17/09/2018

Trilogia Bill Hodges

Do Stephen King
Como o título anuncia, nessa trilogia conhecemos o ex-detetive Bill Hodges, preso a uma rotina inóspita e depressiva desde sua aposentadoria, encerrada com um caso sem conclusão, e que começa a flertar com o suicídio, agora que sua vida parece não ir em direção alguma além da velhice.
Mas então o Assassino do Mercedes, aquele que escapou dos dotes policiais de Hodges e permaneceu foragido, retorna, e agora o detetive tem uma nova chance de pegar o criminoso, obsessão que o prende ao mundo.

Mr. Mercedes
No primeiro volume conhecemos o crime que deu a Brady Hartsfield, um cara fracassado que trabalha com suporte técnico de computadores e que vive com a mãe, com quem tem um relacionamento sexual bem degradante e doentio, o apelido de Assassino do Mercedes: ele roubou um carro da marca e dirigiu contra uma multidão que aguardava na fila de uma feira de empregos, matando oito pessoas e deixando dezenas de feridos em estado gravíssimo, fugindo sem deixar rastros.
Meses depois nos deparamos com Hodges, responsável pelo caso na época, agora aposentado e deprimido com o fracasso.
Mas Brady começa a se comunicar com ele através de um site anônimo, vangloriando-se pela fuga e sucesso ao destruir a vida daquelas pessoas e tentando levar o ex-detetive a cometer o suicídio no qual ele vem pensando há tempos.
Através dessas trocas de mensagens, Hodges vê a oportunidade de caçar o assassino novamente, e acaba contando com a ajuda de Jerome, seu vizinho adolescente charmoso e inteligente, a única pessoa com quem o detetive mantinha algum contato humano desde a aposentadoria, e Holly Gibney, uma quarentona problemática e com transtorno comportamental que se revela muito sagaz, prima da dona do Mercedes usado no fatídico crime, que acabou cometendo suicídio.
Juntos, os três acabam tendo que mergulhar na mente doentia de Brady na tentativa de rastrear o assassino antes que ele cometa um novo crime terrorista de proporções homéricas.
Mais pra frente eu vou falar sobre a minha opinião sobre os coadjuvantes bonzinhos, mas digo desde já que para mim o melhor do livro foi Brady, sem dúvida.
Tenho algumas questões com os vilões do King e fui ler com um pé atrás, mas conforme o enredo ia avançando eu não conseguia resistir ao envolvimento (quase fascínio) com a história degradante de Brady. O autor nos oferece um contexto muito bem esmiuçado da vida do vilão, e o histórico dele é tão atipicamente perturbador e repugnante, além de bem desenvolvido, que é difícil não se deixar encantar, sabe?
A relação doente que ele tem com a mãe, a relação doente que ambos tinham com o irmão deficiente, a forma com que ele enxerga o mundo, de maneira vazia e privada de qualquer sentimentalismo... É tudo tão bizarro de um jeito tão convincente que envolve a gente, sabe?
Brady cativou meu ódio, se é que isso existe.

''A ideia que Brady Hartsfield tem de bons vizinhos seria não ter vizinho nenhum.''

Achados e Perdidos
O segundo volume da trilogia é uma espécie de interlúdio. Ele é quase inteiramente independente dos outros livros da série e você pode lê-lo sozinho sem que isso ofereça qualquer obstáculo para sua compreensão. O único porém é que você acaba fisgando alguns spoilers do volume I no processo...
Aqui conhecemos outro vilão típico, Morris Bellamy, um leitor aficionado que mata seu autor favorito por não gostar do desfecho que ele dá ao protagonista de sua série mais aclamada, e rouba diversos manuscritos e dinheiro do escritor. Décadas depois, Peter Saubers, um garotinho que também é leitor assíduo, acha o esconderijo no qual o assassino enterrou os livros e o dinheiro antes de ir pra cadeia por outro crime (estupro). Depois de ser solto (porque oh, a Justiça, essa coisa infalível) Bellamy descobre o paradeiro de seu tesouro e vai deixando uma trilha de sangue enquanto caça Peter.
Hodges entra na história porque agora tem uma agência investigativa com Holly, a Achados e Perdidos, destinada a rastrear coisas perdidas (jura?), e o garoto acaba recebendo a ajuda dele (por coerção), por interferência de sua irmã, amiga da irmã de Jerome, que leva o caso ao ex-detetive.
O Assassino do Mercedes só entra na história através de uma conexão meio apelativa com o garoto, já que o pai de Peter ficou invalido ao ser atropelado no ataque de Brady na fila da feira de empregos, condenando a família à pobreza, o que acaba fazendo com que Peter use o dinheiro ilícito para ajudar anonimamente os pais.
O melhor desse livro é que ele é um livro sobre leitores, e isso é muito legal porque GENTE COMO A GENTE (tenho o palpite de que você não estaria lendo essa resenha quilométrica se não gostasse de livros, então tomo a liberdade de te incluir nesse caps lok). Tanto Bellamy quanto Peter são leitores assíduos, e isso possibilita que o autor desenvolva considerações sobre todo esse universo que acabam falando muito com quem gosta de ler. É como acompanhar alguém ecoando sentimentos que você alimenta sobre o assunto, muitas vezes sem saber como expressá-los.
Não vou contar o destino de Peter, mas digo que no final do livro Brady aparece de novo, internado numa clínica em estado vegetativo graças ao desfecho do livro I, onde episódios muito perturbadores e inexplicáveis estão ocorrendo (entre eles o suicídio de uma enfermeira, como aconteceu com a dona do Mercedes roubado, não por coincidência), o que introduz o sobrenatural à trama.

''Para os leitores, uma das descobertas mais eletrizantes da vida era a de quem eles eram leitores, não apenas capazes de ler (o que Morris já sabia), mas apaixonados pelo ato. Desesperadamente. Incorrigivelmente. O primeiro livro a fazer isso nunca era esquecido, e cada página parecia trazer uma nova revelação, que queimava e exaltava: Sim! É assim! Sim! Eu também vi isso! E, claro: É o que eu acho! É o que eu SINTO!''
Último Turno
No último livro da trilogia descobrimos que Brady adquiriu poderes psíquicos que lhe permitem viajar através da mente das pessoas e levá-las a agirem de acordo com seus comandos malignos, causando uma onda de suicídios pelo país, que ocorrem especialmente entre vítimas suas do passado ou quase vítimas de seu último ato terrorista fracassado, que falhou graças à ação de Hodges, Holly e Jerome.
Não sabemos bem se o lado mediúnico de nosso vilão é aflorado como resultado dos experimentos ilícitos do neurologista com manias de grandeza encarregado por seu caso na clínica em que ele está internado em suposto estado vegetativo, ou se é tudo obra da já inflamada psicopatia de Brady; provavelmente uma junção dos dois fatores. Mas fato é que o cretino está invadindo o psicológico alheio por via de aparelhos eletrônicos, levando as pessoas a fazerem coisas terríveis enquanto aparenta ser só mais um vegetal esquecido na clínica médica, e apenas Hodges, Holly e Jerome atentam à pista dele, já que conhecem a mente doentia de Brady mais intimamente e são os únicos que conseguem ao menos considerar a hipótese de que essa suspeita não seja uma insanidade completa.
Esse é o livro em que temos mais acesso à perspectiva de Brady e isso pode ser especialmente atrativo pra quem gosta de olhar através dos olhos do vilão.
O assunto base desse volume é o suicídio, já que é essa a arma usada por Brady pra destruir as pessoas, uma vez que não tem autonomia e integridade física (durante um tempo, pelo menos) suficientes pra sair atirando carros contras os cidadãos em filas por aí.
Mas não é a primeira vez que esse elemento surge na narrativa; desde o livro I Brady já vinha nos mostrando sua inclinação a ser instrumento do suicídio alheio, ao ter convencido a dona do Mercedes roubado e usado na morte de diversas pessoas a se matar com o peso da culpa, e por ter tentado fazer Hodges seguir o mesmo caminho. Mas é nesse livro que o vilão se consagra como o Arquiteto do Suicídio e nosso trio de benfeitores às avessas precisa correr contra o relógio pra conseguir domar Brady não só dentro de uma cela ou atirado numa maca, mas também na subjetiva dimensão psíquica.

''-Os motivos nunca importam, porque o suicídio vai contra todos os instintos humanos, e isso o torna insano.''

Aqui eu paro de pormenorizar o enredo dos três livros e falo sobre minhas impressões gerais sobre a trilogia.
Devo dizer que eu estava com um pé atrás desde o começo. O crime que nos introduz à trama, o ataque terrorista em que um Mercedes é dirigido contra uma multidão numa fila, matando oito pessoas, me pareceu... sem graça demais. Eu acho mais interessantes, mais emocionantes (na ficção, pelo menos, não sei), crimes em que o assassino interpela suas vítimas de forma mais íntima e direta, muito diferente de jogar um carro contra elas e sair andando sem nem ver quem ficou atirado no caminho, entende? Esse intimismo macabro torna as coisas mais instigantes, ao meu ver. Então a ideia de um Assassino do Mercedes não me cativou, e sei que se o crime tivesse sido outro minha recepção aos livros seria um pouquinho diferente.
Os vilões masculinos do King também sempre me parecem muito parecidos, se encaixam num arquétipo fácil de delimitar: são sempre racistas completos, machistas completos, homofóbicos completos e gostam de passar seu tempo tripudiando a humanidade em toda oportunidade possível, porque obviamente são muito melhores do que todo mundo. Essa semelhança gritante se nota até mesmo em Brady e Morris, na mesma trilogia. Então às vezes eu tenho a impressão de estar ouvindo a mesma fita arranhada.
Só que o King sabe desenvolver esses complexos, então é sempre interessante, até divertido, conhecer seus vilões. Eu adoro. Não foi diferente aqui.
Brady se faz especialmente interessante porque King não nos poupa de nenhum detalhe sobre seu passado sombrio na hora de nos contextualizar na trajetória desse cara desprezível. A história de Brady é muio bem contada, e isso deixa as coisas muito boas.
Alguns aspectos que me deixaram meio avessa se apresentam em Holly e Jerome. Eu gostei muito da Holly, mas alguma coisa nela simplesmente não me convenceu. Por vezes parecia que o autor estava tão preocupado em fazer com que ela fosse tão, tão peculiar e diferente para que a trama pudesse ser mais interessante, que ele forçava a barra, tentando jogar na nossa cara o tempo todo o quanto Holly Gibney é uma mulher problemática!!! (e eu meio que posso falar com propriedade sobre a questão ser problemática, se é que você me entende, haha)(droga).
O Jerome também tem umas questões meio dúbias, como uma aparente (porque não ficou muito claro, não pra mim) dupla personalidade que é jogada na trama sem nenhum desenvolvimento ou explicação, tudo para reforçar a suposta peculiaridade daquele trio improvável.
Também acho que a jogada com suicídio funcionaria melhor em um livro individual que focasse inteiramente nessa faceta do vilão, sem o desvio das questões dos volumes I e II da trilogia, porque é uma ideia interessante que acaba sendo abordada no meio de uma muvuca que turva as coisas.
(Muita gente também argumentaria que isso é se valer de um problema emocional gravíssimo que aprisiona muitas pessoas, fazendo com que uma abordagem em prol da ficção seja irresponsável, mas perdão, não tô olhando as coisas através desse viés.)
Tem alguns outros elementos para os quais eu também torci o nariz, mas não vou me alongar mais nisso porque são todas impressões muito pessoais. Eu li algumas resenhas sobre a trilogia e não vi uma pessoa sequer levantando essas críticas, o que mostra que cada leitor é um leitor e esses últimos parágrafos podem parecer estapafúrdios se e quando você der uma chance aos livros.
Não viraram favoritos meus e não foi uma trilogia policial que me conquistou como as queridinhas conseguiram, mas essa tríade está muito longe de ser ruim. Também vale constar que o autor não se aventura tanto no gênero policial, então é uma ótima chance de observar King desenvolvendo essa faceta à qual não temos tanto acesso, e ele não fez feio.
Outra coisa divertida é pescar as dezenas de referências à cultura pop que o autor faz ao longo dos três livros. SK parece ser um cara muito antenado no currículo midiático, porque rolam menções nem sempre honrosas que vão de Justin Bieber a Pretty Little Liars, entre outras. É bem legal ler sobre personagens que se situam numa realidade relacionável à nossa, com direito a críticas aos rumos duvidosos que tomou a série Dexter e àquela tristeza constrangida ao falar de Cinquenta Tons de Cinza, por exemplo. ;)
E apesar de todas as críticas pobres que eu pontuei, devo dizer que ler os livros foi delicioso, a leitura passou voando e correu com fluidez. King sabe nos entreter muito bem, e esse dom ele domina aqui mais uma vez. Então os livros são uma ótima pedida pra um momento de lazer ou para aquela fugida sorrateira da vida que você está precisando. Eu posso garantir que eles não vão te fazer dormir, e jogo muitas fichas (mas não todas, porque poucas derrotas impulsivas no poker já serviram de lição) apostando que você vai se divertir.

''PARA OS JOVENS, TRAGÉDIAS QUE NÃO ACONTECEM NÃO PASSAM DE SONHOS.''

11/09/2018

Mescelânea - Agosto 2018

Mescelâneas são textos mensais que faço com comentários irrelevantes sobre livros lidos, filmes/séries assistidos e links visitados no mês em questão. Fique à vontade pra clicar no xis e fazer algo mais produtivo com a sua vida a qualquer momento. Sem ressentimentos.

Li 
Foram cinco livros em agosto: Revival (Stephen King), Mr. Mercedes, Último Turno (volumes I e III da trilogia Bill Hodges, do Stephen King), Minha Querida Sputnik (Haruki Murakami) e Extraordinário (R. J. Palacio).
A biblioteca em que eu sou sócia tá recebendo agora um carregamento de livros que eles requisitaram ano passado, então tem muita coisa nova lá. Revival foi um dos presentinhos que chegaram.
É sobre Jamie, um cara que conheceu, ainda criança em sua pequena cidade de origem, um reverendo com uma obsessão por energia que depois de uma tragédia terrível com a esposa e filho se revolta e começa a mergulhar cada vez mais no estudo do que ele chama de energia secreta, uma suposta força vital do universo, com um poder que transcende tudo o que conhecemos. Essa energia secreta permite que ele saia pelo país realizando curas milagrosas e adquirindo fama de pregador barra curandeiro sobrenatural... Só que as pessoas curadas passam a apresentar uns sintomas bem bizarros e o Jamie, agora já adulto, reencontra o reverendo e começa a ficar cada vez mais intrigado com isso, observando o religioso-não-tão-religioso-assim de longe. 
No fim os dois acabam envolvidos num acordo bem sinistro envolvendo FORÇAS OCULTAS e a energia secreta e é assim que eu vou terminar o resumo mais confuso da história desse blog.
Não virou um favorito meu e eu fiquei a maior parte do tempo suspensa numa expectativa indeterminada. Essa expectativa não foi frustrada, mas a real é que a leitura acabou sendo meio... estranha (?) pra mim, de um jeito que não sei explicar. MAS, eu me entreti em cada segundo. O livro é pura diversão e passatempo e eu engoli ele como se não houvesse amanhã.
Achei o final mítico (em tempos de Bossalnaro, parece uma palavra ridícula pra usar aqui, mas juro que não há uma melhor) demais pro meu gosto, mas não vai ser tempo perdido pra quem gosta do Stephen King.
Aí eu terminei a Trilogia Bill Hodges, também do King, cujo segundo livro li em maio, porque os outros dois chegaram na biblioteca nessa nova leva.
Eu gostei mas com ressalvas, sabe. A verdade é que eu já fui ler com um pé atrás, e alguma coisa que não sei expressar direito agora (vou tentar desenvolver numa futura resenha, talvez) não deu muito certo pra mim.
Só que os livros são uma ótima pedida, e também não vão fazer ninguém perder tempo.
Então tente não dar a mínima pra esse parágrafo desconexo e se concentre no fato de que eu recomendo, sim.
Vale constar que aqui o autor se aventura no gênero policial, uma coisa que a gente não viu tanto (é sem dúvida o livro mais policial que li dele).
Minha Querida Sputnik é o quinto livro do Murakami que eu leio, e a escrita dele até agora se manteve uma delícia absoluta, me convencendo a cada novo volume explorado a ler tudo o que o cara já publicou. Ele escreve de forma tão simples, nada rebuscada, e consegue ser tão envolvente em seu estilo simplista e singelo que é difícil não se apaixonar.
Esse livro nos mostra um quase triângulo amoroso entre o narrador de nome desconhecido que é apaixonado por Sumire, sua ex-colega de faculdade que sonha em ser romancista e vive dentro do próprio mundo recluso, que por sua vez se apaixona por Miu, uma mulher mais velha que passa a ser sua empregadora. A vida dos três se entrelaça quando Sumire tem um destino misterioso que vai fazer com que nosso narrador-personagem se jogue na busca por respostas.
Eu não escrevi uma resenha porque a verdade é que não tenho muito o que dizer sobre esse livro, além de falar que foi uma leitura muito doce e fluída que eu nem vi passar. Uma coisa perfeita para feriadões.
Mas reforço: Murakami levanta muitas questões, mas não é do tipo que se preocupa em nos dar todas as respostas, e talvez esse seja só mais um charme dele.
Peguei Extraordinário na biblioteca da escola em que trabalho, que é bem pobre porque é de nível fundamental e por isso o pessoal acha que precisa se resumir a livros infantis com 15 páginas e todas as gravuras (nada contra, a propósito). Só que há uns poucos livros voltados a uma faixa etária maior, incluindo este.
É uma história muito bonitinha sobre um menino com uma síndrome que lhe causa deformações severas na face e que enfrenta o ambiente escolar pela primeira vez depois do homeschooling, tendo que lidar com bullying, rejeição e medo. Um livro perfeito para uma biblioteca escolar, de fato, e particularmente interessante para mim, que estou lá justamente para lidar com crianças especiais (embora o August não fosse se encaixar no perfil que atendo - já que não tem deficiências motoras e/ou cognitivas -, ele é o eterno ''diferente'' entre os ''normais'', e isso todos os meus alunos são, então o paralelo é perfeito).
O livro é um manifesto à gentileza, como ele se define, e é muito lindo.
Mas preciso admitir que a linguagem infantil me cansou um pouco, então antes de chegar ao fim daquelas 300 e poucas páginas, meu cérebro já estava clamando por algo mais ''cabeça'' (aspas infindáveis aqui). A questão é que eu me recuso a fazer disso uma reclamação, porque beira o absurdo querer exigir uma prosa kafkiana saindo da mente de uma criança de 8 anos, e essa é uma das coisas que o livro nos propõe, pra começar: entrar na mente de uma criança em meio a uma situação crítica. E o August, como não poderia deixar de ser, é bem maduro para a idade.
Então eu recomendo, sim, mas não acho que seja um livro que vai funcionar com todas as pessoas, embora deva ser lido por pelo menos 4/5 da população mundial (queridos bullies do médio, essa é pra vocês). ;)

Assisti
Eu na Netflix.
Acho que vai dar textão porque estivemos hospedando duas primas do Canada, mãe e filha (que não víamos há 4 anos!), que vieram ao Brasil por conta de uma emergência médica na família (não que você queira saber), e fiz várias jogatinas e sessões pipoca com a Amanda (a filha) e ocasionalmente minha irmã e minha mãe. Então foram 9 (!) filmes nesse mês, dos quais só dois assisti sozinha, e alguns episódios de série.

Mortdecai
Tem o Johnny Depp (mais uma figura suja, eu sei) no papel de um colecionador de arte meio pilantra que ajuda as autoridades (por coerção e chantagem mesmo) a resolver crimes que envolvem esse mundo.
O filme é uma comédia bem pastelona com momentos e situações bizarros e um enredo que dá voltas doidas dignas de shows de pirotecnia.
Sabe aqueles roteiros estapafúrdios a la Wes Anderson? É mais ou menos essa a vibe, mas sem ter o jeitinho Wes Anderson, claro.
Pra um filme que visivelmente não se leva a sério, não é ruim, mas também não é nada extraordinário, e cansa um pouquinho. Mas lembrando: você NÃO PODE querer levá-lo a sério, senão vai se frustrar. 
É um filme leve, meio Sessão da Tarde, pra se divertir, e tem personagens charmosos. 

Still Alice
Aí assisti esse só com minha prima de madrugada, porque minha irmã acha sem graça esses filmes de doença.
É sobre uma linguista (interpretada pela Julianne Moore <3), professora universitária, mulher culta e articulada, que se descobre com um caso precoce de alzheimer e vê toda a vida que construiu se deteriorando junto com suas funções neurais progressivamente afetadas pela doença.
É um filme muito, muito, muito sensível e tocante. Ele tem um ritmo lento e se arrasta porque é assim que tem que ser (Taine realmente teria detestado): o tempo fica suspenso para quem tem alzheimer, eternamente preso em épocas que não voltam mais, num limbo de consciência e em lapsos de memória nebulosos.
É uma experiência até tormentosa assistir, porque vemos, durante mais ou menos duas horas, uma pessoa (suas memórias, sua personalidade, carreira, conhecimento...) definhando gradualmente, e dá medo perceber que nossa existência está sujeita a esse tipo de coisa, porque não sabemos se nosso destino será parecido.
É interessante assistir com alguém (desde que não seja a Taiane) porque você vai vendo no semblante da sua companhia (se você for meio creepy e gostar de observar pessoas, quer dizer) a perturbação a cada cena nova em que Alice esquece algo de importância fundamental, como os filhos, o caminho de casa, a universidade em que lecionou durante tanto tempo... Rolaram muitos ''aaaaiiiis'' secos e consternados entre minha prima e eu durante a sessão.
O filme é muito triste, porque Alice se perde, como não poderia deixar de ser. E correndo o risco de soar insuportavelmente clichê e melodramática, além de repetitiva (porque esse é um pensamento que tem me ocorrido muito desde o filme), você fica se perguntando se Alice é mesmo Still Alice, e isso é uma droga.

Para Todos Os Garotos Que Já Amei
A Taiane esteva particularmente relutante em assistir Still Alice porque tinha esse filme aqui em mente, então no dia seguinte deixei ela me obrigar (-q?) a dar uma chance a essa coisinha, e minha prima veio junto enquanto nos empanturrávamos com as gordices brasileiras às quais ela não tem acesso no Canada (what a sad thing to live without PAÇOCA).
Achei o filme ruim pra caramba, desculpa. Tá super em alta mas eu teria que comer muitos cogumelos coloridos pra gostar tanto.
Eu quis morrer, Taiane se sentiu culpada e Amanada (que detesta romances) ficou com uma cara de uva passa impagável.
Só que o lado bom é que ele é tão adolescentinho e frescurinho e nhénhénhé que fica engraçado (hilário, se você tiver algum retardo) assistir com amigos só pra vocês se sentirem completos imbecis juntos. A gente chegou a gargalhar de vergonha alheia em algumas das cenas mais bestas (que são, tipo, todas), seriously. ''É tão ruim que é engraçado, Taiane.''
Eu juro que fui bem neutra assistir. No início achei uma péssima ideia, mas depois de ver tantos elogios eu consegui botar fé o suficiente pra deixar minhas expectativas bastante equilibradas. Mas oh hell no.
Lá pelas tantas olhei pra minha irmã e:
-Tu já se arrependeu? Porque eu já me arrependi.
-Agora que tâmo aqui vâmo até o final...
Esporadicamente eu fulminava ela com os olhos, mas com a graça do pai e muita força de vontade, de mãos dadas e em corrente de oração a gente chegou até o final. ''Só mais 24 minutos, gente, vamos lá, falta pouco.''
É sobre uma garota que escrevia cartas para os caras por quem era apaixonada, pra extravasar e colocar as coisas em perspectiva, mas sem enviá-las aos remetentes... Até que sua irmã caçula capirótica decide colocá-las nos correios porque LET'S PLAY A GAME, não é mesmo?
O filme é beeeeeeeem adolescentinho, e o único jeito que eu consigo pensar ser suportável assisti-lo, na minha humilde e provavelmente sujeita a lixamento público opinião, é com companhias com as quais você sabe que pode se permitir ser ridículo.
Mas ainda bem que existe porque tá rendendo uns memes que OLHA... Raise your hands.
Warcraft
Minha cunhada recente (eu não tenho vontade de acertar minha cara com um soco inglês até atingir o coma toda vez que ela abre a boca, como era com a última, então estou muito contente e welcome to the family, Luana)(sei que isso parece incitação do ódio entre mulheres, mas tratando-se da ex-criatura, JUST TRUST ME, COLEGUINHA) veio aqui uma noite dessas e ela e meu irmão decidiram assistir a esse filme que é algo bem fora da minha zona de conforto e que eu nunca veria em circunstâncias normais. Mas eles me convidaram e eu levei minha prima junto porque é pra isso que serve a família.
Não me interesso nada por esses filmes derivados de jogos, mas olha, QUE ARTE GRÁFICA, MEUS AMIGOS.
Tenho zero competência pra fazer críticas válidas sobre isso (e quem é que liga pra mané "críticas válidas", não é mesmo? Plmdds, isso aqui é um blog escrito por MIM; alguém espera muita coisa?), mas achei os gráficos muito bem feitos e, quem diria, até que acabei gostando, embora tenha havido momentos bem ''ata'' (graçazadeus a gente tá na internet e esse comentário faz sentido), especialmente em algumas cenas com atores humanos (?) que não eram computação.
O filme tem uns elementos bem bizarros e meio demoníacos e perturbadores que te fazem ficar pensando que o Deabo está atuando neste lugar e que iam fazer minha mãe torcer o nariz? Olha, tem. Então já vai repreendendo e é isso.

John Wick
A Amanda recomendou esse querendo fazer um rewatch, dizendo que era uma boa opção de filme de ação.
Eu achei um grandessíssimo, um fenomenal, um mastodôntico pedaço de merda audiovisual (não é trash, mas dá vergonha).
Foi bem triste porque eu realmente queria ver o Keano Reeves em algo bom, depois de séculos, mas o VISH foi forte e retumbante.
A maior preocupação do filme não é a fotografia, um roteiro coeso, diálogos inteligentes e articulados ou uma boa trilha sonora, e sim jogar na nossa cara o tempo inteiro o QUANTO o protagonista é fodão e ninja assassino e homão e pika das galáxias e olha que incrível ele.
Depois de toda a insistência vergonhosa, você só consegue duvidar e sentir constrangimento. Não vale o escasso tempo que a gente tem na Terra.

O Show de Truman
Eu tava querendo ver ha séculos por causa de toda a notoriedade e comentários positivos que ouvi a respeito. Amanda já tinha assistido e convencemos a Taiane a ir na onda embora ela também não vá muito com a cara desses filmes antigos (Taiane é totalmente um porre, nascimento não planejado, caçula pé no saco, Tonya Rock etc, etc). Amamos o filme. É feito pra refletir.
Truman é um cara muito gente fina e bem humorado que leva uma vida ordinária e pacata numa cidadezinha da qual nunca saiu. Até que umas coisas bem suspeitas e desconexas começam a acontecer com ele.
A gente descobre que na verdade o infeliz é membro eterno de um reality show que é a vida dele, onde todos os outros (sua esposa, amigos, vizinhos...) são meros personagens contracenando com o coitado que vive numa ilusão completa e nem sabe que tem cada minuto do seu dia transmitido nos televisores do mundo todo.
É incrível o quanto esse filme nos faz ficar pensando em coisas que a gente nem consegue definir bem, e sentindo de tudo.
Acabamos ele em êxtase, com caras indescritíveis e sem saber mais COMO EXISTIR, COMO VIVER, COMO PROCEDER.

Aniquilação
A brisa quando ela vem ela bate forte e derruba as telhas da casa.
O filme tava até promissor, com um grupo de cientistas mulheres entrando numa área envolta numa camada de brilho (não tem como explicar, desculpa) misteriosa e alienígena que apareceu num canto do mundo e que foi se expandindo, alterando a biodiversidade e fazendo com que as autoridades se alarmassem, isolassem a área e encobrissem isso da população, mandando gente pra estudar a coisa, sem que ninguém conseguisse voltar vivo. Amo esse tipo de plot.
Mas aquele desfecho. Gente. Aquele. Desfecho. Gen. Te.
Quantas doses de LSD uma pessoa tem que ingerir pra chegar naquilo? É tão noiado que é absolutamente impossível tentar descrever se você não for um Poe ou estiver sob efeito de drogas pesadas.
Saí sem saber o que que o quê tem a ver com as quantas.

Como Treinar O Seu Dragão 2
Esse assisti sozinha de madrugada, deitada na cama com o notebook em cima da barriga e a cabeça num ângulo de possessão demoníaca.
Percebi com muita indignação que nunca tinha de fato assistido à sequência na íntegra e com toda a calma e atenção que ela merece, já que quando assisti minha mãe estava cuidando de umas crianças sinistreiras aqui em casa que tinham o filme e não era como se eu pudesse apreciá-lo na paz sem ter que cuidar pra ver se elas não estavam comendo massinha ou tentando acertar o olho do coleguinha com um lápis da Faber Castel.
Olha, Como Treinar O Seu Dragão é uma das minhas animações favoritas de todos os tempos (amigos e familiares te diriam que já é cansativo me ouvir falar isso), o tipo de coisa que eu reverencio, então eu meio que fiquei num estado de encantamento e êxtase tão plenos que minha alma se libertou do corpo e ficou voando por aí, tal qual Banguela, em absoluto fascínio, intercambiando meus sentimentos embriagados entre céu e Terra. Uiiaa
O volume I ainda continua sendo meu queridinho absoluto, mas achei uma continuação MUITO à altura de sua predecessora.
Quase chorei de emoção. Really.

A Bruxa
Que coisa maravilhosa esse filme. Que patada. Que balde de água fria.
Nos mostra o cotidiano de uma família provinciana no século XVII que vive da colheita e passa por um momento de escassez e miséria desgraçado. 
O bebê caçula desaparece enquanto estava sob os cuidados da filha mais velha, Thomasin, e o filme vai criando uma teia de suspense e tensão enquanto todos parecem suspeitar da garota, que supostamente está se deixando levar pelos encantos da feitiçaria e fazendo rituais satânicos com os irmãozinhos nas horas vagas.
Só que Thomasin é só uma menina perdida em meio à pobreza, a uma mãe amargurada e fanática religiosa que só perde pra mãe da Carrie White e a um pai desesperado com quatro filhos pra sustentar (já que o quinto desapareceu). Ela vai se envolvendo por infelicidade numa cadeia de eventos desastrosos e perturbadores e quando vê, PUF!!, já tá todo mundo gritando aos quatro ventos que ela é uma bruxa!, e nem ela nem nós conseguimos pensar num jeito de fazer com que a menina se desvencilhe desse labirinto de desgraças.
Ele não dá medo, mas nos deixa angustiados e apreensivos porque a tensão é muito bem construída e porque não apela pra jump scares, com exceção de uns dois (bode cretino).
É um filme bem inteligente que fala sobre a demonização da mulher (engraçado como ''bruxas'' só remetem ao maligno enquanto ''magos'' são sinônimo de sabedoria e conhecimentos naturais, né?), intolerância religiosa e ignorância.
Tem o único final possível, na minha opinião.

Friends
Amanda e Taiane também estiveram muito engajadas no propósito de pregar a palavra de Friends pra mim durante o nosso tempo triático, antes da prima voltar ao seu mundo Frozen.
A série é uma tradição na casa da Amanda e Taiane já está na quarta temporada.
Tô querendo arranjar um DeLorean pra voltar no tempo e poder impedir que 20 fucking anos da minha vida decorressem sem essa dádiva dos céus, já que pra estapear minha cara como se não houvesse amanhã eu só preciso do tempo presente.
Pela primeira vez na vida depois de Todo Mundo Odeia o Chris (#Minha#Série), eu não tô seguindo nenhum roteiro nem me pressionando pra vencer os episódios, e sim assistindo de maneira bem esporádica, porque Friends é feita para aqueles ocasionais momentos em que você simplesmente precisa fugir de tudo pra não começar a bater a cabeça na parede ou assassinar pessoas. :)

Links

-Have You Ever Really Seen The Moon? PELOAMORDETODASASFORÇAS, assistam a essa coisa linda que me deixou com um sorriso no rosto por dias.

-Para entender a obsessão por Bolsonaro, a VICE visita algumas de suas bases de apoio pelo país. (Ai.)



-Your Cat Is Trying to Talk to You. Pesquisadores do comportamento animal falando sobre como os felinos, na verdade, tentam se comunicar com a gente e não estão 100% cagando pra nós, como parece, só uns 99%. Que coisa mais amorzire.

-How to Hold a Cat. Esses vídeo me fez muito feliz.

-Men Reviewing Men. Escritor e crítico falando sobre a esmagadora tendência de escritores, críticos e editores só recomendarem livros de autores masculinos.


-Vídeo sobre um gatinho que nasceu com uma anomalia que faz com que ele tenha perninhas bem mais curtas que o normal, mas com determinação e apoio da dona, agora leva uma vida razoavelmente normal e é uma das coisas mais fofas que eu já vi e estou vomitando glitter.

-Guia de introdução à internet para o escritor 40+. Taizze falando sobre meios de divulgação literária "alternativos" (em 2018 já não dá mais pra chamar a internet de alternativa, né?).
Depois de anos só com cachorros (e periquitos que a gente soltou porque gaiolas são afrontas, e peixes que meu pai explodiu sem querer sério e hamsters esmagados pelo meu vizinho de 5 anos nos únicos 30 segundos em que tirei os olhos dele juro pra ir pegar um copo de água, mas o mundo não precisa saber disso), devo dizer que é uma experiência única ter agora um Batman de estimação.

01/09/2018

O Homem Que Confundiu Sua Mulher Com Um Chapéu

Do Oliver Sacks
Pense numa senhora que acorda no meio da noite ouvindo uma sinfonia em sua cabeça, sem que nenhum rádio estivesse ligado por perto; em dois gêmeos com retardo mental que têm uma impressionante habilidade matemática, capazes de determinar o dia exato da semana em que cairá qualquer data num futuro imensamente distante; em um homem que não reconhece a própria perna como parte de seu corpo, julgando-na um membro estranho, e seguidamente cai da cama tentando jogar aquele pedaço de carne ''cadavérico'' para longe de si quando acorda assustado no meio da noite; pense em um senhor que, vítima de uma falha aguda na memória, cria compulsivamente histórias e personalidades ilusórias e inventivas para todos que o cercam, por não conseguir reter suas identidades reais na mente nem por cinco minutos; em uma mulher que perdeu seu sentido de propriocepção (o sexto sentido nada metafísico que todos temos - ou deveríamos - e que determina a percepção que temos sobre nosso próprio corpo) e não consegue mais se localizar como presença física no espaço, caindo e se movendo descoordenadamente, tendo que reaprender a controlar os próprios movimentos como uma criança recém nascida, uma vez que suas funções motoras mais básicas foram deterioradas; e, é claro, pense num senhor vítima de uma interessantíssima agnosia visual (a incapacidade de identificar objetos e figuras variadas por meio dos sentidos), que não reconhece o rosto de familiares em fotos, o próprio rosto no espelho, seu sapato no chão e que até chega a confundir a cabeça de sua esposa com um chapéu.
Esses e muitos outros casos extraordinários são destrinchados pelo neurologista Oliver Sacks num dos livros mais interessantes que li na vida, e já um favorito absoluto.
Sacks brinca dizendo que é um cientista romântico, aquele que consegue analisar objetivamente dados e elementos apresentados a ele por meio de seus estudos e através de seus pacientes, mas que também se recusa a dissociá-los dos apaixonantes e refinados fluxos primitivos de vida que os perpassam. Ele é um apaixonado pelas reminiscências da existência e da mente, e olha para seus pacientes com olhos tão encantados quanto concisos. Sacks vê a a química de tudo nos sentidos concreto e figurado.
Por ter essa visão diferenciada sobre os casos que cruzam seu caminho é que podemos ter em mãos um livro tão maravilhoso quanto esse, de um médico sensível (e que coisa importante - e já excepcional - é a sensibilidade pura e simples) que se preocupa em conhecer a história dos doentes que chegam a ele tanto quanto seus sintomas.
Esse é um livro que recomendo mesmo para quem não nutre qualquer interesse pelas ciências médicas (embora seja um pouco de divulgação científica, leitores leigos, como eu, conseguem acompanhá-lo sem nenhum entrave), porque ele se mantém instigante especialmente por nos expor a realidades e percepções de vida tão atípicas e fenomenais. 
Dividido em quatro partes, Perdas; Excessos; Transportes e O Mundo dos Simples, a maior parte do livro fala sobre disfunções bizarras que acometem e vitimizam pessoas afetando seus sistemas neurais de maneiras muitas vezes inexplicadas pela medicina moderna.
Em Perdas temos pacientes que não reconhecem mais o próprio corpo sensitivamente, que vivem com membros perdidos e inalcançáveis. Em Excessos conhecemos pessoas múltiplas, com várias personalidades dentro de uma, e que sentem uma perna, um braço que não está lá. Em Transportes há quem se desconecta de si e se sente em outro corpo, outra órbita, no espaço intermediário entre Perdas e Excessos. N'O Mundo dos Simples, por fim, Sacks nos mostra histórias de vários pacientes com retardo mental e outros déficits, mas que desenvolveram habilidades incríveis ou se adaptaram ao mundo ordinário que dominam de formas belíssimas, com uma percepção tão refinada para o comum que o torna extraordinário.
Embora eu tenha levado o livro pra casa especialmente instigado pelas anomalias psicológicas que beiram o grotesco (desculpa pela curiosidade mórbida), o capítulo que mais me comoveu foi sobre Rebecca, uma moça com retardo mental que frequentava um asilo em que Sacks trabalhava. A forma com que ele descreve a visão de mundo particular e singela que percebeu em Rebecca, sentada sorrindo eufórica com a beleza das flores e do vento, é muito tocante.

''Nossos testes, nossas técnicas, pensei, enquanto a observava sentada no banco - apreciando uma visão da natureza não apenas simples, mas sagrada -, nossas técnicas, nossas 'avaliações', são ridiculamente inadequados. Só nos mostram déficits, não capacidades; mostram apenas problemas para resolver e esquemas, quando precisamos ver música, narrativa, brincadeira, um ser conduzindo-se espontaneamente em seu próprio modo natural.''

Sacks é um apaixonado, eu repito. A sensibilidade e empatia com que ele discorre sobre essas narrativas que não são suas são de encantar qualquer um. Ele não é um Augusto Cury inebriado romanceando a vida melodramaticamente (desculpa, mas achei O Futuro da Humanidade tão ruim que chegou a ser traumático) como quem fumou dois cogumelos no café. Sacks consegue o equilíbrio perfeito entre objetividade científica e subjetividade existencial, entre racional e emocional. Ele é um homem imensamente culto que aborda ideias (e não apenas citações) de filósofos, músicos de jazz e cientistas renomados numa mesma página, com uma coesão e domínio perfeitamente naturais.
É um livro para muitos, porque fala sobre pessoas e isso todos somos. Mas, claro, é especialmente para quem se interessa por medicina e principalmente neurologia. 
Cada página me fascinou. Foi uma leitura que me lembrou por que eu quero essa profissão e que inflamou em mim novamente a paixão por essa ciência. É indispensável pra quem se vê usando um jaleco branco, se me permite dizer. Ele trás uma abordagem muito humanista da medicina, e ao passo que é lindo observar isso, também é um tanto preocupante ressaltar essa singularidade quando a conversa trata de uma profissão que deveria manifestar empatia de maneira intrínseca, sem exceções. A humanidade com que Sacks trata seus pacientes deveria ser premissa básica na hora de validar a formação de qualquer médico.
Mas como, num futuro próximo, a sensibilidade profissional parece estar longe de ser uma prioridade, fica a recomendação desse livro incrível que te apresentará não apenas a casos médicos, pacientes e a uma escrita excepcionais, mas também ao ser humano admirável que é Oliver Sacks.

''MEU TRABALHO, MINHA VIDA ESTÃO VOLTADOS TOTALMENTE PARA OS DOENTES - MAS OS DOENTES E SUAS DOENÇAS CONDUZEM-ME A REFLEXÕES QUE, DE OUTRO MODO, TALVEZ NÃO ME OCORRESSEM. TANTO ASSIM QUE ME VEJO COMPELIDO A INDAGAR, COMO NIETZSCHE: 'QUANTO À DOENÇA: NÃO SOMOS QUASE TENTADOS A PERGUNTAR SE CONSEGUIRÍAMOS PASSAR SEM ELA?' - E A VER AS QUESTÕES QUE ELA SUSCITA COMO SENDO DE UMA NATUREZA FUNDAMENTAL. INVARIAVELMENTE MEUS PACIENTES LEVAM-ME A QUESTIONAR, E INVARIAVELMENTE MINHAS QUESTÕES LEVAM AOS PACIENTES; ASSIM, NAS HISTÓRIAS OU ESTUDOS A SEGUIR, EXISTE UM MOVIMENTO CONTÍNUO DE UM PARA OUTRO.''