26/06/2017

Liebster Award - Seja lá que desgraça isso for.

Por um lado, estou me sentindo um pouco fracassada enquanto ser humana possuidora de um blog, porque estou com uns 3 textos rascunhados em andamento e eles simplesmente. não. estão. andando. E pra mim isso é muito aflitivo porque eu sou aquele tipo de pessoa com pseudo TOC dozenfernyos que não consegue ficar com pontas soltas e tem que deixar tudo bem concluidinho e quadradinho e tá okay e ufa, terminei essa joça, ponto, não me enervo mais. Três textos inconcluídos nos rascunhos estão ATERRORIZANDO o meu psicológico entoczadus (do latim, ''aquele que tem TOC''), porque o desgraçamento mental aqui é grave. 
Inclusive não é de hoje que eu venho percebendo que eu demoro MUITO pra deixar os posts prontos. Quer dizer, sabe as resenhas que tem por aqui? Elas foram escritas em, mais ou menos, três horas (não ininterruptas porque eu intercalo clipes do Michael Jackson - inclusive agora ''make a better place for you and for meeee'' *feelings intensos sendo sentidos aqui* - GIFs de bichinhos e leituras bostas sobre minhas coisas e DYV@S sobre os textos das miga, além de twitter porque aquela desgraça SUGA a gente), e isso me deixa esparramada no chão derruba um pouco porque levo a escrita a sério e lentidão não combina tanto com seriedade, para mim, nesse caso. Mas enfim.
Por outro lado, tô com um sentimento mínimo de que venci na vida (aham, tá, sei...) porque agora tenho migas de blog (dá pra chamar assim ou tô sendo pretensiosa? - tô) e gente lendo essa merda e comentando nisso aqui e o sentimento é incrível, tô emocionada, nunca pensei que esse dia chegaria, alguém chama uma emissora pra documentar, please. Não estar mais falando sozinha e ter gente acompanhando de fato (tinha um povinho louco antes, já, lendo as cousas meio ''na moita'', mas agora a sensação é diferente) o que escrevo aqui rende alguns sentimentos, pensamentos e até um certo receio e estranhamento, em doses suficientes pra virar tema de um texto solo a ser escrito, mas deixo isso pra outra hora.
A questão é que numa dessas de AHHH, MIGA DE BLOG, eu fui indicada pra um meme (não consigo falar ''tag'', cês me desculpe, é mais forte do que eu) chamado Liebster Award, através da Mia (OIIIIIIIIIIIIIIIIII, MIIIIIIIIIAAAAAA), e foi ótimo porque eu queria escrever algo levinho assim, porque sempre me divirto respondendo a esses memes, porque MINHANOUSSA fui mencionada em um cantinho legal da internet por uma pessoa legal da internet e porque não sei o que dizer, só sentir.

Entonces, as regras são:
- Escrever 11 fatos sobre você;
- Responder às perguntas de quem te indicou;
- Indicar de 11 a 20 blogs com menos de 200 inscritos (é sério isso? onze?! VINTE?! acho que não tenho condições, desculpa mundo);
- Fazer 11 perguntas aos blogs indicados;
- Colocar o selo do Liebster Award;
- Linkar quem te indicou: Wink (OLAR de novooo).
Okay.

11 fatos sobre mim
1 - Eu já quis ser taxista em Londres, porque lá é preciso fazer tipo uma faculdade pra exercer a profissão, dada a complexidade e enormidade daquela cidade, e porque os táxis londrinos são uns carrões pretos lindos e incríveis.
2 -  Uso óculos desde os seis anos, aproximadamente, e uma das minhas armações precisou ser trocada porque foi pisoteada por um cavalo.
3 - Com uns quatro anos de idade, uma noiva me escolheu (ui, que especial) para ser sua aia (porque aparentemente eu tinha beleza suficiente pra isso, naquela época). Fui ao salão, produzi cabelo e maquiagem, pus o vestido lindinho e na igreja, na hora de andar pelo tapete vermelho tocando pétalas pro ar, carregando as alianças (eu era multitarefas), vi aquele monte de gente grande olhando pra mim por todos os lados e, tímida e retraída como ainda sou, saí correndo. 
Não entrei mesmo e vocês que se virem.
Coitada da noiva, estraguei parte do ~momento~ (e das fotos) dela. Nem sei quem levou as alianças... Talvez o poodle da família?
Eu antes da cerimônia / Eu depois da cerimônia
4 - Já comi cocô. De cabrito. Porque pensei que era fruta. Porque aquelas desgraças são redondinhas e simétricas demais pra você, com uns 7 anos, perceber que, tipo, saiu de um cu e é bosta.
(Meu irmão mais novo comeu também - apoio emocional sempre que rememoro o ocorrido.)
Eu quase me orgulho porque, bom, quantas pessoas podem dizer que passaram por uma experiência dessas na vida? Todas as que não tem probleminha. Me sinto especial, me deixa.
5 - Já fui perseguida por um palhaço claramente maligno em pernas de pau cuspindo fogo, enquanto eu fugia de roller pela rua (cada pé de originais pesa, tipo, 39kg).
6 - Minha mãe já comprou uma calcinha pra mim em que constavam os convites dizeres "quer provar?". 
M.i.n.h.a.M.Ã.E.
Ou a parte do cérebro dela responsável pela interpretação de texto entrou em falência neurológica porque ela pode ter surtado pelo item, talvez, em liquidação, ou... Sei lá, só não quero acreditar que vocês sabem o que porque, tipo, minha M.Ã.E.
7 - Já frequentei um grupo de apoio.
8 - Chamei uma das minhas tias pelo nome errado durante toda a infância e maior parte da adolescência. Fui descobrir que o nome dela era outro há uns dois anos atrás. Tenho 19 anos, o que significa que a) passei 17 anos da minha vida chamando uma pessoa DA FAMÍLIA pelo nome errado e b) sou uma vergonha para a sociedade.
9 - Já fiz xixi nas calças de tanto rir na casa de uma vendedora de roupas (eu estava com uma amiga que iria buscar peças para a mãe dela) porque ela disse que o nome do cachorro dela era Bento porque ele veio de Bento Gonçalves e por algum motivo eu e minha amiga achamos aquilo MUITO hilário (mas ela não se desregulou como eu). Nós saímos fugindo (primeiro de fininho e depois correndo loucamente) como quem não quer nada ignorando os chamados de qqtaconteseno da mulher e deixamos a poça lá, e já era. 
Ah, eu era pirralha na época, claro, só pra deixar registrado.
10 - Já roubei um chocolate, aqueles redondos com embalagem com estampa de bola de futebol. Apanhei bastante por causa disso e meus pais me fizeram pedir desculpas para os donos do mercadinho, que ficava ao lado da minha casa. Agradeço eternamente por ter levado aquela varadas na bunda; nunca roubei nada além disso porque o peso na consciência certamente seria de toneladas.
Mas a questão é que roubei um chocolate. E tenho intolerância a lactose. O que quer dizer que fiz duas coisas erradas de um jeito ridículo ao mesmo tempo: a) roubei e b) uma coisa que nem poderia comer sem ter uma dor de barriga que ameaçasse o surgimento de uma úlcera. E isso tudo indica uma terceira coisa: eu sou era uma imbecil com.ple.ta.
11 - Tive um psicólogo que desistiu de mim (sob certa interpretação, pelo menos...).
(Se esses fatos gerarem alguma curiosidade - porque, convenhamos, só bizarrice, né? -, posso esclarecer ponto por ponto em outro post aqui.)

11 perguntas feitas pela Mia
1. Qual livro você gostaria de ter escrito?
Ai, meio complicadinho responder isso. Pensei nos meus livros favoritos da vida, que são vários, mas percebi que nem todos eu necessariamente gostaria de ter escrito, porque minha relação com eles não é bem essa. Acabei reduzindo a lista a dois; um pelo simples fato de resumir naquelas páginas o que, para mim, significa a boa, bela e simples literatura que toca a alma (A Sombra do Vento <3), e o outro por seu caráter didático e com um aprendizado lúcido, claro e necessário a transmitir (1984). Como o primeiro afeta as pessoas através do gosto de cada um, que varia e pode não ser igual ao meu (ocasionando pura indiferença, portanto), acabei escolhendo o segundo, porque pra mim, independentemente dos gostos literários ao redor do mundo, ele é um livro que precisa ser lido por todos, simples assim. Todos deveriam refletir em cima de 1984, então é ele o meu escolhido.
2. Você tem/teve animais de estimação? Conte uma história sobre ele 
Tenho, sempre tive e sempre terei. Vários. No momento, três cachorros (um adotado da rua) e uma gata (também adotada da rua). Várias histórias, GENTE. Uma das minhas preferidas: no meu bairro há um matão, que eu chamo de mini floresta, que ocupa uma área enorme da região. Dentro da florestinha, tem um banhado e o lugar é tipo um habitat natural de uma legião de preás que vivem lá. Meus cachorros são tipo excursionistas e guias turísticos do bairro pra cachorros visitantes, e eles viviam fugindo de casa pra se meter no mato em comboio. Só que além de desbravadores, também são caçadores, e numa bela tarde, enquanto estávamos sentados na área em frente à nossa casa (que fica numa esquina e tem visibilidade enorme a todos que passam por ali, note-se), simplesmente avistamos um de nossos cachorros, o Spyke, atravessando a rua na frente de toda a vizinhança, com as patas PODRES de sujeira do banhado trazendo UM PREÁ MORTO PELA BOCA, no maior estilo ''oi família, busquei o jantar pra vocês''. Me divirto muito relembrando a cena, mas na hora foi meio vergonhoso aquele bicho louco trazendo pra nossa casa um protótipo de capivara saído do esgoto. Enfim.
Pra quem não conhece, isso é um preá (sim, eu sei que
parece uma capivara deformada).
3. Você coleciona alguma coisa? O quê?
Fracassos e decepções Pedras de outros países e conchas são as coleções ainda em progressão, mas também tenho uma pequena coleção de cartões de orelhão, embalagens bonitinhas de BIS de umas edições especiais com ilustrações fofinhas (que eu pretendo juntar, colar numa superfície e formar um mural legal) e acho que também posso dizer que coleciono caixas da converse, pela quantidade de porta-trecos formados por elas nas prateleiras do meu quarto. A coleção de pedras de outros países ainda tá meio miserável, por motivos de falta de passagens e de amigos rikos, mas amo mesmo assim. <3
4. Qual é a história do nome do teu blog?
Eu vivo ''inventando palavras'' estranhas que normalmente são junções de outras palavras que designam coisas com as quais me identifico, ou um mix das minhas letras favoritas (sim, tenho) e coisas assim. Tenho vários users queridinhos na internet. Krahelake é meio que um fruto disso. 
Eu tenho descendência alemã e sou apaixonada por tudo que remete ao país, portanto pensei em colocar algo de alemão no nome. Eu também amo pássaros e cultura gótica, e já fui chamada de corvo por causa do meu uso abusivo frequente de roupas pretas. Eu também sempre amei lagos, tanto o ''sentimento'' que eles passam (que pra mim se traduz em forma de calmaria, melancolia e reflexão, não me pergunte por quê) quanto a sonoridade da palavra, e amo mais ainda ela em inglês. 
Eu queria que o nome do blog dissesse respeito a mim sem se resumir a mim, apenas, e Krahelake junta tudo de maneira a compor algo assim. ''Krahe'' é ''corvo'' em alemão, e ''Lake'' é ''lago'' (avá), então eu meio que considero isso aqui o cantinho meio melancólico e reflexivo de um corvo. Eu também não queria nada muito convencional, e acho que o nome foge bastante disso, né?
Eu tenho probleminhas, eu sei.
 5. E a história do teu nome? Sabe por que teus pais te deram ele?
Meus pais viram um filme em que uma das personagens se chamava Carolaine, e se apaixonaram pela moça do longa por causa do caráter respeitoso, educado, gentil, simples e belo dela. Como eles não queriam que o nome ficasse americanizado e forçado (grazadeus, OBRIGADA MÃE E PAI), ficou Carolina, e eu amo o meu nome.
6. Se você pudesse ressuscitar qualquer figura histórica da humanidade, qual seria?
Acho que a Papisa Joana, porque MULHER INCRÍVEL MOSTRA PRO MUNDO COMO É QUE SE FAZ TODOS PRECISAM CONHECER.
7. Qual foi o último livro que você leu?
O Grande Gatsby, e logo escrevo sobre ele. No momento estou lendo A Letra Escarlate (informação bônus, não tem de quê).
8. O que você mais tem escutado nos últimos tempos?
Meus pensamentos me auto sabotando Melanie Martinez (ainda), Oasis e algumas outras playlists esporádicas por aí.
9. Numa época de vlogs e newsletters, por que você ainda mantém um blog?
Porque PRECISO escrever e PRECISO ter um ''canto meu'', um lugar acessível no qual abrigar a loucurada de coisas que me preenchem e fazem parte da minha vida. Detestaria falar em frente a uma câmera, e não vejo sentido em ter uma newslatter (eu, Carolina) enquanto posso postar aqui mesmo o que publicaria lá, e manter tudo junto é mais simples e me passa uma noção de ordem maior, cosa muito necessária pra minha cabeça. E, sei lá, é tão bom digitar o link na barra de pesquisa e me deparar com essa cantinho que me acolhe. <3
Mas acompanho algumas pessoas nas duas outras plataformas e amo muito também, só não é pra mim.
10. Se você pudesse trocar de lugar com qualquer personagem de livro, filme ou série, com quem trocaria?
Vishhh, gente, como responder isso? Não sei se todo mundo tem algum personagem assim em mente, mas eu penso mais nos que são parecidos comigo de um jeito que chega a ser cômico (e que quase sempre têm uma vida desgracenta, por sinal, plmdds), e não especificamente nos que eu gostaria de ser. Mas ok, acho que ou Spencer Reid de Criminal Minds, porque eu gosto dessa área criminal e ia ser show (ou não) ter um cérebro incrível como o dele pra ficar solucionando enigmas e salvando pessoinhas de psicopatas; ou o Soluço (pena que o nome é uma bosta) de Como Treinar o Se Dragão porque MDSSS O GAROTO TEM UM DRA.GÃO, MINHA GENTE, e ele voa nele e tudo; ou o Charlie Bucket de A Fantástica Fábrica de Chocolate, porque além de ser um amor de pessoa ELE AGORA MORA NUMA FÁBRICA ENORME DE GORDICE E PODE COMER A PRÓPRIA GRAMA POR MOTIVOS DE ESSA DELÍCIA FOI FEITA POR UM GÊNIO DOS DOCES, sem mais (mas acho que eu ia aprisionar e matar os umpa lumpas porque tenho medo deles e certamente são criaturas do mal; meus instintos não erram)
A cara de satisfação de quem pode comer GALHOS.
.11. Se sua vida fosse um filme quem seria o diretor?
Talvez Hector Babenco porque as coisas simplesmente não fazem s.e.n.t.i.d.o. a.l.g.u.m e tá tudo WTF em 99% (mentira, 100 mesmo) do tempo. (Sério, assistam a Meu Amigo Hindu, pelo menos, pra vocês poderem ter noção de como é que tá o negócio.) 
12. Você tem alguma pequena obsessão - por algum assunto, uma época, um personagem histórico...? Se sim, qual?
Mia fez 12 perguntas em vez de 11, quebrou as rules, que pessoa transgressora, ADOREI.
Sim, sou obcecada pela Segunda Guerra Mundial; leio, assisto e procuro tudo o que posso sobre. Meu opa (''vô'' em alemão) lutou nela, então meio que sempre foi um assunto que me envolveu.
(Também sou obcecada por pizza.)

Eu não manjo dos paranauê de indicar as pessoas porque sou meio nova nesse negócio, não tenho contato com muita gente da blogosfera e tenho a síndrome do "devo estar incomodando", mas tá, o pessoal que consegui reunir é: Vaneça, Beatriz, Mareska, Victória, Gabius, Lara (seis foi o máximo que consegui e já me sinto marromenos porque não tenho intimidade com as pessoas, mas okay).
Tão indicadas, sintam-se livres.

11 perguntas que eu faço a vocês
1 - Há alguma informação sobre você da qual as pessoas sempre duvidam e que gera desconfiança (tipo "eu nunca assisti Nemo, nasci com três pulmões, tenho 74 anos em vez de 19 e sou filha bastarda do Jon Bon Jovi", coisas assim)?
2 - Se você fizesse parte de uma equipe seleta fugindo da Terra em estado apocalíptico, e fosse responsável por mostrar aos aliens do planeta que vocês estivessem indo colonizar o que é a literatura (eles desconheceriam tal coisa), quais são os três livros que você levaria na mala?
3 - E se tivesse que mostrar o que é o cinema, quais são os três filmes que levaria?
4 - Se você fosse um unicórnio, de que cor você seria? E de que cor seria sua crina? (Eu sei que é uma pergunta WTF, não precisa incluir isso na sua resposta.)
5 - Se você pudesse receber na sua casa uma comida de graça diariamente durante um ano inteiro, que comida seria (clichê, eu sei)?
6 - Você lembra do primeiro comentário feito no seu blog? Sobre o quê/de quem era?
7 - A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena?
8 - Quais são as tuas três maiores certezas na vida?
9 - Pode me dizer uma das tuas citações favoritas?
10 - Michael Jackson, Freddie Mercury ou Kurt Cobain?
11 - Se você fosse obrigada a tatuar uma frase na TESTA, o que seria?

É isso, agora vou dar espaço a vocês para que assistam a Meu Amigo Hindu e fiquem tão revoltadas quanto eu quando os créditos começarem a subir porque O QUE CARACOLIS FOI ESTA DESGRAÇA?!?!?!

23/06/2017

O winter, ele is coming.

Esse post é patrocinado por uma iniciativa Jon Snow Feelings, baseando-se no anexo que segue abaixo:
Vocês já perceberam que às vezes o pessoal na internet superestima o inverno enquadrando o gosto por ele numa categoria cult? Sabe, tal como é quase uma ''modinha'' (detesto usar esse termo, mas okay) gostar de pandas, ou de dias chuvosos, mesmo que eles caguem (os dias chuvosos, não os pandas) a vida de qualquer pessoa que sai pra rua de all star ou sapatilha; mesmo que dias ininterruptos de chuva façam com que uma montanha LITERAL e nada cheirosa de roupas sujas fique acumulada no cômodo designado para ser a lavanderia da sua casa; mesmo que uma ida à padaria de chinelos seja totalmente impossibilitada pela quantidade enorme de poças mortíferas que surgem como obstáculo no caminho; mesmo que o pé de qualquer um que sai sem coturno destinado a trilhar trajetos normais se transforme, invariavelmente, num mini pântano particular; mesmo que andar à beira da estrada vire um suspense do mal porque você fica com medo de passar por um carro cujo motorista é o Ivo Holanda gravando uma pegadinha pro Silvio Santos, na qual você será a vítima porque ele está pronto para passar a mil pela poça enorme que está só a alguns metros de você, tocando aquele mix de terra, sujeira de esgoto acumulada e água da chuva na sua cara inteira... Mesmo e apesar de todas essas coisas, ainda assim é super normal e de praxe, quase um regra, ler ou ouvir frases, principalmente na internet, do tipo ''ui, dias chuvosos do amor; chuva amo demais; melhor coisa é chuva; viva chuva; chuva é a coisa mais legal que cai do céu depois de hamburguer em filme da Disney'' e blablabla.
Eu vejo o pessoal endeusando (exagero meu, eu sei, mas ME DEXA) chuva na internet e fico me perguntando se GENTE, vocês gostam de andar na rua como se o chão fosse um campo minado (por causa da quantidade de poças e barro espalhados)? Vocês acham legal sair com um guarda-chuva com uma das arestas quebradas tocando pingos na sua cara cada vez que você se balança (balançar = andar)? Você acha bacana chegar da rua, tirar o sapato e as meias e descobrir que metade do seu pé MORREU de tanto levar água em cima, mesmo que você pudesse jurar que só tinha pisado em superfícies suficientemente secas e seguras? Vocês por acaso são míopes e ficam enxergando o mundo e as pessoas através de um filtro de pingos de chuva porque é 2017 mas ainda não inventaram para-brisas pra óculos? Enfim, fico me perguntando todas essas coisas sobre quem gosta de chuva e declara isso ao mundo na internet, porque, super respeito e me divirto com isso, e eu AMO ela também, sim, mas SÓ PRA DORMIR, TOMAR BANHO DE CHUVA COM OS AMIGOS DE INFÂNCIA OU TER COMO TRILHA SONORA PRA LER UM LIVRO.
Gostar de chuva meio que parece uma coisinha cult, vocês tão acompanhando meu raciocínio? Quer dizer, experimenta dizer que odeia chuva no seu feed do facebook e vê quantos defensores dos pingos celestes vão comentar o contrário.
Juro que esse post não tem quase nada de Game of Thrones.
O mesmo acontece com o inverno/frio. ''Amo inverno; melhor estação do ano; ninguém merece calor; adoro tirar os agasalhos da gaveta; quando as pessoas dizem que não gostam de inverno [insira aqui emoji de escárnio]'', e parece meio ''cult'' gostar de inverno porque quando se fala em verão a gente logo imagina um monte de sardinha humana suando e exalando odores fétidos no transporte público e ninguém quer ser associado a isso; logo, fica meio ''feio'' e ''vergonhoso'' dizer que ''eu não gosto de inverno, meu negócio mesmo é o verão'', porque isso acaba equivalendo, mesmo que sem querer, a ''prefiro andar na rua vendo gente seminua suando a ficar embaixo das cobertas assistindo a uma sitcom enquanto tomo chocolate quente''. Tão me entendendo? Quer dizer, são duas imagens bem distintas e antagônicas que visualizamos quando nos deparamos com esses dois tópicos.
SÓ QUE, a gente nunca vê a figura completa. Quer dizer, verão não é só bundas suadas sambando e inverno não é só chazinho quente e ler livro confortavelmente ao lado do fogão a lenha enquanto a vó tricota casaquinhos pra você.
Tendo dito isso, afirmo-lhes: eu não gosto de inverno. Aí você já me imagina adorando caminhar de short curtíssimo no calor escaldante do centro, pingando suor e sambando porque viva verão, viva carnaval, né? MAS NÃO. Porque, apesar do verão não ser só isso (como eu fiz questão de discorrer nos trezentosevinteeseis parágrafos acima), também não sou muito fã dele, não. Nem do inverno. Meu negócio é outono, meio termo, roupinha leve, frescor ameno e folhas secas bonitinhas.
É que eu não gosto de sentar em vaso gelado querendo chorar; sofrer quando água fria escorre por dentro da manga de lã quando vou lavar as mãos; querer decepar minha própria cabeça que virou um iceberg quando lavo o rosto sem água quente da chaleira; ter choque térmico toda vez que saio de baixo das cobertas de manhã (mentira, acordo três da tarde); ter que contar até duzentos três e "força, Carolina, YOU CAN DO IT" antes de passar desodorante roll-on; não poder usar chinelo dentro de casa (amo sou) por motivos de necrosamento; acabar com as mangas dos meus moletons porque no desespero são elas que tem que lidar com meu nariz pingando ÁGUA; carregar trocentos rolos de papel higiênico pra cima e pra baixo e virar melhor amiga deles porque são eles que têm que lidar com meu nariz escorrendo CATARR... você entendeu. Enfim, no inverno sofro coisas que não gosto de sofrer.
E já que eu defendi bastante meu  ponto de vista nessas mil linhas de texto (sério, alguém vai ter saco pra ler tudo isso?, porque eu já tinha largado de mão...) escritas acima, vou aproveitar um dos temas da Blogagem Coletiva desse mês na Café Com Blog, o inverno, pra dizer como fica minha vida nessa época e qual é minha história (de amor ou de drama, quem sabe...) com essa estação tão querida por várias people privilegiadas, certamente. =)
Pra começar aqui no Sul (''eu sou do Sul, é só olhar pra ver que eu sou do Sul, a minha terra tem o céu azul, é só olhar e ver...'' - tá, parei com a musiquinha, mas MELHOR MÚSICA TRADICIONALISTA PESQUISEM) o inverno é aquela coisa à parte que todo mundo já sabe (só nem todo mundo vive), e minha conclusão inicial quanto a ele se baseia em três pontos: se você tem agasalhos bons e básicos (mentira, nada de básico, é trinta meia calça por baixo e luvas nas orelhas) pra sua subsistência, COBERTAS PLEASE e, prin.ci.pal.men.te (já chego lá), um bom chuveiro, você sobrevive. É duro, é complicadinho, dá vontade de chorar (a lágrima congela, inclusive, difícil lidar) no cantinho, mas é minimamente suportável, você tem condições de passar por ele, você sobrevive. Entende?
Mas aí vamos lá, exploremos esses três pontos. 
Eu não sou friorenta (pois é, mas me incomodo mesmo assim), tenho TERROR a gola alta de lã e blusas de lã em geral, e normalmente tô de brusinha comprida e moletom enquanto o pessoal tá tipo:
Mas, ocasionalmente sempre sofro mesmo assim, porque  aqui é Brasil assim é a vida..
Durmo com duas cobertas, atualmente um edredom que tá se ''desfiando'' nas pontas e isso faz com que eu meio que acorde amarrada e semi enforcada nos trezentosenoventaenove fios e CORDAS soltas, além de me render umas tropeçadas e espatifadas bonitas no chão quando tento descer da cama (durmo na parte de cima de um beliche, cês visualizem a cena) sem ver que tem uma a forca de edredom ao redor do meu pescoço ou amarrada na minha alma no meu pé. Mas ok, até aí eu suporto.
O problema é o terceiro item da minha lista de sobrevivência: O CHUVEIRO.
Acontece que aqui em casa tem certamente algum tipo de maldição lançada à peça da casa que compõe o banheiro. Não há chuveiro que dure no quente, eles queimam. 
Então, você tá lá de boa (pfffff, aham) pelada no meio do banho quente e começa a sair uma fumaça preta tóxica e claramente letal do chuveiro. Nesse momento, euvocê, nua como veio ao mundo, se depara com o seguinte impasse (questões optativas coming):
Eu:
A) Tento tomar meu banho quentinho (como todo ser gaúcho em inverno merece) em, tipo, 25 s.e.g.u.n.d.o.s antes de queimar e a água fria cair na minha cabeça trazendo morte e destruição;
B) Tento tomar meu banho quentinho (como todo ser gaúcho em inverno merece) em, tipo, 25 s.e.g.u.n.d.o.s e, milésimos antes de saber (se eu puder prever com minhas skills de Sherlock Holmes) que ok, é AGORA, VAI QUEIMAR, desligo o chuveiro, saio de fininho como quem não quer nada e deixo o próximo membro da família que for se aventurar no recinto do desespero banheiro descobrir, assim do nada, que opa FUUUKKKKKK;
3) Fico no quente desfrutando meus últimos segundos de vida quente e morro de intoxicação pela fumaça tóxica do mal antes de conseguir desligar o chuveiro.
J) Troco pro morno (que no inverno é na verdade fucking frio - e não exclui a possibilidade de queimar porque Lei de Murphy) e saio do banho chorando. Literalmente chorando (relatos baseados em fatos reais);
&) Acabo tomando o banho frio e morro (baseado em fatos reais - tá, eu não morri *spoiler*, mas decididamente foi uma das duas únicas vezes na minha vida em que tive CERTEZA que iria morrer; conto a outra em outro post);
19) Desisto do banho, saio com sabão por tudo, dois quilos de espuma de shampoo e me visto porque dane-se, minha vida, minhas decisões;
F) Não tomo banho (essa não rola porque eu sou aquele tipo de pessoa que não VIVE se não estiver se sentindo devidamente limpa; se eu fosse numa turnê com o Michael Jackson, por exemplo, mas não tivesse conseguido tomar banho antes de sair, ia estragar o rolê mesmo sendo o morto FUCKING MICHAEL JACKSON).
Então na minha casa a coisa costumava ser meio que sempre assim:
Com um traço em negrito em HOT obviamente,
porque como eu já disse, aqui em casa não rola.
Então cês entendem que, como criatura nascida, vivida e sofrida criada no RS, SEM UM CHUVEIRO QUE PRESTA, eu passei a minha infância e adolescência inteira com TRAUMA, gente, TRAUMA t.r.a.u.m.a da ''hora do banho no inverno''. Não há cena de sexo vista com 6 anos ou Fofão que supere esse tipo de trauma de infância.
Criatura com pacto claramente identificada.
Eu tenho várias histórias de sofrimento com chuveiro pra contar sobre quando ele queimava. Quer dizer, você sabe o que é tomar banho de bacia com a sua mãe entrando a cada cinco minutos no box pra repor o estoque de água quente com uma chaleira (perceba que você está pelado durante o processo), tremendo como quando o crush aparece do nada atrás de ti, lindo enquanto você tá descabelada, feia, suada e com meia por cima do moletom comprando pão na padaria, e batendo dente num ar frio estilo Winterfell porque o frio aqui ele ATRAVESSA tudo? Você sabe como é isso? NÃO. É. LEGAL.

~~🌼~~
Pausa para parte linda do post: no momento o nosso chuveiro aqui em casa é o que tem potencial mais quente entre os que já tivemos, do tipo que pode literalmente QUEIMAR você (lindo isso, gente; nunca tive, sensação de sonho realizado) se você quiser e isso é incrível, super tô amando os meus bainhos (eu adoro tomar banho, mas né, nas condições citadas anteriormente era prova de fé).
[P.S.: esse chuveiro também já queimou e tivemos que consertar duas vezes até então, mas tô tentando não deixar isso me abalar, Deus no controle.]
                                                                           ~~🌼~~
Fim da pausa.

Outro sofrimento: eu e meus irmãos íamos de bicicleta, às sete e meia da manhã (VOCÊS TEM NOÇÃO DE COMO TÁ O FRIO AQUI A ESSA HORA NO INVERNO?), à escola que ficava a 3 km, porque não tínhamos 25 mil reais pra pagar combi escolar e meu pai ou saía antes pra trabalhar ou ''eu vivi na roça, sei o que é sofrer e vocês podem aguentar isso, SE VIREM''. Eu não tô zoando, eram três fucking quilômetros de sofrimento, dedos mortos porque eles ficavam na frente de guerra segurando o guidom e aguentando o vento batendo direto, sem falar no CICLONE de vento que estourava na gente quando descíamos lombas (era quase radical).
A gente chegava rindo e chorando ao mesmo tempo (porque eu e meu irmão não sabemos levar a vida a sério) e eu não tô de sacanagem, uma vez tinha gotículas congeladas nos cílios dele. Totalmente quis chamar o Discovery Channel mas tava sem créditos no celular.
A gente quando chegava na escola. *WE ARE WINNERS*
Tive uma colega na escola que uma vez foi ENROLADA NUMA COBERTA - SIM (rosa pink com bolinhas) mesmo porque tá frio para um caramboli, porque dane-se, porque estética e moda que vá para o inferno, porque não tô aqui pra agradar a vista de ninguém.
Ela assistiu a aula tipo assim:
#VIVAALIBERDADEDEVESTIMENTAINDIVIDUAL
Outro drama é quando você, porque não tem dinheiro pra ônibus, porque sua mãe não sabe dirigir, porque seu pai tá dormindo e nem um pouco a fim de dar carona, porque seu irmão mais velho ainda não comprou um carro, porque você foi mirado por Murphy ao formular a lei ou porque a vida, ela sucks, tem que ir caminhando aos lugares, com os pés mesmo e sem a proteção de uma caixa metálica (carro) contra o vento, no mais absoluto frio de -579°C. Tudo isso com o pé empedrado porque comprar coturno ou bota de hello, galera de cowboy à prova de inverno não deu porque custava a sua alma então tem que sair de all-star mesmo. E como não é socialmente aceitável #SociedadeOpressora sair com um cachecol enrolado na TESTA, você chega aos lugares mais ou menos assim:
Outro drama: os dias com tornados disfaçados de vento. 
GENTE. Quando tá frio, você sofre mas sabe lidar, mas quando tá frio COM UM VENTO, mas UM VENTO, tipo, O V.E.N.T.O, de derrubar você, sua temperatura e seu emocional, não se sabe como lidar. Tá 10°C mas a sensação térmica é de -47, porque O V.E.N.T.O.
O vento ESPANCA a sua cara e te deixa sem forças pra continuar, ele transtorna tudo. Ele faz você tentar lutar já fracassando miseravelmente.
Quando você sai, ele te confronta covardemente assim:
OUTRO DRAMA (são muitos, eu sei): sua mãe. Quando você, segundo ela, não tem idade pra saber como decidir se vestir pro inverno. 
Sua mãe é uma boa mãe, sua mãe só quer seu bem, sua mãe te ama, viva sua mãe. Mas ela te obriga a sair tipo assim (abaixo) e isso, mãe, maculou minha infância e minha moral com os coleguinhas.
Ah, eu já falei que eu, simplesmente tenho, tipo assim, alergia ao frio? Minha pele é sensível pra tudo e me faz sofrê o tempo inteiro. E quando chega o inverno (juro que tive que pensar duas vezes se a grafia era ''inverno'' ou ''inferno'' agora) ela simplesmente decide que vai se queimar. com. o. frio. (?), porque a minha vida e o meu organismo fazem, tipo, muito sentido sempre. Minha cara fica toda vermelha, descasca e tenho que passar creme pra não morrer porque ela coça como aquela coceira desgraçada que dá no olho quando você já passou o rímel, sombra e tá toda pronta e produzida (mentira, é bem pior, tipo catapora e SEGUREM MINHAS MÃOS PORQUE VOU ARRANCAR MINHA PELE COM AS UNHAS SOCORR).
#EuAmoOMeuCorpoEOrganismoEVida (só que eles não me amam de volta).

Algumas outras pequenas considerações que envolvem frio/inverno/vida/desgraça:

1 - Uma merda dessas (abaixo) só é aceitável no tipo de inverno mencionado acima. Não me venham desfilar com essas desgraças em passarelas dizendo que ok, super tendência, você super tem que comprar porque MODA, se não souber usar é pobre, é brega, não entende das cousa de tapete vermelho de Holiúdy. POR FAVOR. Toquem fogo nessas desgraça when september the winter ends.
2 - Você nunca vai achar uma roupa dessas (abaixo) pra comprar na Pompéia, Renner, C&A ou Casas Bahia (vai que...) e isso é muito triste.
3 - Eu nunca vou aceitar muito a frase ''as pessoas ficam tão mais elegantes no inverno'' porque, amigos, eu detesto ver até o pâncreas das pessoas no peladismo usual do verão, mas elegante? No inverno? Eu não sou elegante nunca, e se você me visse aqui, agora, acocorada escrevendo esse texto, com quinze moletons, pantufa com sola descolada e minha gata formando uma bola que parece uma gravidez mutante dentro do meu casaco para aquecer-nos mutuamente, você diria que no inverno sou muito menos elegante ainda (menos que nunca, tem isso?).
Eu no inverno (minha irmã tirou, olha como somos migas apoiadoras uma da vergonha da outra):
SEM. MAIS. DISCUSSÃO.
4 - Quero abraçar quem pensou nesse meme do mapa do RS.
A versão Santa Maisfria mudou minha vida (se você não está
familiarizado com os nomes das cidades aqui do RS, pesquise
pra poder se engasgar rir de Bagélio tanto quanto eu ri).
Então é isso, temos que reconhecer que inverno faz sofrer também e não é só aquela coisa elegante e fofa e vou ficar debaixo do edredom com o boy que a gente pinta no instagram. Então se você ama inverno (super te admiro) e um amiguinho ou amiguinha sua diz que não gosta muito, não fique pensando que ele gosta de perder 30 litros de água corporal em suor, ficar sentando em banco de ônibus grudento ou sambando pelado no verão. Não menospreze o amiguinho. Pense que ele (eu, olar) talvez, sei lá, goste da amenidade do outono; teve tanto trauma com chuveiro frio no inverno quanto uma geração inteira teve com o Fofão; tomou banho de bacia e chaleira enquanto tremia de frio; teve os cílios congelados andando de bicicleta por 3km pra ir à escola num frio de 3° às sete da manhã; só conseguiu comprar uma bota quente depois de grande; foi derrubado pelo vento no inverno mais vezes do que foi derrubado pela vida (na verdade, as duas ocorrências entram na mesma categoria); foi sufocado pelas mil camadas de roupas quentes que sua mãe o obrigava a usar; tem FOBIA de gola alta e lã ou, sei lá, simplesmente não sabe se vestir nessa estação... como em todas as outras.
Okay? Okay.

13/06/2017

Drácula

De Bram Stoker
Como eu já disse aqui, a biblioteca que ficava na rua em que eu moro (uma avenida movimentada), e que havia se mudado para uma reforma no prédio, voltou para o mesmo terreno recentemente, depois de mais de um ano fora (nem sei onde ela esteve, mas como é um lugar longe de mim, já detesto). Fui muito faceira reencontrar a querida que estava de cara nova. Dentre os novos exemplares (eu sou sócia da biblio há uns 25 anos - e olha que eu só tenho 19 - então eu meio que conhecia de cabeça cada título, e foi fácil reconhecer os que estavam lá pela primeira vez) que surgiram entre aquelas estantes, esse clássico, numa edição de seiscentas e poucas páginas, chamou minha atenção em intensidade suficiente pra me fazer decidir que ele seria um dos primeiros livros daquela remessa que eu levaria pra casa; estou falando de Drácula.
Eu sei que a qualidade da foto tá uma droga,
mas perceba que eu tive o cuidado de fotografar
o livro com um fundo vermelho, pra combinar
com o sangue das vítimas. <3
Logo nas primeiras páginas do romance o estilo gótico e rebuscado da narrativa, que se encontra em obras do gênero (com destaque especial a Frankenstein porque o texto é meu e eu QUERO), se faz notar de maneira marcante, acentuada e indissociável do conjunto da obra. Percebemos uma escrita densa, rica e com certas nuances que nos carregam da primeira à última página num ritmo gostoso, com o qual nos encontramos sincronizados ao término dos eventos.
O ritmo do livro, para mim, conseguiu ser leve, apesar de sua inegável densidade. Stoker desenvolveu a história de uma maneira rica e agradável, conduzindo os personagens e o enredo através de situações em constante mutabilidade, mas sempre com um ritmo progressivo. Minha leitura conseguiu entrar em harmonia com o compasso estabelecido pelo escritor e isso, além do tema do livro (vampirrrrrosss, criaturas da noite, somos gótekas, vamô chupar sangue uhuuulll) e seus ares sombrios, me fez guardar essa escrita no fundo do <3.
Toda a narrativa é desenvolvida através de diários dos personagens centrais envolvidos no encanto maligno de Drácula, anotações, recortes de jornais e cartas, fazendo com que nosso narrador personagem mude constantemente e seja circular, indo de um protagonista a outro, nos permitindo observar o decorrer dos eventos através de vários prismas diferentes; essa característica certamente marcou o romance através dos anos, tornando-se uma das suas principais e mais notáveis singularidades (embora esse formato já tenha sido adotado com certa frequência). Tal como ocorre com obras teatrais de Shakespeare, por exemplo, esse molde empresta um ritmo diferenciado ao livro, diferente de uma narrativa linear simples; costumo me incomodar um pouquinho (pelo menos no início) com essas ''quebras'' no decorrer das páginas, mas com Drácula consegui imergir bem na história, a ponto de mal reparar nessas ''rupturas'' específicas. Nossos personagens, coincidentemente, são todos escritores tão bons quanto Stoker, e sabem conduzir uma história em seus diários. (Hehehe - eu rio das minhas próprias piadas e trocadilhos por motivos de saúde emocional.)
Bom, até agora eu só falei de ''detalhes técnicos'', como eu digo, sem entrar em grandes informações sobre o enredo; então vamos lá.
Nosso primeiro narrador é Jonathan Harker, advogado encarregado de ir a um castelo na Transilvânia para ajudar o, até então, apenas um conde quase normal e só um pouco sinistrinho, Drácula, nos entrames legais da aquisição de uma propriedade em Londres, que ele almeja comprar. Ao longo de algumas poucas semanas como hóspede do conde, no entanto, Jonathan se percebe na verdade um prisioneiro naquele castelo (não lembro se era bem um castelo a la Cinderela, mas vamos fingir que sim porque aí o clima fica mais legal). A partir dessas percepções iniciais (que vão se desenvolvendo gradativamente) que o personagem tem sobre o tinhoso (ninguém merece minhas expressões bostas, mas okay), enquanto é seu hóspede, toda uma série de desconfianças e inseguranças a respeito do conde misterioso começam a ficar mais notáveis para Harker; a criatura capirótica (derivada de ''capiroto'' - acabei de inventar, adorei e vou usar) NUNCA comia nada (ao menos não na frente de seu ''hóspede''), não tinha sua imagem refletida nos espelhos, parecia se comunicar com lobos, tinha um vigor físico extremamente surpreendente (o conde, inicialmente, é um velho) e a lista de esquisitices só faz crescer. Então Jonathan, gradativamente mas em avanço constante, passa a temer profundamente aquele homem que só lhe transmite calafrios e sensações horríveis, e quando o conde percebe que sua natureza bestial está se evidenciando, começa a tratar Harker de maneira perversa e dissimulada.
Uma série de eventos perturbadores envolvendo o conde e toda a sua aura sinistra passam a acometer Jonathan, que cai numa espiral de acontecimentos e visões loucas e traumáticas que ele registra no diário de viagem que escrevia para a noiva, Mina Murray. Posteriormente, quando a narrativa, súbita mas previsivelmente, muda de cenário e se dirige a Londres, com Mina e sua amiga Lucy; um Jonathan outrora adoecido por traumas e recém recuperado; dois médicos, um de um asilo de loucos e outro um professor renomado; o noivo de Lucy e mais um jovem amigo, todos os mistérios descritos no diário, esquecidos por Harker ao adoecer, passam a virar roteiro desse grupo. Quando a jovem e bela Lucy misteriosamente adoece após passeios sonâmbulos empreendidos durante a noite e surge com duas marcas bem suspeitas no pescoço, que a princípio passam despercebidas, os conhecimentos do velho e experiente médico professor, que se desloca e integra o grupo especialmente para tratar a jovem, fazem com que os horrores passem a ter sua temível e horripilante (frase de sinopse de filme de terror, oi) causa conhecida: Drácula a atacou e vinha se alimentando dela, assim como era responsável por uma série de desaparecimentos que tomaram conta das noites de Londres.
Após uma série de fatalidades que envolvem as pessoas mencionadas acima, tornando-as ligadas pelos laços da tragédia, o que se segue é uma missão em conjunto empreendida pelo grupo, que tem uma única resolução em mente: fazer justiça pelas vítimas do conde, agora já conhecido como vampiro Drácula, e promover vingança, acabando com a tal criatura ''esquecida por Deus''.
Como Drácula, já tendo resolvido as pendências da adquirição de sua nova propriedade (de localização desconhecida pelo grupo de avengers - não pude deixar a piada passar, sorry) em Londres, se desloca para a cidade, grande parte da caçada ao vampiro se dá pela própria Europa, embora o rumo de nossos personagens se altere bastante do início ao fim da empreitada. O que se segue pelas quatrocentas e tantas páginas são obstáculos, desafios, descobertas, mistérios, embates e uma infinidade de outras ocorrências que o grupo enfrenta até o trunfo ou fracasso (porque vou partir do pressuposto de que você também não conhece o final oficial, como eu, e não vou spoilerar a coisa) final.
Vale mencionar que nessa parte do livro, quando o conde já estendeu suas influências para além de Jonathan Harker enquanto hóspede em seu castelo, a visibilidade que temos sobre o personagem Drácula é pouquíssima; ele não é narrador em nenhum momento e tudo o que vemos/sabemos dele ocorre através da visão dos outros personagens.
Mas enfim, vou parar de falar sobre o enredo agora e dizer que tipo de impressões o livro deixou em mim.
Como já enfatizei bastante no início dessa resenha, achei o estilo da escrita totalmente encantador, e posso utilizar o clichê ''o livro me transportou para tal cenário...'' porque, como se eu estivesse sob o poder de algum encanto, foi decididamente isso que Stoker conseguiu fazer comigo nessa leitura. Sabe esse ritmo, essas palavras rebuscadas e bonitas, esse refinamento, esse tom, esse jeito que a só literatura gótica consegue transmitir ao leitor? Então, senti tudo isso e me apaixonei de novo. Claro que preferências variam, e o que se aplica a mim pode estar longe de dizer respeito a você, mas esse é um daqueles livros que, independente do desfecho da história ou da mensagem a passar, eu leria só pra poder apreciar a escrita, as voltas em cada linha, as nuances de cada parágrafo, os pontos distribuídos aqui e ali. Leria só pra poder saborear isso, sabe? E li, e saboreei e foi lindo - apesar daquele dramatismo exacerbado e teatral, beirando a comicidade, que a gente encontra em narrativas dessas épocas.
Outra coisa que gostei foi da Mina Murray!!! Vida longa à Mina, amém. Ela defendeu e cuidou da amiga Lucy o quanto pôde, descobriu altas tretas sobre o vampirozo, bolou vários planinhos e, apesar de ter os homi constantemente se pondo no papel de defensores galantes do sexo frágil perto dela, seus conhecimentos foram peça fundamental na luta contra a criatura. Não sei quanta representatividade Stoker poderia querer estar dando conscientemente a ela e às mulheres de maneira geral no livro (isso fica pra outro texto, talvez, se eu estiver com muuuuita disposição pra pesquisar sobre o senhor Stoker e seu possível engajamento nessas questões...será?), mas gostei pra caramba da moça na história, apesar de seu espaço limitado.
Porém, essa leitura também deixou algumas faltas, ao menos para mim. Gosto de poder chegar ao final de um livro e sintetizar, com algum esforço, as coisas nas quais ele me fez pensar, as lições aprendidas, as mensagens assimiladas, os ensinamentos, e gosto de poder passar isso para uma resenha. Com Drácula... eu simplesmente não sei o que citar nesse tópico. No exemplar que li, um estudo (quase um TCC, só que mais curto) sobre a obra, feito anos depois de seu lançamento, por uma escritora, vinha como introdução. Ela, provavelmente uma doutora em literatura (não lembro agora), fez várias análises sobre as mudanças dos estilos empregados nas narrativas através dos anos, e inclusive mencionou supostos conflitos sexuais de Stoker manifestados através de sua obra; mas eu, como leitora comum (apesar de assídua além da média), um pouco ordinária e sem nenhum doutorado na área, nada além de uma carga considerável de leitura acumulada através dos anos, não assimilei nitidamente nenhuma grande mensagem no livro. Tem todo o conflito entre humanidade e bestialidade, os limiares que circundam esses dois conceitos e tal, mas ao fim do romance gótico, a boa escrita e o enredo envolvente sobrepujaram infinitamente essas reflexões para mim, entendem? Infinitamente. Então eu recomendo o livro pela escrita, pelo estilo e pela história, mas não posso dizer nada sobre uma pontinha didática que eu talvez tenha deixado passar. Ainda assim, está recomendadíssimo, hein.
Ademais, numa era de vampurpurinos (vampiros purpurinados), homens dentudinhos e sedutores em sua voracidade, gateeenhos e boys misteriosos e pálidos mais pegáveis dos rolês, que é como o cinema e a literatura têm representado esses seres atualmente, ler o que talvez seja o maior e mais legítimo alicerce das lendas vampirescas se torna uma experiência, além de tudo que já mencionei, divertida e curiosa. Ver o quanto Drácula destoa de Edward Brilho de Verão da Silva Rodrigues Cullen chega a ser cômico. E foi interessante saber de certas características vampíricas cimentadas pelo próprio Stoker, com base no que se especulava a respeito em sua época, e que foram totalmente esquecidas pelas representações de hoje em dia. Quer dizer, hoje a gente ''sabe'' que os vampiros só gostam da noite, chupam sanguinho pra sobreviver, têm alho como sua kriptonita, viram morceguinho pra dar uns rolês de vez em quando e... basicamente é só isso que é repassado e difundido hoje em dia. Mas MEUS AMIGOS, a coisa vai TÃO mais além disso que eu me sinto tentada a acrescentar umas Curiosidades Vampíricas Segundo Stoker a essa resenha (que já está enorme, eu sei, eu sei).
Mas enfim, mas então, mas e agora, se você teve força de vontade o suficiente pra chegar até o fim desse texto, dê uma chance a Drácula, porque lê-lo certamente será uma tarefa bem melhor do que aturar meus textões; e se esse meu último argumento não te empolga o bastante para embarcar na leitura, pense na ideia de poder ter acesso à Lista de Curiosidades Vampirescas Oficial e poder jogá-la na internet pra roubar os fãs de Crepúsculo pro Drácula, que tal?
Sério, leia o livro.

Sobre os personagens vivendo o livro todo através de seus escritos em diários:
''O HÁBITO DE REGISTRAR MINUCIOSAMENTE OS FATOS DEVE DIMINUIR O PODER DA ANGÚSTIA.''