04/02/2015

Os mortos mais vivos.

Estou de olho no Zacarias.
Não sei por que escolheram -seja quem for o responsável por esse feito- meu ser singular para essa tarefa, mas a questão é que o fizeram, e aqui estou.
Veja bem, Zacarias é um ótimo sujeito: simpático, com um olhar tranquilo que disfarça a inteligencia que percebo através dele, e tem um certo ar sarcástico que adoro. É até meio bonito -embora eu não me julgue uma boa pessoa para notar tais coisas- . Zacarias é tudo de bom, e por isso não me sinto tentada a cortar o seu barato aqui na terra.
Mas não é pra ser assim. Um cadáver vivo não pode ficar andando por aí... Estou aqui, e estou morta.
Certo. Mas nem mesmo eu estava por aqui. Estava confortavelmente bem em um lugar agradável, e apenas fui a criatura que mandaram para cá com a missão de orientar o Zacarias de que ele precisa ir pro além. Esse é meu papel, por menos agradável que esse fato me pareça. Mas o mundo não é mais o lugar dele. Ele precisa ir para o seu lugar -o qual não sei qual é, mas oriento-o a seguir em frente.
Olha, não me pergunte de onde eu vim, ok? Provavelmente saberei tanto quanto você, com exceção de que tenho conhecimento de que era um lugar bom. Essa questão não cabe a mim responder, então apenas saiba que estou aqui para ajudar o Zac. Ponto. Depois da cumprir o dever, volto para o lugar de onde vim, assim como ele irá para o seu. E por mais que me doa estragar a alegria do Zacarias (ele parece bem feliz e realizado aqui), eu não poderia voltar para o meu lugar antes de tê-lo levado para o dele. Então eu teria que fazer isso logo, pois o lugar de onde vim era bom, e eu gostaria de poder voltar pra lá quanto antes possível.
Mas existe um problema.
E o ponto crucial dessa questão -o problema- é que há algo com Zacarias. Algo que faz parecer com que ele pertença a esse lugar. Esse plano físico/espiritual indefinido parece completá-lo intensamente; ou o contrário: ele completa esse plano. É como se esse lugar, diferentemente do resto dos seres humanos, fosse o ideal para ele. Fosse o que torna sua existência tão intensamente completa que fez com que ele atingisse a perfeição na percepção que ele tem do que está ao seu redor. A percepção do amor, gratidão, felicidade, prazer, e por que não também raiva, dor, aflição etc? E as cores! Como ele sente as cores! Sente tudo nelas. A única coisa que ele não sente, em lugar nenhum, é o medo. Zacarias não tem o maior medo dos vivos: o medo de sentir. Aqui é isso o que ele faz; o seu papel: sentir. Zacarias sente. E como ele sente e é perfeito nisso!
Aí está o problema. Depois de observar tanto Zacarias e avaliar tão minuciosamente os fatos e percepções, concluo que ele pertence, sim, a esse lugar, pois aqui ele é completo. Zacarias é melhor sendo morto do que vivo.
E por mais que esse seja o meu problema ''principal'' -não conseguir levar Zac de volta em função dele pertencer aqui- outra questão chama muito a minha atenção, uma questão que me desespera: será assim com todos os vivos? Passam por sua longa existência nessa vida extremamente curta sem atingir a verdadeira e completa essência de sua vivência, da vida? Serão todos os que passam se escondendo atrás do muro do estupor que constroem ao seu redor para, na comodidade inativa, se proteger dos sentimentos? Por medo de não sentir? Cada vez mais penso que sim. Admitir isso para mim mesma me causa extrema dor, um buraco na alma -a alma na qual estou pairando por aqui, para ''ajudar'' o Zacarias- que se aprofunda ao engolir a tristeza do que essa consciência -de que eles passam pela vida sem sentir- me causa. O que é a vida senão a soma do sentir? O que resta dela sem sentimentos?
Dessa resposta sim tenho medo, pois percebo que esses corpos com calor que andam por aqui se pensam vivos, e não são, de fato. Todos mortos em sua essência. Mortos.
E medo agora também tenho de roubar isso do Zacarias. Não posso tirar isso dele, pois o ''morto'' Zacarias, diferentemente dos que apenas perambulam por aqui com batimentos cardíacos, tem o que é a essência da vida. O ''morto'' é o único que realmente sente. O ''morto'' é o único vivo.
Irônico, não? Pode-se dizer que sim. Mas também é triste.
Aqui Zacarias é inteiro, completo, perfeito, bom. Pertence aqui. É vivo.
O problema volta: não levando-o para onde ''tem que ir'' -o que farei, digo, não levarei ele, não o tirarei de seu sentir- também não poderei voltar ao lugar de onde vim. É a regra, disseram-me.
Mas já não importa, e o problema não é mais problema, é solução. Quero ter também o que Zacarias tem. Não quero e não vou mais voltar para aquele lugar. Vou ficar com Zacarias, nós dois juntos na beleza da percepção dos sentimentos, andando entre os pobres coitados e iludidos mortos que enganam a si mesmos dizendo serem vivos.
Viverei, com Zacarias, os sentimentos.
***
-Zacarias, ficarei aqui!
-Não vai partir?
-Quero sentir!

 FIM

 Releitura do conto O Pirotécnico Zacarias, de Murilo Rubião. Escrito em 22/11/2013