08/01/2018

Perdido(s) em Marte

Perdido em Marte foi o primeiro filme de 2018 (assistido no dia 1 de janeiro mesmo) e acho isso um tanto poético.
Embora poesia não seja dos gêneros textuais que mais prestigio, tenho um fraco (que talvez já tenha ficado evidente) por coisas poéticas - escrito assim em itálico mesmo, pra que você possa captar a entonação certa.
Apesar de ter sido o primeiríssimo - e, até então, único - filme que assisti (com meus dois irmãos mais novos, Mateus e Taiane, e minha mãe) em 2018, já tenho certeza de que quando eu vier aqui fazer a retrospectiva cinematográfica daqui a uns 365 dias, mais ou menos (como se eu fosse pontual assim...), ele constará entre os favoritos. Provavelmente até no TOP 3.
Em Perdido em Marte Matt Damon um astronauta especialista em botânica sai em uma missão espacial com sua equipe e acaba sendo deixado nesse planeta hostil depois de um acidente em que seu grupo ficou convicto de que ele tinha morrido. Ele não foi cruelmente abandonado lá por colegas de trabalho desnaturados, e sim deixado por companheiros queridos que tinham certeza de que ele estava morto, e que de mãos atadas em tal situação, concluíram (sensatamente) que não valia a pena arriscar a vida de mais ninguém só pra trazer um cadáver pra casa.
A questão é que ele ficou lá, all by himself - talvez a única pessoa (fictícia, eu sei, mas quem liga?) que pode adotar esse título com propriedade -, sem qualquer companhia, absolutamente isolado e só num planeta (não um bairro, uma cidade ou um país, mas num FUCKING PLANETA) estranho e inabitado... Pelo menos até agora.
Só que, graças a sua formação, seus conhecimentos em agricultura são vastos, e em vez de esperar a chegada da morte quando os mantimentos astronáuticos acabassem, ele dá um jeito de cultivar alimentos (apenas batatas, mas já tá valendo) e "produzir" água (o cara é um cientista, né, amigues), enquanto tenta estabelecer contato com a Terra pra voltar pra casa antes que algo dê errado (algo além de ficar sozinho num planeta estrangeiro e árido a milhões de quilômetros de sua casa sem ter como voltar, quero dizer).
E essa é a jornada do astronauta.
Momento reservado pra simplesmente parar e admirar esse homem.
Existe um segundo núcleo narrativo na Terra, naturalmente, enquanto acompanhamos a luta da equipe da NASA, e de todo o mundo (porque a raça humana guerreia e se mata, mas às vezes nos deixamos ser muito sentimentais - e bonitos - acompanhando com uma multidão de semelhantes um resgate desses sendo transmitido num telão da Times Square, torcendo e desejando o bem juntos), que tenta trazer o cara pra casa. Essa mobilização conjunta também me toca bastante e me arranca uns sorrisos no filme, mas o que gostei mesmo de Perdido em Marte (Bring Him Home talvez seja um título melhor; ainda não decidi) é como o filme eleva a uma representação literal e absurdamente verdadeira (tão verdadeira quanto um filme scifi, claro, mas você entendeu) conceitos que vivemos expressando e sentindo na terra unicamente de maneira metafórica (em hiperbóles), porque despidos do romantismo de uma ficção eles não nos são uma realidade possível. 
Do que eu tô falando? Daquele sentimento que todos nós temos vez ou outra, quando nos sentimos absurdamente solitários e isolados ao ponto de nos visualizarmos sozinhos no mundo. 
A única pessoa na terra, sem qualquer companhia. Em desalento no mundo, vagando sozinha. Abandonada num planeta inteiro. Tão só que sente que não há ninguém a kms de distância e o mundo está deserto. Você só tem a si mesmo. Está cruel e completamente solitário.
A gente sente tudo isso, mas nunca é uma realidade concreta, e sim algo manifestado no campo das emoções e sensações.
Em Perdido em Marte, não. No filme essa é a realidade nua e crua, e nosso astronauta vivencia em Marte de forma verídica e orgânica tudo o que sentimos na Terra, no espectro emocional e sensível.

''Eu sou a primeira pessoa a ficar sozinha em um planeta inteiro.''

E é isso que eu acho meio poético no filme  - embora ele faça justamente subverter o subjetivo em um objetivismo palpável (claramente não entendo de poesia, mas ok).
Mas eu falava sobre o início do ano e como esse ter sido o primeiro filme que assisti em 2018 constituiu uma significação particular para mim.
Não sou uma daquelas pessoas que fazem resoluções de ano novo e celebram a data com todo o simbolismo que ela carrega; na verdade, nutro uma aversão especial ao fim de ano e a todo o seu clima festivo (um dia ainda falo sobre isso aqui), e no geral preferiria passar por esses dias de maneira despercebida. Mas acho que sempre fico com esse sentimentozinho tímido (que eu não gostaria de admitir que me acomete) de que toda uma jornada inédita e diferenciada está começando e eu tô embarcando nela sem passagem de volta. Aquelas coisas bobas que a gente sente nesses momentos mesmo.
Como no filme, você (e quando eu digo você eu quero dizer a gente) vai ter ajuda, de certa maneira vai conseguir alguma companhia (como quer que ela se manifeste; minha maior companhia em 2017 ocorreu através da internet) e terá quem torça por ti ou pelo menos assista a suas lutas.
Quer dizer, você não vai estar irremediavelmente só; MAS parte (uma boa e grande parte) da jornada que se descortina à frente será trilhada por você e somente você - porque haverá uma parte que só poderá ser trilhada por você. Não importará quantas muletas existam ao redor e quantos ombros amigos estejam estendidos, há certos passos que só os seus pés deverão - e conseguirão - dar.
Embora eu saiba que tenho família e alguns poucos amigos (tipo, poucos mesmo; orem por mim), esse sentimento de que MUITO dependerá de mim para que eu chegue ao fim do ano olhando pra trás com o sentimento satisfatório de quem sabe que fez o que poderia ter feito sempre fica sobre as minhas costas durante o período da virada. Como um peso, admito.
Junto a isso, outro sentimento que me toca é o de uma atemporal e intrínseca solidão. Não a solidão de quem não tem com quem andar, mas a solidão de quem sabe que precisará fazer certas caminhadas sozinho, que precisará não andar com ninguém algumas vezes. E pode ser difícil encarar isso.
Perdido em Marte me lembrou um dos motivos (porque são vários) pelos quais o réveillon é um acontecimento muito mais introspectivo e sensível do que exultante e festivo para mim - sentimentos que eu sempre reflito com uma indisfarçável (mas moderada) melancolia: porque eu sempre sinto essa inevitável e inflexível solidão que me acompanhará nas decisões mais significativas do ano.
Só que reconhecer a existência desse caminho estreito no qual só eu vou (e devo) caber, internalizar a faceta solitária dessa reflexão, não precisa ser algo ruim, triste e depressivo, claro. Não é assim que encaro a coisa - mas poderia ser.
Embora contasse com os suprimentos dos colegas que já haviam partido do planeta distante, o astronauta teve que, sozinho, cultivar as próprias batatas e produzir aguá. Embora funcionários da NASA estivessem vigiando seus passos através de satélites, ele, sozinho, teve que dar um jeito de aquecer o jipe espacial (tá, não é esse o nome do treco, mas me deem uma folga) pra fazer uma viagem e achar o aparelho (sim, eu também esqueci o nome desse; me julgue) que possibilitaria contato com a Terra. A câmera em transmissão com a NASA estava posicionada e funcionando, mas foi ele que teve que ir atrás do alfabeto nerd (eu desisto; não lembro o nome de nada) e montá-lo pra efetivamente conseguir uma comunicação mais substancial. O projeto e estrutura da nave para voltar pra casa estava pronto e havia sido pensado com a ajuda de vários cientistas da agência espacial, mas foi ele que teve que pular no telhado do veículo anterior até quebrar e dar um jeito de fixar aquela lona (ainda estou de cara com a suposta eficiência da lona) pra tentar fazer a viagem de volta pra casa.
O astronauta (nem o nome dele eu lembro, gente; plmdds me ajuda) não foi o único envolvido na missão, mas muito, muito mesmo, foi construído e dependeu de suas mãos, de sua força e de sua vontade. De sua motivação.
Muito só pôde ser feito por ele, e muito (provavelmente mais do que gostaríamos) só poderá ser feito por mim, por nós, nos tempos que se aproximam. 
O essencial caberá a nós.
Ao assistir ao longa, essa reflexão ficou comigo, mais uma vez.
E tal como o astronauta tentou o filme inteiro (se conseguiu, já é outra história), espero que em 2018 todos nós possamos dar um jeitinho de voltar pra casa - seja ela antiga ou nova e recém construída, estrutura física ou emocional.

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