11/08/2017

Contato

Do Carl Sagan
Há algum tempo eu vinha querendo ler esse livro, então foi uma surpresa agradável encontrá-lo entre os novos exemplares disponíveis na biblioteca. O nome Carl Sagan já se faz grande sozinho e diante de tamanha notoriedade (embora isso não seja garantia) não foram necessários muitos argumentos a mais para despertar minha curiosidade. E como boa consumidora de ficção científica, o que poderia ser mais atraente do que um matemático astrônomo fazendo uma abordagem científica a respeito da possível existência de inteligência extraterrestre?
A linguagem do livro é relativamente complexa (nenhuma surpresa por aqui), porque Sagan não poupa esforços ao pormenorizar cada processo, funcionamento, mecanismo e detalhe científico que aparece no enredo (ainda que da maneira mais leve possível, imagino eu), com parágrafos cheios de nomenclaturas e linguagem conceitual. Mas calma, porque embora às vezes fiquemos com aquela leve (ou pesada, se você não for muito dado a exatas; oi, prazer, Carolina, idem) cara de ?, o escritor sabe que nem todos possuímos graduação e pós em física, e ele conduz as coisas com moderação, de maneira a nos permitir entender todo o essencial necessário. Então não precisa ir ler o livro com medo de se sentir o ser humano mais burro do universo (pelo menos esse é o meu medo com a perspectiva de certas leituras por ai, risos), okay?
Mas enfim, Contato é a história de uma mulher, também astrônoma e cientista cética, tal qual o escritor que a criou, que dedica sua vida acadêmica ao propósito de detectar sinais e mensagens do espaço que atestem a existência de seres mais inteligentes e evoluídos que os humanos que habitam a Terra. Ellie trabalha no Argus, uma estação espacial em que radioastrônomos ficam sondando os ares com equipamentos que permitem detectar ondas de rádio, substância que existe em maior abundância no universo (de que se tem conhecimento) e que, portanto, é o meio mais lógico através do qual outras civilizações imensamente mais desenvolvidas optariam por transmitir sua mensagem a outros planetas.
Ellie, desde cedo sedenta por conhecimento e uma estudiosa à parte (além de personagem muito interessante), dedica sua vida a receber essa mensagem, a ter suporte o suficiente para acessá-la e conseguir estabelecer contato com outras criaturas habitantes do universo, se é que elas existem (ela acredita fielmente que sim). E esse dia finalmente chega; o dia em que os extraterrestres, tão distantes, desconhecidos e misteriosos, tão vagos no imaginário comum, têm sua mensagem detectada por aquela brilhante cientista terrena sempre dedicada ao trabalho naquela estação espacial.
Eles de fato existem e estão lá, por aí, em algum canto do universo! – em Vega, mais especificamente, estrela de onde a mensagem se origina. Os veganos, como passam a ser chamados esses seres misteriosos, transmitem instruções para a construção de uma máquina (cuja função você só descobrirá se ler o livro), através de um código numérico, uma linguagem decifrada pelos maiores astrônomos e matemáticos do mundo.
Logo a notícia corre o mundo e vira prioridade em todos os veículos de comunicação. O conhecimento a respeito dA Mensagem (em maiúsculas mesmo) de seres extraterrestres vivendo por aí vira uma febre que toma conta de todas as atividades terrenas. Não se fala em mais nada. Tudo gira em torno dA Mensagem.
A partir desse ponto do enredo, diversas questões começam a ser levantadas no livro. A fundamental, como não poderia deixar de ser, é um dos maiores questionamentos que acompanham a humanidade desde seus primórdios: qual é a origem da vida, do universo e tudo mais? 42 (sou clichê e tenho que fazer uso do trocadilho aqui, desculpa) Qual é a nossa origem? De onde raios isso tudo veio, afinal???
Esses questionamentos são desenvolvidos no livro de uma maneira muito sagaz, usando como pano de fundo o enredo a respeito da relação que tenta-se formar entre humanos da Terra e ETs de Vega. Sagan, físico de notoriedade internacional, explora questões científicas de maneira a fazer com que leigos (oi) possam ser incluídos na conversa, ao criar uma ficção acessível a todo mundo, permeada por indagações reais e concretas do universo acadêmico-científico.
Um dos principais pilares indagadores com o qual escritor e personagens se deparam sucessivamente e que sustenta o clima especulativo do livro nos instiga a atentar para a minuciosidade, os pormenores, as particularidades plenas, primorosas e sem brechas que se percebem em cada mínimo detalhe do universo. Quer dizer, tudo (com exceção, é claro, do sobrenatural - no qual nem todo mundo acredita) pode ser explicado através de equações matemáticas, elementos químicos e leis da física. Tudo o que a natureza orgânica abrange pode ser demonstrado e esmiuçado através do método científico. Cada informação difundida em livros didáticos (confiáveis) que gerações de acadêmicos carregam debaixo do braço possui dados precisos, específicos e irrefutáveis.
A natureza é feita de organizações e estruturações que demonstram uma singularidade incrível, fantástica, de estarrecer... embora esqueçamos disso todo dia e levemos a vida como seres que desconhecem todo esse espetáculo que o universo compõe. Como conceber e sustentar a ideia de que não houve uma mente criadora por trás, anterior a tudo isso? E se houve, qual é a assinatura do artista?, termo que Sagan usa no livro com uma singeleza bonita. Esse é o principal assunto a ser discutido entre as páginas de Contato.
Claro que o eterno conflito entre ciência e religião também ganha espaço no livro, dando voz a alguns religiosos e a uma penca de cientistas céticos - como a própria Ellie, a protagonista. Eu receei ficar com preguiça em algumas partes porque, sinceramente, cansaço
de uma visão estereotipada que dita que TODOS (tipo, TODOS MESMO) os religiosos são fanáticos que estão SEMPRE (tipo, TODA HORA MESMO) tentando converter alguém, dando benção, chamando outrem de herege do capeta ou exorcizando demônios, porque, putz, essa fita já rodou demais e cheguei num ponto em que quando vejo ela começando a tocar de novo, especialmente num cenário científico em que isso vira um chavão clichê, meu primeiro impulso é revirar os olhos de preguiça.
Claro que esse aspecto e a existência desse tipo de ser humano fanático não poderiam passar inexplorados numa obra que se propõe a abordar temas que claramente andam juntos a antagonistas tão contundentes, mas sabe o cansaço que dá uma representação preguiçosa?
PORÉM, Sagan não fica muito nessa, e há pelo menos um personagem legal, razoável e com cérebro (*gritos de viva*) que também acredita em entidades divinas.

Mas, Espacinho Pra Falar Com Quem Já Leu aqui, ainda a respeito dessa questão: eu cheguei ao fim do livro (O QUE É AQUELE FINAL, MINHA GENTE) e pensei ''tá, peraí, ele acredita numa mente criadora suprema (Deus) ou não, afinal?''. Porque, se você aí do outro lado já leu o livro e lembra bem daquelas páginas finais (tem como não lembrar daquilo?, plmdds), ele parece afirmar que sim pra depois dizer que não é bem assim e depois sim é mais ou menos issonão pera porque tem isso; sabe? Haha Eu sei que estamos falando desse Sagan aqui, que acredita que se existe um Deus, ele é a física e suas leis, e isso já responde à questão, claro (ele era agnóstico e ponto, isso precisa ser respeitado aqui); mas devo dizer que se eu fosse me basear APENAS (sem considerar seus pronunciamentos a respeito) naqueles trechos finais (AQUELE FINAL MINHA GENTE) pra teorizar a respeito das crenças ou descrenças pessoais dele, se nos concentrarmos em termos como "assinatura do artista" (O Artista), pressupõe-se, implicitamente, uma mente criadora consciente, não? Que vai além de um apanhado de leis universais, quero dizer; algo menos abstrato do que isso, percebem? Ou não? Hahaha
Enfim, são questões que envolvem uma disposição e espaço maior para debater; talvez outra hora. ;)

E pra concluir, um outro aspecto notável do livro é poder observar (porque acho que a realidade ante algo assim seria uma cópia fiel do que Sagan ilustra no romance) a forma com que a sociedade se reestrutura depois de perceber que, opa!, não estamos sozinhos nem somos os mais espertos aqui... Há uma revolução em todas as áreas, acadêmica, social, religiosa, hierárquica... Tudo muda com a noção de que o ser humano está longe de ser o centro do universo (coisa que Copérnico já tinha nos ensinado, claro, mas ok...). É interessante pensar nisso, e com o conhecimento que temos (embora ele ainda seja limitadíssimo) a respeito da imensidão estratosférica do universo, fica difícil, no embalo do livro, não pararmos para refletir fascinados sobre quão pouco sabemos e quão pequenos, ridiculamente pequenos, somos diante de tudo isso... Fascinados e assombrados.
E repito: AQUELE FINALZINHO É PURO AMOR.

''ESPECIALISTAS DE TODAS AS ÁREAS COMEÇAVAM A SE PREOCUPAR.
OS MATEMÁTICOS TEMIAM TER DEIXADO DE FAZER DESCOBERTAS ELEMENTARES. LÍDERES RELIGIOSOS RECEAVAM QUE OS VALORES VEGANOS, POR MAIS EXÓTICOS QUE FOSSEM, GANHASSEM FACILMENTE ADEPTOS, SOBRETUDO ENTRE OS JOVENS SEM INSTRUÇÃO. ASTRÔNOMOS AFLIGIAM-SE COM A POSSIBILIDADE DE TEREM INTERPRETADO ERRONEAMENTE DADOS FUNDAMENTAIS SOBRE AS ESTRELAS PRÓXIMAS. POLÍTICOS E CHEFES DE ESTADO TEMIAM QUE OUTROS SISTEMAS DE GOVERNO, ALGUNS RADICALMENTE DIFERENTES DOS QUE EXISTIAM NA TERRA, PUDESSEM SER ADOTADOS POR UMA CIVILIZAÇÃO SUPERIOR. TUDO QUANTO OS VEGANOS SABIAM NÃO FORA INFLUENCIADO POR INSTITUIÇÕES PECULIARMENTE HUMANAS, OU PELA HISTÓRIA OU BIOLOGIA DOS HOMENS. E SE GRANDE PARTE DO QUE ACEITAMOS COMO VERDADEIRO FOSSE UM ERRO DE INTERPRETAÇÃO, UM CASO ESPECIAL OU UM ERRO DE LÓGICA? OS ESPECIALISTAS COMEÇAVAM, INQUIETOS, A REAVALIAR OS FUNDAMENTOS DE SUAS DISCIPLINAS.''

Esse livro faz parte da lista de 50 livros de 1900 que eu vou ler antes de morrer.
Confira mais aqui (credo, parece até frase de comercial). 

5 comentários:

  1. AAAAAAAAH ESSE LIVRO ♥ EU AMO MUITO MUITO MUITO ESSE LIVRO! Não tenho tempo pra comentar agora, já tô indo pra faculdade, mas depois passo aqui pra falar com mais calma.

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    1. AAAAHHHH MDSSS SIIIIIIM, VENHA, QUERO!!! Hahahaha

      (Realmente precisando extravasar meus sentimentos sobre o livro também E EU VOU REPETIR DE NOVO SOBRE AQUELE FINAL PORQUE MEU. PAI. O. QUE. FOI. AQUILO. A-DO-REI VOU IMPRIMIR. <3 <3 <3)

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  2. Esse livro tá no meus desejados, até apareceu para troca no Skoob esses tempos, mas fiquei com medo de pegar ele para ler e me sentir o ser humano mais burro do universo hahaha Fiquei curiosa sobre o final!

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    1. Não tema (frase de super-herói, haha)! Você conseguirá entender a história, sim, vai por mim. As partes conceituais sobre física não interferem MUUUUITO no desenvolvimento, e são de uma complexidade razoável pra leigos, haha

      (Eu ainda não explorei o universo das trocas no Skoob - não tenho ideia de como é o processo -, mas preciso!!! Tenho tanto livro pra trocar aqui!)

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    2. Adoro trocar livros pelo Skoob! No começo fiquei com o pé atrás, mas agora já não vivo sem :) Se tiver dúvidas, estamos aí

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