24/06/2018

Mescelânea - Maio 2018

Mescelânea é um post mensal que faço com uma miscelânea (segundo o dicionário: conjunto confuso de coisas diferentes; mistura, mixórdia) de comentários a respeito dos livros que li, filmes/séries a que assisti e links que visitei no mês em questão.

Li
Lesendes Maedchen
Foram oito livros lidos em maio: Isaac Newton - Personagens que mudaram o mundo (Michael White), A Outra Volta do Parafuso (Henry James), Achados e Perdidos - Volume II da trilogia Bill Hodges (Stephen King), O Iluminado (Stephen King), Um dia (David Nicholls) e Métrica, Pausa e Essa Garota - trilogia Slammed (Colleen Hoover).
A mini biografia do Newton era a última que eu tinha pra ler dessa série na minha estante.
Caso surja interesse, aqui algumas curiosidades sobre o cara: geralmente sua comida, depois de servida, esfriava e ele esquecia de fazer as refeições por horas, compenetrado nos estudos, e seus serventes encontravam os pratos intocados depois de dias e noites inteiros. Depois de anos como o menininho retraído da classe, ele se envolveu em uma briga com um típico valentão e venceu (!), o que o colocou numa posição de liderança na escola. Newton vilipendiou o patrimônio escolar, quem diria!, gravando seu nome no cimento da janela de Grantham School. Posteriormente o local virou um ponto turístico por atrair seus admiradores. O livro pontuou isso de um jeito que achei bem bonitinho: "Até Isaac Newton quis dizer ao mundo que esteve aqui." E, por fim: ele era absurdamente parecido com uma menininha em seus doze anos (esse retrato é fidelíssimo).
Li Pelos Olhos de Maisie do Henry James, e detestei, saindo sem querer pegar mais nada dele... Até ver críticas e recomendações muito boas a esse livro. A Última Volta do Parafuso conta a história de uma jovem governanta contratada para ser tutora de duas crianças ricas em um casarão. Lá ela começa a ver alucinações e percebe aos poucos que existe um clima bem estranho no ar, propagado através das figuras das crianças, que dialogam com as aparições de uma maneira bem perturbadora.
O legal do livro é a construção da tensão pelo macabro, muito bem desenvolvida de um jeito sutil que realmente envolve a gente, e é legal ver esse recurso empregado em uma obra tão antiga (terror clássico é uma coisa linda, não?).
Não morri de amores nem fiz dele um favorito, mas recomendo, sim.
Peguei Achados e Perdidos sem olhar duas vezes só porque era do King e há séculos nada novo dele chegava nas estantes da biblioteca em que sou sócia. Só vi depois que era o volume dois de uma trilogia e eu não tinha o um e o três. O meu cérebro não me deixa quebrar a ordenação de coisas assim, mas eu promovido uma campanha contra meu TOC semi diagnosticado (são histórias...) lendo várias resenhas que deixavam claro que ele era um volume independente dentro da série que pouco dialogava com os outros dois, então li sem grandes assombros. Absolutamente nada na minha compreensão foi prejudicado, mas ele acaba revelando spoilers do volume um, o que é algo a evitar. Com certeza vou ler a trilogia completa e fazer resenha, mas já deixo recomendado esse livro especialmente porque ele é um livros sobre livros e sobre leitores, com um vilão que é um fã maníaco e psicopata que mata o autor de sua série favorita porque não gosta do desfechos dado ao protagonista (olha que kirido) e rouba outros manuscritos do escritor, e um garotinho, também leitor voraz, que os encontra escondidos anos depois e tem que lidar com a obsessão e caçada assassina do criminoso.
Não achei uma OBRA PRIMA do King, mas é muito bom e me rendeu o quote favorito do mês.
Aí fui pra outro do King, dessa vez da biblioteca municipal da cidade, cheia deles, esse uma OBRA PRIMA inegável e atemporal, tão atemporal que não vou perder tempo com descrições, porque acho que todos nós conhecemos O Iluminado. Eu amei e também escrevi uma resenha sobre ele. Recomendo a todo mundo mesmo, leitura ideal para noites descompromissadas.
Quando devolvi O Iluminado já peguei Um Dia, essa coisa linda que eu vinha cobiçando há séculos por só ouvir elogios a respeito. Conta a história de Dexter e Emma, dois amigos com personalidades bem opostas que se conhecem na noite de formatura e que tinham tudo pra nunca mais se falar e virar completos desconhecidos, mas cujas vidas acabam convergindo em diversos momentos fazendo com que eles desenvolvam um relacionamento muito tocante que acompanhamos durante 20 anos, sempre nos dias 15 de julho de cada mês.
Esse livro me envolveu e tocou de TANTAS maneiras diferentes que eu saí sem saber o que fazer com a minha vida. Como continuar depois de Um Dia?
Virou um favorito absoluto e ainda vou escrever sobre ele, por questão de saúde emocional, embora nem saiba por onde começar. [Nota do futuro pra dizer que já escrevi a resenha e já postei.]
Recomendo DEMAIS.
Voltando à biblioteca do meu bairro, notei que eu estava saturada por uma maré de clássicos e precisava de um fôlego com algo bobinho, aí peguei o volume um desse YA Slammed sem ver que também era uma trilogia (sua atenção já esteve melhor, Carolina). Como YAs são sempre rápidos de ler, baixei o resto em PDF, que é algo que odeio e ao que só recorro em último caso, mas enfim.
Morri de vergonha alheia. Os livros são muito ruins, cara. Tipo, mesmo.
Por bastante tempo eu me debati com o dilema será que o YA é ruim mesmo ou estou detestando porque tenho 20 anos na cara? Porque eu fui sem grandes expectativas, não estava nutrindo muitas esperanças, exigência zero, mas MESMO ASSIM a ruindade me atingiu com tanta força que eu comecei a titubear.
Mas bati no peito em defesa da categoria porque não pode ser, nem todo o YA é tão fraco só por ser destinado a adolescentes, me recuso...
No último volume a autora até comete o erro de REPRISAR TODO O VOLUME UM, só que dessa vez pelos olhos do garoto da jogada, como se precisássemos de um lembrete do quanto ele é ruim (ou ela estava tentando se redimir e corrigir as coisas nos 45 do segundo tempo?), só que por uma perspectiva diferente, olha que engenhoso.
Nem deu pra me apaixonar toscamente pelo protagonista masculino, e olha que eu jogo minha maturidade (COF COF) no ralo e abraço minha bobice adolescente com todas as forças quando me presto a ler um YA.
A historinha é de amor, cheia daqueles clichês e tudo mais, mas olha, eu literalmente parava desconcertada pra rir de constrangimento e revirar os olhos de vergonha alheia com as bobices que ela apresenta em algumas horas. É tão ridículo que você se sente culpado por estar lendo, mesmo sem ser autor de uma única linha, sabe?
Foi uma experiência bem desconfortável que eu não recomendo.

''Para os leitores, uma das descobertas mais eletrizantes da vida era a de quem eles eram leitores, não apenas capazes de ler (o que Morris já sabia), mas apaixonados pelo ato. Desesperadamente. Incorrigivelmente. O primeiro livro a fazer isso nunca era esquecido, e cada página parecia trazer uma nova revelação, que queimava e exaltava: Sim! É assim! Sim! Eu também vi isso! E, claro: É o que eu acho! É o que eu SINTO!''
-Achados e Perdidos, S.K.
Assisti
Atingi a marca absurda (dentro da minha realidade) de 21 filmes assistidos em maio, com mais três temporadas e meia de duas séries.
Acontece que fiz uma maratona com os filmes dessa edição do Oscar, em que me propus a ver todos os indicados a melhor filme e todos os que me interessassem nas outras categorias, porque #cansada de assisti-los só anos depois na Tela Quente com 40 minutos cortados. Foram 18 filmes do Oscar com mais 3 outros aleatórios que vi durante o mês. Mas como pretendo falar sobre os escolhidos pela academia separadamente, já que a internet não pode prescindir do meu posicionamento cinematográfico crítico (seriously, Carolina?), nesse post aqui fico só com os outros 3 aleatórios.
Ainda assim, a lista dos do Oscar, mais ou menos (foco na minha incerteza) em ordem decrescente de favoritismo, é: A Forma da Água / 3 Anúncios Para Um Crime / Eu, Tônia / Baby Driver / Logan / A Grande Jogada / Dunkirk / Corra! / Me Chame Pelo Seu Nome / Projeto Flórida / Lady Bird / Mudbound / Artista do Desastre / Roman J. Israel, Esq / Trama Fantasma / Todo o Dinheiro do Mundo / The Post / O Destino de Uma Nação.

Elysium
Assisti à primeira meia hora desse filme há um ano atrás, de madrugada com um amigo enquanto a noiva dele e o resto do nosso grupo de amigos conversavam e ajeitavam uns itens decorativos para a cerimônia matrimonial em outro cômodo. Quando ela liberou o pessoal (porque ela é esse tipo de pessoa Tirânica Mas Amável mesmo) já tava todo mundo meio morto (passava das quatro da madrugada) e fomos embora. Eles casaram e se mudaram pra Portugal e eu nunca terminei o filme... Até agora.
A Terra está toda ferrada e a humanidade está um caos, mas existe uma nave enorme que simula um planeta pequeno no espaço, Elysium, onde só a elite pode chegar enquanto a maioria do pessoal aqui embaixo se mata, caga em patentes e come aveia com barro, mais ou menos. Só que em Elysium também existem máquinas curativas e o protagonista, um operário ordinário, precisa delas por questão de sobrevivência em dado momento, então se lança na missão de tentar viajar ilegalmente para o planeta em naves clandestinas com a ajuda do Capitão Nascimento.
Infelizmente o filme é bem ruinzinho. Não sei bem o que é, mas eles erraram no tom em algum momento, nos takes, na figuração... E olha que meu senso crítico vai pro espaço (o trocadilho não é intencional) quando estamos falando de realidades distópicas/pós-apocalípticas.
Apesar do elenco de peso (sério que vocês conseguiram desperdiçar uma Jodie Foster? How the fuck?), com direito a dois brasileiros, não vale seu tempo.

Um Dia
Aí fui assistir à adaptação cinematográfica do livro Um Dia, porque não brinco em serviço.
Ele deixa as coisas bem mais bregas, quase de um jeito constrangedor, e não tem nem 1/4 do peso do livro, mas não é como se eu estivesse esperando isso.
É um filme bonitinho e agradável, mas fraco em nível sessão da tarde, especialmente porque eles pegam pesado na hora de fazer a Anne Hathaway parecer retardada e o Dex está odioso demais em sua postura de playboy, então é difícil simpatizar com ele como ocorre no livro.
O problema é que além de tudo eu vi dublado, e a capacidade que isso tem de amangolar (-Q?) os atores é absurda.
Achei ele um filme bem levinho e ameno que não acrescenta muito. Mas ainda assim não consigo pensar em ninguém que se encaixe melhor no papel do que a Anne.

A Vida Marinha Com Steve Zissou
Lembro de como fiquei com meu primeiro Wes Anderson, Os Excêntricos Tenenbaums, quando o assisti há uns dois anos atrás, também no corujão (corujão está construindo toda a minha identidade cinematográfica).
Eu não estava entendendo bem como aquele jeito de fazer cinema, tão excêntrico quanto o título do filme, funcionava comigo. Fiquei fascinada pela inusitada paleta de cores, marca registrada do diretor, pela excentricidade (ela de novo) dos personagens, pela peculiaridade daquela forma de contar uma história que em si não era nada trivial.
Então quando eu soube que ia passar Steven Zissou no corujão, não pude perder. Todos os elementos típicos do Wes Anderson se percebem no filme, claro, que conta a história de um grupo de aventureiros que documenta suas atividades lançando filmes prestigiados e que sai em exploração pelo mar atrás de um tubarão raro que matou um membro da equipe. A história é bem disparatada e louca, como deve ser, e a fotografia é uma poesia à parte. As cores pastel, a métrica obsessiva e inconfundível em cada quadro...
É um filme que meus irmãos odiariam, eles achariam sem pé nem cabeça (e o roteiro tem um quê de absurdo inegável - e indispensável), mas que eu assisto, como acho que todo mundo que gosta do Wes Anderson assiste, só pelo prazer de prestar atenção nos detalhes, sabe?
São filmes divertidíssimos.
Esse é especialmente divertido porque O SEU JORGE FAZ PARTE DO ELENCO E APARECE NO MEIO DAS CENAS TOCANDO VIOLÃO E CANTANDO COM A VOZ INCONFUNDÍVEL DELE DO NADA E VOCÊ FICA COMO ASSIM QUE COISA LINDA. Eu nem lembrava que ele estava no filme, então dei um gritinho quando ele apareceu pela primeira vez cantando Bowie porque AHH MEL DELS É O SEU JORGE WTF ADOREI. Embora minha mãe e a Taiane (ambas abandonaram o filme antes do meio, veja só) já estivessem bem incomodadas, eu me permitia dar chiliques toda vez que ele aparecia, assim, sem mais nem menos, no meio das cenas, cantando de um jeito totalmente absurdo naquele cenário, mas também absurdamente lindo (quer dizer, ele tem uma música com o meu nome; eu não preciso de mais nada na vida).
A gente tá de boa vendo o filme e AAAAHHHH O SEU JORGE. Tudo ok, tudo normal até que OLHA ALI ELE DE NOVO. Tava distraída com os gorrinhos vermelhos e então TAIANE ELE TÁ CANTANDO DE NOVO PARA TUDO.
Assistir a esse filme foi um amor. Fui dormir sorrindo.

Orange Is The New Black
Assisti às três últimas temporadas lançadas da série.
Pra ser sincera, eu fui perdendo o interesse na maratona. Passou a ser uma série que pra mim funcionaria melhor assistindo pontualmente e não em sequência. Ela continua muito boa, mas não me prende com tanto apelo.
Essas últimas temporadas também foram muito mais cômicas do que trágicas (a mais dramática é a segunda) e eu gosto de tragicidade.
O protagonismo da Piper também foi jogado pra escanteio completamente. Ela divide as cenas de igual pra igual com as outras personagens, e agora não temos uma protagonista só, e sim uma dezena delas, ou uma dezena de coadjuvantes, como você preferir.
Eu vou continuar assistindo à série, sim, porque ela é bem interessante, mas vou pegar leve no ritmo.
E continuo recomendando. Ela é hilária.

The Walking Dead
Vi os últimos episódios lançados da oitava temporada, e acho que todo mundo sabe que já deu o que tinha que dar. A história está dando voltas, os dilemas morais estão ficando repetitivos e por isso cansam e perdem sua validade, as mesmas besteiras cometidas pelos mesmos personagens são de encher o saco, o drama tá ficando meio tosco e perdendo o peso etc. Como dito, eu geralmente amo histórias pós-apocalípticas e meu "senso crítico ordinário" não se sustenta perto delas, mas já tá na hora de acabar. Tô torcendo muito pra que anunciem a nona temporada como a última, porque eu já estava assistindo aos episódios me arrastando e não vou ter fôlego pra mais muita coisa.
Porém, ainda quero saber qual vai ser o grand finale, embora a essa altura do campeonato não me preocupe tanto com a qualidade da coisa, e acharia HILÁRIO se fôssemos brindados com Rick acordando do coma de início na cama de hospital com Lori e Carl ao lado e um descaradíssimo e abusado (por parte dos roteiristas) foi tudo um sonho arrematando porcamente o final. Com certeza a indignação dos fãs ia tomar conta da internet. Eu ia rir demais.

Links, LINKS EVERYWHERE
-Sobre o estereótipo nascida sexy ontem.

-O livro que deu origem ao termo meritocracia era uma distopia.

-Eu tive um futuro promissor [no passado].

-Tempo livre: necessidade que virou privilégio. Ter tempo livre não é vadiagem, sociedade; é questão de saúde.

-E se o Temer protagonizasse as séries da Netflix? Desculpa, mas eu tô rindo.

-Por que a síndrome da impostora continua atormentando as mulheres?

-Emilia Clarke falando sobre a ironia de ser indagada sobre como é interpretar uma "Mulher Forte" (Daenerys).

-Will Smith contando como conheceu Michael Jackson (dentro de um armário - wtf) foi a melhor coisa que eu vi esse mês.

-Desculpa por linkar isso.

Minha existência adquiriu um significado maior (não que ele tivesse alguma substância antes, mas...) desde que eu soube que nos será concedida a bênção de um terceiro filme da franquia Como Treinar o Seu Dragão, que é uma das minhas animações favoritas da vida. (Até aquele trailer eu não sabia o quanto precisava de um Soluço barbado pra ser feliz.)(Nem das comparações com o Jake Gyllenhaal.) E como fazer associações ridículas é um modus operandi arraigado nesse site, e como, na dúvida, eu sempre aposto nos bichinhos (como não apostar, afinal?), vou postar essa foto do MEU nosso gato que me lembra muito o Banguela.
Ahh, vai, é idêntico... Né?
Teríamos nomeado ele assim (todos somos fãs assumidos de Como Treinar o Seu Dragão. E não trabalhamos com guilty pleasure) se meu TOC permitisse dar o nome de Banguela a um ser que na verdade tem dentes (tal qual o próprio Banguela, por sinal; como Soluço mantém a paz de espírito propagando essa incoerência?), porque esse tipo de desordem lógica tosca me faz perder o sono à noite.
Como Floco é clichê demais, meus irmãos acharam Luigi muita cara de pornô mexicano, Wolke já foi o nome do meu falecido hamster, Duster é o nome que eu idealizo pro felino que vou ter no apartamento do meu futuro idealizado e nossa criatividade aparentemente não vai além disso, o pobrezinho continua sendo chamado de Gato (minha mãe segue inexpugnável tentando Mimi, mas sempre fazemos questão de revirar os olhos muito enfaticamente em protesto, óbvio) por tempo indeterminado. ¯\_(ツ)_/¯

13/06/2018

Um Dia

Do David Nicholls
Durante bastante tempo eu pensei que Um Dia era, entre outras coisas, sobre como a passividade não leva ninguém a lugar nenhum, uma vez que Emma, a protagonista feminina que divide espaço com Dexter, nutria uma paixão secreta pelo amigo e, por medo e receio, jamais buscava qualquer realização concreta para seus sentimentos, resignando-se inerte na posição de amiga leal e companheira, tentando com afinco convencer a si mesma de que não era pra ser mesmo, o destino dita, tudo bem sermos só amigos, nossa chance já passou.
Como o livro intercala a narrativa através da perspectiva dos dois amigos, um de cada vez, vemos que Dexter também sente algo diferenciado por ela, embora não se preocupe tanto em definir a natureza desses sentimentos. Ele gosta de Emma sem saber que gosta de verdade de Emma. (Como o que captamos dele no cômputo geral é uma indiferença incerta durante a maior parte do tempo, vale constar que concentro minhas reflexões (presunçoso, eu sei) especialmente - mas não somente - na figura de Emma, embora não o tire de cena.)
Só que os dois são claramente perfeitos (esse é um conceito errado, mas licença poética, por favor) um para o outro, meant to be, aquele eterno casal que todos os amigos shipam secretamente fantasiando o dia em que eles enfim deixarão o orgulho de lado e ficarão juntos, porque claro.
Dexter e Emma foram feitos para ficarem juntos, são Aquela Pessoa, umA Constante mútua. Não importa quantas vezes Dex saia pelo mundo ou quantas peças infantis hesitantes Em apresente com seus alunos, é pra ela que ele vai voltar cheio de histórias sobre a Índia e é pra ele que ela vai ligar pra dizer que foi um sucesso, os pais adoraram. Todas as estrelas se alinhavam (eu já requeri minha licença poética, né?) para que eles ficassem juntos...
Mas nenhum deles nunca fazia nada. Ficavam observando passivamente o tempo passar e as oportunidades de desenvolverem um relacionamento amoroso acenando para eles do banco de trás.
Emma se prende a sua autoestima deturpada que berra insignificância e a suas noções de insuficiência, achando que os dois nunca dariam certo porque ela jamais seria alguém importante o suficiente - nem pra si mesma. Já Dex nem sabe bem o que sente, porque tem medo de analisar os próprios sentimentos e se toca numa rotina vertiginosa (ele é o típico baladeiro) em sua vida de pseudo superstar alucinado que não tem tempo para sentimentos. E assim o tempo passa e eles nunca se resolvem. Vivem suas vidas, constroem e desmancham carreiras, começam e largam empregos e projetos, iniciam e rompem namoros e casamentos, envelhecem... Mas quando se trata dos apelos românticos de seu relacionamento (aos quais Dex nem atenta, mas que perturbam Em constantemente), são sempre apáticos, sempre resignados, sempre passivos, sempre inertes.
Claro que eles não têm olhos apenas um para o outro, porque ambos se envolvem com outras pessoas ao longo da história, mas aquela voz no cantinho da cabeça que sugere essa união sussurra para eles continuamente.
Comecei a ver o quanto esse livro é sobre mim e para mim, porque eu sou assim, especialmente no que diz respeito a relacionamentos interpessoais. Me prendo à ideia errônea de que se for pra ser será, o destino se encarregará de me conceder o que cabe a mim, deixa a vida fazer seu trabalho e todo o tipo de baboseiras dessa estirpe, e não faço nada, não dou um passo sequer, me iludindo tacitamente com aquelas ideias de conto de fada em que a noção em voga é a de que A Pessoa Certa Virá Não Importando As Circunstâncias.
Quebro a cara sempre, claro. Foi o que aconteceu com meu mais recente protótipo de relacionamento, por exemplo.
Então eu me via muito nos dois, especialmente em Emma, nessa inércia ridícula em que nós duas nos afundamos deliberadamente e que é garantia de estagnação.


"Acho que você tem medo de ser feliz, Emma. Parece que pensa que o caminho natural das coisas na sua vida é ser triste, sombria e macambúzia, e odiar seu emprego, odiar o lugar onde mora e não ter sucesso nem dinheiro, e Deus a livre de um namorado. Na verdade vou mais longe: acho que você gosta de se sentir frustrada e ter menos do que queria ter, porque isso é mais fácil, não é? O fracasso e a infelicidade são mais fáceis, porque você pode fazer piada com isso. [...]"



Essa bagaça é tão eu que chega a ser creepy.

Claro que os anos de relacionamentos heteroafetivos frustrantes e vazios não são "culpa dela" (porque me desculpem, o bosta da história é claramente Dexter) por não saber como proceder, mas não podemos negar que ela, a quem esse apelo romântico mais urge, se deixa carregar pela maré - como eu.
Essa identificação fez com que o livro não fosse só uma leitura, e sim uma experiência pessoal, uma extensão escrita da minha vida.
E Um Dia é sobre isso mesmo, sobre como você pode perder décadas gloriosas por comodismo e medo de agir. Mas não é somente isso.
Porque uma hora, quando parecia que nada iria acontecer mesmo, o par cria vergonha na cara e vira enfim um casal.
É lindo, é sensível, é tocante... Mas porque demorou tanto, durou menos do que poderia.
Talvez uma outra interpretação possível é a de que tudo tem um tempo certo e o tempo de Dex e de Em foi esse mesmo, ponto. E essa proposição é correta, porque antes de ser uma história sobre amor, Um Dia é uma história sobre o tempo. Mas estou sendo um pouco negativista conjecturando se na verdade a demora não foi só isso mesmo, uma demora. Desnecessária e coibitiva. Limitante.
Emma e Dexter se conhecem na noite de formatura da universidade e têm uma noite fugaz de reflexões e devaneios sobre futuro, vida, universo e tudo mais. Só que Emma é insegura, contida e ponderada e Dexter é o arquétipo de playboy galã pegador adendo adendo adendo. A princípio eles não tinham motivos para alimentar a relação, seja ela qual fosse, mas acontece que ele não consegue parar de pensar nela e ela não consegue parar de pensar nele, e seus caminhos se bifurcam em diversos momentos, fazendo com que eles virem presenças atemporais na vida um do outro. Acompanhamos suas vidas durante 20 anos, sempre no dia 15 de julho, e vemos como a existência trabalha com os dois.
Um Dia é de arrasar corações. Ele envolve tanto que chega a dar raiva, porque por que estou sofrendo assim por personagens fictícios, caramba?! Quer dizer, vai se ferrar, Nicholls.
Ele poderia ser só mais uma historinha clichê de amor (e reproduz alguns clichês, claro, mas dane-se, cara, a vida é uma reprodução contínua de clichês ridículos e necessários), mas é real demais pra isso, porque na maior parte do tempo vemos a prévia incerta e dolorosa, os momentos extenuantes e de contestação, o antes, o talvez nunca seja. Vemos como aquela relação se turva nos afligindo com palavras não ditas, cartas nunca enviadas, encontros que desencontram, telefonemas truncados e olhares que dizem o que os lábios nunca proferem.
Eu saí ferradíssima da cena no labirinto, porque ela é o que acontece quando a vida não segue o roteiro que a gente acha que está escrito e predeterminado, com todos recitando suas falas e cumprindo seus devidos papéis para que a gente possa ter aplausos efusivos e rosas atiradas no palco por uma platéia emocionada quando a cortina fechar.
E foi então que eu percebi que por ser sobre o resultado de ficar parado diante de seus amores (ou de objetivos e desejos ordinários, se quisermos adaptar essa narrativa a qualquer tipo de cenário), acomodado na insuficiência amena do tem sido, e não nas realizações emocionantes do que pode ser, Um Dia se faz também sobre como a vida não tem sentido narrativo e um meteoro pode cair na sua cabeça sem mais nem menos AGORA, então é melhor fazer o que se pode fazer no tempo presente sem procrastinação e apatia, porque o caos da existência não segue o protocolo romanceado que a gente idealiza e A Pessoa Certa (ou o mais próximo disso que existir no seu contexto, já que esse termo é questionável) não vai cair no nosso colo simplesmente porque era pra ser.
E como a existência não é um ciclo perfeito moldado visando nossa satisfação, tudo pode acabar a qualquer momento, com um AVC, latrocínio, abdução alienígena seguida de lavagem cerebral ou um acidente de trânsito, só pra citar alguns exemplos.
E se tudo pode acabar a qualquer momento, se você não tem garantia de que o dia de amanhã será Mais Um Dia e uma pessoa muito especial, talvez Aquela Sua Pessoa, está bem aí ao lado, é tolo postergar as atitudes necessárias para que sua satisfação com ela seja finalmente concretizada, certo? É insensatez.
Isso parece conselho de autoajuda de segunda categoria, eu sei. Não é como se vir aqui dizer pra ninguém tá lendo você aproveitar o tempo e viver sua vida com plenitude fosse como te estender o privilégio de uma dica inédita... E por ser algo tão genérico é ainda mais surpreendente que nos esqueçamos tanto dessa urgência, diga-se de passagem. Mas não se incomode, falo isso sobretudo para mim mesma. Estou reafirmando essa máxima especialmente pra mim: deixar o tempo passar é insensatez, Carolina.
Porque quando você menos espera tudo pode acabar, e quando vê você pôde ter apenas Um Dia, porque perdeu tempo demais vivendo um dia atrás do outro.

"VOCÊ PODE PASSAR A VIDA INTEIRA SEM PERCEBER QUE AQUILO QUE PROCURA ESTÁ BEM NA SUA FRENTE."

(Não há frase mais óbvia do que essa, e poucas são tão verdadeiras. Temos aqui, então, um ótimo exemplo do que eu chamei - por falta de criatividade, óbvio - de clichê necessário. E defensável.) 

31/05/2018

O Iluminado

Do Stephen King
Uma das minhas metas como leitora é ler todas as obras do Stephen King, há muito um dos meus escritores favoritos da vida. Só que a tarefa vai ser difícil, tendo em vista a carreira prolífica dele, um dos autores contemporâneos mais publicados (com mais de 60 best sellers ele pode muito bem patentear a expressão ''beijinho no ombro''). Sendo assim, eu começo pelos mais notórios mesmo (ou pelo que aparecer na minha frente antes), porque não me preocupo em ser imparcial. Claro que O Iluminado estava nessa leva.
Jack é um professor ginasial com manias de escritor que é demitido depois de um surto de raiva em que agrediu um aluno, principalmente levado por seu temperamento explosivo e pelo alcoolismo. Sem perspectiva de sustento e tendo que manter a estabilidade financeira para a esposa, Wendy, e o filho, Danny, ele se agarra à oportunidade de ser zelador temporário de um hotel distante e enorme localizado entre as montanhas do Colorado, o Overlook, durante a temporada de inverno, quando as estadias são interrompidas devido ao intenso fluxo de neve que impossibilita o acesso ao local e confina os hóspedes.
Todo ano a administração do hotel contrata alguém para ocupar a propriedade nesse período e cuidar da manutenção. Pareciam ser as pseudo férias que ele precisava para concluir a peça que está escrevendo, longos e lânguidos meses isolado com a esposa e o filho no meio do nada longe das preocupações do mundo exterior e das tentações da bebida. Mas existem alguns problemas (além dos instintos destrutivos de Jack): o Overlook não é um hotel normal e seu filho Danny não é uma criança normal.
Aos poucos Jack vai descobrindo uma série de eventos grotescos e mórbidos que ocorreram na propriedade, que abrigou pessoas perigosas e foi palco de assassinatos e mortes misteriosas. E o pior: o último zelador teve um surto psicótico em que assassinou sua família e depois cometeu suicídio.
Conforme o inverno vai avançando e eles ficam mais confinados naquele local, o espírito maligno do Overlook começa a se manifestar e percebemos o hotel como uma entidade autônoma e senciente que começa a atormentar a família com todos os tipos de aparições e alucinações perturbadoras. Tudo isso parece ser potencializado pela figura intrigante de Danny, um menininho inocente que contém em si um nível impressionante de paranormalidade, desde pequeno ouvindo e vendo coisas, revelando instintos oniscientes e prevendo o futuro. A mediunidade latente de Danny, essa criatura iluminada que dá título ao livro, parece instigar o Overlook e alimentar todo o seu poder tirânico sobre as vidas cativas nele; o hotel parece desejar o garoto de alguma forma.
E como a corda sempre arrebenta do lado mais fraco e a arte imita a vida - especialmente auxiliada pela precisão assombrosa com que King transita sobre a psique humana (eu disse que era parcial) -, Jack, esse alcoólatra impulsivo, colérico e inveterado, começa a ceder à pressão do Overlook e a flertar cada vez mais com a insanidade que o hotel incute nele progressivamente, induzindo-o a pensar que a família está tramando contra ele e sua futura-orando-muito carreira de escritor e que para manter o controle sobre sua prole como um macho alfa de verdade deve assegurar ele precisa tomar atitudes radialistas e fazer coisas bem, bem ruins.
E é então que coisas bem, bem perturbadoras começam a acontecer.
Esse livro é um thriller psicológico em sua melhor forma, uma delícia, a pedida certa para aquele momento de lazer em que você só precisa se preocupar em se divertir... De um jeito meio mórbido, claro, mas Stephen King. É fácil devorá-lo em pouco tempo porque apesar das manias narrativas exacerbadas do King (segundo alguns; acho na medida certa porque como ele mesmo já disse sobre si, também tenho um "problema com inchações na escrita", então lê-lo é reconfortante porque atesta que tenho salvação-orando-muito) o livro é muito fluído.
Pra mim o mais interessante é a maneira com que King discorre e desenvolve com propriedade os retratos que faz das mazelas psicológicas humanas em seus personagens (nesse caso o vício alcoólico e a loucura, praticamente codependentes), sempre parecendo ter pleno conhecimento de causa.

"Mas era um alcoólatra emocional tanto quanto físico, ambos, sem dúvida, ligados em algum ponto, em seu interior, onde não se podia ver."

Isso sempre me instiga em seus livros, porque parece que estou lendo algo de alguém que de fato vivenciou todas aquelas experiências e condições emocionais debilitantes e nocivas, e se você já teve problemas psicológicos graves é fácil se deixar levar pela verossimilhança com que tudo é desenvolvido. Aprecio isso no King, esse conhecimento sobre a alma humana que parece inato, mas que certamente é resultado de uma mente muito observadora e perspicaz, como a que ele transparece ter em todos os seus livros.
Mesmo tratando-se de personagens fictícios, sempre tenho a impressão de ouvir um semelhante falando sobre suas intempéries e ele me passa a segurança de saber que é alguém com quem eu conversaria sobre meus problemas psicológicos sem receio, medo e me despindo da cautela habitual - e necessária. A imagem que pude emitir do escritor através das leituras que fiz dele, quando o assunto é humanidade pura e simples, é: ele entenderia.
O Iluminado ilustra a transição gradativa de um homem que vai da sanidade frágil à degradação mental completa: vemos de camarote Jack enlouquecer, como qualquer homem ou mulher atipicamente vulnerável naquela situação enlouqueceria impulsionado pela malignidade do Overlook. Isso não ocorre espontaneamente e unicamente por obra da natureza errática do protagonista, porque a atuação do hotel tem muito peso nesse processo de degeneração. Seria a cara do Stephen King fazer um cara pirar como resultado único de suas cadeias emocionais e nada mais, mas não: o Overlook realmente não é um lugar bom.
Mas a questão é que Jack é o único a se perder por completo, apesar de Danny ser o médium que dialoga com o bizarro e o sobrenatural e Wendy estar numa condição de fragilidade e apreensão imensas, vivenciando há anos um casamento oscilante e problemático com um marido alcoólatra.
Mas, como dito, a corda sempre arrebenta do lado mais frágil, e Jack, apesar de ser o homem e, portanto, a força física dominante, é ex-mas-não-tão-ex-alcoólatra, impulsivo, violento, colérico e irreflexivo. É o lado mais fraco naquele cenário.
Assim, O Iluminado é antes um livro sobre como é fácil enlouquecer se seu controle emocional já for dúbio em circunstâncias atenuantes que um livro sobre um hotel assombrado.
E, francamente, embora eu prefira me ver como Wendy com a faca na mão escondida entre o pano de prato ou como Danny tendo visões que podem mudar o rumo da história e garantir salvação, não tem sido muito difícil me ver como Jack, se embriagando com uma cerveja imaginária num balcão abandonado, falando com um bartender que na verdade é uma alucinação e nem está lá, enquanto todo o equilíbrio de sua vida desmorona ao seu redor.

"TODO GRANDE HOTEL TEM UM FANTASMA. POR QUÊ? DIABO, AS PESSOAS VÊM E VÃO..."