13/06/2017

Drácula

De Bram Stoker
Como eu já disse aqui, a biblioteca que ficava na rua em que eu moro (uma avenida movimentada), e que havia se mudado para uma reforma no prédio, voltou para o mesmo terreno recentemente, depois de mais de um ano fora (nem sei onde ela esteve, mas como é um lugar longe de mim, já detesto). Fui muito faceira reencontrar a querida que estava de cara nova. Dentre os novos exemplares (eu sou sócia da biblio há uns 25 anos - e olha que eu só tenho 19 - então eu meio que conhecia de cabeça cada título, e foi fácil reconhecer os que estavam lá pela primeira vez) que surgiram entre aquelas estantes, esse clássico, numa edição de seiscentas e poucas páginas, chamou minha atenção em intensidade suficiente pra me fazer decidir que ele seria um dos primeiros livros daquela remessa que eu levaria pra casa; estou falando de Drácula.
Eu sei que a qualidade da foto tá uma droga,
mas perceba que eu tive o cuidado de fotografar
o livro com um fundo vermelho, pra combinar
com o sangue das vítimas. <3
Logo nas primeiras páginas do romance o estilo gótico e rebuscado da narrativa, que se encontra em obras do gênero (com destaque especial a Frankenstein porque o texto é meu e eu QUERO), se faz notar de maneira marcante, acentuada e indissociável do conjunto da obra. Percebemos uma escrita densa, rica e com certas nuances que nos carregam da primeira à última página num ritmo gostoso, com o qual nos encontramos sincronizados ao término dos eventos.
O ritmo do livro, para mim, conseguiu ser leve, apesar de sua inegável densidade. Stoker desenvolveu a história de uma maneira rica e agradável, conduzindo os personagens e o enredo através de situações em constante mutabilidade, mas sempre com um ritmo progressivo. Minha leitura conseguiu entrar em harmonia com o compasso estabelecido pelo escritor e isso, além do tema do livro (vampirrrrrosss, criaturas da noite, somos gótekas, vamô chupar sangue uhuuulll) e seus ares sombrios, me fez guardar essa escrita no fundo do <3.
Toda a narrativa é desenvolvida através de diários dos personagens centrais envolvidos no encanto maligno de Drácula, anotações, recortes de jornais e cartas, fazendo com que nosso narrador personagem mude constantemente e seja circular, indo de um protagonista a outro, nos permitindo observar o decorrer dos eventos através de vários prismas diferentes; essa característica certamente marcou o romance através dos anos, tornando-se uma das suas principais e mais notáveis singularidades (embora esse formato já tenha sido adotado com certa frequência). Tal como ocorre com obras teatrais de Shakespeare, por exemplo, esse molde empresta um ritmo diferenciado ao livro, diferente de uma narrativa linear simples; costumo me incomodar um pouquinho (pelo menos no início) com essas ''quebras'' no decorrer das páginas, mas com Drácula consegui imergir bem na história, a ponto de mal reparar nessas ''rupturas'' específicas. Nossos personagens, coincidentemente, são todos escritores tão bons quanto Stoker, e sabem conduzir uma história em seus diários. (Hehehe - eu rio das minhas próprias piadas e trocadilhos por motivos de saúde emocional.)
Bom, até agora eu só falei de ''detalhes técnicos'', como eu digo, sem entrar em grandes informações sobre o enredo; então vamos lá.
Nosso primeiro narrador é Jonathan Harker, advogado encarregado de ir a um castelo na Transilvânia para ajudar o, até então, apenas um conde quase normal e só um pouco sinistrinho, Drácula, nos entrames legais da aquisição de uma propriedade em Londres, que ele almeja comprar. Ao longo de algumas poucas semanas como hóspede do conde, no entanto, Jonathan se percebe na verdade um prisioneiro naquele castelo (não lembro se era bem um castelo a la Cinderela, mas vamos fingir que sim porque aí o clima fica mais legal). A partir dessas percepções iniciais (que vão se desenvolvendo gradativamente) que o personagem tem sobre o tinhoso (ninguém merece minhas expressões bostas, mas okay), enquanto é seu hóspede, toda uma série de desconfianças e inseguranças a respeito do conde misterioso começam a ficar mais notáveis para Harker; a criatura capirótica (derivada de ''capiroto'' - acabei de inventar, adorei e vou usar) NUNCA comia nada (ao menos não na frente de seu ''hóspede''), não tinha sua imagem refletida nos espelhos, parecia se comunicar com lobos, tinha um vigor físico extremamente surpreendente (o conde, inicialmente, é um velho) e a lista de esquisitices só faz crescer. Então Jonathan, gradativamente mas em avanço constante, passa a temer profundamente aquele homem que só lhe transmite calafrios e sensações horríveis, e quando o conde percebe que sua natureza bestial está se evidenciando, começa a tratar Harker de maneira perversa e dissimulada.
Uma série de eventos perturbadores envolvendo o conde e toda a sua aura sinistra passam a acometer Jonathan, que cai numa espiral de acontecimentos e visões loucas e traumáticas que ele registra no diário de viagem que escrevia para a noiva, Mina Murray. Posteriormente, quando a narrativa, súbita mas previsivelmente, muda de cenário e se dirige a Londres, com Mina e sua amiga Lucy; um Jonathan outrora adoecido por traumas e recém recuperado; dois médicos, um de um asilo de loucos e outro um professor renomado; o noivo de Lucy e mais um jovem amigo, todos os mistérios descritos no diário, esquecidos por Harker ao adoecer, passam a virar roteiro desse grupo. Quando a jovem e bela Lucy misteriosamente adoece após passeios sonâmbulos empreendidos durante a noite e surge com duas marcas bem suspeitas no pescoço, que a princípio passam despercebidas, os conhecimentos do velho e experiente médico professor, que se desloca e integra o grupo especialmente para tratar a jovem, fazem com que os horrores passem a ter sua temível e horripilante (frase de sinopse de filme de terror, oi) causa conhecida: Drácula a atacou e vinha se alimentando dela, assim como era responsável por uma série de desaparecimentos que tomaram conta das noites de Londres.
Após uma série de fatalidades que envolvem as pessoas mencionadas acima, tornando-as ligadas pelos laços da tragédia, o que se segue é uma missão em conjunto empreendida pelo grupo, que tem uma única resolução em mente: fazer justiça pelas vítimas do conde, agora já conhecido como vampiro Drácula, e promover vingança, acabando com a tal criatura ''esquecida por Deus''.
Como Drácula, já tendo resolvido as pendências da adquirição de sua nova propriedade (de localização desconhecida pelo grupo de avengers - não pude deixar a piada passar, sorry) em Londres, se desloca para a cidade, grande parte da caçada ao vampiro se dá pela própria Europa, embora o rumo de nossos personagens se altere bastante do início ao fim da empreitada. O que se segue pelas quatrocentas e tantas páginas são obstáculos, desafios, descobertas, mistérios, embates e uma infinidade de outras ocorrências que o grupo enfrenta até o trunfo ou fracasso (porque vou partir do pressuposto de que você também não conhece o final oficial, como eu, e não vou spoilerar a coisa) final.
Vale mencionar que nessa parte do livro, quando o conde já estendeu suas influências para além de Jonathan Harker enquanto hóspede em seu castelo, a visibilidade que temos sobre o personagem Drácula é pouquíssima; ele não é narrador em nenhum momento e tudo o que vemos/sabemos dele ocorre através da visão dos outros personagens.
Mas enfim, vou parar de falar sobre o enredo agora e dizer que tipo de impressões o livro deixou em mim.
Como já enfatizei bastante no início dessa resenha, achei o estilo da escrita totalmente encantador, e posso utilizar o clichê ''o livro me transportou para tal cenário...'' porque, como se eu estivesse sob o poder de algum encanto, foi decididamente isso que Stoker conseguiu fazer comigo nessa leitura. Sabe esse ritmo, essas palavras rebuscadas e bonitas, esse refinamento, esse tom, esse jeito que a só literatura gótica consegue transmitir ao leitor? Então, senti tudo isso e me apaixonei de novo. Claro que preferências variam, e o que se aplica a mim pode estar longe de dizer respeito a você, mas esse é um daqueles livros que, independente do desfecho da história ou da mensagem a passar, eu leria só pra poder apreciar a escrita, as voltas em cada linha, as nuances de cada parágrafo, os pontos distribuídos aqui e ali. Leria só pra poder saborear isso, sabe? E li, e saboreei e foi lindo - apesar daquele dramatismo exacerbado e teatral, beirando a comicidade, que a gente encontra em narrativas dessas épocas.
Outra coisa que gostei foi da Mina Murray!!! Vida longa à Mina, amém. Ela defendeu e cuidou da amiga Lucy o quanto pôde, descobriu altas tretas sobre o vampirozo, bolou vários planinhos e, apesar de ter os homi constantemente se pondo no papel de defensores galantes do sexo frágil perto dela, seus conhecimentos foram peça fundamental na luta contra a criatura. Não sei quanta representatividade Stoker poderia querer estar dando conscientemente a ela e às mulheres de maneira geral no livro (isso fica pra outro texto, talvez, se eu estiver com muuuuita disposição pra pesquisar sobre o senhor Stoker e seu possível engajamento nessas questões...será?), mas gostei pra caramba da moça na história, apesar de seu espaço limitado.
Porém, essa leitura também deixou algumas faltas, ao menos para mim. Gosto de poder chegar ao final de um livro e sintetizar, com algum esforço, as coisas nas quais ele me fez pensar, as lições aprendidas, as mensagens assimiladas, os ensinamentos, e gosto de poder passar isso para uma resenha. Com Drácula... eu simplesmente não sei o que citar nesse tópico. No exemplar que li, um estudo (quase um TCC, só que mais curto) sobre a obra, feito anos depois de seu lançamento, por uma escritora, vinha como introdução. Ela, provavelmente uma doutora em literatura (não lembro agora), fez várias análises sobre as mudanças dos estilos empregados nas narrativas através dos anos, e inclusive mencionou supostos conflitos sexuais de Stoker manifestados através de sua obra; mas eu, como leitora comum (apesar de assídua além da média), um pouco ordinária e sem nenhum doutorado na área, nada além de uma carga considerável de leitura acumulada através dos anos, não assimilei nitidamente nenhuma grande mensagem no livro. Tem todo o conflito entre humanidade e bestialidade, os limiares que circundam esses dois conceitos e tal, mas ao fim do romance gótico, a boa escrita e o enredo envolvente sobrepujaram infinitamente essas reflexões para mim, entendem? Infinitamente. Então eu recomendo o livro pela escrita, pelo estilo e pela história, mas não posso dizer nada sobre uma pontinha didática que eu talvez tenha deixado passar. Ainda assim, está recomendadíssimo, hein.
Ademais, numa era de vampurpurinos (vampiros purpurinados), homens dentudinhos e sedutores em sua voracidade, gateeenhos e boys misteriosos e pálidos mais pegáveis dos rolês, que é como o cinema e a literatura têm representado esses seres atualmente, ler o que talvez seja o maior e mais legítimo alicerce das lendas vampirescas se torna uma experiência, além de tudo que já mencionei, divertida e curiosa. Ver o quanto Drácula destoa de Edward Brilho de Verão da Silva Rodrigues Cullen chega a ser cômico. E foi interessante saber de certas características vampíricas cimentadas pelo próprio Stoker, com base no que se especulava a respeito em sua época, e que foram totalmente esquecidas pelas representações de hoje em dia. Quer dizer, hoje a gente ''sabe'' que os vampiros só gostam da noite, chupam sanguinho pra sobreviver, têm alho como sua kriptonita, viram morceguinho pra dar uns rolês de vez em quando e... basicamente é só isso que é repassado e difundido hoje em dia. Mas MEUS AMIGOS, a coisa vai TÃO mais além disso que eu me sinto tentada a acrescentar umas Curiosidades Vampíricas Segundo Stoker a essa resenha (que já está enorme, eu sei, eu sei).
Mas enfim, mas então, mas e agora, se você teve força de vontade o suficiente pra chegar até o fim desse texto, dê uma chance a Drácula, porque lê-lo certamente será uma tarefa bem melhor do que aturar meus textões; e se esse meu último argumento não te empolga o bastante para embarcar na leitura, pense na ideia de poder ter acesso à Lista de Curiosidades Vampirescas Oficial e poder jogá-la na internet pra roubar os fãs de Crepúsculo pro Drácula, que tal?
Sério, leia o livro.

Sobre os personagens vivendo o livro todo através de seus escritos em diários:
''O HÁBITO DE REGISTRAR MINUCIOSAMENTE OS FATOS DEVE DIMINUIR O PODER DA ANGÚSTIA.''

7 comentários:

  1. Existe uma "continuação" de Drácula entitulada "Drácula, o Morto-Vivo". É uma obra escrita pelo neto ou bisneto do Bram Stoker.
    Bem, nesse segundo livro, cujo autor inclusive se baseou em anotações antigas, temos uma espécie de reviravolta na trama. Talvez não seja surpresa para alguns leitores mais atentos, mas o cenário é o seguinte: um Jonathan extremamente fragilizado, doente, enfim, um homem decadente; um Drácula que se mostra cada vez menos perverso e com uma aura de heroi; uma Mina revelando seus sentimentos mais profundos; e um dr. Seward travando uma batalha inglória com a vampira Bathory.
    Recomendo!

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    1. Nossa, como eu ainda não tinha sabido disso?!?! (Tá, talvez porque eu não pesquisei tanto sobre todo o universo de Drácula e vida do Stoker, só li o livro em si mesmo.)
      Me interessou!, embora eu fique com um pé atrás com continuações que não são escritas pelo autor original, porque sei lá, respeito muito o universo idealizado pelo fundador da obra; mas eu com certeza leria (lerei!) porque, como você disse, o neto/bisneto/? se baseou em anotações antigas do Stoker e tem um enredo interessante como premissa. Vale a pena apostar. ;)
      -
      Ahh, mesmo com um comentário tão curto seu, gostei da sua escrita, sabia? Acho que renderia boas resenhas/textos se tu tivesse um blog (que eu provavelmente gostaria de ler), cara pessoa anônima. =)

      Obrigada por comentar; abracinho pra você. ^^

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  2. Valeu pelo elogio! Na verdade, leio menos do que gostaria, então meu blog seria atualizado a cada, digamos, 200 séculos? Hahaha, seria um vazio profundo. Prefiro ler o seu blog/as suas resenhas. Sua escrita é excelente, tem evoluído bastante. Eu noto nas entrelinhas uma consciência muito profunda em ti, um raciocínio bastante fluído. Seus textos acabam sendo um breve resumo da complexidade do que passa pela tua cabeça, e tu consegue organizar isso tudo muito bem, rs.
    Continue assim...

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    1. Nossa, que coisa mais bonitinha isso que tu falou sobre minha escrita e eu. Tive que deixar em destaque na página sobre mim no blog, olha: http://krahelake.blogspot.com.br/p/in-lake.html?m=0 =)
      Você parece ser o tipo de pessoa com quem eu gostaria de conversar por horas. Pena que não dá pra fazer isso pelos comentários do blogger, ia ficar estranho, haha
      Mas uma hora eu deixo um formulário pra contato em algum lugar do blog e isso talvez venha a ser possível. Será? :)

      Abracinho de novo. (E ainda acho que seria tri tu ter algum espaço pessoal pra escrever na internet. Você transmite ser uma pessoa profunda, e normalmente são essas que têm muita coisa pra externar.)

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  3. Infelizmente nunca li Drácula, e depois de uma amiga ter dito que se tornou um dos seus livros preferidos e de ler seu post fiquei muito interessada!
    Andei stalkeando seu blog (hehehehe) e adorei aqui, o modo como você escreve me faz sentir como em um abracinho confortável, sabe?
    (E você também quer Medicinaaaaa AAAAAAAAAAAAAAA <3)

    Limonada (antigo Novembro Inconstante)

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  4. Ahhh, que amor receber esse comentário! <3 E acho que também ficou claro que eu super stalkeei teu cantinho idem, né? haha

    Drácula é bem legal, leia mesmo <3

    MEDICINA AHHHH precisamos falar sobre uma hora, compartilhar os dramas e experiências, haha Eu imaginei que tu queria med porque li que tu tá há 2 ou 3 anos fazendo pré-vestibular e QUE OUTRO CURSO FAZ ISSO CAGENTE?!

    (Sério, super precisamos conversar uma hora.)

    P.S.: dizer que minha escrita parece um abracinho é de apaixonar, genti, own! Obrigada!

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