27/09/2017

A Vida Secreta das Abelhas

Da Sue Monk Kidd
Que leiturinha do amor, já começo dizendo isso. Eu não tinha nenhum conhecimento a respeito do livro (que foi adaptado para um filme homônimo) quando o encontrei na estante, mas ele foi exatamente o que esperei ao ver a capa (porque elas fazem diferença, afinal), ler a sinopse e anotar o nome numa notinha de celular que, não me pergunte como, jamais emagrece um kg e engorda toneladas em toda visita que faço à biblioteca, embora a média de livros lidos seja um por semana.
Conhecemos Lily, uma menina de 14 anos, muito altiva e vivaz, que vive com o pai, um ogro brutamontes, e é basicamente criada por Rosaleen, uma empregada negra que acaba sendo quase uma mãe adotiva da menina, desde que sua verdadeira progenitora morreu num acidente trágico e controverso ocorrido dentro de casa. A história se passa nos EUA dos anos 60, quando a segregação racial ainda imperava e os negros recém haviam adquirido o direito (entre vários outros negados, naturalmente) de votar.
Obviamente faceiríssima porque a coberta
combinou com a capa do livro.
Toda a trama do livro começa a se desenrolar quando Rosaleen, uma mulher incrível e o tipo de pessoa que não leva desaforo pra casa, decide ir à cidade se registrar como eleitora, depois de ficar semanas treinando a grafia do próprio nome. Lily vai junto e, acompanhando sua mentora não oficial, acaba parando na precária prisão da cidadezinha graças a um grupo de homens brancos que, racistas e bossais, se ''desentendem'' com Rosaleen, que cospe um bolo de tabaco mascado nos pés deles (eu tava falando sério quando disse que ela não leva desaforo pra casa) e acaba espancada (inclusive pelas próprias autoridades) e na cadeia.
Lily, por ser branca, é liberada e entra em conflito direto com o pai violento quando chega em casa, ouvindo palavras traumáticas de abandono que ele diz a respeito da mãe da menina. Essa discussão é um divisor de águas e Lily acaba fugindo com Rosaleen da cadeia e indo parar na casa de três irmãs negras, produtoras de mel, em uma cidadezinha pequena, graças a uma embalagem (da Maria Negra, símbolo do produto das irmãs) de um potinho de mel que encontrou entre os pertences da mãe dela, com o nome da cidade como referência.
As irmãs do calendário (August, June e May), famosas na cidade, abrigam a menina e a Empregada Que Passou a Ser Muito Mais Que Uma Empregada, desconfiando da história inventada que Lily cria sobre a origem das duas, e logo a menina é introduzida no mundo das abelhas e sua vida secreta e fascinante, enquanto ajuda na produção da substância vital juntamente com Zach, um moço também negro (naquela época, brancos viviam apenas com brancos e negros viviam apenas com negros), encarregado de boa parte da produção do mel.
Claro que muitas questões que a menina carrega sobre a própria mãe, que partiu (olha o eufemismo...) quando ela tinha 4 anos e virou personagem central dos pensamentos de Lily desde então, são desenvolvidas durante a estadia da moça no casarão, porque afinal de contas, a embalagem daquele mel ter sido um dos únicos bens guardados com esmero por sua mãe não poderia ser obra do acaso.
Uma coisa legal é que cada capítulo do livro é introduzido por uma informação sobre abelhas e seu incrível modus operandi (I MEAN IT: VIVA A GENIALIDADE E MAESTRIA DAS ABELHAS DO MUNDO, AMÉM), extraídas de diferentes livros sobre o assunto, devidamente creditados. Não por acaso (esse é um livro essencialmente sobre mulheres), sabemos logo que os machos da espécie (zangões) são criaturas meramente coadjuvantes e de importância secundária na colmeia, servindo quase que unicamente para meios de reprodução (RÁ) e com uma sobrevivência que depende TOTALMENTE das abelhas fêmeas, que os alimentam (!) e sustentam (!) se quiserem, pois VIVA FEMINISMO (RÁ RÁ). Sério, que orgulho dessas bichanas (leiam esse artigo, plmdds).
A Vida Secreta das Abelhas é um livro sobre racismo, preconceito, diferenças que geram desigualdade e segregação, sim; um livro que inclusive mostra como, mesmo depois de já ter direitos garantidos por lei, eles frequentemente continuam sendo terminantemente negados a certas minorias durante muitos anos. 

''Nós não podemos pensar em mudar a cor da nossa pela. É preciso mudar o mundo, é assim que devemos pensar.''

Mas MUITO antes disso tudo, este é um livro sobre mulheres fortes. Fortíssimas. E incríveis. Todas as protagonistas são mulheres e cada uma tem suas nuances e peculiaridades: June é amarga e recusa pedidos de casamento que um cara (gente boa) tem feito a ela por anos porque ela tem medo do que o casamento e a vida podem fazer com uma mulher; May tem problemas psiquiátricos e é extremamente sensível porque carrega as dores do mundo sobre si e tem o próprio Muro das Lamentações, construído por ela e pelas irmãs, onde deixa bilhetinhos com palavras breves sobre o que a aflige; August é a abelha rainha do livro e mulher que encabeça todas as decisões e medidas tomadas na própria casa, que ela gere com louvor; Rosaleen é.. gente, É A ROSALEEN (sério, não tem muito como eu expressar minha admiração pela criatura aqui, então LEIAM). E Lily, claro, é uma menina forte e independente que não deixa, nem por um minuto, que os males do mundo a derrubem.
É engraçado eu ter percebido isso com nitidez só aqui e agora, escrevendo isso (coisa que mostra que às vezes, para que efetivamente entendamos algo, é necessário destrinchar esse algo através da escrita), mas a verdade é que temos dois grupos de abelhas fantásticas, incríveis, rainhas e independentes nesse livro: as próprias, listradinhas vivendo nos apiários e produzindo mel no pátio da casa, e as cinco mulheres incríveis que se unem, vivem juntas, comandam a própria vida, tomam as próprias decisões e não precisam de absolutamente nenhum zangão por perto (não que eles sejam necessariamente ruins SEMPRE) pra viverem muito bem, obrigada.
Se você gosta de ler sobre mulheres fortes e sobre como nós conseguimos ser maravilhosas, incríveis, fantásticas e divas num mundo tão desgracento pra quem não tem um pênis, esse livro foi escrito para você - tal como foi escrito para mim. 
Então, sério, leia. Eu quase (porque nunca se sabe) posso prometer que você não vai se arrepender.

''O MUNDO TEM A PECULIARIDADE DE CONTINUAR GIRANDO POR MAIS TRISTES QUE SEJAM AS COISAS.''

23/09/2017

A Cela de Vidro

Da Patricia Highsmith
É menos um livro sobre a dinâmica prisional e os percalços que um detento enfrenta em seu dia a dia no cárcere e mais um livro sobre os danos que a estrutura falida que sabemos imperar nesse tipo de instituição causa ao psicológico dos condenados a passar por esse sistema - e, consequentemente, a maneira com que isso reflete na vida do preso inserido de volta em sociedade e na vida daqueles que o cercam.
Carter, nosso protagonista, marido de Hazel e pai de um garotinho, é um engenheiro acusado de ser cúmplice em um esquema de desvio de dinheiro na obra de uma escola em que ele estava trabalhando, e que, como consequência da aquisição de materiais de qualidade duvidosa, acabou resultando na morte de um homem na área de construção – outro envolvido no trâmite ilegal.
Carter termina passando seis longos anos na cadeia, apesar dos esforços de sua esposa que tentou sem cessar encurtar seu período cativo, contando com a ajuda de Sullivan, um advogado.
Na primeira centena de páginas e mais um pouco, acompanhamos, através das vivências de Carter, o ambiente hostil e traumático que sintetiza o sistema prisional. Como sabemos desde o princípio que nosso protagonista é inocente do crime de que foi acusado – o que não costuma ser regra nesse tipo de contexto -, fica, naturalmente, mais fácil nos compadecermos ao vermos os males que ele enfrenta durante sua pena – de castigos desumanos que rendem sequelas irreparáveis, infringidos por guardas que abusam do poder descaradamente, a conflitos com outros detentos e a dificuldade de se manter incólume e longe de desavenças nesse ambiente.
No entanto, para leitores mais atentos, fica claro que o objetivo da autora - muito reconhecida por desenvolver sua carreira em torno desse tipo de enredo - não é evidenciar o que ocorre dentro da prisão, e sim os reflexos que isso propaga fora dela.
Depois de cumprir sua pena e estar em liberdade, vemos aos poucos Carter se perder num mar de indiferença que toma conta de seu interior, submergindo-o gradativamente em decisões erráticas que vão de mal a pior. Carter, tendo vivido seis anos num ambiente em que a brutalidade e a selvageria são a regra em voga, perde o tato, noções nítidas de empatia e, principalmente, perde a força da consciência que acusa o certo e o errado. Ele sabe que agredir o próprio filho seria errado, ouvir e levar em conta a opinião de sua esposa é certo e não se pode sair depredando propriedades ou furtando lojas, claro (exemplos inteiramente hipotéticos); mas diante da oportunidade de matar um homem pela vantagem que isso lhe representaria, por exemplo (exemplo hipotético? talvez sim, talvez, não; você vai ter que ler pra descobrir), ele perdeu a sensibilidade que o faria sofrer, sentir culpa, remorso ou qualquer tipo pesar na consciência. A absurda erroneidade de atos extremos assim passou a ser percebida como uma coisa trivial por ele. Carter não sente mais como sentia antes de seu período na prisão; ficou embrutecido, insensível e menos humano (se é que ainda faz sentido usar esse termo).
Quando sai da prisão, ele enfrenta problemas em seu casamento, no relacionamento com o filho e na forma com que a sociedade - e seus conhecidos e familiares - passou a lhe enxergar: um ex-presidiário, criminoso e delinquente. Esses conflitos catapultam-no a uma cadeia de erros e atitudes que logo o colocam de novo sob a mira da justiça - essa palavra que se tornou tão irreal e insípida para ele, que não deixa de estar errado nesse sentido. 
É interessante perceber que Carter reproduz fora da prisão comportamentos (vistos como infrações) recorrentes dentro dela, que em teoria é um lugar em que a justiça deveria se fazer valer. Carter, sob a própria perspectiva, poderia muito bem se considerar justo nas atitudes que toma quando está de volta à sociedade, porque essa foi a justiça que ele aprendeu na prisão, oras. Isso evidencia a patente falha desse sistema.
Esse processo, de sucumbir à política olho por olho, dente por dente vigente no presídio, é testemunhado por nós, os leitores, que vemos nosso protagonista cair numa corrente de erros e é triste, muito triste, ver ele se perder assim e imaginar quantas pessoas foram vítimas de um sistema que falhou na tarefa de reintegrá-las. 
Eu não tenho um olhar dos mais favoráveis (porque tem gente que parece ter, sim) sobre quem faz uso de meios ilícitos e envereda pelo caminho da criminalidade para conseguir o que quer (embora eu não ignore, claro, a parcela de responsabilidade que cai sobre a desigualdade social), e não estou entrando muito no mérito inocente x culpado aqui (até porque, como dito, Carter realmente é inocente), mas reconhecer o abismo atroz que existe entre o ideal e o que de fato se faz nesse contexto (justiça e medidas punitivas e de reintegração) é uma necessidade indiscutível. O livro trabalha isso e nos faz pensar.
Eu devo dizer que a escrita não me cativou tanto assim; faltou um quê de profundidade e sentimentalismo que faz com que eu me envolva nos livros que se tornam experiências memoráveis para mim. Eu não fui completamente fisgada pela narrativa, embora tenha aproveitado ela o quanto pude. Estava esperando um pouco mais e achei o que encontrei de uma qualidade mediana. Mas, embora eu não tenha me afogado no livro, como gosto de fazer, embora não tenha tido uma leitura extraordinária, A Cela de Vidro (nome interessantíssimo, a propósito) me fez pensar, me fez refletir e me fez um pouco, sim, sentir. Já é o suficiente pra mim.
E, preciso acrescentar antes de concluir: aquele final foi o melhor possível, na minha opinião. É o tipo de final que meus irmãos e minha mãe odiariam e do qual sairiam reclamando se vissem numa adaptação cinematográfica (provavelmente achariam inconclusivo), mas é, absolutamente e apesar da simplicidade de um arranjo que parece insípido a princípio, o que mais se encaixa na mensagem que a autora queria passar.

''CARTER FRANZIU O CENHO NO ESCURO E TENTOU ACHAR SUA CONSCIÊNCIA. OU O VAZIO QUE A AUSÊNCIA DELA ACARRETAVA. ELA FUGIRA DELE. TALVEZ JÁ NÃO TIVESSE NENHUMA CONSCIÊNCIA. NÃO SENTIA NENHUMA DOR DE CONSCIÊNCIA POR CAUSA DO QUE FIZERA.''

19/09/2017

O que aconteceu com o garoto da nona série?

Eu fiquei até tarde acordada (uma ocorrência mais comum do que deveria) porque queria assistir a um filme no corujão uma noite dessas. No meio da madrugada, vendo o enredo correr na tela e comendo bolacha Maria com leite, sozinha na sala, ouvi uns "estouros" seguidos do som de carro "cantando pneu" em algum bairro próximo ao meu. Levantei do sofá, que fica no último cômodo da nossa casa, mais distante da rua, e fui à outra sala, com janelas que dão direto para a avenida em que moro, já abrindo a porta do quarto do meu irmão que fica no caminho pra perguntar se ele também tinha ouvido e se sabia se eram disparos de revólver. Ele já estava com metade do rosto espiando pela janela, atento aos sons que tínhamos escutado e aos que poderiam se seguir a eles.
- Foi tiro mesmo.
- Nossa... De novo.
Lembrei de quando, em 2015, uma aula minha no turno da noite (para preencher de maneira dúbia a nova carga horária estipulada pelo governo) foi interrompida pelo som de tiros, por longo tempo ininterruptos, vindos da praça ao lado da escola (ponto de encontro do pessoal metido nas drogas), a nada mais de um muro e poucos metros de distância de mim e dos outros alunos (e da professora, apavoradíssima) na classe. Um rapaz de 19 ou 20 anos foi executado naquele dia. Foram 17 tiros, mais do que a corja de estudantes se abaixando desesperadamente dentro da sala conseguiu contar em meio ao tumulto e caos. O nome daquele que passou a ser apenas mais um corpo estirado na rua, com a mãe abraçada (ele foi morto quase dentro do pátio da própria casa, quando estava chegando da rua, pacientemente aguardado por não sei quantos indivíduos dentro de um carro estacionado ali mesmo) e a namorada aos prantos do lado (ela chegou junto com ele, mas não foi alvo de nenhum tiro porque aquilo era claramente uma execução predeterminada e não um homicídio ao acaso de quem se interpusesse entre as balas) eu já não lembro mais, mas sei que ele estudou no mesmo colégio que eu e pode muito bem ter sentado na mesma classe em que eu estava quando foi morto ao meu lado. Dívida no tráfico, foi o que ouvimos. Agora, aparentemente, a conta já foi paga, mas com um preço diferente.
Também lembrei de quando estava deitada no meu beliche conversando animadamente sobre RPG com um amigo pelo whatsapp, até nosso diálogo ser interrompido por uma correria ensurdecedora na rua, quando dois carros e uma moto passaram fugindo de uma viatura, disparando sem nenhum comedimento contra os policiais e quem quer que estivesse no caminho. Foi uma confusão só, e minutos depois (Era Digital, afinal) já recebíamos as fotos tiradas pelos vizinhos dos bairros próximos, onde a perseguição acabou deixando um bandido morto com um tiro na nuca esparramado na rua - além de uma dúzia de civis assustados fugindo pelos cantos, claro.
Lembrei de tudo isso quando, no meio do corujão, ouvi de novo aquele som já tão familiar que anuncia morte e desespero e fui dormir imaginando quais teriam sido as vítimas da vez, sobre as quais eu provavelmente ouviria falar nos noticiários do dia seguinte - coberta pela sensação familiar e confortável do distanciamento que carrega um alívio culpado, porque ao menos não é comigo, não é com ninguém que eu conheço...
Só que dessa vez era.
Como previsto, de fato acordei (ao meio-dia, confesso) para dar de cara com o noticiário anunciando que naquela noite nove (não uma, não duas ou três, mas nove) pessoas foram exterminadasecutadas na cidade. Briga de facção, acerto de contas, tráfico de drogas... quem sou eu pra saber? E pensar que Gravataí já foi considerada uma cidade pequena às sombras de Porto Alegre, onde nada acontece... Parece que os tempos mudaram; pena que foi pra pior.
Nove pessoas morreram e mais não sei quantas ficaram feridas enquanto eu assistia a Ensaio Sobre a Cegueira (nada mais adequado a esse contexto) no Corujão, enquanto dormia ao som de qualquer coisa no Spotify, enquanto minha irmã falava sozinha durante o sono no beliche de baixo e enquanto meu irmão jogava um jogo qualquer com a cara enfiada na tela do celular. Ouvimos isso na tv no dia seguinte enquanto almoçávamos de maneira corrida e pensamos que ''nossa, 9!, e aqui perto, que loucura!'', mas ainda víamos tudo através da visão turva de quem é apenas expectador. Mas a verdade é que éramos coadjuvantes; não bem protagonistas, mas em histórias assim a gente agradece por não faz parte do roteiro.
Mais tarde, minha mãe voltou do trabalho com a notícia, depois de passar de carro com meu irmão mais velho por um dos locais em que houve morte, a caminho da escola (ela é monitora escolar).
Na mesma escola em que ela trabalha atualmente, estudei até o segundo ano do ensino médio (antes do colegial falir e me deixar, com meus colegas, dormindo na classe por meses sem professores, mas isso é outra história). Da oitava à nona série eu tive a que seria a turma mais unida de todos os meus anos na escola. Quer dizer, havia sérias inimizades e farpas rolavam entre certas pessoas, mas saíamos juntos, ríamos, bagunçávamos e andávamos quilômetros (literalmente) para fazer trabalhos ao som de Nirvana (eterna trilha sonora da minha não tão distante adolescência) e simplesmente éramos uma turma. Era a minha turma e eu gostava dela, por mais estranho e aparentemente inconciliável que fosse nosso conjunto; gostava o suficiente para lembrar daqueles dias com saudade e lamentar a total falta de elos com que conduzi todos os meus outros anos de escola.
Foi a única turma em que realmente tive algum papel ativo, participativo e minimamente notável, e isso porque éramos poucos (oito; escola nos seus primeiros anos, ainda tentando ascender) e ninguém conseguia se esconder naquele número pequeno. Naturalmente, pelo mesmo motivo, a proximidade com cada um foi muito maior. No nosso grupo, uma das pessoas mais significativas e que monopolizava bastante a atenção era um cara que vou chamar de M. M era engraçadíssimo e fez muitas aulas com exercícios de funções a resolver no quadro ficarem mais toleráveis graças aos constantes ENGASGOS que os comentários cômicos dele provocavam em mim todos os dias, sem exceção - ainda uso algumas piadas dele como referência atualmente. Apesar de mantermos um contrato implícito de vamos fingir que a gente nem se gosta tanto assim e nem somos grandes amigos, ele foi uma das pessoas com quem desenvolvi mais proximidade. De oito alunos, estávamos ambos no grupo de cinco que criou mais afetividade.
Eu gostava muito dele - sempre como amiga, nunca como paixonite - e pensar no tempo que passei com ele e com nossos outros colegas é algo que me aquece o coração de pura nostalgia. Ainda assim, eu notava que ele era mais influenciável do que deveria e se envolvia com coisas erradas, ao ponto de poder se encaixar na lista de preocupações de pais, professores e amigos que temiam os caminhos errados que ele poderia (e parecia ser inclinado a) trilhar. Parecia se encaixar, lamento dizer, naquele velho estereótipo: ''esse daí acho que não vai a lugar nenhum na vida...''
Mas, como a fatídica (para muitos) noite em Gravataí, alguns noticiários e a mensagem de uma ex-professora minha e colega de trabalho da minha mãe na escola mostrou, ele chegou a um lugar, sim; um lugar que provavelmente ficará marcado como o pior em que ele já esteve: um carro parado numa rua escura, com dois... amigos (será?) já mortos a tiros do lado e ele próprio sangrando, agonizante, graças aos disparos que não sei quantos deram no trio antes de sair fugindo (porque eles tiveram a chance) e cantando pneu durante a madrugada.
Quando minha mãe voltou do trabalho com a notícia (''Lembra do M, Carolina? Sabe os tiros que deram essa noite e o número de mortos que vimos no jornal de meio-dia? Ele quase foi um deles; tava num carro à noite com mais dois meninos quando chegaram atirando. Os dois outros morreram e ele foi o único do trio a sobreviver. Agora está bem mal no hospital. Pelo que soubemos, era ele o alvo principal da execução...''), fiquei chocada. Como naquelas narrativas clichês, um fluxo de imagens e momentos passaram pela minha cabeça: nós na escola, nós na rua, nós numa loja do shopping comprando pringles, nós num ônibus quando eu não sabia como chegar ao local de uma festa e ele ia me guiar... Estivemos tantas vezes juntos no mesmo lugar, sendo semelhantes apesar das diferenças, sendo iguais, sendo dois jovens, dois colegas, dois adolescentes, dois amigos, dois humanos; isso tudo no passado, porque agora parecíamos tão diferentes e distantes: eu, sentada na cama com um livro nas mãos em plena integridade física, e ele, esparramado numa maca de hospital, baleado, sangrando, machucado e quase morrendo. Era tão esquisito pensar nisso e tentar visualizar como duas pessoas que estiveram no mesmíssimo lugar trilharam caminhos tão diferentes e acabaram em destinos tão antagônicos. Quer dizer, o que deu tão errado?
Depois de ouvir o que minha mãe contou, chamei um professor que tivemos em comum, de educação física, o professor mais amigo que eu tive, e contei a ele. Ele ficou chocado e disse, como eu imaginei que diria, que ele sempre imaginava que os jovens para os quais deu aula tivessem coisas (pessoas, decisões, trajetórias, destinos) boas na vida; coisas muito diferentes de levar três tiros e perder dois conhecidos numa mesma noite por causa das drogas. Falei de como era estranho saber que alguém com quem já tive tanto em comum e que esteve ao meu lado durante um tempo chegou a um lugar tão diferente do meu e ele disse ''é, Carol, cada um segue o caminho que escolhe...''
A gente sabe que não vivemos num mundo justo e num país fácil em que sempre se consegue chegar aonde se quer só com esforço, dedicação e boas decisões (meritocracia? até parece...); mas não são só as falhas do mundo e a desigualdade social que determinam nossos destinos e, principalmente, caminhos percorridos. Muito, muito mesmo, mas do que gostaríamos de admitir, é realmente fruto e consequência de nossas decisões e atitudes.
M tinha uma família estruturada que oferecia suporte ao que ele quisesse construir, vinha de um lar com uma condição financeira estável e confortável, não vivia numa comunidade afundada na criminalidade e teve tudo e mais um pouco do que um adolescente em processo de crescimento precisaria (família, estudos, saúde, segurança, dinheiro) para se estabelecer e desenvolver uma vida saudável; mas não, ele não aproveitou os privilégios e oportunidades que teve e optou por um caminho errado, péssimo, com consequências que ele conhecia e das quais estava plenamente ciente, porque não éramos mais crianças. Estou longe de ser uma pessoa modelo (quer dizer: desempregada e sem faculdade, quem sou eu pra falar?), mas como as condições de vida dele e minhas são as únicas que conheço o suficiente para poder estabelecer um comparativo aqui, posso dizer que ele teve muito mais opções e oportunidades do que eu durante a infância e adolescência, mas tudo isso parece ter sido sumariamente desprezado.
Enquanto escrevia esse texto, minha mãe me atualizou dizendo que M ainda está em estado grave, vai precisar fazer uma série de cirurgias para se recuperar fisicamente e terá que consultar três especialistas num hospital que aceitar o caso dele, tamanha é a gravidade da situação em que uma série de decisões e caminhos errados resultou. Ouvi isso e fiquei pensando no que será que aconteceu com aquele cara legal que vivia rindo e fazia piadas junto com o professor de matemática hilário que tivemos há não muito tempo atrás, mas que nesse momento me parece um cenário tão distante.
Quando a nona série acabou, perdi contato com praticamente todo mundo da turma, incluindo M. Achei triste, eu detesto finais. Mas lembro de ter passado por ele pouco tempo depois, na volta do trabalho (eu dava aulas de inglês, na época) uma vez. Ele me olhou como se não nos conhecêssemos, com um olhar pesado e uma postura rebelde e desinteressada. Fiquei um tanto confusa e sentindo um estranhamento incerto, porque aquele não me parecia o M que conheci. Agora sei que aquela foi só a primeira de uma série de vezes em que eu me perguntaria ''o que aconteceu com ele?'' - também meu pensamento mais recorrente enquanto escrevia esse texto.
Começo a perceber que, naquele momento em que o vi, houve um motivo para que eu sentisse que de um jeito estranho e inexplicável não sabia quem ele era: àquela altura, o garoto que conheci na oitava série já devia ter se perdido, deixando no lugar esse alguém que não conheço mais.

13/09/2017

A Ignorância

Do Milan Kundera
Peguei um livro que sabia que iria ser denso e penejava ler outro bem comprido, então queria uma leitura leve e rápida para fazer entre os dois. Escolhi esse, do Kundera, porque poxa!, que pequenininho, são só 128 páginas. Vou ler rapidíssimo e sem grandes dramas, porque olha a finura disso... 
Que engano ridículo; eu esqueci que estávamos falando de Kundera.
Acontece que não tem como ler esse senhorzinho de maneira desleixada, rápida, leve e numa sentada só. Ele exige que você preste atenção, entre no clima, se permita envolver pela história e acompanhe com todo o engajamento o que está sendo retratado naquelas páginas. Ele exige que você se dedique e realmente queira estar ali. Ler Kundera da maneira superficial que eu estava planejando é ler Kundera errado. Não dá.
Sabe aquela história de ''cada leitura tem um momento certo para ser feita, e se você tentar na hora errada vai acabar estragando o brilho da coisa''? Eu normalmente torço o nariz pra esse tipo de frase pronta porque quase nunca consigo aplicá-las à minha vida; era assim com essa em especial porque ler, para mim, sempre foi uma coisa natural. É difícil eu pegar um livro e falhar na tarefa de me dedicar a ele. Mas totalmente passei a levar em consideração esse dito popular quando tentei ler A Ignorância.
Percebi que ''não era o momento certo para mim'' não necessariamente por estar num período da minha vida que fosse incompatível com o livro, mas por ''estar com pressa'', coisa que não dá pra fazer com uma leitura dessas.
Comecei a lê-lo de um jeito meio corrido e desatento e nas primeiras páginas já caímos numa miríade de questões e ângulos abordados de maneira simultânea e dinâmica. Kundera, logo de cara, discorre sobre um personagem da mitologia grega e romana, a etimologia de palavras em diferentes línguas, o contexto histórico da dominação comunista russa na Tchecoslováquia e, claro, introduz a narrativa dos personagens que vão preencher sua história. Tudo ao mesmo tempo, sim, porque KUNDERA.
Não dá pra ler de maneira desleixada e superficial algo que já começa assim, entendem? Já apanhei logo nas primeiras páginas porque lia enquanto pensava na morte da bezerra e quando vejo, estou na página 30, 40, sem ter focado no livro e, obviamente, sem entender nada.
Então parei e, ok, Carolina, você vai ter que se concentrar e levar a leitura mais a sério; não dá pra subestimar um livrinho desse cara.
Aí comecei a me envolver de fato.
Nessa história conhecemos Irena e Josef, dois expatriados que passaram anos em outros países ao fugir do regime comunista, e que voltam à República Tcheca depois desse tempo todo, quando o comunismo não impera mais. Os dois se encontraram uma única vez antes desse período longo em que viram completos desconhecidos longe de suas casas, e acabam se reencontrando epenas no retorno ao seu país, depois de quase duas décadas de afastamento. A proposta do livro começa a se desenvolver quando Kundera explora os sentimentos adversos e conflituosos que os dois passam a enfrentar com ''o grande retorno'' ao seu país de origem. Em vez da alegria que eles imaginaram que iam sentir depois de anos fora de suas terras, sentem vazio e despropósito porque percebem que aquele lugar perdeu qualquer significado que poderia ter tido em tempos longínquos; em vez do contentamento com que esperavam que os moradores os recepcionassem, não são acolhidos de maneira acalorada porque, depois de 20 anos, eles passaram a ser completos estranhos para aquelas pessoas.
Em suma, toda e qualquer expectativa que eles nutriam a respeito de seu retorno, a respeito dos próprios sentimentos por seu país de berço, se esvaíram como fumaça assim que puseram os pés lá e perceberam que essas impressões não se sustentaram depois de tanto tempo.
Kundera traça um paralelo entre nostalgia, o conceito mais discutido no livro, e a ignorância, nos fazendo perceber que ambos formam uma dualidade praticamente indissociável: sente-se nostalgia por aquilo que, depois de um tempo, passamos a ~desconhecer~ e ignorar. Irena e Josef percebem que é isso que sentem com relação à sua nação.
Claro que o livro é bem mais profundo do que essa síntese aí de cima, mas eu sinceramente me recuso a tentar elaborar muitos parágrafos a mais porque sei que vou acabar falhando em tentar captar a essência. Life goes on.
É um livro sensível, sensível, sensível. Profundo, profundo, profundo. Melancólico pra caramba (mais do que eu e eu meio que sou RAINHA nisso). É algo em que você tem que estar preparado e disposto a mergulhar. Eu não estava tão disposta assim então coloquei na minha lista de releituras obrigatórias, por motivos de NECESSIDADE.
Eu amo esses temas meio tristes e melancólicos e o sentimento/conceito de saudade e nostalgia é algo que sempre me cativou e intrigou. Não sei quão normal esse hábito pode ser, mas há ~sentimentos~ nos quais penso e os quais tento entender, teorizando, observando e experienciando o quanto posso; uma sessão de psicanálise individual, digamos assim. Gosto de pensar em saudade, nostalgia e em como elas nos atingem, e ler Kundera discorrendo a respeito foi uma experiência linda. 
Entre as questões abordadas no livro, uma das que mais ocupa meus pensamentos é a impossibilidade de podermos voltar plenamente no tempo (mesmo que de maneira meramente abstrata, através de lembranças), resgatando da memória tudo o que vivemos sem nenhuma lacuna ou brecha. É impossível fazer isso, porque a cada segundo que passa nossas memórias e sentimentos são reciclados e o que passou nunca, jamais, voltará a ser como era. É bonito pensar nisso, bonito e triste.
Josef e Irena nunca puderam, verdadeiramente, retornar ao lugar de onde vieram porque suas memórias e sentimentos se modificaram ao longo do tempo e eles perceberam que o lugar que visualizavam em suas mentes na verdade não existia mais. Como em A Insustentável Leveza do Ser, em cada capítulo o autor levanta reflexões sobre muitas coisas diferentes, que acabam compondo as vivências dos protagonistas, e essa é uma delas.
Well, essa resenha ficou meio confusa e acabou sendo mais um texto sobre uma experiência minha lendo Kundera do que uma resenha crítica propriamente dita, mas enfim, foi o que saiu. Certamente vou relê-lo (além de explorar mais a bibliografia do autor) em algum momento pra poder desenvolver algum conteúdo mais objetivo e concreto sobre; mas enquanto isso não ocorre, me despeço recomendando o livro a todo mundo que gosta de dar aquela filosofada básica de vez em quando - com o bônus, é claro, da companhia de um escritor genial. ;)

''EM GREGO, RETORNO SE DIZ NÓSTOS. ÁLGOS SIGNIFICA SOFRIMENTO. A NOSTALGIA É, PORTANTO, O SOFRIMENTO CAUSADO PELO DESEJO IRREALIZADO DE RETORNAR.''

09/09/2017

O Livro das Coisas Perdidas

Do John Connolly
Fazia tempo que eu não favoritava um livro e foi lendo esse que percebi o quanto sentia falta de uma dessas leituras que me arrebatassem, me deixasse hipnotizada, em completo estado de encantamento e com aquela vontade doce de chorar ao término da última página, porque que coisa linda foi isso que acabei de ler...  Essa leitura foi tudo isso para mim.
Eu já tinha ouvido falar d'OLDCP antes, além de já ter topado com ele nas estantes da biblioteca e ter lido a resenha que fica na orelha do livro, sem falar do incontável número de comentários entusiastas e lisonjeiros feitos por diversos e famosíssimos jornais americanos e outros veículos literários, que os editores obviamente adoram (quem pode culpá-los?) inserir na última capa na diagramação final. Apesar de todos os pontos a favor da obra, eu realmente não tinha ideia de qual seria minha reação a ela, porque eu estava consciente de que essa seria uma história meio lúdica ao estilo fábula infantil e este geralmente não é um estilo que acompanho muito, embora ache lindo. Mas O Livro das Coisas Perdidas transcende muito essas preposições.
Um dos comentários na última capa fala sobre como o sucesso (sem nos restringirmos ao âmbito popularidade, aqui) do livro se dá graças à forma com que real e fantasia se relacionam tão bem, se complementando e se encaixando de forma natural, e eu preciso corroborar esse comentário porque essa é uma das impressões fundamentais que todo leitor que o pega em mãos deveria assimilar. Esse é o espírito do livro, a alma do negócio, sabem?
Nessa história conhecemos David, um garotinho taciturno e recluso que recentemente perdeu a mãe e que, na Londres da II Guerra Mundial, acaba se mudando com o pai, a recente madrasta que ele detesta (de forma injustificada, porque ela é bem querida), Rose, e o novo irmãozinho, Georgie, para a casa de Rose, um casarão de família que abriga alguns mistérios. David é um leitor assíduo e seu pai acha uma boa ideia deixá-lo num quarto parecido com um sótão, onde há várias estantes cheias de livros empoeirados. Mas algo estranho começa a acontecer: David começa a ouvir os livros conversando entre si e com ele, sobre contos de fadas, bruxas, princesas, guerreiros, batalhas épicas e mitológicas e sobre o próprio David, ali naquele quarto, sozinho com um monte de livros tagarelas. Conversas sobre o mundo em que vivemos e um mundo que não é o nosso, desconhecido e misterioso. Essas conversas (que ocorrem com todos os livros com que o menino topa, não apenas os de sua estante) acabam precedendo alguns ataques e convulsões que David tem e que o deixam inconsciente por alguns momentos; durante essas convulsões ele é acometido por visões de outro mundo, em que vislumbra castelos, batalhas, sonhos, ameaças e a própria mãe, que chama por ele pedindo resgate. 
A mãe de David é uma figura presente em todo o livro, e mesmo que só a conheçamos brevemente nos primeiros parágrafos, é fácil simpatizar com essa mulher inteligente, amável e incrível que introduziu o filho no universo da literatura.
Numa noite solitária após uma briga feia com a madrasta e o pai, o menino acaba tendo uma de suas alucinações e escuta a voz da mãe morta pedindo que ele vá ao Jardim Rebaixado, um jardim nos fundos da casa, que já o tinha atraído antes. Se enfiando cada vez mais pra dentro do jardim, ele acaba entrando num tronco de árvore que o leva, não se sabe como, para outro mundo; o mundo sobre o qual os livros falavam.
Uma vez nessa outra realidade mirabolante, David acaba ficando preso por ação do Homem Torto, o vilão da história, sem achar a árvore que o levaria de volta para casa, e acaba tendo que se jogar na empreitada de cruzar toda a floresta mágica daquele mundo para encontrar o Rei, sobre o qual pouco se sabe, que supostamente tem um livro de propriedades mágicas capaz de revelar as coisas perdidas. É nessa viagem de dias que acompanhamos David - ele e aqueles dispostos a serem obstáculos em seu caminho (os vilões do livro e do outro mundo), e os que decidem acompanhá-lo, oferecendo ajuda.
Todo o universo mágico descoberto através do jardim e que preenche aquelas trezentas e poucas páginas é uma clara alegoria com nosso próprio mundo: há uma guerra se desenrolando; há o conflito entre o bem e o mal; existem os mocinhos, os vilões e as vítimas entre os dois lados; obstáculos se levantam, desafios se manisfestam, dificuldades surgem e em troca de todas as decisões de David há um preço a se pagar - exatamente como é no nosso mundo, na nossa vida, com a gente.
O Livro das Coisas Perdidas fala de como seria a minha, a tua, a nossa vida se ela fosse escrita na forma de um conto fantástico e surrealista. É dessa relação entre realidade e fantasia de que falou o/a crítico/a do Daily Express, na última capa.
E, não vamos esquecer, O Livro das Coisas Perdidas fala muito de sentimentos: como eles nos guiam, as atitudes e decisões que tomamos influenciados por eles, os diferentes cenários que eles compilam e os diversos mundos que criamos através e por causa deles. David tem muito ódio, amargura e ressentimento, e muito do que acontece com ele no outro mundo é ocasionado por causa desses sentimentos, já que grande parte daquele universo é idealizado pelo que existe na mente de seus habitantes - como também é com a gente, nesse mundo aqui.
Uma coisa engraçada pra mim foi ler e perceber como a história se assemelha às Crônicas de Nárnia; sério, é muito parecido e fica claro que em alguns momentos o autor se inspirou nesse clássico da fantasia pra escrever OLDCP (não tem como digitar aquilo tudo sempre, desculpa): adentra-se no novo mundo através de algo cotidiano e normal (um armário; uma árvore), há uma guerra acontecendo entre o bem e o mal (as criaturas a mando da rainha; os Loups), há vilões (Feiticeira Branca; Homem Torto e Loups), há criaturas que acompanham o protagonista para o bem (sr. Tumnos, castores; Lenhador, Rolando) e enfim... N'OLDCP só não tem uma grande figura benévola como Aslam é em Nárnia.
Ele também faz referência, de maneira mórbida e incômoda (tudo para manter a aura arrepiante presente do início ao fim), a vários outros contos populares, a partir de sua própria abordagem: conhecemos uma Branca de Neve obesa que importuna a vida dos anões que não aguentam mais viver com ela e já tentaram matá-la; uma Chapeuzinho Vermelho que acabou se apaixonando e dormindo com lobos (pois é), dando origem a criaturas malévolas; uma Maria, irmã de João, que tocou a bruxa da casa feita de comida no forno e matou a bendita queimada (pois é2), e uma infinidade de outros contos e anedotas meio perturbadores... É tudo bem mórbido e soturno e o autor não poupa esforços com descrições bem detalhistas sobre, por exemplo, uma caçadora que afugentava crianças e animais, decepava ambos, colava a cabeça das crianças no corpo dos animais e largava a nova criatura híbrida na floresta para que a caça ficasse mais divertida. Olha que tri, historinha ótima pra contar pro seu filho antes de dormir SÓ QUE NÃO. Lembro que comecei a ler o livro pensando que ele era o tipo de conto de fada às avessas que eu gostaria de ler para meus futuros filhos um dia, mas aí fui entrando mais na história e... ROULY SHIT.
Apesar de todo esse ângulo perturbador (ou por causa dele, na minha opinião, pois ADOREI QUERO MAIS), esse livro é como um abraço quentinho, embora intenso pra caramba, que seria bom explorar numa noite de inverno, ao lado da lareira, com chocolate quente, uma colcha de retalhos aconchegante e uma tempestade trovejando do lado de fora da janela. Ele é lindo e merece ser lido - além de ter um daqueles finais que me deixam genuinamente desconcertada de tanto encantamento e emoção. 
Eu recomendo muito mesmo. Não perca a chance de levar O Livro das Coisas Perdidas pra casa, se você o encontrar por aí... Porque é claro que eu não poderia encerrar essa resenha sem fazer um trocadilho tosco com o nome.

''COMO A MÃE LHE DISSERA CERTA VEZ, O MUNDO DAS HISTÓRIAS ANTIGAS, DOS CLÁSSICOS CONTOS DE FADAS, EXISTIA PARALELAMENTE AO NOSSO, MAS, ÀS VEZES, O MURO QUE SEPARAVA OS DOIS MUNDOS SE TORNAVA TÃO FINO E FRÁGIL QUE ELES COMEÇAVAM A SE FUNDIR''