29/03/2015

Como Salvar Uma Vida

Achei esse livro (Como Salvar Uma Vida, de Sara Zarr) na estante de novos exemplares na biblioteca e o título me chamou a atenção. Gosto do que trata da vida. Abrangente, eu sei. Mas nem tudo que se diz tratar da vida o faz realmente.
Este livro sim.
Eu estava em cima de uma árvore lendo quando tirei a foto.

Logo nas primeiras páginas somos recepcionados por duas personagens protagonistas cuja existência está mergulhada na incerteza resultante de acontecimentos naturais, mas trágicos, que acometeram suas vidas; Jill e Mandy.
Jill é uma menina adolescente que tinha uma vida agradável que beieava à perfeição, mas se vê perdida quando seu pai é morto em um acidente de carro e tudo começa a desmoronar. Sem saber ou querer lidar com o próprio luto e perda, ela se torna uma pessoa diferente, fechada, com mágoas, angustiada, que repele todos ao seu redor pois tem medo do que se tornou e não quer encarar as dores do que o passado lhe trouxe.
Jill se perde, literalmente. A Jill de antes não mais existe, a menina otimista, feliz, alegre e esperançosa foi substituída por uma Jill que não vê mais perspectiva alguma de um futuro bom e agradável, uma vida que valha a pena. Mas Jill quer se reencontrar, quer salvar a si mesma, essa vida que se perdeu; no entanto, não sabendo por onde começar a procurar o que era antes de toda a tragédia que caiu sobre sua vida, uma vez que seu maior ponto de referencia para si mesma era o pai, agora morto, ela não sabe como ou se poderá se reencontrar, se conhecer novamente e salvar a si mesma.
Então Mandy entra, também perdida, em sua vida.
Mandy é uma adolescente de 18 anos, grávida fruto de uma relação com um menino por quem se apaixonou e com quem ficou por apenas uma noite. Diferentemente de Jill, Mandy não teve, em período algum, uma vida boa. Filha de uma mulher que só não a abortou porque tinha esperança de conseguir dinheiro do homem casado de quem engravidou, Mandy sofreu, durante toda a sua vida, o abandono de uma mãe que a tratou com indiferença e desimportancia desde que não conseguiu lucrar com a filha, uma vez que o homem/pai fugiu antes mesmo de conhecer a criança.
Tendo sido abusada pela grande maioria dos namorados que a mãe já teve (inclusive o último, de quem também fugiu), Mandy tem uma vida marcada por feridas que lhe foram infringidas ao longo de toda a infância e adolescência, e após descobrir a respeito da própria gravidez, se vê querendo oferecer uma vida diferente ao seu bebê.
Mandy sabe que não conseguiria isso estando no lugar onde estava, com a mãe e o padrasto que a abusava, assim decide oferecer o bebê a uma adoção aberta, onde outras pessoas assumem a maternidade de acordo com os desejos da mãe biológica, sem envolvimento de advogados.
Assim ela acha a mãe de Jill, que também perdida com a morte do marido, decide que quer algo a mais, uma criança a quem dedicar amor e se sentir completa novamente. Através de um anúncio que a mãe de Jill posta em um site de adoção aberta, informando que quer oferecer um bom lar a uma criança a quem amar, ela e Mandy começam a se comunicar através de e-mails e estabelecem os parâmetros da adoção, os quais, decididos por ambas, definem que Mandy vai morar na casa de Jill e sua mãe até o nascimento do bebê.
A partir de então seguem-se as histórias das duas jovens que são impelidas, pelas ocorrências naturais da vida, a aprender a conviver entre si e encarar o próximo de uma forma mais altruísta e amável, mesmo que sua situação seja muitíssimo diferente da nossa.
Os personagens são apaixonantes como raramente se encontram em histórias, me apeguei a cada um deles e senti saudades quando terminei a leitura. De temperamentos bem variados, nos envolvemos com cada um; de Jill, a menina explosiva, rebelde e forte, a Mandy, frágil, perdida, com uma ingenuidade infantil a respeito da vida. A narrativa torna latente o contraste entre as duas personalidades e isso marca as páginas com os fracos e fortes de cada uma, as oscilações em seu humor e expressões de seus sentimentos.
Devo dizer que o livro me surpreendeu, pois nos primeiros momentos da leitura me pareceu de uma linguagem e perspectivas meio infantis, mas minha opinião inicial se demonstrou errada, nada além de um equívoco, e a história e a escrita permitiram ao livro ganhar espaço entre os favoritos na minha estante, tal como me renderam várias linhas transcrevendo muitas citações que achei dignas de nota.
O próprio título nos brinda com uma reflexão; numa primeira lida desatenta somos levados a pensar que a semi-orfã Mandy é quem precisa de salvação, mas no decorrer da história, aos poucos compreendemos que status social, dinheiro e condições de vida confortáveis, como as de Jill e sua mãe, são apenas a pontinha do iceberg na lista de prioridades humanas, muito abaixo daquilo que apenas o afeto e amor compartilhado pode proporcionar. 
Acima de tudo, o livro nos faz lembrar que, em maior ou menor urgência, todos nós, uma hora ou outra, precisamos de uma salvação.
Recomendadíssimo!


                                                                     Uma citação:
   ''Não quero que seja assim, mas não sei como fazer não ser.''
 -Como Salvar Uma Vida