deixam a gente rindo de nervoso porque SEN.HOR.
Os episódios são bem rapidinhos e eu tô completamente viciada nessa birosca, VOCÊS NÃO TÊM NOÇÃO.
O humor de The Office não é nada sutil e nem politicamente correto, é daqueles que nos impelem a rir pra extravasar o constrangimento de toda a nonsense que se está vendo, então acho que é um desses casos de produções que ou você AMA ou ODEIA com todas as forças.
Eu tô batendo palmas demais pra direção pelo jogo de câmeras incrível (a série é em formato de documentário) e pros atores por segurarem aqueles papéis, porque a quantidade de sentimentos doidos, reflexos das situações dementes protagonizadas por eles, que eles conseguem transmitir em cada olhar, em cada gesto, em cada esgar facial captado quando a câmera dá um zoom na cara deles é INCRÍVEL.
E o que é o papel do Steve Carrel, o chefe que é a alma da coisa? GZUIS ESSE HOMI.
Outra coisa legal pra mim é que a abertura de The Office é a única com cenas passadas ao longo da série + música, em vez de toda uma produção separada e própria, que eu consegui gostar na vida. Em geral acho preguicinha quando fazem aberturas assim, com recortes das cenas da série (a humanidade que me perdoe, mas eu achava a abertura de Gilmore Girls O CÚMULO), mas em The Office isso funciona muito bem porque a abertura é cheia de "office stuff" + musiquinha legal e combinou demais.
A série tem cumprido uma função terápica de escape em dias ruins meus, e eu preciso compartilhar essa bênção com vocês.

Links, LINKS EVERYWHERE
É o Jobs novinho, gente.

-Palavras de mulher; artigo na Hysteria em que consta a origem e evolução morfológica de palavras que remontam a toda construção social do que é dito feminino. Interessante pra caramba.

-Why we need to understand science, artigo do Carl Sagan.

-Cansada demais pra ser feminista, uma newsletter ótima da escritora Renata Correa.

-A Elena Ferrante também tá com uma coluna semanal no The Guardian (êêêêêêê!!!!) e esse texto, Even today, after a century of feminism, we can't fully be ourselves, é o meu favorito até agora.

-The Half-Wild Muse: On Writers And Their Cats; sobre a relação de amor entre escritores e gatos e o que faz com que ela seja tão aconchegante.

-Can I enjoy the art but denounce the artist?; ai, essa dúvida cruel depois de tantos escândalos e assédios...

-O guia literário definitivo para o acasalamento; eu ADORO que esse escritor fez uma pesquisa no twitter, depois de ler uma matéria, pra ver que tipo de carga literária pesava na hora da conquista e da paquera (porque, segundo dados científicos, "as pessoas têm uma tendência a mentir sobre suas preferências literárias pra impressionar") e ainda se deu ao trabalho de escrever um texto bem estereotipado, irônico e hilário sobre isso. Esse é o entretenimento jornalístico de internet que eu quero viver. #ReadingIsSexy

-Vídeo de atrizes falando sobre feminismo, suas carreiras, assédio e machismo na indústria do cinema. TODAS têm algo a acrescentar. (É compridinho, então se estiver interessado/a, pode fracionar e assistir aos poucos ao longo do mês - como eu fiz.)

-Só precisava compartilhar o vídeo desse cachorrinho maratonista mesmo VAI MUDAR SUA VIDA EU PROMETO
That's all folks.
'*'*'*'*'*'
Em vez de deixar uma imagem hoje, vou deixar o link dessa série de fotos que tirei do meu irmão e da minha cunhada quando estávamos reunidos na nossa casa pela visita de primos e tios do interior que não víamos há quase uma década (sem hipérbole aqui).
Minha câmera tem um bug desgraçado que faz com que, de vez em quando, quando ela decide, algumas fotos saiam tremidas no matter what, e aí eu tava fotografando eles pra tentar detectar um padrão (fail).
Só que acabei pegando sem querer essa cena e isso virou uma piadinha aqui em casa.
O Mateus comprou uma maldita arminha de pressão pra assaltar pessoas com mais autoridade 
[e sim, eu consegui ser imbecil o suficiente pra ele me dar um tiro nas costas em consentimento mútuo; "tá, mas dói, Mateus?", "nããã, capaz...", "sério?", "sério, é só pra brincar... Quer ver? Eu te dou um tirinho leve...", "huum... Okay, mas nas costas"
...
"PQP SEU DESGRAÇADO" (ainda tenho a marca)]
e tava brincando com ela e com a Bel, fingindo que ia atirar - porque aparentemente estava descarregada e não havia risco nem de arranhão e a Bel tava entrando na zoeira (pois SEMPRE COAGIDA). Só que em dado momento saiu uma pseudo bala sabe-se lá de onde e acertou o braço dela mesmo.
A série de fotos tiradas ao acaso acaba mostrando o contraste entre as expressões e movimentos deles antes/depois do alvejamento da Bel (Mateus abraçando ela pra pedir perdão, hahahahahaha #trouxa) e eu tô rindo muito dessa droga. (A partir da foto 7 - por favor, vejam ampliadas - a Bel já foi acertada - pra poder ficar mais nítida a diferenciação.)
Vou especificar num contrato que quero que elas entrem pra galeria da biografia que meus admiradores (óbvio) vão escrever sobre mim no futuro, porque virou uma pérola da família. ;)

Era isso. Até!