31/10/2017

A Guerra dos Mundos

Do H.G. Wells
‘’Ninguém teria acreditado, nos últimos anos do século XIX, que esse mundo era atenta e minuciosamente observado por inteligências superiores à do homem e, no entanto, igualmente mortais; que, enquanto os homens se ocupavam de seus vários interesses, eram examinados e estudados, talvez com o mesmo zelo com que alguém munido de um microscópio examina as efêmeras criaturas que fervilham e se multiplicam numa gota d’água.’’

Assim começa esse livro que se tornou um marco da ficção científica, consagrado através dos anos como um dos pioneiros desse tipo de temática e o primeiro livro a retratar uma invasão alienígena hostil - feito que coloca o nome de Wells no cânone dos escritores clássicos da ficção até hoje.
Mas antes de falar disso tudo, de dizer se eu gosto ou não do Wells e se gostei ou não do livro, devo dizer que esse post contém spoilers. Inclusive O Grande Spoiler e Plot Twist de A Guerra dos Mundos. 
Eu me sinto no dever de fazer adversões quanto a isso porque considero spoilers uma coisa séria na vida do ser humano consumidor de qualquer coisa da cultura pop, então fica aqui meu devido aviso, para que o possível leitor não possa me acusar de ter sabotado sua experiência com esse clássico da ficção científica – que tem uma adaptação cinematográfica trazida para um contexto mais atual, inclusive (e que não é muito elogiada pelos críticos de cinema, diga-se de passagem).
Mas a verdade é que eu acho que essa história já é tão conhecida que o spoiler nem é mais spoiler, a não ser que você tenha passado o último século numa caverna, comendo raízes, se limpando com folhas secas, dormindo em pedras e tendo uma bola de estimação chamada Wilson. Quer dizer, o plot de A Guerra dos Mundos talvez só não seja tão conhecido quanto o Darth Vader sendo revelado pai do Luke em Stars Wars, ou o cara de Planeta dos Macacos encontrando a estátua da liberdade enterrada na praia no final. (Meus sinceros sentimentos de pesar caso você ainda não tenha assistido aos filmes e eu tenha acabado de ESTRAÇALHAR sua experiência com esses dois ícones. Se serve de consolo, também ainda não assisti Star Wars, então, como você pode perceber, minha experiência foi tão estragada quanto a sua.)
Mas, bom, pra não dar voltas e mais voltas (tarde demais), o que acontece é que marcianos invadem a Terra, em debandada graças ao cada vez mais letal resfriamento de Marte, sua terra natal (por isso eles se chamam "marcianos" e não plutanianos, saturnianos ou netunianos, dã), e vêm pra cá querendo destruir tudo e tomar conta do planeta (colonização ocidental feelings), com a ajuda de seus raios de calor, uma espécie de chama extraterrestre que sai das máquinas assassinas que eles constroem e pilotam, transformando todo mundo em churrasquinho em potencial.

‘’Através do golfo do espaço, mentes que em relação à nossa são como a nossa em relação às dos animais que perecem, intelectos vastos, frios e insensíveis, lançavam sobre esse planeta olhos invejosos e, lenta e inexoravelmente, traçavam planos contra nós.’’

Mas depois de algumas semanas aqui, explorando o território, destruindo monumentos e propriedades, carbonizando e matando pessoinhas, sem que nenhuma autoridade tivesse conseguido oferecer uma resistência significativa e quando já está todo mundo escondido em túneis subterrâneos ou sei lá, conformado com a futura realidade de ser escravinho dos aliens que se descortina à sua frente, os ETs simplesmente... morrem.
Eles, imensamente mais desenvolvidos que nós no campo da física e da matemática (além do intercâmbio entre planetas, né), com um poder bélico que destroçou o nosso em poucas horas, a cada minuto na terra predominando sobre a raça humana e nos reduzindo a meras cobaias e aberrações a serem observadas, sem que tenhamos representado uma ameaça por dois segundos sequer, não conseguem sobreviver às bactérias do nosso planeta - esses organismos vivos microscópicos aos quais eu, você e toda a humanidade sobrevivemos todos os dias e todas as noites, como parte integrante e aparentemente natural de nossa existência.
Chega a ser irônico.
Eu não gosto muito da escrita do Wells. Já li dois livros dele que resenhei aqui e aqui, e embora eu tenha conseguido tirar alguma coisa das leituras, o nome dele ficou longe, longíssimo de se destacar na minha lista (extensa, modéstia à parte) de escritores lidos. Pra mim a linguagem dele é um tanto simplória, não tem aquele quê de encantamento e profundidade que consegue me envolver, e pra mim envolvimento é um elemento essencial na literatura que mora no meu core <3. Em diversos momentos eu me pegava devaneando e pensando na morte da bezerra enquanto lia porque foi difícil pra mim desenvolver qualquer ligação com o livro que fosse além da mera superficialidade.
Não entrando em consenso com a opinião de muitos críticos (todos mais competentes do que eu, certamente), a meu ver ele acabou se consagrando como um escritor clássico muito mais pelos temas abordados, que eram inovadores para a época, do que pela escrita e pelo talento narrativo em si.
No início da edição que li há a introdução de outro escritor falando sobre como aquilo - uma invasão alienígena - era inovador para a Europa em que o livro foi lançado, porque até então se falava muito de guerra entre nações e era esse assunto pra todo lado. Até que chega uma criatura que eleva essa narrativa a um outro patamar, apresentando uma guerra que não se dá entre país x e país y, mas sim entre mundos.
Quer dizer: wow. O sucesso foi imediato.
Além disso, o escritor acaba fazendo umas críticas à sociedade, em meio à destruição dos aliens, que se mantêm bastante atuais: como o padre que o protagonista encontra, todo desiludido porque as obras da igreja foram destroçadas, e que apesar de toda a suposta fé de outrora, acaba se rendendo ao desespero e à insanidade e não sobrevive; como também a necessidade de uma consciência coletiva na humanidade e a diminuição da arrogância do homem, duas lições que aquele mal que ataca a todos e faz sofrer em conjunto e em igual medida poderia ter feito as pessoas assimilarem; e há também a comparação entre aliens e seu comportamento destrutivo com os humanos e os próprios humanos que também destroçaram dúzias de espécies supostamente inferiores a eles na terra.

Mas, antes de os julgarmos [marcianos] com muita severidade, lembremos a destruição cruel e completa que nossa própria espécie impôs não só a animais, como os extintos bisões e dodôs, mas a suas próprias espécies menores. 
[…]
Será que somos realmente esses apóstolos da tolerância, para nos queixarmos agora de que os marcianos nos combateram com a mesma mentalidade?”

Muitos definem como ‘’clássicas’’ aquelas obras que, do século XIX ao XXI, abordam questões que se mantêm atemporais. A Guerra dos Mundos consegue esse feito e reconheço o valor do livro por isso... mas ainda assim ele não me cativou.
Apesar disso, da minha torcida de nariz pro Wells, a verdade é que eu acho um tanto poética essa coisa de que nós, a humanidade, não vivemos no mundo, e sim sobrevivemos a ele. Porque é a realidade.
A morte dos aliens tão mais desenvolvidos que nós e que chegam aqui como estrangeiros, sem saber que a hostilidades da Terra vai muito além de suas bombas e raios de calor e que na verdade se desenvolve em silêncio e em segredo através de doenças, vírus, bactérias e todo tipo de microorganismo nocivo, diz que "poxa, se os marcianos grandões e poderosos morreram nas primeiras semanas nesse planeta, a humanidade que povoa esse terra há séculos aguentou um tranco danado pra chegar até aqui..." 
Somos sobreviventes. 
E isso não se aplica só a doenças, males naturais e bactérias, mas se estende a toda a experiência de nascer, crescer, envelhecer (quando se consegue) e morrer numa sociedade ferrada em que todo tipo de merdas acontece. Quer dizer, dois minutos assistindo ao noticiário nos mostram que sobrevivemos (alguns) a umas coisas muito surreais (que vão além de má formação congênita ou dengue, I mean), e às vezes a civilização parece se assemelhar a uma verdadeira SELVA.
Percebem quão significativo é isso? Percebem que estamos todos na mesma canoa furada e que se manter vivo e respirando na superfície apesar do TSUNAMI que corre ao lado da canoa tentando afundá-la não é pouca coisa? 
Sobreviver não é pouca coisa.
Isso - esse ângulo meio bucólico através do qual podemos enxergar a narrativa - foi o que fez com que eu não me arrependesse da leitura, e apesar de todas as reclamações sobre a escrita do cara, venha aqui recomendar o livro, sim.
Porque a consciência de que não estou vivendo no mundo há quase 20 anos, e sim sobrevivendo a ele durante todo esse tempo, é tão certa quanto a própria morte que vai findar essa resistência.

Tudo o que mais gostei no livro é sintetizado nesse trecho aqui, meu favorito:
‘’ACONTECERA O QUE EU E MUITOS PODERIAM TER PREVISTO, SE O MEDO E A CATÁSTROFE NÃO TIVESSEM CEGADO NOSSA INTELIGÊNCIA. AS BACTÉRIAS PORTADORAS DE DOENÇAS HAVIAM CASTIGADO A HUMANIDADE E NOSSOS ANCESTRAIS PRÉ-HUMANOS DESDE O COMEÇO DOS TEMPOS, DESDE QUE A VIDA COMEÇOU NO PLANETA. MAS, POR VIRTUDE DA SELEÇÃO NATURAL, NOSSA ESPÉCIE DESENVOLVEU RESISTÊNCIA CONTRA ELAS; A NENHUM MICRÓBIO SUCUMBIMOS SEM NOS DEFENDER, E A MUITOS – ÀQUELES QUE PUTREFAZEM A MATÉRIA MORTA, POR EXEMPLO – NOSSO ORGANISMO VIVO É TOTALMENTE IMUNE. MAS NÃO HÁ BACTÉRIAS EM MARTE E, ASSIM QUE OS INVASORES CHEGARAM, ASSIM QUE COMEÇARAM A BEBER E A COMER, NOSSOS MICROSCÓPICOS ALIADOS COMEÇARAM A PREPARAR SUA QUEDA. ENQUANTO EU OS OBSERVAVA, ELES JÁ ESTAVAM IRREMEDIAVELMENTE CONDENADOS, MORRENDO E APODRECENDO MESMO ENQUANTO SE MOVIAM DE UM LUGAR PARA OUTRO. ERA INEVITÁVEL. PELO PREÇO DE UM BILHÃO DE VIDAS, O HOMEM COMPRARA SEU LUGAR DE DIREITO NA TERRA, QUE LHE PERTENCE EM DETRIMENTO DE TODOS OS INVASORES E QUE CONTINUARIA A PERTENCER-LHE AINDA QUE OS MARCIANOS FOSSEM DEZ VEZES MAIS FORTES DO QUE ERA. POIS O HOMEM NÃO VIVE E NEM MORRE EM VÃO.’’

*Eu esqueci (de novo) de tirar foto do livro antes de devolver à biblioteca, então tô desafiando meu pseudo TOC e burlando a regrinha autoimposta (que provavelmente ninguém mais percebeu que existe, mas ok) de só publicar resenhas com fotos que eu mesma tirei dos livros, e aproveitando esse monte de imagem legal de Guerra dos Mundos que tem nos confins da internet. ;)

28/10/2017

Minha segunda ressaca pós-Breaking Bad

Recentemente meu irmão mais novo acabou Breaking Bad, depois de eu tê-lo iniciado nessa série que vi ano passado e que virou minha favorita da vida (embora não seja A Série da Minha Vida - são coisas distintas -, que é Todo Mundo Odeia o Chris) de todos os tempos pra sempre no universo espacial interestelar amém.
O plot da série gera várias controvérsias e críticas, porque estamos falando de uma pessoa "normal" (embora inteligente além da média), como eu e você, que começa a se envolver na criminalidade produzindo metanfetamina (um mercado destrutivo que consome vidas) e que visivelmente lucra muito com isso e até alcança certo status e respeitabilidade com seu império de drogas. 
Quer dizer, óbvio que vai ter gente doente que vai se inspirar na trajetória do Walt pra fazer coisas igualmente doentes como adicionar corante azul na metanfetamina, pra que fique com a marca Heisenberg, entre outras coisas. 
O ser humano, ele não tem esse negócio tão legal e bonitinho chamado LIMITE.
~A cara da pessoa civilizada que não tem a menor ideia de como se
segura uma arma, mas torce pra estar fazendo do jeito certo.~
(O piloto dessa série = MELHOR PILOTO QUE JÁ EXISTIU.)
Pra quem não tem nenhuma noção a respeito do enredo da série, ela é sobre um professor de química MUITO inteligente, Walter White, que leva uma vida pacata dando aula a estudantes desinteressados no ensino médio, até ser diagnosticado com câncer no pulmão. Ao ver um vídeo de apreensão de drogas feito pelo cunhado da Narcóticos, Hank, ele tem uma epifania e percebe que como aquilo dá muito dinheiro, seria uma boa maneira de assegurar, depois de sua morte, a segurança e estabilidade financeira da esposa grávida, Skyler, e do filho, Walter Jr., que tem um certo nível de paralisia cerebral - já que o salário de professor não ajudaria muito. Pra isso, ele acaba se associando a um ex-aluno bem delinquente e ferrado, Jesse Pinkman, depois que o parceiro do guri é preso. 
Então Heisenberg (o nome que Walt adota no universo do tráfico) produz a metanfetamina e Jesse vende.
Mas claro que ter que manter isso escondido da esposa e filho, além do cunhado DA FUCKING NARCÓTICOS, enquanto desafia a autoridade das principais lideranças de tráfico na cidade - e posteriormente estado, país (POIS É) etc - rende vários probleminhas e complicações ferradas ao longo das cinco temporadas.
E esse é o plot dA MELHOR SÉRIE QUE JÁ FOI FEITA NO UNIVERSO (sim, eu também tô incluindo as produções extraterrestres nessa listagem).
Mas voltando ao enredo e suas controvérsias, embora eu seja consciente de que é necessário adotarmos posicionamentos firmes diante de produções que geram influência e ache que essa é uma discussão válida (que gera um texto bem mais explanativo do que esse aqui vai ser), Breaking Bad é uma obra prima em roteiro, produção e atuações, e não dá pra sermos pretensiosos querendo que narrativas reais sejam abolidas porque elas retratam uma quebra de princípios que defendemos. 
A arte imita a vida, e acompanhar esses retratos não é sinônimo de endossar certos comportamentos - até porque existe uma diferença entre produções que retratam qualquer desvio moral/ético e produções que são desenvolvidas de maneira irresponsável, usando estupro como plot device, representando mulheres como criaturas fúteis e histéricas e ignorando a narrativa de minorias - quando não as humilhando de todo em tela.
A maioria das pessoas que vejo reclamando de Breaking Bad concentra suas críticas na franca decadência moral do personagem - que dá título à série, inclusive. Mas Vince Gilligan (criador da série) já deixou claro que essa é toda a razão de ser do seriado: mostrar os preceitos éticos de um homem atrofiando-se aos poucos, afundando o cara na lama em que a quebra consciente de seus princípios pessoais (Walt era um cara bom que despertava nossa simpatia no início, afinal) resultou.
Se Walt não tomasse decisões sombrias, se não "breakinbadeasse", não seria Breaking Bad.
Nessa entrevista com todo o elenco principal mais o Vince, este último fala sobre como um dos maiores receios dele no decorrer de toda a produção era algo do tipo mas será que alguém realmente vai simpatizar com o Walt (ou não odiá-lo, pelo menos) o suficiente pra assistir a série até o final, mesmo depois das decisões horríveis que ele faz?, e segundos depois ele fala sobre como se surpreendeu (''really?! seriously?!'') com o fato de os telespectadores continuarem acolhendo a série apesar das várias breakinbadeadas do personagem, gerando uma audiência massiva até o episódio final, na quinta temporada.
Então o declínio de Walt era a grande questão da série desdo o início, ainda na mente de seu idealizador, e não apenas um artifício desesperado para atrair o público.
E, sinceramente, mesmo sem justificativa a nenhum desses argumentos que enfocam a maleficência (que emocionante usar essa palavra sem estar falando de uma vilã da Disney) do protagonista tira a série do alto do meu pódio pessoal nem me faz amar menos aquelas cinco temporadas.
Eu me considero uma pessoa metódica e sistemática, pelo menos exteriormente (emocionalmente acho que chuto o balde total), então não gosto de deixar ''pontas soltas'' e coisas inconcluídas, como livros, filmes e séries (exige muito debate mental toda vez que eu largo de mão algumas dessas coisas antes do final propriamente dito); então eu fico muitíssimo mais confortável quando começo uma série que já foi concluída pra sempre amém, porque sei que quando eu chegar ao último episódio, é aquilo ali e acabou, fiz meu trabalho, tá tudo direitinho e quadradinho em seu devido lugar.
Quando eu tava assistindo Gilmore Girls, lá pela terceira temporada, descobri que havia boatos de que a série poderia ganhar uma continuação. Minha reação foi plmdds acaba logo esse troço, não me venham com mais trezentas outras continuações (tipo o que tá acontecendo com Harry Potter) porque eu quero acabar a série de uma vez e deu, ponto final. E é assim com todas.
Ou quase todas. Breaking Bad é minha exceção. Cês podem fazer tudo o que tiver pra fazer dessa bagaça que eu vou assistir me entupindo de pipoca, batendo palma e pedindo mais. Sério. QUALQUER BOSTA eu já tô vendo faceira.
Breaking Bad a partir da visão da pizza que o Walt toca no telhado? ADOREI.
Breaking Bad sendo narrada pelo urso de pelúcia rosa que cai na piscina com o acidente de avião? QUERO.
Breaking Bad toda filmada por uma câmera embutida na muleta do Walter Jr? POR FAVOR SIM.
A paixão é nesse nível.
Em vários links listados um pouco mais abaixo (além da entrevista já compartilhada acima), os atores (especialmente o Bryan Cranston) falam sobre como foi o processo de encontrar o tom certo de cada personagem, como foi ter os sentimentos e pensamentos deles, como foi dar vida a essas criaturas que antes não existiam; a maneira com que eles descrevem isso e submergem no próprio discurso enquanto falam é muito incrível, e só me faz admirar o trabalho final de Breaking Bad, graças, sobretudo, à primazia das atuações.
BB era uma série hypada enquanto esteve no ar (e até hoje) porque, gostos à parte, a produção genuinamente merece todo esse prestígio. É praticamente impecável.
Então não sejemos aquelas pessoinhas que torcem o nariz pra coisas hypadas SÓ POR serem hypadas e nada mais, sem antes tirar a prova por nós mesmos - porque isso é tão tosco quanto bater palmas cegamente, só pela notoriedade popular, antes de avaliarmos sozinhos e chegarmos às nossas próprias conclusões.
Mas como eu ia dizendo, sobre o Mateus (meu irmão) ter terminado a série recentemente e eu ter acompanhado o processo com ele: ele vinha me atualizar nos acontecimentos a cada novo episódio visto, e quando ele terminou eu afundei na minha segunda ressaca pós-Breaking Bad - e ele na primeira dele, inconsolável, como não poderia deixar de ser. #ChoramosJuntos
[Ele achou uma "ala Breaking Bad na OLX" e estamos planejando gastar um total de milhões nos bonecos maravilhosos do Walter e Jess, pôsteres, roupão de química amarelo, SAQUINHOS AZUIS DA METANFETAMINA HEISENBERG SUPER LINDINHOS ♥ (eu sei que não deveria botar um coraçãozinho depois disso), pote de galinha do Pollos Hermanos (que eu quero usar pra botar pipoca; unir o útil ao agradável), uma miniatura do trailer deles e trocentas outras coisas mais.]
Pra me torturar de saudade e entrar mais na onda de nostalgia, eu me toquei em quinhentos links e vídeos sobre Breaking Bad internet adentro, e vou compartilhar alguns aqui.
Eu tava planejando linkar isso tudo na última mescelânea, mas tinha todo esse contexto da minha história com BB a mencionar e são muitos links e eu quis comentar um pouco cada um deles, então o adendo tava ficando grande demais pro outro post e cá estou fazendo um solo só pra minha Breaking Badezinha.
(Se você não curte a série - juro que entendo e te perdôo - , considere o expediente encerrado por aqui.)

Vamos aos links!:

-O site Save Walter White, que o Walter Junior cria na série pra ajudar no tratamento contra o câncer do pai, existe mesmo e acho isso lindo (leiam o texto, é altamente fófis).
-O discurso engraçado (ele sempre) e bonito do Bryan quando ele ganhou o Emmy pela atuação (por favor vejam esta bagaça).
"I have gratitude for all the things that has happened. […] To Anna Gunn, my television wife, extraordinaire, I love you... And specially those scenes in bed."
-O discurso lindinho do Aaron quando ele também ganhou um Emmy, em que ele fala diretamente com o Bryan (quase chorando), agradecendo pela amizade e pelo aprendizado durante os anos juntos no set, de um jeito tocante que quase me fez chorar porque muito amor esses dois, muitos feelings.
-O discurso também lindo da Anna Gunn quando mais ela ganhou um Emmy (eles ganharam os Emmy tudo, mdssss), em que ela também fala diretamente com o Bryan em um outro momento super lindinho. <3
-Sobre como a marca registrada do Jess virou "bitch" e o ator tem que viver com isso.
-A primeira vez em que Bryan e Aaron leram o script do último episódio da série, juntos. (NOSTALGIA, RESSACA, SAUDADE, MELANCOLIA E MAIS VONTADE DE CHORAR AQUI AI QUE DOR)
Obviamente CONTÉM SPOILERS.
-Se Breaking Bad fosse uma sitcom. Com cenas oficiais de um episódio real e com todas as falas originais mantidas, mas com ares de sitcom graças a uma trilha sonora de risadas e à zoeira. É bem bobinho e tal, mas gostei porque sou bem bobinha e tal.
-Essa entrevista em que o Bryan fala sobre como a cena em que ele deixou AQUELA PESSOA QUE VOCÊ QUE VIU SABE QUEM É MAS NÃO VAMOS DAR SPOILER morrer foi a mais intensa de toda a carreira dele, porque ele viu sua própria filha no lugar da personagem, num discurso que mostra quão louco e profundo é esse processo de imersão nos personagens pelo qual bons atores passam.
-Bryan e Aaron no Conan, lendo a carta mais bizarra que eles receberam de uma fã, que começa com "I have never been diagnosed with any psyshotic disorder", e falando sobre como foi ler o último episódio juntos.
-Pelo que entendi, tem um quadro na MTV em que eles gravam um curta zoado com famosos aniversariantes (tem de vários), parodiando vários aspectos da ''vida hollywoodiana''. Fizeram esse com o aniversário de 60 anos (!) do Bryan, e vários outros atores do elenco aparecem. É extremamente forçado e bem ridículo, então ainda não sei se detestei ou se até consigo engolir. MAS, estou listando aqui porque até numa produção zoada dessas o Bryan se destaca na atuação e deixa claro que é um ATORZÃO DA POR**.
He is the one who knocks.
-Essa paródia ridícula do Jimmy Fallon, Joking Bad, é bem ruim (mesmo para algo que não se leva a sério), e a grosso modo eu não teria muitos motivos pra indicar pra ninguém. Mas como o indivíduo em crise de abstinência adota medidas desesperadas, tô incluindo aqui porque aparecem o Aaron, o Saul (?) e o Bryan jogando a famigerada pizza do telhado no palco do Jimmy Fallon Show, então tá valendo só pra matar a saudade.
-Breaking Bad Jr. Paródia de um garotinho de escola que descobre que tem diabetes e começa a vender chiclete ilegalmente nos corredores. Não faz o menos sentido? Não faz. Meio que não tem graça? Meio que não tem. Mas esse blog se compromete a oferecer conteúdo apropriado para todas as idades MENTIRA MAS VAMOS FINGIR.
-Breaking Bad inteira resumida em três minutos através de uma animação. Esse canal faz vários vídeos nesse formato, mas o de BB foi o único que vi.
ÓBVIO que tem spoilers.
-Paródia com a música principal de Frozen. Em vez da ruiva perguntando pra de gelo (claramente sou uma bosta com nomes) ''Do you want to build a snow men?'', temos o Walt perguntando pro Jesse ''Do you want to build a meth lab?''
(Provavelmente sou uma alma perdida por ter rido disso e achado a musiquinha viciante, eu sei.)
-Mais essa entrevista em que Bryan, Aaron e Vince falam sobre muitas coisas da produção e do universo da série (o script do episódio final foi roubado do carro do Bryan! e o ladrão tentou vender num salão de strep tease!), com um momento para perguntas da plateia de fãs.

E os links são esses (aceito recomendações de conteúdos sobre Breaking Bad online, mas boa sorte pra quem tentar aparecer com algo que ainda não vi, porque OLHA).
Como se pode ver nos vídeos nas premiações do Emmy, os atores estão com as mesmas roupas em todos, então eles ganharam aquela PORRADA de prêmios (mais os trezentos outros que não linkei pois LIMITES) na mesma noite. Eu fui na página da série na wikipédia pra tentar listar todos aqui, mas acabei desistindo de contar no meio do parágrafo sobre prêmios e nomeações - só de Emmy foram 10.
Eu ainda quero escrever um texto só sobre a recepção do público (masculino, em sua maioria) à Skyler, esposa do protagonista, e como o ódio que manifestam por ela reflete puro sexismo e a visão de que mulheres são histéricas, baderneiras e estraga prazeres de seus respectivos parceiros. Aparentemente o telespectador masculino médio queria que ela batesse palmas pro marido que virou traficante, sem nem pensar duas vezes e ignorando a segurança dos filhos do casal. Porque, CLARO, se ela resolve se opor, se não acha uma boa ideia (!), se não apoia o marido na mesma hora e, em vez disso, se mostra um ser humano MINIMAMENTE RAZOÁVEL que se preocupa com as consequências que isso trará para a família, ela é uma louca - pensamento que muitos homens deixaram bem claro, na internet. Pelamor, hein... Mas enfim, uma hora esse texto sai.
E se essa linkarada mais meu discurso apaixonado não te convenceu de que Breaking Bad merece ser vista, fique com a cena (a partir do minuto 28:15, mais ou menos; a resolução do site é ruim e eu não devia linkar um produto pirata, mas não consegui achar a cena na íntegra no YouTube, desculpa sociedade)(se você veio do futuro e o arquivo do site não está mais disponível, eu TE OBRIGO a procurar essa cena em qualquer outro lugar, sob pena de receber uma visitinha da minha versão assombrada puxando seu pé no meio da noite - estarei com uma foice)(É SÉRIO, não OUSE voltar aqui antes de ver essa cena) em que a família do Walt faz uma intervenção pra ele aceitar iniciar o tratamento contra o câncer (que, todos sabemos, é bem pesado e debilitante), no quinto episódio da primeira temporada. É uma das cenas mais intensas e carregadas da série e minha melhor ferramenta na hora de mostrar como a atuação do elenco é ES.PE.TA.CU.LAR.PER.FEI.TA.IM.PE.CÁ.VEL.MA.RA.VI.LHO.SA.ES.TOU.MOR.TA. (Sério, QUE obra prima.) 
Ainda não se convenceu? ... Tudo bem, quem sou eu pra me opor? Mas que fique esse registro histórico de que
EU TENTEI.

24/10/2017

O Apanhador de Sonhos

Do Stephen King
Há um tempo atrás, quando fui falar dos meus escritores favoritos até então, me peguei um pouco incerta ao tentar definir por que gosto tanto dos livros do Stephen King. Ao ler esse aqui eu cheguei a uma conclusão bastante simples: ele me faz sentir. 
O que os personagens passam, as perdas, as vitórias, as alegrias e as tristezas, eu sinto junto com eles numa intensidade arrebatadora e real que não é pouca coisa, não - é, inclusive, a grande lacuna que me impede de aproveitar tantos outros escritores que muita gente prestigia... mas com os quais não consigo me envolver. 
King consegue me fazer sentir. E sentir foi o que fiz, de novo, com O Apanhador de Sonhos.
Nesse livro conhecemos quatro - eventualmente cinco - amigos de infância que cresceram juntos, construíram suas vidas e tomaram caminhos diferentes, mas que anualmente se encontram numa cabana no meio de uma floresta do Maine (cenário frequente nos livros do autor) para uma temporada de caça, bebedeira, conversas e nostalgia.
Numa observação inicial, não há nada de excepcional na amizade de Henry, Jonesy, Pete e Beaver, mas a verdade é que a relação dos quatro passou a uni-los até o ponto atual graças a experiências nada convencionais, desde que conheceram o quinto e ocasional membro do grupo: Duddits, um menino com retardo mental, extremamente frágil, gentil e inocente que é detentor de uma habilidade sobrenatural que ele passa a compartilhar com seus amigos por osmose, fazendo com que os cinco sejam protagonistas de episódios um tanto inusitados, que chegam até a render uma publicação no jornal local.
Os poderes de Duddits, dos quais seus amigos compartilham em certa medida, são um tanto imprecisos e vagos, difíceis de sintetizar em palavras, então pouparei meu tempo aqui e deixarei a descoberta pra quem quiser se aventurar no livro. Mas o que devo dizer é que essas habilidades mediúnicas se tornam cruciais na vida dos quatro amigos, já há alguns anos afastados de Duds e adultos, quando a floresta em que eles estão para a temporada de caça se torna o cenário de um conflito nada amigável entre humanos e seres extraterrestres, e eles (os que sobrevivem, porque Stephen King é meio George R.R. Martin e não poupa os personagens de um destino dramático, quando é preciso), aos poucos e sem perceber (ou tampouco querer), se veem como peça central numa batalha dramática e melancólica que decidirá o destino da humanidade.
Eu sei que parece uma premissa extremamente clichê... ''Quatro amigos unidos na luta contra ETs, num embate que decidirá o futuro da humanidade, veja hoje nos cinemas!'' Quer dizer, já ouvimos essa história antes. Mas King acaba fugindo do óbvio graças a alguns elementos a mais, e realmente conseguiu me fazer envolver muito na história (eu tinha ultrapassado a página 300 já no segundo dia de leitura...) desses 5 e de mais alguns ocasionais coadjuvantes que ganham seus momentos de glória ou desgraça aqui e ali, e que são introduzidos de maneira consistente e com personalidade na trama. 
A própria forma de vida alienígena não é das mais tradicionais, a começar pelo fato de que não é apenas uma espécie que vemos em ação, e sim TRÊS criaturas prontas para desgraçar nosso querido planetinha. Há o hominídeo mais tradicional, que nessa versão é cinza, sombrio e toma conta da consciência e autonomia dos humanos que cruzam seu caminho; há também uma criatura perturbadora que o autor descreve como uma fuinha sem patas, com uma cauda vermelha e um monte de dentes assassinos (pois é: WTF?!), que entra DENTRO das pessoas, se aloja no intestino delas e depois de já ter feito certo estrago e usufruído de tudo que o hospedeiro poderia oferecer, sai através de você sabe que lugar, matando o infeliz e todo mundo que aparecer pela frente; e há ainda a terceira forma de vida, a meu ver a mais atípica nesse tipo de narrativa (Homens vs Aliens): uma espécie de fungo vermelho denominado Ripley, que contamina os seres humanos através do contato com feridas e orifícios, e cresce se espalhando no organismo da pessoa e destruindo ela de dentro pra fora. 
A forma com que o SK descreveu essa terceira DESGRAÇA me deixou nos nervos, porque eu tenho um pouco de tripofobia e imaginar aquelas coisas brotando nas pessoas e saindo pelos ouvidos, nariz e boca me deixava arrepiada de asco e desgosto. Urgh.
Além disso, os aliens trouxeram consigo uma habilidade telepática à qual os humanos nas imediações ficavam sujeitos, e isso deu pano pra manga do livro porque obviamente todo mundo na floresta estava SURTADO, ninguém em plena posse de suas faculdades mentais e muitos prontos a sacrificar a pele dos coleguinhas pra poder sobreviver... Mas como agora podiam ler as mentes uns dos outros, descobriam as tramoias alheias e todo mundo saía se matando loucamente porque WELCOME TO THE JUNGLE.
Além de toda a questão com os aliens, que é um tema que eu amo de paixão (ALIENS AMO ALIENS ME DEEM COISAS DE ALIENS VIVA ALIENS), o livro me tocou porque a amizade dos cinco protagonistas é retratada de maneira muito profunda, sentimental e real. Não temos aqui um livro de raça humana contra raça alienígena lutando pela sobrevivência de iguais, temos a história de uma amizade de décadas resistindo e sobrevivendo nesse contexto. A maneira com que o Stephen King desenvolve a narrativa da relação entre os cinco amigos é muito linda, forte e comovente. Me deixou com aquelas lagriminhas tímidas dentro do olho quando eu vi o desfecho da história, que insistem em me acometer ao fim dos livros do autor.
O livro não se perde no clichê porque, tal como escrevi um pouco acima, uma batalha um tanto melancólica é travada, indo além de bombas, explosões, tiros, violência e miolos de variadas raças rolando. O cerne da luta entre humanos e alienígenas no livro se dá no campo das ideias, do pensamento, dos sentidos e da emoção. Há um grande elemento subjetivo (como Stepehen King gosta e explora de maneira a nos sacudir mentalmente em vários títulos seus) que carrega em si toda a razão de ser do romance. Quando isso é percebido e revelado em panos limpos ao fim do livro, nosso cérebro dá aquela pequena expandida que sacode um pouco as estruturas e nos faz ficar com cara de Nazaré por uns bons minutos, sabe? (Eu, inclusive, voltei algumas páginas e reli parágrafos um por um pra ver se tinha sacado mesmo o que o cara queria dizer, porque ler mais de 800 páginas pra no fim não entender mesmo a coisa NÃO ERA UMA OPÇÃO.)
Por fim, digo que o apanhador de sonhos que dá título ao livro era um pequeno artefato (se não me engano, de origem indígena) transformado em objeto decorativo na cabana de caça dos amigos. É o que conhecemos como filtro dos sonhos: servia para que os pesadelos e sonhos ruins ficassem presos em suas teias e linhas, impedidos de perturbar a mente humana. O que o livro destrincha aos poucos e com sutileza, através da batalha aliens x humanos, que no fundo é mais uma batalha da humanidade consigo mesma, é o fato de já sermos apanhadores dos sonhos nós mesmos, retendo e absorvendo tudo de ruim, tóxico e danoso que nos cerca.
Esse livro é uma ficção que eu amei descobrir num fim de semana chuvoso e sem internet, e que recomendo aqui pra quem estiver com vontade de aliens e com algum tempo de sobra (são mais de 800 páginas, afinal). Mas mais do que uma trama fictícia pra embalar um fim de semana, o que Stephen King faz aqui é dizer que Apanhadores de Sonhos somos eu e você. Somos todos nós.


''ISSO É UM ERRO. ISSO É TAMBÉM COMO UMA VIDA MUDA PARA SEMPRE.''

18/10/2017

A Estrada das Flores de Miral

Da Rula Jebreal 
O cenário é a região do Oriente Médio que abriga o conflito constante que ocorre entre Palestina e Israel, no qual as duas nações disputam pela dominação do território palestino, num embate que se arrasta desde o século XIX e que teve início com o movimento sionista judeu, quando esse povo migrou massivamente em direção àqueles territórios em busca da Terra Prometida. Desde então, muçulmanos (parte do povo palestino) e judeus (povo israelense) têm lutado pela soberania da região, num embate profundamente marcado pelo fanatismo e intolerância religiosos.
Com a constante repressão que Israel provoca sobre os palestinos, ao deter maior parte do controle sobre a região por meio da ocupação militar e graças a um poderio armamentista maior, muitos deles acabam conhecendo apenas esse território opressivo em que lhes é negada uma identidade, uma pátria. Acabam sendo um ‘’povo sem nação’’, expressão que aparece algumas vezes ao longo do romance. 

''[...] a ocupação militar é um monstro feroz. Ela extingue lentamente os seus sonhos, suas esperanças e até mesmo o seu futuro. E, gradualmente, muda quem você é.''

''Não quero virar um herói. É suficiente para mim ser um soldado lutando por um país que não existe, mas é meu.''

E é sobre mulheres que crescem nesse cenário e fazem parte desse povo desamparado que esse livro fala.
Toda a história gira em torno de Dar El-Tifel, um orfanato para meninas nascido da vontade de uma mulher fortíssima e à frente dos limites impostos por sua própria cultura (de costumes extremamente conservadores, principalmente se tratando de mulheres) de ajudar crianças abandonadas em meio àquele ambiente de guerra e violência. Essa mulher se chama Hind, e a partir dos primeiros capítulos em que conhecemos sua história, temos contato também com a jornada de várias outras meninas e mulheres (cada parte do livro, com exceção de uma – são cinco ao todo – leva como título o nome de uma mulher) cujos caminhos cruzam o daquela instituição que passou a ser tão importante e querida na comunidade. 
Este livro, portanto, é definitivamente um livro sobre mulheres – mulheres simples, complexas, saudáveis, doentes, esquecidas, privilegiadas, resistentes, frágeis, maltratadas, amadas, odiadas... Mas todas mulheres que escrevem a própria história.
Com uma linguagem muito simples e acessível, o livro aborda e discursa com propriedade sobre temas muito pertinentes e atuais: extremismo, intolerância, machismo, política, repressão, guerra, violência, religião e uma gama de outros tópicos, tudo tendo como pano de fundo a vida de várias meninas do orfanato, que são afetadas e crescem envoltas por todas essas questões.
Embora o livro passe quase metade das páginas alternando entre uma protagonista e outra, ele acaba culminando na história de Miral, uma moça de Dar El-Tifel que vemos crescer e perder sua inocência e ingenuidade aos poucos, ao ver a realidade de seu povo. Não demora para que ela se envolva politicamente e se torne uma militante engajada, participando de inúmeros protestos e iniciativas que constantemente colocam sua vida em risco.
Através de sua luta e motivações, vamos refletindo sobre todas essas questões e esse cenário – que é real, existe e está acontecendo agora mesmo, enquanto estou aqui digitando esse texto – vai tomando forma de maneira mais nítida em nossa cabeça, nos fazendo atentar para essa realidade que corre no outro lado do globo.
No comentário que vai no topo da capa, feito pelo(a) crítico(a) de não lembro que jornal (e a péssima resolução da foto nesse post também não ajuda a visualizar), diz-se que ''esse livro humaniza o conflito entre palestinos e israelenses''. Essa frase é perfeita e eu não poderia escolher uma sentença melhor para resumir o que encontramos entre essas páginas.
Acima de tudo, o que A Estrada das Flores de Miral faz é nos contar uma história. Não para que ela vire um best seller e encha os bolsos de uma editora, mas para que ela se torne conhecida e não seja esquecida com o tempo, jamais. Nos conta a história de pessoas reais que estão vivendo e cuja existência precisamos conhecer, porque só através da informação aquele cenário pode ser mudado.
A Estrada das Flores de Miral dá nome e rosto a inúmeros personagens de manchetes e reportagens trágicas que chegam até a nossa mídia sem quaisquer nomes e rostos. 

"[…] ainda estava abalada, como se fantasmas que até algumas horas antes existiam apenas em matérias de jornal ou relatos na televisão tivessem subitamente se materializado e assumido rostos e nomes bem definidos."

Essa história - apesar de simples, fictícia e claramente voltada ao público juvenil - atua como uma espécie de testemunho histórico do que acontece naquela região do Oriente Médio que nos parece tão distante mas que abriga trajetórias, vidas, pessoas, crianças e mulheres iguais a mim e a você.
E como é quase uma omissão nos negarmos a enxergar realidades diferentes das nossas, esse livro é importante, sim, e torço para que muitos outros como ele sejam publicados, popularizem e alcancem um número maior de pessoas.
E ele é muito bonito.
Então, bom, eu recomendo pra caramba - e arrisco dizer que você vai gostar ainda mais se for uma mulher que não se conforma com o que deve ser mudado (oi, patriarcado).

''ELA TINHA A SENSAÇÃO DE PERTENCER ÀQUELA PORÇÃO DA HUMANIDADE QUE NÃO SE RESIGNA E SE SUBMETE ÀS CIRCUNSTÂNCIAS, MAS, EM VEZ DISSO, RESOLVE MUDÁ-LAS.''

15/10/2017

Últimas Tardes Com Teresa

Do Juan Marsé
Tirei da estante na maior inocência esperando o livro leve e fluído que o título e a capa bonitinhos pareciam anunciar, mas fui surpreendida por uma história política que discute ideologias implicitamente e uma narrativa densa pra caramba, usando como catalisador o romance fugaz de um casal de classes bem antagônicas.
Embora eu deteste espanhol (pois é), ultimamente tenho me apaixonado bastante por livros desenvolvidos nesse idioma, e essa é a língua mãe de alguns dos meus escritores favoritos. A escrita de Últimas Tardes Com Teresa, por sua vez, não foi ruim, apenas bastante diferente do que eu esperava. 
Marsé tem aquele estilo meditativo e romântico que sai devaneando dentro dos assuntos que estão sendo abordados, de modo a fazer com que tópicos a princípio conduzidos de maneira superficial acabem cobrindo páginas e mais páginas graças às reflexões que o escritor desenvolve através deles. Embora eu decididamente não desgoste desse tipo de escrita (sou Uma Criatura Melancólica Que Devaneia Muito), ela faz com que a leitura se torne um tanto dispendiosa e complexa, exigindo plena atenção do leitor em cada parágrafo, para que a linha de raciocínio não se perca. Por esse motivo, UTCT foi uma leitura muito mais densa e com muito menos leveza do que eu esperava.
Nessa história, conhecemos Pijoaparte (que também atende por Manolo e tem tantos apelidos que eu nem sei mais qual é o verdadeiro nome dele, desculpa aí), um rapaz inculto, nem um pouco versado nos assuntos discutidos nos grandes ciclos de conhecimento e informação, sem qualquer tipo de formação acadêmica ou profissional, e um miserável que se sustenta com o dinheiro que consegue com o roubo e desmanche de motocicletas, numa oficina que pertence a um líder de quadrilha na comunidade pobre em que ele vive; e conhecemos também Teresa, uma moça rica e da alta sociedade, que mora num casarão com empregadas (uma delas é Maruja, com quem Pijoaparte se relaciona a princípio), viaja com frequência, frequenta uma universidade cara, tem tudo que o dinheiro pode oferecer e é rodeada por amigos e colegas de classe alta, com os quais milita por causas que muitas vezes nem entendem.
Eles poderiam ser completos antagonistas se não fosse por um pequeno detalhe: ambos tem um interesse especial pela vida um do outro, por razões específicas, distintas e um tanto oportunistas, se formos parar para pensar. Por se interessarem mutuamente, acabam desenvolvendo um relacionamento meio capenga, e é essa relação que nos trás à mostra o que o autor queria retratar: a contraposição de classes que, postas lado a lado, evidenciam um contraste, quase uma antítese, impossível de ignorar.
Pijoaparte é um cara um tanto cretino, pra dizer o mínimo com manias de grandeza que não se conforma com a própria pobreza e está constantemente buscando oportunidades de fugir de sua vida ordinária; é numa dessas oportunidades que ele acaba se envolvendo com Teresa, a moça bela, rica e culta que tem tudo que ele jamais pôde ter. É por isso que ele se liga à Teresa, por sua vontade de negar as próprias origens e experimentar o que o mundo dos ricos pode oferecer.
Teresa, por outro lado, é uma jovem privilegiada, mas imatura, crescendo num ambiente (o da universidade cara) povoado por ideologias, movimentos sociais e questões políticas que ela, como a maioria de seus colegas, pouco entende mas segue apregoando porque né, vamos tentar ser cultos aqui, mesmo que para isso a gente precise repetir frases decoradas cujo significado, em verdade, desconhecemos. 
Ela está frequentemente dentro de discussões políticas com o grupo de amigos que tem, vai a passeatas em nome dos desfavorecidos, milita por causas que lhe parecem justas, protesta, se revolta, discute, luta e por aí vai. Quando ela conhece Pijoaparte, aquele cara de um universo completamente diferente do dela, um rapaz pobre que sofre a desigualdade social na pele todo dia, ela – tal como seus colegas e o parceiro amoroso de então -  fica fascinada, porque ele é o epítome de toda a classe pela qual ela se interessa e, a seu modo, luta, e que é totalmente diferente e nova para ela. 
E é por isso que ela se liga a Pijoaparte, pela oportunidade de tocar esse mundo no qual ela pensa tanto e que está muito presente em suas ideologias, mas que também sempre esteve muito distante.
O que Marsé faz aqui é muito semelhante ao que John Fowles já havia feito (de maneira melhor, na minha humilde opinião - embora eles tenham pontos distintos e não sejam lá muito comparáveis) apenas três anos antes com outro clássico, um dos meus favoritos, O Colecionador (LEIAM ESTA BAGAÇA, JÁ). Ambos colocam duas personalidades opostas num mesmo plano e deixam os acontecimentos correrem, para que vejamos a patente dualidade que há na situação. Mas O Colecionador faz isso de maneira mais contundente e passa longe de carregar a inegável sutileza presente em Últimas Tardes Com Teresa.
O livro, trabalhando essas questões, acaba sendo um ensaio sobre gerações e classes que se opõem – bem diferente de toda a coisinha mamão com açúcar que eu supus pela capa.
Embora esse talvez não seja o centro da narrativa, o que mais me chamou atenção foi a forma com que Marsé sintetiza em Teresa e seus colegas toda uma geração de jovens que crescem meio perdidos entre ideologias, posicionamentos e frentes políticas/sociais distintas, sem nem saber, muitas vezes, o que é o quê (em vários momentos em que estamos dentro da cabeça de Teresa e seus amigos, o autor deixa evidente a confusão e ignorância deles diante dos próprios comentários, que fazem meio receosos, sabendo que podem não ter muito sentido ou coerência, mas torcem pra que ninguém mais note isso), mas mantendo uma postura militante e repetindo os mesmos discursos (ctrl + c ctrl + v) over and over again mesmo assim. 
O livro foi publicado em 1966 tendo como cenário a Espanha, mas ao lê-lo lembrei de um conhecido falando sobre como participou de algumas passeatas de protesto que ocorreram no Brasil em 2013, mas voltou pra casa desanimado e desiludido após conversar com algumas pessoas e perceber que, no meio daquela multidão com o rosto pintado e bandeiras em punho, muita gente não tinha nem ideia de por que estava ali e estava mais ~seguindo o fluxo~ do que qualquer outra coisa.
Enfim, são questões.
Pra concluir, digo que o livro me fez pensar, e pra mim isso sempre valida uma leitura; mas ele está longe de ser um favorito, porque acabei achando a narrativa do Marsé muito mais prolixa do que necessário, ao ponto de se tornar exaustiva. Tudo acaba sendo abordado de maneira tão densa e cansativa que isso quase põe em xeque as questões que o livro busca discutir, visto que elas acabam sendo soterradas por aquela narrativa um tanto maçante. Mas isso é a minha opinião, e deixando ela um pouco de lado, não vou desencorajar ninguém a lê-lo... Desde que você seja paciente e bem determinado. 
E, REFORÇANDO, também não deixe de ler O Colecionador, pelo bem do nosso relacionamento de dona de um sitezinho tosco e leitor, capiche?

Era até curioso: ela nunca teria imaginado que isso fosse assim, nunca havia conhecido ninguém como ele, vivendo sozinho e em luta permanente como ele, ela jamais teria imaginado que sua indigência fosse sua força, sua expressão mais firme da verdade. Pensou precipitadamente: tão pouco eu, até há pouco, acreditava estar tão sozinha e desorientada; porque as coisas não foram como pensava, como todos diziam que eram, como me ensinaram em casa e na universidade. Mas ele acaba de me convencer de que assim somos nós, e assim são as coisas, assim acontecem.”

07/10/2017

Mescelânea Setembro 2017

Se você for uma pessoa esquisita atenta, vai perceber que eu mudei o nome dessa categoria de texto em que falo sobre coisas lidas/vistas/clicadas/etc no mês, porque ''Coletânea Mensal'' tava me deixando com a famigerada dor no pâncreas.
Coisinhas do Mês é um pouco ~estranho~ e até soa meio errado? Sim, é; sim, soa. Mas VAMOS FINGIR QUE NÃO. =)

Lidos
Setembro foi um mês bonitinho para as minhas leituras, pois: mulheres lindas/lidas. Os títulos foram A Vida Secreta das Abelhas (Sue Monk Kidd), Últimas Tardes Com Teresa (Juan Marsé), A Estrada das Flores de Miral (Rula Jebreal) e Pelos Olhos de Maisie (Henry James); duas escritoras e dois escritores diferentes. Os livros das mulheres foram, olha que lindo, sobre mulheres, e estarão em alguma lista futura sobre histórias femininas que ainda pretendo escrever por aqui. E os escritos por homens, coincidentemente, levam nomes de mulheres no título, mas gostei menos deles e não dá pra dizer que são sobre mulheres, tanto quanto os outros dois.
Só não vou resenhar Maisie […] porque eu tava escrevendo 5 ou mais resenhas por mês e acho demais até pra mim, então a partir de agora vou me dar ao luxo de não escrever sobre pelo menos uma leitura de cada mês - já é uma folga pra quem (eu) tava se sobrecarregando resenhando absolutamente TODOS os livros lidos, pra não deixar o ritmo de escrita morrer.
Mas enfim, sobre o único não resenhado: POdM é sobre uma mocinha cujo tempo é dividido entre os pais recém divorciados e que acaba passando de mão em mão (pais, madrasta, padrasto, empregadas, tutoras...) sem ter um responsável fixo (e referencial). O livro ilustra o circo em que, muitas vezes, se transforma a vida de crianças nessa situação. Poderia ser interessante, mas acaba sendo maçante demais pra isso, então não recomendo.
O resto tá (ou estará em breve) pelo blog.

Assistidos
Foram seis filmes e seis temporadas de três séries diferentes (fiz as contas agora e vi que no total foram 106 FUCKING EPISÓDIOS e isso me deixou meio assustada) esse mês.

Ensaio Sobre a Cegueira
Tinha lido o livro há pouco e logo coloquei na lista pra assistir, principalmente porque eu amo a Julianne Moore ♥.
É uma produção bem brasileira e muito boa, retratada de maneira crua e fazendo juz ao que Saramago escreveu.
Mas, olha, passei maus bocados (porque não encontro outra forma de dizer isso) com uma cena de estupro coletivo que desgraçou meu emocional, me fez chorar em silêncio, sozinha no meio da madrugada, e me deixou tristíssima e com nojo de parte da humanidade, porque merdas como aquela ocorrem na vida real todo dia. Exige uma certa preparação emocional que eu aparentemente não tinha.

Expresso do Amanha
Minha cunhada (Bel, a mesma que dormiu durante Forest Gump (vai assistir Forest Gump, Beeeeellll!!!!!) nesse post) veio aqui em casa e nós (ela, eu, Taiane e Mateus) assistimos a dois filmes em sequência na netflix do meu irmão. Esse é um deles.
É sobre um futuro distópico num trem que abriga o que restou da humanidade depois de termos destruído a Terra pela bilionésima vez (sem nunca aprender, porque claramente BURROS) e tornado ela inabitável. Aí um louco foi lá, construiu um trem gigante que ele passa a presidir e que está há 18 anos rodando pelo planeta sem que ninguém possa sair sem morrer, já que o ecossistema está ferradíssimo e não há como sobreviver nele.
Mas claro que além de sermos imbecis com o planeta, somos imbecis entre nós também, e o trem acabou se dividindo em vagões com diferentes qualidades de vida, tal como a sociedade é dividida em classes. Enquanto o pessoal da frente vive no luxo comendo sushi e caviar, passando a tarde na sauna ou na piscina e tendo todo o conforto que a riqueza pode proporcionar, o pessoal do fundão não toma banho há anos, faz cocô no potinho, tem partes do corpo arrancadas como forma de repressão e come um tablete preto que é uma papa solidificada de insetos triturados. =)
É uma ideia razoável e amo distopias, mas a coisa acaba ficando exagerada e inverossímil, com uns personagens ridículos e situações meio forçadas. Ainda assim tá valendo porque quando eu disse que AMO distopias I REALLY MEANT IT.

Lion
Segundo filme que a gente viu naquela noite. História real de um menino indiano (acho) que entrou num trem estacionado na estação, dormiu lá dentro e acordou a TROLHOCENTOS km de distância de sua cidade, mãe e irmão. Como era pequeninho e não tinha ideia de como dizer onde morava (o nome da cidade que ele falou aos posteriores responsáveis não existia), ele acabou sendo adotado por um casal americano (Nicole Kidman faz a mãe ♥) ricasso com quem ficou por mais de 20 anos, e teve uma vida imensamente mais privilegiada do que teria com a mãe que trabalhava catando pedras (?) num terreno.
É uma história bonita, tal como o filme feito dela, mas não vou contar aqui o desfecho - nem o porquê do nome ser Lion, que me fez sorrir quando eu soube. Assista.

O Abutre
Vi sozinha porque eles começaram a jogar UNO e eu não tava a fim, apesar de amar UNO e obviamente ganhar todas (cof cof).
Sobre um cara cretino e miserável que não tem como se sustentar até descobrir que os telejornais da cidade pagam por imagens e gravações de desastres que eles possam noticiar. E aí, tal qual abutres rondando uma carniça, ele começa a perseguir as desgraças (incêndios, atropelamentos, assassinatos, tiroteios etc) que ocorrem na cidade, gravando tudo e vendendo pra uma jornalista... Só que chega um momento em que ele começa a ir longe demais.
Gostei, embora o final tenha me deixado meio insatisfeita. É o meu tipo de filme (e tem o Jake Gallagher, que é meu tipo de homem). ;)

American Psycho
Aahh, esse filminho! ♥ Ele acabou virando uma espécie de referência clássica na cultura pop e eu queria vê-lo há tempos.
Carinha que leva uma vida privilegiada, é atraente e tem um corpo lindo (não podíamos esperar menos de quem posteriormente virou o fucking Batman), trabalha num escritório só dele, come em restaurantes finos, tem um apartamento maravilhoso na cidade e dorme com quantas mulheres desejar... Mas que ainda assim tem uma vidinha ordinária com um vazio que ele tenta preencher, olha só que legal, ASSASSINANDO PESSOINHAS.
É uma crítica velada ao American Way Of Life.
Amei e posso dizer que "I have to return some video tapes" virou meu lema pra todas as vezes em que eu quiser desviar de compromissos inoportunos ou circunstâncias incômodas. ;)

Os Suspeitos
Vimos em outra noite em que Bel esteve aqui, fizemos xis caseiro (e MUITA bagunça) com tudo o que minha mãe conseguiu achar no mercado e jogamos uns jogos (I wanna play a game with you feelings).
Quase tenho certeza de que esse foi o melhor thriller psicológico do ano, e sem dúvida o melhor filme investigativo em muito tempo.
Duas menininhas desaparecem e tudo parece indicar que o culpado é um cara com retardo mental que estava num trailer perto do qual elas estavam brincando. Mas como o homi foi liberado por falta de provas, o pai de uma delas sequestra ele e... Plays a game with him, basicamente. A really serious one, se é que vocês me entendem. Tortura o guri querendo arrancar uma confissão dele enquanto o tempo corre e as duas continuam desaparecidas. E um monte de outras coisas doidas ocorrem, adicionando cada vez mais peças ao quebra-cabeça e fazendo o mistério ficar mais intrincado, naturalmente.
O bom desse filme foi que ele realmente deu meios para que solucionássemos o mistério - e conseguimos, uns dez minutos antes de todas as cartas serem jogadas na mesa, haha.
Adoro bancar a Sherlock Holmes e se eu pudesse obrigar todo mundo a assistir e depois vir aqui me dizer se conseguiu desvendar a trama, EU OBRIGARIA.

Gilmore Girls
Eu terminei Gilmore Girls. \o/ Vi as três últimas temporadas esse mês.
Olha, eu tô meio saturada da série, depois da maratona, e ainda vou escrever mais sobre ela aqui. Por hora mantenho o discurso de que meus sentimentos por ela são meio conflituosos. Enquanto esse Grande Texto não vem, fica aqui um resumo do que rolou nesse mês envolvendo GG.
Olhando a série, eu não sinto muito aquele impulso de discutir certas coisas, porque muitas delas, a princípio, não despertam o meu interesse tanto assim. Mas me bate uma vontade de debater um pouco quando vejo o que outras pessoas dizem sobre ela (e eu vi que o pessoal que gosta de GG também ADORA passar horas discutindo sobre). Uma dessas coisas (que me fazem ficar com a pulga atrás da orelha) é a maneira como todo mundo parece odiar o Dean, por exemplo (acho que preciso escrever um texto sobre isso separadamente, porque VÁRIAS QUESTÕES).
Mas como não quero entrar no mérito Boys da Rory (esse ponto em que o pessoal sempre insiste quando se fala de Gilmore Girls, e no qual eu não queria me prender muito, mas não tem jeito...) no meu futuro TEXTÃO sobre Minha Saga Com Gilmore Girls e prefiro encerrar o tópico aqui mesmo (+ no futuro texto solo sobre o Dean), falarei um pouco sobre isso aqui: eu achei que não poderia detestar nenhum boy dela mais do que o Jess (AAAAAHHHH JESS, ODEIO JESS, MORRA JESS), mas aí chegou o Logan e PELO AMOR, QUE REPULSA, QUE ÓDIO.
Quer dizer, eu me pegava fazendo cara de nojinho (pois FRESCA) toda vez que a Rory beijava o Jess, porque ôôôôô carinha merda. Mas quando chegou o Logan, eu me surpreendia fazendo caretas involuntárias sempre que eles simplesmente apareciam juntos na mesma cena. Nem precisavam se aproximar muito não, era só o Logan estar por perto dela que eu já começava a ter espasmos faciais acompanhados do sentimento de que, de algum jeito, o fato de ele existir e eles estarem juntos namorando fosse simplesmente errado demais pra ser digerível, entende?
Quer dizer, o relacionamento dela com o Jess me irritava, mas o com o Logan genuinamente incomodava algo dentro da minha alma (sintam o drama), de tão errada que aquela desgraça parecia.
Sabe quando ele vai pra sei lá que raio de lugar pular de paraquedas inconsequentemente (por motivos de IMBECIL) com os amigos, se acidenta e vai parar no hospital? Eu torci, de verdade e com toda a mais sincera esperança a que eu tinha direito, pra que o enredo virasse num plot twist que eu ia ADORAR e o Logan totalmente MORRESSE. Juro que quando vi a cara de desespero da Rory no telefonema do hospital uma voz dentro de mim ficou cantando felizinha como quem tá passeando na floresta com uma cestinha, cantarolando e colhendo moranguinhos: "aaaaahhhh, ele vai morrer, ai por favor morre, morre, morre, pleaaaasssseee, lálálá-á Paladinos FAÇAM ELE MORRER, me digam que vocês fizeram isso por mim, por favor, IUUUUPIIII ele vai morre-er, ele vai morre-er, eeeeeebbbbbaaaa, MORRE! Nananananá-ná!"
Mas o desgraçado não morreu.
Eu parei pra refletir que não devia detestar o Logan só por ele ser "um riquinho" mimado, porque isso seria preconceito; quer dizer, o cara não tem culpa de ser rico (kkkkk) e isso não devia guiar meu julgamento. Mas acontece que o Logan >É< um daqueles ricos babacas estereotipados que pintam e bordam, fazem o que querem e são uns merdas (desculpa o palavreado, mãe). Então eu odiei sem culpa mesmo e até agora não entendi por que a Rory ficou 3 fucking temporadas com aquela joça.
Em termos de personalidade, o cara que eu mais gostei, de longe, foi o Dean. Ele é gentil, humilde, mais sereno que os outros, legalzinho... Só que tem aqueles pensamentos de macho ignorante e, PELO AMOR, eles ficaram (porque não excluo a responsabilidade moral da Rory aqui, também) enquanto ele estava casado com outra moça e deu toda aquela merda então SEM CONDIÇÕES de eles ficarem juntos.
Tô me sentindo meio megera porque eu detestei um namorado dela atrás do outro (com exceção do Dean; tenho minhas questões com ele mas não o detestei), mds... Mas, mesmo não gostando do Jess (eu juro que não consigo compreender quando colocam ele num patamar "cara dos sonhos" - que é um conceito bem merda, por sinal), entre os três, devo admitir que ele é o cara menos errado (não certo, só menos errado mesmo) pra ficar com ela, >principalmente< porque nas últimas temporadas (e no revival) ele vai ficando mais humano (e menos Brucutu) e tolerável, né, alguém mais percebeu isso?
Mas o Jess do início eu acho um completo cocô.
Acho que o relacionamento da Rory que deu mais errado (não como escolha de roteiro, achei importante terem desenvolvido essa trajetória com os personagens) foi com o Dean; era o primeiro namoro e os dois fizeram MUITA merda, tiveram muitas briguinhas imaturas e erraram demais, PUTEZ. Mas o que continuo detestando mais (e que não me incomodaria se fosse excluído do roteiro) é sem dúvida Rory e Logan.
Então, só sobrou o Jess mesmo, fazer o quê? (Mas continuo achando ele bem porcaria, sorry.)
Inclusive, alguém já pensou nos ships (é assim que fala?) bizarrinhos que os fãs iam criar pros casais no twitter hoje em dia? Rogan? (Acharia digno se o filho do Wolverine se chamasse assim.) Lory? Jerry? (Não dá porque já o nome do rato. Droga.) Roress? (Esse não dá porque é horrível mesmo.) Deary? Rorean? São questões.
Pra encerrar o tópico, outro discurso que repito aqui é: LORELAI, MELHOR CER HOMANO.
(E, plmdds, se houve uma coisa que fez o revival - que de maneira geral eu achei bem horrivelzinho - valer a pena, foi ver como o Milo Ventimiglia e o Jared Padalecki envelheceram MARAVILHOSAMENTE bem.)

Bates Motel
Vi a quinta e última temporada de Bates Motel que saiu esse ano. \o/
A série é uma espécie de adaptação do filme Psicose (aquele com a cena fatídica em que uma mulher é esfaqueada na banheira por um assassino que a gente não consegue ver, ao som daquela trilha sonora que virou um dos maiores ÍCONES de todos os tempos na história do cinema, MELHOR MUSIQUÍNEA), do Hitchcock, que na produção atual conta a história de uma mãe e um filho (Norma e Norman) que compram um hotel e se mudam pra uma cidade pequena e soturna onde coisas bizarras acontecem.
O problema é que o Norman tem transtorno de personalidade e de vez em quando tem uns apagões, dos quais ele sai sem lembrar de nada. E o que ele faz durante os apagões?, você me pergunta. Na cabeça dele ele vira a Norma e ASSASSINA PESSOINHAS, yeeeey!
Aí você coloca uma mãe preocupada com um filho que ela desconfia estar aprontando algo, e um filho que jura de pé junto que a mãe dá umas loucas ocasionalmente e sai matando gentes. Mas nenhum deles fala nada e só fica aquele climão sombrio de mds dó céu TEM ALGUMA COISA MUITO ERRADA ACONTECENO HOLLY SHIT EVERYWHERE.
Detalhe super legal e oportuno: ambos comandam um hotel numa cidadezinha esquecida em que gente desconhecida vinda de lugar nenhum pra Deus sabe onde se hospeda de vez em quando... Não preciso dizer que muitos deles jamais conseguem fazer o check off, né?
Eu gostei bastante porque amo séries ~sombrias~ assim e histórias com personagens que são completos MANÍACOS PSICOPATAS DO CAPYROTO, e o ator do Norman (não sei o nome dele porque nunca sei o nome de artista nenhum) faz o personagem muito bem.
A Vera Farmiga (sei o nome dela pois MARAVILHOSA) está completamente IM.PE.CÁ.VEL no papel da Norma e pra mim é um mistério enorme a série ter sido esquecida pelo Emmy, porque tá boa demais.
Mas não vai ser esquecida por esse bloguinho aqui, então fica meu recado de ASSISTAM.

Game Of Thrones
Eu voltei a ver GoT. Pois é.
Eu li os livros sem nem pensar na série, mas um dia tava de bobeira e... Por que não? Assisti até a terceira temporada e depois nunca mais, larguei e não senti muita falta.
Eu evito falar da série pra não dar uma de A Pessoa Chata Que Leu Os Livros e Fica Enchendo o Saco Dizendo Que a Adaptação Televisiva é Uma Bosta, até porque eu não acho uma bosta... Mas ainda não consigo me entender com algumas alterações inexplicáveis que eles fazem na história. "Ahh, mas é uma adaptação, não é pra ser igual!" Eu sei, amiguinho, mas DANE-SE, se os livros são perfeitos e cada detalhe se encaixa per.fei.ta.men.te, e as criaturas se propuseram a fazer uma série televisiva baseada nos livros, RESPEITA A DROGA DA HISTÓRIA E NÃO FAZ UM BEBÊ NADA A VER VIRAR UM WHITE WALKER (e outros detalhes mais) PORQUE ISSO FICA EXTREMAMENTE ESCROTO (eu quase chorei nessa cena porque meus olhos não queriam acreditar na merda que foi feita pelos roteiristas, e sei que todo mundo que leu tá comigo), POR FAVOR, OBRIGADA.
Mas enfim, agora, quatro anos depois de ter lido GoT (li com 15 anos), eu me vi me entendendo mais com a série e acabei viciada como quase todo mundo e na onda da maior e mais famosa série de todos os tempos (pelo menos em termos de popularidade), vamos admitir.
Vi a quarta e a quinta temporadas em, sei lá, menos de uma semana, e só faltam três episódios da sexta e mais a sétima, porque tive que interromper o fluxo graças à internet que tá em qualquer lugar menos aqui em casa esses dias.
Mas logo a coisa volta e eu ME AFOGO na história de novo, amém. ♥
Ainda acho que a experiência com a série televisiva acaba sendo bem diferente para os espectadores que leram os livros (não tem como não ser), e tenho ressalvas a respeito do tratamento que as mulheres recebem dos roteiristas (fazendo um cálculo mental, chego à estimativa de que tenho vontade de assassinar lentamente e sem dó 9 a cada 10 machos escrotos que aparecem na tela; eu ia cortar muitos pintos se vivesse na idade média de Game Of Thrones, seriously), mas meu coração está fisgado mesmo assim - culpo os lobos, os dragõezinhos e o Kit Harington Jon Snow. ♥

Links, LINKS EVERYWHERE
- Meu irmão esses dias veio fora de si me mostrar umas fotos que ele achou numa página zoada do instagram, e naquele momento eu fui introduzida ao Mundo Dos Bichinhos Com a Cara Inchada Por Terem Sido Picados Por Abelhas.
Me deu dó? Sim, me deu. Eu preferia que nenhum deles tivesse passado por aquilo, em detrimento do alívio cômico histérico que me causou? Preferia. Dá dó mas, Deus que me perdoe, é MUITO engraçado e eu e o Mateus não sabíamos como lidar com a fofura bizarra daquelas fotos.
Como sou uma pessoa horrível, fiz uma compilação dos meus favoritos (eu não presto, plmdds) no tumblr pra vocês clicarem! E esse é o grand finale, escolhido em consenso por nossa banca examinadora como A Foto De Bichinho Mais Hilária de Todos os Tempos Forever Always.
(Eu também achei esse aqui. Eu não sei o que aconteceu com o pobrezinho, mas torço muito pra ter sido obra de uma abelha também. É isso ou má formação congênita.)

- Normalmente eu tenho ódio declarado desses caras babacas que ficam enchendo o saco daqueles guardas britânicos que não esboçam reação (DEIXEM OS CARAS EM PAZ, SEUS BOSTAS!), mas, desculpa, não consegui não rir desse vídeo.

- Mateus veio me mostrar mais esse vídeo no meio da madrugada e nós fizemos um FIASCO tentando abafar a risada enquanto toda a casa já tava dormindo. É de um cara ("fulano da esfirra") brigando. com. UM. FANTOCHE. que tava irritando ele (GENTE, o que é o ser humano brasileiro) no meio de um programa ao vivo. É uma droga, mas é esse tipo de pérola que me faz AMAR O BRASIL.
Eu CHO.RA.VA (não tô de sacanagem) de rir no meio da noite com esse troço e o Mateus do lado, vocês não tem noção. Não sei o que me dá, mas desde então sou INCAPAZ de ver esse negócio sem morrer afogada no meu próprio riso (oi?).
As partes em que o cara por trás do fantoche SE JOGA pra fora do cenário Casa Do Fantoche pra fugir do tio da esfirra e os momentos em que o tio da esfirra agarra desesperado a cabeleira do fantoche e puxa como se a vida dele dependesse disso e o bicho realmente estivesse vivo e sentisse dor = MELHORES PARTES.
Também fica aqui minha admiração pelo Nunes Filho, o cantor no meio do cenário todo, que manteve a pose e segurou o tranco lindo e belo com o microfone na mãe e continuou cantando, mesmo quando tinha aquela farra zoando tudo, porque esse é o espírito artístico e o show deve continuar.
(Mais tarde eu lembrei que já tinha visto esse vídeo mas NÃO SEI COMO esqueci dele. Grazadeus Mateus estava aqui me reapresentar a essa dádiva. Assista, please, nunca te pedi nada.)

E é isso aí. Esse post tá bem atrasado mas é o desânimo A PREGUIÇA a vida blablablá, obrigada por ler, você é demais, volte sempre. =)