20/01/2020

2019, um marco, um cacto e um título apropriadamente ruim.

Eu passei a madrugada do dia 01/2020 chorando convulsivamente no meu quarto solitário depois de voltar de uma experiência de réveillon que começou razoavelmente bem mas terminou do pior jeito possível. Mas depois de um ano em que as coisas que eu mais temia aconteceram sem que eu tivesse poder de voz algum pra dizer não, eu me recuso a aceitar esse começo.
Em 2019 um meme que bombou foi o do medo da eterna sequência, porque o ano foi ruim pra muitos e uma desgraça na conjuntura geral e todo mundo queria que acabasse de uma vez. Então a internet começou a brincar: ''imagina se 2020 nunca vier e quando a gente achar que chegou lá descobrir que estamos é num 2019 Parte II?''. Parecia mesmo difícil se desvencilhar de todo o caos, ele seguiria a gente.
Agora estou aqui pra dizer que vou me apropriar completamente desse meme.

Quando eu estava chorando no meu quarto e me sentindo traída por Deus e a vida, uma parte de mim começou gradativamente a abraçar resignada e até com certo conforto a ideia de que um ano tão difícil quanto 2019 não poderia mesmo acabar bem pra mim, então aquele choro era mera questão de fazer com que a ordem do universo se mantivesse. Aquela bagunça toda tinha que ser coroada com a cereja de decepção final, era pra ser (digo isso num nível não metafísico, eu juro; Deus me livre).
Deixei o choro me lavar e fiquei muito triste, foi horrível, eu não queria, mas lá no profundo comecei a receber aquele momento e aquelas lágrimas como uma catarse final e necessária que de algum jeito talvez me limpasse de tudo e permitisse começar de novo imaculada.
Então eu vou me permitir pensar que aquelas primeiras horas de 2020 não foram um começo, e sim um prólogo de 2019, como no meme. Porque eu me recuso a não começar este ano bem. Eu quero ter uma folga. Eu quero a esperança de que vai dar certo. O meu começo vai ser outro.

*'*'*'*'*

Apesar de detestar todo o clima de fim de ano, eu sempre quis assistir ao show de fogos da virada no Gasômetro da Orla do Guaíba, talvez o principal ponto turístico de Porto Alegre, e nesse último réveillon a oportunidade surgiu com um grupo de conhecidos-barra-amigos-nem-sei-bem (estou numa escassez de amigos mesmo no momento, a maioria é mais gente com quem saio de vez em quando sem muita conexão).
Seria a primeira virada de ano sem a minha mãe, então eu tinha aquele sentimento vago de que era um momento meio importante, um ponto decisivo.
Meus três irmãos foram com amigos/as/namoradas à praia e eu e meu pai ficamos, então, apesar de termos uma relação ridícula e apática na maior parte do tempo e francamente péssima no resto, me senti na incumbência de garantir que ele não passasse sozinho ou triste o primeiro réveillon sem a mulher com quem dividiu mais de vinte anos de vida, e o chamei pra ir ao Gasômetro também, pois era muito importante pra mim que ele ficasse bem e tivesse um momento alegre. Mas como ele não gosta de muvuca sugeriu que na volta do Gasômetro, depois da virada e dos fogos, eu o ligasse para ele ir com a gente à casa onde íamos jantar. Fiquei meio mal, porque ele não passaria bem a virada conosco, só a noite depois dela, mas aceitei a sugestão, no que foi meu segundo erro (o primeiro foi aceitar ir ao Gasômetro com aquelas pessoas).

Eu vi os fogos e eles estavam lindos, bebi uma mistura de champanhe, energético e extrato de frutas a noite inteira que achei deliciosa, tirei muitas fotos que amei e até dancei na loucura que virou aquele lugar, uma rave gigantesca que estava longe de ser meu habitat.
Houve momentos bem desconfortáveis em que tentaram me forçar a fazer a pose certa para a foto, dançar com mais animação quando eu só queria me balançar de olhos fechados e outras coisas que não eram eu e fiquei me perguntando se não era errado estar ali com eles, se não tinha sido uma burrada. Mas no meio daquele festival de fogos, quando eu estava imersa no céu e me concentrava em me fundir com aquela explosão de cores inebriantes, parecia que as coisas iam dar certo, afinal.

Mas não deram.

Na última hora eles alteraram todos os planos finais e não teve a menor possibilidade de meu pai ficar com a gente, e ninguém pareceu se importar com a minha absoluta manifestação de frustração, desalento e desespero e fiquei com vontade de sair correndo, estapear todo mundo ou gritar, mas em vez disso comi salsichão com farofa numa casa estranha e lágrimas silenciosas nos olhos, porque o que eu mais temia naquela noite estava acontecendo.

Meu pai passou o primeiro réveillon sem minha mãe completamente sozinho em casa.

Quando me largaram em casa de madrugada ele já estava dormindo e eu fui pro meu quarto, sentei na cama vazia da minha irmã e chorei até não poder mais.
Aquilo começou como o choro pela solidão do meu pai, pela minha burrada, pela decepção com aquelas pessoas, pela aflição de encarar ele de manhã e ter que explicar como tudo deu errado, pelo desastre da virada... Mas depois virou um choro sobre tudo isso e sobre a perda da minha mãe, o fim de uma amizade, a degeneração da minha saúde, o surto depressivo que tive em dezembro, os fracassos, a estagnação, a vergonha e constrangimento por diversas exposições negativas e todo o festival de desastres que foi 2019.
Depois que os fogos morrem.
Este é o terceiro texto de retrospectiva que estou escrevendo pra esse ano que passou. Os outros dois estão nos rascunhos e já não servem mais. O primeiro é um caos absoluto, minhas ideias não concatenam, os parágrafos não têm coesão, está tudo uma bagunça. O segundo também deixou de ser o texto certo, mas ainda dá pra reciclar algumas coisas. A questão é que é perfeitamente natural que esse texto tão difícil só esteja saindo na terceira tentativa quando eu não sabia nem por onde começar e fiquei postergando a vinda aqui por estar com receio de desistir de desespero e confusão no meio das frases.
Eu só percebi por onde deveria puxar o fio desse novelo depois de chorar o suficiente na madrugada do dia 1/1/20.

Na retrospectiva de 2018 eu fazia alusão ao bujo poser no qual anotei tudo o que ocorreu de mais memorável no ano e incentivava o hábito de registrar a vida, porque faz bem, nos faz ver que vivemos mesmo quando tudo parece nebuloso. Agora me sinto meio uma fraude porque em 2019 eu abandonei o Caderno Amarelo Ridículo depois de tentativas anêmicas e cheguei aqui meio desnorteada e sem roteiro. Larguei o blog às traças por mais de meio ano e não me importei nem um pouco, se explodisse junto com toda a rede de computadores eu só encolheria os ombros.
Mas parar para escrever e registrar o cotidiano no meio da tormenta que foi 2019 parecia frívolo, absurdo, então eu lamento a falta, mas me perdoo sem hesitar.

2018 foi péssimo e escrever a retrospectiva dele foi um mergulho ora nauseante, ora catártico em tudo que houve de ruim. Foi um ano horrível, mesmo. Mas agora eu volto àquele texto e me ressinto, tenho inveja e sinto falta até de momentos ruins, porque eles eram o Antes, antes de tudo o que aconteceu em 2019, esse ano que virou um marco divisivo na minha vida pelos motivos mais tristes possíveis.
É de uma tristeza nostálgica voltar para aquela retrospectiva porque apesar de tudo gostei de escrevê-la, assumindo que o ano tinha sido terrível, mas concedendo a ele certa redenção, e agora esses sentimentos se distorcem em meio à dor que sinto toda vez que leio aquilo, o meu Antes, que faz com que o Depois que vivo agora me acerte com um contraste brutal.

Me ressinto e invejo a retrospectiva de um ano péssimo porque olhando daqui ele agora me trás saudades.

E eu que me gabo de não me obrigar a nada com esse blog, me obrigo sim a vir dar essa olhada em retrospecto todo fim de ano, pra que ele fique vivido, amarradinho e acabado de verdade. E como não tenho anotados em tópicos ordenados num caderninho cada acontecimento-chave, me resta pensar no que salta diante de mim quando evoco a lembrança de 2019: o que definiu esse ano?

Talvez fosse bom compartilhar com mais capricho as idas ao cinema (foram mais de cinco, o que pra mim é um recorde), as peregrinações por Porto Alegre (foi o ano em que mais explorei, com amigos, minha querida cidade natal, pela qual ando como uma turista deslumbrada), o amendoim japonês (meu favorito) no intervalo do serviço com o G., os porres que me fizeram dormir numa tampa de vaso só pra descobrir que no meio de um porre não há lugar mais confortável no mundo (noites de jogos com amigos do trabalho)(eu estava na mais profunda merda e não ligava pra mais nada; passei por mais porres do que consegui contar porque ficar semiconsciente e perder o controle já não parecia mais uma má ideia), a viagem de meio de ano a Gramado que me rendeu um amigo com quem jogar lol à distância (jogo com a Ahri, sou severamente ruim, conheci o menino num torneio de Magic The Gathering numa Friday, noite de jogos organizada pelo namorado da minha prima, e nada disso faz muito sentido), esses ou quaisquer outros detalhes mais memoráveis de 2019, não vou me alongar para além deste parágrafo, porque no fim das contas, quando a poeira baixa e a madrugada chega, esse ano não foi sobre isso.

Numa inversão meio triste do que fiz na retrospectiva do ano passado, vou dizer que 2019 pode ter tido coisinhas pequenas e lindinhas num dia aqui e outro ali, mas ele vai ser pra sempre o ano implacável que me tirou coisas infinitamente importantes e me deixou no deserto emocional, o ano tão cruel que faz com que eu olhe até pra 2018 com olhos nostálgicos e gentis, ou quase.

Pode ter tido água até a metade naquele recipiente, mas não dá pra enganar a convicção de que 2019 foi na verdade um copo meio vazio.

Na retrospectiva dela a Tati disse que em 2019 ''Teve coisa bacana? Teve, mas o que deu errado, p*ta merda irmãozinho.'', e é isso.

Teve cinema e Porto Alegre, mas 2019 foi o desconforto contínuo com a degeneração da minha saúde que me acompanhou durante todos esses momentos.

Teve viagens à praia e a Gramado, encontro com os primos, Friday e pessoas novas, mas 2019 foi o caos visto ao retornar pra casa, foram as lágrimas discretas na janela do ônibus.

Teve jogos online até tarde da noite à distância com o menino de Gramado, mas 2019 foi a consciência da minha carência.

Teve o melhor amigo que eu conheci e fiz, mas 2019 foi o ano em que eu no fim o perdi (tudo de ruim que poderia acontecer aconteceu e mesmo o que era bom acabou mal, eu havia escrito num dos outros rascunhos, gêmeo siamês deste texto que nunca vou publicar).

Teve 11 meses continuando apesar de tudo, mas 2019 foi a crise depressiva que tive em dezembro e que me fez desmaiar, parar em UPA e 24 Horas na mesma semana pra tomar soro e calmante, me afastar do emprego, encarar meus colegas com vergonha e surtar em público ao colapsar enfim depois de ficar razoavelmente estável até ali.

2019 poderia ter tido o paraíso, mas ainda assim seria e será para sempre o ano em que perdi minha mãe.
É ela que encontro depois de todas as esquinas em que meus pensamentos dobram e por isso ela está em cada parágrafo, cada espaço, cada ponto, cada pausa pra respirar em todas essas linhas. E por mais difícil que tenha sido esse ano, difícil também é me despedir dele, pois foi o último em que tive ela comigo fisicamente.


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Agora 2019 acabou e abandono enfim o meme do medo da eterna sequência enquanto sorrio tensa fingindo que esqueci que nesses vinte dias de 2020 nós já tivemos motivos pra criar memes de Terceira Guerra Mundial e o Brasil e o mundo já começaram desabando. Pretendo ir atrás do clichê do novo começo, aquele onde tenho o luxo da esperança de que ainda pode dar certo. Talvez. Tomara. Eu realmente não sei e tenho receio de me animar.

Quando meus irmãos chegaram da praia eu expliquei pra cada um quão desastrosos tinham acabado meus planos de réveillon com o pai. Tinha feito fiasco por whatsapp com a Taiane antes e ela rachou de dó. O Tiago ficou muito frustrado e reprovou todo mundo. O Teteu ficou pistola e disse que teria saído porta afora e voltado pra casa deixando todos pra trás, dane-se as boas maneiras e o salsichão com farofa, e tentei explicar por que não tive essa coragem, apesar de ter tido a mesma vontade. Concordei com todos eles.
Combinamos de ir ao Gasômetro numa tarde dessas com o pai. Não vai ter fogos, mas eu só quero que tenha sol.

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No fim de 2018 eu ganhei um pijama de cactos da minha mãe no natal, o nosso último, naturalmente, porque ela faleceu em julho de 2019. Eu vesti ele essa semana meio sem reparar mas depois fiquei olhando a estampa, pensando na coincidência curiosa.
Nesse primeiro natal sem ela, que eu pensei que seria mortificante mas acabou sendo surpreendentemente bom com a família enorme da minha cunhada, eu ganhei um cacto de verdade de uma das irmãs da Luana. Achei que não ganharia presentes porque a mãe era a única pessoa da família suficientemente boba, feliz e festiva, ridiculamente linda, pra adorar presentear as pessoas em todas as oportunidades possíveis, mas ganhei esse cacto, como os da estampa do pijama que ela me deu um ano antes.
Eu já havia matado uma suculenta que comprei na semana seguinte à morte dela, plantinha que eu chamei brincando meio sério de Suculenta da Renovação. Não quero ser piegas e forçar simbolismo aqui (Deus me livre de metafísica, etc etc), mas a verdade é que eu não estava mesmo pronta pra renovação nenhuma. Fazia só uma semana e eu nem sabia que ainda tinha uma crise tenebrosa pela frente.
Mas os cactos são sobreviventes no deserto, têm as folhas transformadas em espinhos pra preservar água e se proteger dos predadores e se adaptam a ambientes áridos trabalhando com pouco. Quer dizer, acho que ele vai sobreviver a mim.
Ainda não dei nome pra ele, mas sou ridícula demais pra não dar.
Durante o dia ele fica na janela da sala, minha preferida da casa, background de incontáveis fotografias, e à noite vai pra cima de uma máquina de costura antiga que faz parte de um cantinho nostálgico que montamos pra minha mãe em sua última internação, e que ela não teve a oportunidade de ver. Tem um retrato lindo dela pendurado na parede acima, e a plantinha fica bem embaixo. Todo dia eu tenho admirado a beleza do cacto na janela. Todo dia eu tenho chorado e sorrido com o quadro da minha mãe na parede.
2019 não foi um ano que pede bem uma retrospectiva com final otimista e animador. Nem quero dar isso a ele, de birra. Como eu disse, apesar de ter tido alguns detalhes bons, não é deles que eu vou lembrar daqui a trinta anos e esse vai ser pra sempre o ano em que coisas devastadoras aconteceram. Essa é sua essência, é a consciência que vai sobreviver às décadas: 2019 foi o ano em que aquilo aconteceu.

2019 será para sempre o ano em que perdi minha mãe.

Mas eu preciso encerrar esse texto de alguma forma. Sem risadas, em silêncio, mas com alguma esperança, eu acho. Então vou dizer que espero que meu cacto sobreviva ao que ainda está por vir, e eu também.

Feliz 2020.

07/11/2019

Só queria que você visse a minha touca nova.

Sabe quando você está apaixonado por alguém e faz tudo pensando nessa pessoa? Você compra uma roupa pensando em como essa pessoa vai te ver com ela; lê um livro pensando em como pode falar dele pra ela; ouve uma música pensando se ela gostaria dos mesmos acordes e o que sentiria com a melodia; senta na janela do ônibus pensando em como seria poder conversar com essa pessoa ali vendo a paisagem passar e o sol bater em vocês. Você faz as coisas mais mundanas querendo que essa pessoa estivesse te vendo, te assistindo, contigo, porque se ela te vê ela te nota, e se ela te nota talvez ela perceba que você é especial. Sabe?
Agora Essa Pessoa é minha mãe pra mim. Tudo que eu faço é pra ela.

Minha mãe morreu. Foram quase dois anos lutando contra um câncer agressivo demais, mal demais, cruel demais, ridículo demais e que me deixa com a certeza de que as coisas só são uma droga mesmo, é isto (ela, como todos os bons, detestaria que eu pensasse assim; mas ela também sempre era a única a me compreender todas as vezes).
Não é justo que ela morra. Não ela. Não porque era minha mãe, mas porque era ela, sabe? Ela, daquele jeitinho que não poderia acabar, não num mundo com tão pouca gente assim e nem em qualquer outro lugar.
Ela morreu, e desde então tem sido a pessoa pra quem eu faço tudo e que eu gostaria que estivesse do meu lado vendo cada coisinha, o café que eu fiz, a nova fofoca do trabalho, a touca que eu comprei.

Eu tinha um vestido favorito que era meu favorito porque era o vestido que eu idealizava vestir no meu primeiro encontro com o menino que eu gosto (gostava?). Ele caía bem em mim (o que é difícil, porque não sou tradicionalmente “curvada”), era de corte simples, como eu gosto, e preto, justinho e meio rodado ao mesmo tempo. A existência desse vestido servia ao propósito único de ser o vestido no qual eu queria que ele, esse menino, essa paixão, me visse. Era um pedaço de pano qualquer que não teria valor algum pra mim se olhado de uma perspectiva em que esse menino não existisse. Porque o vestido era pra ele, porque eu me arrumaria pra ele, porque era ele que eu queria que me visse naquele vestido, e não qualquer outro, ele e ninguém mais, o resto não importava e faria o vestido perder sua razão de ser.
Agora tudo que eu faço é como esse vestido, só que para a minha mãe, e assim como nunca tive esse primeiro encontro e minha irmã pulverizou a peça antes que eu pudesse vesti-la, minha mãe não está mais aqui pra ver nada disso. Tudo perde sua razão de ser, quando só é pra ela, que agora partiu.
Por que eu usaria o vestido se aquele menino nem fala mais comigo? Por que querer ser qualquer coisa mais se a mãe não vai estar aqui pra ver e se orgulhar das minhas conquistas e de quem me tornei?

Eu fui ao centro para uma consulta esses dias (escrevi isso em julho, quando o mundo tinha acabado de virar essa porcaria irremediável) e depois de sair da clínica e parar no ponto de ônibus eu pensei que talvez fosse bom ficar um pouco mais por lá antes de vir pra casa. Ver algumas pessoas, caminhar, sentir a brisa, me distrair (já venho fracassando nisso há quase quatro meses, agora). Acabei comprando uma touca, daquelas que vêm com um pompom no topo e te fazem parecer um Zé Gotinha com problemas degenerativos. Nunca usei essas toucas porque sempre que colocava uma e me olhava no espelho, pensava “você parece um Zé Gotinha com problemas degenerativos, Carolina”, mas na semana depois da morte da sua mãe você não está exatamente ligando pra estética, então fiquei 30 reais mais pobre.
Coloquei a touca numa sacola dentro da bolsa e fui a uma loja onde eu tinha visto um blusão de menino. Eu amo blusões de menino, daquele tipo enorme e pesado (sempre visualizo eles listrados, especificamente com as listras vermelhas e pretas do blusão do Freddy Krueger ???) que você só joga por cima de tudo e tá pronta pra vida.
Quando entrei no provador, vesti o blusão (o meu, já adquirido, é com listras pretas e cinzas, que eu prefiro, porque o neutro/básico me ganha primeiro), coloquei a touca e me olhei no espelho aquela saudade me assaltou e aqueles pensamentos de pessoa apaixonada vieram de novo, quando eu percebi que eu tinha amado aquele blusão e aquela touca, mas não fazia mais sentido comprá-los e ir pra casa com eles se eu não podia mais mostrá-los pra ela, a pessoa por quem sou apaixonada, a minha mãe, essa que eu queria que estivesse me assistindo.

Eu acordo e penso que queria que ela visse esse café que montei em cima do nosso fogão a lenha. Saio pra caminhar e penso que é pra ela que eu deveria poder voltar e dizer que o sol está lindo. Faço carinho no gato Gato e lembro de como ele gostava de sentar em cima das pernas dela na cama e tenho vontade de dizer pra ela que olha, ele tá aqui comigo agora, escolheu a mim, nanananá.

Eu releio esse texto agora, em novembro, meses depois do rascunho original, e choro, porque ela continua ausente.

É tudo pra ela. O amor da minha vida foi tirado de mim e sou abrigada a continuar vivendo aqui pra ele, mas sem ele, porque viver pra mim ou qualquer outra pessoa não faz sentido nenhum.
É como viver fazendo um filme que eu sei que a única pessoa que eu quero que assista nunca vai poder olhar. É como escrever um livro pra alguém que eu sei que nunca o lerá. É como tocar uma música pra alguém que eu sei que nunca a ouvirá. É despropositado, não faz sentido, é ridículo e vazio.

O mundo não faz sentido nenhum agora que eu não posso te mostrar como eu pareço um Zé Gotinha com problemas degenerativos com minha touca nova, mãe.

19/04/2019

Welcome To The Office

Então eu assisti The Office. E amei cada minuto.
E como seria uma verdadeira HERESIA (além de uma falta de humor imperdoável) escrever um texto que se pressupõe sério sobre essa série que é zoeira do início ao fim, e como eu não poderia deixar de escrever alguma coisa mais significativa, vou fazer essa postagem totalmente despretensiosa na esperança de convencer mais alguém a dar uma chance à serie e se encantar com aqueles personagens desmiolados e com aquele escritório nonsense tanto quanto eu.
A série é em formato de documentário (mockumentary, aqueles documentários zoados, sabe?) e acompanha o cotidiano dos funcionários de uma empresa de papel de Scranton, chamada Dunder Mifflin. Só que o que parece muito ordinário à primeira vista na verdade se revela palco de bizarrices monumentais dignas de registro, principalmente por causa do gerente da filial e chefe de todos, Michael Scott (Steve Carrel), que é um palhaço assumido (mais palhaço do que ele se reconhece, na verdade), completamente pirado e uma criatura de personalidade e manias bem peculiares.
Além dele o escritório também conta com um elenco nada esquecível de funcionários, cada um com características e hábitos bem fora da curva. Unidos ao chefe não-patologicamente-louco-mas-ainda-assim-louco que têm, os vendedores, contadores, funcionários de RH, secretária etc da Dunder Mifflin acabam sendo protagonistas (a metalinguagem aqui é livre, já que eles de fato se sabem personagens de um documentário) das situações mais absurdas e bizarras já registradas por uma câmera em toda a história das empresas de papel - e em toda a história das séries, se me permitem dizer.
Quer dizer, você consegue imaginar o tipo de situação que levou os personagens, membros DE UM ESCRITÓRIO, a se encontrarem nessa condição?
Ou nessa?
E que tal essa? Consegue adivinhar o que culminou NISSO?
Eu aposto que não.
The Office é insana.
Pra não me perder em devaneios apaixonados falando sobre como a série CUROU A MINHA ALMA, vou apresentar cada um dos personagens mais memoráveis (TODOS) a você aqui, pra te coagir descaradamente a ir se apegando a eles a partir de agora mesmo, pra mitigar todas as chances de que você desconsidere a ideia de conhecê-los por conta própria. Espero que os ame tanto quanto eu.
Seja bem-vindo/a ao escritório.

Michael Scott, o chefe
Ele é a alma da coisa toda e Dunder Mifflin não seria tão pirada se não fosse por ele.
Michael se orgulha de ser antes um amigo do que um superior de seus funcionários e faz de tudo pra tentar ser o melhor chefe do mundo. Constatar que não é querido por seus subordinados seria uma tragédia pessoal para ele, que tem um coração enorme - tão cheio de amor quanto de nonsense.
Pra manter esse clima de amizade, ele fica 100% do tempo fazendo piadinhas e brincadeiras com todos na filial e adora dizer que tem o melhor e mais aguçado humor de todos... Só que ninguém mais compartilha dessa opinião e fica todo mundo olhando com cara de WTF pra ele quando ele faz piadas e brincadeiras absurdas achando que tá arrasando.
A maior parte do tempo a gente fica se perguntando como raios ele conseguiu esse emprego e, o que é mais absurdo ainda, COMO ele ainda não foi demitido.
Toda a dinâmica da Dunder Mifflin é encabeçada por Michael em sua determinação em fazer com que a empresa seja o melhor ambiente de trabalho possível. Para tanto o escritório tem trocentas festas mensais em toda oportunidade possível, com direito a comitê de festas, comida e decoração, reuniões convocadas do nada motivadas por propostas disparatadas, jogos pra acalmar os ânimos do pessoal, sessões de cinema e toda uma agenda estapafúrdia que só Michael consegue justificar.
Dunder Mifflin não é a mesma sem ele porque ele criou e vive o que é a Dunder Mifflin de The Office todos os dias, dentro e fora do expediente.

Dwight
O Dwight se autointitula o braço direito de Michael (embora o chefe não lhe dê todo o crédito, apesar de ter inventado um cargo - sem qualquer aplicação real - pra tranquilizar o amigo: assistent to the regional manager) e é seu fiel escudeiro, pronto pra largar o que estiver fazendo e atravessar o deserto do Saara por sua lealdade a ele.
Ele tem um jeito meio nerd convencido, acompanha ficção científica religiosamente, se acha mais esperto que todos, se veste sempre com as mesmas roupas caretas, tem um cabelo ridículo, acredita em teorias da conspiração, é extremamente arrogante e pretensioso e vive sendo grosseiro com aqueles que julga inferiores e, portanto, indignos de qualquer afinidade com ele. O único que ele respeita é Michael, e os dois vivem se envolvendo em atividades extra-protocolares juntos.
Ele é um dos personagens mais exóticos de The Office. Também tem uma fazenda de beterrabas (produto orgânico com o qual ele jura que vai enriquecer) com seu primo ALTISTA Moose, que ele acaba transformando em pousada/centro de eventos variados e estranhos em determinado ponto, um dos cenários mais bizarros que a série explora de vez em quando, cheio de rangidos à noite e gritos misteriosos.
Dwight tem tantas características, hábitos e obsessões diferentes e atípicas que é impossível abordar todas aqui. Então faça a gentileza de descobrir por conta própria e me poupar da prodigalidade. :)
Diria que depois do Michael, a maior parte do espírito da série se deve a ele. E apesar de ser um cretino, a criatura conseguiu me conquistar.

Jim
Jim é o baluarte da sanidade em The Office e ele, juntamente a uma outra personagem da qual já vou falar, divide o protagonismo com Michael e é um dos funcionários cuja perspectiva mais acompanhamos e com quem nos envolvemos mais intimamente.
Normalmente ele é o cara que olha para as câmeras do documentário no meio de um surto de piração da filial e nos direciona um olhar cúmplice de quem reconhece a doideira em que está metido, num momento de intimidade entre personagem e telespectador que conseguimos ter só com ele, praticamente.
Mas Jim também abraça a zoeira de vez em quando e seu principal hobby é aprontar pegadinhas contra o Dwight, sejam elas colocar utensílios da mesa do colega dentro de gelatinas (achei muito original), simular convocações da CIA ou armar uma caça ao tesouro e espalhar as pistas falsas deixadas lá por um suposto patriarca e fundador da Dunder Mifflin pra que o outro cace até enlouquecer. Ele é capaz de despender semanas, meses e até anos trabalhando num plano maligno contra o colega, sem ligar para todo o esforço necessário para que ele seja executado. Amo esses dois. ❤
Jim também tem uma quedinha pela Pam, a secretaria do escritório, de quem vou falar logo, apesar dela ser noiva de um cara do depósito. Os flertes tímidos deles e as caras de bobo e de tacho são um amor.
Jim é divertido, charmosinho e um cara bacana. Amo ele. ❤

Pam
Pam, como dito, é a secretária do escritório e cumpre uma função bem parecida com a do Jim, parecendo ser uma das pessoas a quem nos associamos ao ver o quanto ela percebe a loucura que é aquilo tudo.
Ela e o Jim são bffs ali dentro e nos compadecemos com ambos metidos naquela insanidade sem ter pra onde fugir.
A Pam é um amorzinho, tem aquela doçura meio ingênua e meiga, mas separa momentos para se deixar levar pelas loucuras, aprontar contra o Dwight também e ser sarcasticamente humorada quando precisa.
Embora esteja encalhada num noivado de anos, ela fica meio confusa com seus sentimentos por Jim, e isso rende muita história.
Pam também tem inclinações artísticas, então se prepare pra ver rabiscos seus pelas temporadas.

Phyllis
A Phyllis, embora não seja tão idosa assim, é a Tiazinha Oficial do escritório, aquela que tricota nas horas vagas e presenteia todo mundo com luvas de forno de tricô. Ela é bem sensível e fofinha, correspondendo a vários estereótipos de vovozinha, mas não se enganem: às vezes ela pode ser bem cética diante das mangolices dos colegas, irônica e até meio rude, se preciso.
Ainda assim seu lado ingênuo se destaca e ela se abala facilmente com comentários negativos dos colegas e quando sente que não está sendo apreciada.

Stanley
Stanley é um senhor negro de meia idade e um dos meus favoritos em The Office (na verdade essa é a série em que todos são meus favoritinhos; é engraçado, mas não há nenhum personagem que eu desgoste rigorosamente). Ele é bem rabugentinho e está cem por cento nem aí pra tudo o que ocorre no escritório, sempre com uma expressão hilária (que frequentemente me fazia engasgar em milésimos) que é uma fascinante mescla de que porr* tá acontecendo, danem-se vocês, são tudo louco, me deixem em paz, que tédio.
Sua única preocupação é ficar no seu canto sem ser incomodado e ir embora quando o relógio marcar o fim do expediente. Só.
Nas reuniões alopradas e despropositadas do Michael, ele está sempre com um jornal e palavras cruzadas na frente da cara, nem um pouco a fim de qualquer interação.
Ele é ridiculamente tedioso e eu amo ele ridiculamente.

Kevin
Kevin é o bobão do escritório, que tem uma burrice engraçadinha beirando a inocência. É aquele que tem fama de possuir o menor QI do recinto. Ele também é o personagem acima do peso que mais é zoado por conta disso, porque é o que encorpora a gula de maneira mais escrachada, sempre sonhando de olhos abertos com um pedaço de picanha e ficando hipnotizado e indeciso diante da máquina de comidas.
Apesar da ingenuidade, ele é um bobo alegre e amor de pessoa que eu gosto demais. (Também toca bateria numa banda surpreendentemente boa.)

Oscar
Oscar é o cara informado e CDF do escritório, o intelectual da jogada que sempre tem considerações a fazer sobre todos os assuntos que surgem, muito bem embasado em tudo. Ele também é o personagem mais tenso e introvertido de The Office, que nunca consegue adotar uma postura relaxada e é sempre pé no chão, tentando desiludir as idéias bizarras do Michael e desmotivar suas empreitadas absurdas, falhando miseravelmente, claro.
Ele também se revela gay em dado momento e sua sexualidade acaba sendo bem explorada na série - como a comédia zoeira que ela é, lembrando.
Acho ele um amorzinho apesar da postura intocável e também é um favoritinho meu.

Meredith
A Meredith é a bêbada à margem da sociedade e delinquente em potencial interrompido do escritório. Vive numa casa que é um ninho de rato, tá sempre tomando umas biritas escondida no expediente e falando sobre sua desinibida vida sexual com parceiros nada convencionais. Permanentemente com cara de ressaca, ela tem uma total falta de escrúpulo diante das convenções sociais e regras do ambiente corporativo. É uma perdida na vida que acabou encalhada na empresa porque realmente não conseguiria nada melhor.
Todo personagem de The Office acrescenta à aura desvairada da Dunder Mifflin, e Meredith também, com toda a sua marginalidade. Gosto de todos eles, inclusive dela, mas acho que é a personagem a que fico mais indiferente e que me causaria menos sofrimento se saísse da série.

Angela
Angela é a personagem mais rabugenta do escritório. Está sempre rude e grosseira ostentando uma cara fechada que denota o desprazer constante de ter que compartilhar sua existência com aquelas pessoas que ela julga tão inferiores.
Ela nunca é simpática com ninguém e só sorri quando fala de seus gatos - Angela é uma inveterada crazy cat lady.
Autoritária (líder da comissão organizadora das festinhas do escritório, inclusive), arrogante, rude, antipática, cretina, ela e Dwight têm uma química perfeita que (spoiler?) é desenvolvida ao longo da série.
Por mais que ela seja uma TOTAL E COMPLETA DESGRAÇADA, gosto muito dela e vivo me divertindo com os comentários ácidos em que ela revela o ser humano desprezível que é... O amor pela série claramente me tirou toda a capacidade crítica de formular juízos morais coerentes, desculpa sociedade.

Creed
Ele é o arquétipo de velhinho meio perdido na sociedade moderna que não sabe ligar o computador ou enviar um email, mas em outros aspectos é um senhorzinho nada convencional. Um dos personagens mais misteriosos do escritório, seguidamente deixa escapar comentários enigmáticos sobre suas atividades fora do serviço, que não sugerem nada de lícito e só nos fazem mergulhar em ponderações um tanto perturbadoras - e igualmente divertidas - sobre o que ele faz quando as câmeras não estão olhando. Ele é claramente o cara a quem você recorreria se precisasse esconder um corpo e ninguém se surpreenderia se o FBI batesse na porta da Dunder Mifflin pra detê-lo por assassinato, por exemplo, sei lá. Deu pra sacar a vibe?
Mas o que é mais legal é que ele continua sendo absurdamente adorável e fofinho (outro estereótipo relacionado à velhice, mas me deixe ser feliz) apesar de toda essa aura meio sombria, mesclada a seu aspecto inofensivo e ares de tio perdido na era digital. Um amorzinho. 
É definitivamente um dos meus favoritos.

Toby

O Toby é um amorzinhooooo! Amo ele!
Toby é o cara do RH e o único subordinado que Michael detesta declaradamente e faz questão de atormentar (sabe esse GIF famosíssimo, que foi, a propósito, meu primeiro contato com a série e o que me fez decidir assisti-la? É o Michael reagindo ao Toby), um contraste enorme em comparação a sua contínua determinação em ser o melhor chefe do mundo para todos os outros funcionários. Acontece que Toby é responsável por manter um ambiente harmonioso e dentro dos limites éticos e corporativos na Dunder Mifflin, e Michael obviamente adora extrapolar esses limites com suas piadas bizarras e comportamento anômalo com o intento de fazer do escritório um local "divertido". Toby acaba sendo uma coleira para Michael e então o ressentimento e a rivalidade estão na mesa. Eu ficava com tanta peninha do Toby e raivinha do Michael nessa dinâmica de hostilidade, haha.
Ele é todo contido e sem jeito, meio dosengonçado, inseguro, meio tímido, fala de em jeito hesitante que denota seu desconforto enrustido em estar naquele ambiente em que é antagonizado e isso tudo, de um jeito estranho, me fazia achar ele um amorziiiiiinho. *---*
Toby é outro favoritinho (eles não tem fim).

Kelly
A Kelly é indiana e o arquétipo de guria desmiolada e fútil que fala pelos cotovelos e sabe mais sobre o cotidiano de celebridades do que qualquer outra coisa. Embora esteja lá pra corresponder a esse estigma óbvio de menininha burra, eu achava ela hilária e adorava sua participação sem sentido.
Ela não cala a boca e fala uma besteira atrás da outra de um jeito que deixa a gente abobalhado no meio de tanta nonsense. Comigo isso acontecia de um jeito bom e eu amava a Kelly - apesar de saber que não aguentaria dois segundos de conversa com ela na vida real, porque é um tipo conciso de pessoa evitável para mim.
Ela é um sarro, gente. A atriz acertou demais na hora de compor aquela demente, haha.

Ryan
O Ryan entra com a gente no escritório no primeiro episódio da série, como estagiário, e os planos de fazer da Dunder Mifflin um emprego de passagem enquanto cursa administração vão pro brejo quando ele permanece lá temporada após temporada.
Ele é meio meninão e, embora seja meio contido, traz aquela ar de jovialidade ao escritório que fica abafado em meio a tantos senhorzinhos e senhorinhas antiquados.
O meu favorito é o Ryan das primeiros temporadas, que fica imóvel junto com a gente com cara de WTF sem entender como pode algo como a Dunder Mifflin existir. Depois o personagem acaba enveredando pela cretinice - mas eu continuava gostando dele mesmo assim porque, como dito, a série demoliu minhas reservas.
Ele tem um rolo estranho com a Kelly (apaixonadérrima) que rende muito, a propósito.

Andy
Andy entra depois das primeiras temporadas vindo de outra filial e é um porre a princípio, todo enraivecido e metido (eu achava que nos odiaríamos até o fim)... Até ir a um tratamento de controle de raiva depois de um surto no escritório e voltar um amorzinho, o maior bobo alegre que você respeita.
Ele é todo querido com as pessoas e sempre tenta agradar com seu humor meio batido, sorrisos e piadas bobas das quais só ele ri. Também é meio inseguro e sempre parece dar passos em falso na empresa, por ser um péssimo vendedor.
Ele também veste ternos xadrez e calças vermelhas, rosas e verdes (destoando dos outros personagens de vestimentas mais sóbrias e tediosas) e na minha opinião isso já é um motivo para amá-lo.
Outro amorzinho meu.

Erin
A Erin entrou depois para substituir a Pam como secretária quando a primeira troca de função. Ela é burra feito uma pedra, bem tontinha, nunca saca o que tá acontecendo nas entrelinhas, se deixa enganar por todo mundo, tá sempre boiando... Mas é um amorzinho (tô usando muito esse adjetivo, eu sei) de pessoa. Toda simpatia e sorrisos, ela é absurdamente gentil e receptiva com todos.
Eu me irritava com ela no início, mas aos poucos ela vai se encaixando na dinâmica doente da Dunder Mifflin e fica difícil lembrar da série sem ela, então eu passei a amá-la demais.

Darryl
Darryl é o Cara do Depósito. O responsável pelas entregas de papel, transporte e armazenamento, na garagem enorme embaixo do escritório, onde muitos outros homens brucutus trabalham. Existe rivalidade entre as duas seções, porque o pessoal do depósito vive chamando o pessoal do escritório de mauricinhos e fracotes (a eterna briga hoje ilustrada através da dicotomia raiz vs nutella), e eles compram a briga se tocando em competições absurdas e patéticas no meio do expediente.
Mas enfim, o Darryl é um sarro. Ele é irônico por desânimo e inconscientemente engraçado.
Vive zoando o Michael subliminarmente por causa das "idéias interraciais" do chefe, ensinando-lhe gírias, expressões e gestos de gangue completamente zoados. Ele entra na zoeira e tá sempre sacaneando Mike implicitamente com um sorriso irônico e ambíguo no rosto.
Nem precisaria dizer, também é um favorito meu.

E essa é a galera de The Office, gente que eu acompanhei durante dois meses deliciosos que passaram voando só por causa deles.
Vale constar que o humor de The Office não é do tipo sutil que te fisga com comentários de duplo sentido sagazes e subliminares. A série incorpora o humor em seu estado mais extravagante, jogando a comicidade na sua cara de um jeito indisfarçável que em nenhuma hipótese conseguiria passar despercebido. Não é uma série que você deve assistir se não estiver disposto a encarar o absurdo - até o grotesco. Sua identidade humorística é o impensável, ela se concentra no extremo, por isso eu penso que é uma série que suscita amor ou ódio, sem meio termo.
E se você é uma pessoa de moralidade severa, pode ser que não se agrade tanto assim também, porque a série manda às favas o politicamente correto e faz piada com todas as condições e situações patéticas que perpassam a existência daquelas pessoas, sejam elas manifestas através de momentos constrangedores ou defeitos pessoas (físicos ou não). Ou seja, se você estivesse em The Office, seria zoado em algum momento por algum motivo (eu apostaria na minha CARA), isso é FATO, seja por ser desengonçado, gordo demais, magro demais, estranho demais etc...
Não acho que ela cruze a barreira do humor negro além do tolerável, mas provavelmente isso está aberto a diferentes interpretações. A minha moralidade também é ambígua, então não sou a pessoa mais indicada pra usar como parâmetro (e quem é?).
E vale dizer que nada disso chegou perto de abalar meu amor por The Office.
Mas em suma, esqueça qualquer pretensão de refinamento estilístico no humor se for dar uma chance à série. The Office é absurda. E eu espero do fundo do coração que o absurda te atraia.
Pra que eu não comece a divagar tarde demais, fiquem com esse LipDub sensacional, uma das minhas entradas favoritas, uma bênção dos céus:
E com The Fire Drill. Porque, segundo minhas próprias leis, esse post seria proibido de existir se eu não linkasse the fire drill.
Além de tudo isso (juro que estou acabando), The Office também traz momentos muito lindinhos, e um arremate final de aquecer o coração. A série passa nove anos (!!!) documentando a vida de pessoas comuns, ordinárias, funcionários de uma empresa de papel. Quem iria se interessar por esse contexto e por quê? Provavelmente ninguém. No entanto, são nove temporadas anos em que muitas coisas incríveis, coisas insanas, coisas surreais e maravilhosas acontecem, com aquelas pessoas tão simples, tão todos nós, tão gente como a gente. Porque isso é possível, porque a vida é assim e porque é por isso que ela é linda e vale a pena.

''I THOUGHT IT WAS WEIRD WHEN YOU PICKED US TO MAKE A DOCUMENTARY. BUT, ALL AND ALL, I THINK A PAPER COMPANY LIKE DUNDER MIFFLIN WAS A GREAT SUBJECT FOR A DOCUMENTARY. THERE'S A LOT OF BEAUTY IN ORDINARY THINGS. ISN'T THAT KIND OF THE POINT?''