15/08/2017

Passei a adolescência inteira com dó da Laura Palmer.

Lembro de quando achei aquele livrinho misterioso, com encadernação em couro verde escuro e só um título na capa, no cantinho de uma estante da biblioteca que visito até hoje: O Diário Secreto de Laura Palmer.
Numa daquelas percepções mediúnicas que leitores têm, eu tive certeza, não sei bem como, de que ele estava abandonado ali há um tempo considerável, sem que ninguém o levasse pra casa; e soube que se eu não fizesse isso naquele dia, o coitadinho ia permanecer naquela condição, esquecido e rejeitado, por mais um bom tempo.
Então eu o escolhi, decidi que levaria pra casa e leria ele.
Não foi muito difícil, na verdade (não foi nada difícil), porque desde cedíssimo (eu tinha uns 11 ou 12 anos, na época) eu sempre fui fascinada por esses mistérios sombrios e meio mórbidos, e o que estava escrito numa contracapa (?) de cartolina dura ao fim do livro era a promessa de um mistério: Laura Palmer, garota encontrada morta nos anos 90 (corpo enrolado em plástico), em Twin Peaks, uma cidadezinha pequena com esse nome que facilmente imaginaríamos num filme da TV, lugar em que aparentemente nada acontecia. Ela era linda, angelical, popular, jovem e querida por todos na cidade; ninguém sabia que mente doentia teria cometido o assassinato. Um mistério que nunca foi solucionado, a síntese já alertava o leitor que pensasse em embarcar nas páginas do diário dela, pra que ele não pudesse reclamar da frustração de chegar ao fim daquele livro sem descobrir quem raios matou a Laura Palmer; ele já tinha sido avisado, afinal de contas.
Laura Perturbadinha Palmer da Silva
No topo da página amarelada e opaca, claramente para que tudo ficasse mais dramático, trágico e tocasse o emocional do leitor em potencial, havia uma foto da moça - provavelmente aquele tipo de foto que adolescentes americanos tiram no baile do colégio, os pais orgulhosos (''olha que princesa linda é a nossa filha!'') emolduram e exibem em casa e depois, quem sabe, vai parar no anuário escolar.
Ela era uma loira de olhos azuis, o maior clichê das belezas; mas nela isso não caía batido ou superficial, não. Laura Palmer era mesmo muito linda.
Realmente, só um doente mataria uma moça assim.
Eu fiquei fascinada por toda aquela aura sombria que cobria o livro, e levei correndo pra casa, de um jeito meio receoso e escondido, porque parecia meio errado querer ler sobre uma coisa tão soturna assim.
Lia meio escondido dos meus pais porque, sei lá, talvez eles não fossem achar a melhor ideia do mundo saber que a filha (também loira AH MEU DEOS É UM SINAL) está tendo acesso aos pensamentos secretos (tão secretos quanto algo que é publicado internacionalmente consegue ser, claro) e perturbados (BEM perturbados) de uma adolescente assassinada ninguém sabe como, ninguém sabe por quê. É melhor eu esconder pra eles não recearem, né? Bobagenzinha, coisa pouca.
Mas quanto mais eu me aprofundava (coisa que aconteceu numa progressão rápida) no universo descrito nas palavras da Laura Palmer, mais determinada a esconder aquela leitura de todo mundo eu ficava. A menina era mesmo perturbada.
Com aqueles 11, 12 anos na cara, caí numa história cheia de drogas, sexo, violência, brutalidade e mais drogas e sexo. Definitivamente não era o tipo de coisa que minha mãe gostaria de saber que eu estava lendo (e com os anos os desgraçamentos literários só foram se intesificando, mas ok, isso é outra história...), então a experiência de ler o Diário da moça assassinada se tornou cada vez mais um ritual secreto e proibido - que eu adorava.
Laura, para a família e boa parte dos conhecidos, era o arquétipo de moça perfeitinha e bem comportada: estudava, ficava horas cuidando do seu cavalo de estimação, estava sempre envolvida em atividades comunitárias, ia à igreja...; para um grupo seleto de pessoas - poucas das quais efetivamente frequentavam o ''lado bom'' de sua vida e eram, portanto, desconhecidas pelos pais e amigos do seu ciclo social de adolescente exemplar -, no entanto, era uma desvairada, uma perdida, uma louca (querendo muito acrescentar uma ''feiticeira, ela é demais'' (tem que ler cantando, se não não vale) aqui, mas sigo firme #SQN) que se tocava em rotinas vertiginosas e perigosas pra desafiar a vida, a wild girl, como alguns amiguinhos do lado negro da força diziam: se mutilava escondida no banheiro quando todos estavam dormindo, transava com dois caras completamente desconhecidos ao mesmo tempo num lago no meio da floresta (quem nunca, não é mesmo?)(frase deixada para a minha mãe, se por ventura você estiver aí lendo, mãe: eu nunca) numa noite e fumava duas carreiras de maconha na outra, dividia seu tempo com a turma do namorado delinquente, ia a festas em que todo e qualquer tipo de atividade ilícita era regra e a lista de desvairamentos só cresce.
Além disso, tinha graves problemas psiquiátricos: Laura era atormentada pela imagem de um homem chamado BOB, que a levava a fazer coisas ruins, invadia seu sono e lhe provocava pesadelos, falava com ela quando ela se via sozinha e inclusive chegava a invadir seu diário, escrevendo através da mão de Laura. Só ela sabia da existência de BOB - fosse ele uma alucinação ou não.
Eu lendo os trechos do diário em que Laura falava sobre o BOB.
Descobrimos todas essas coisas unicamente através da própria Laura, narradora única do livro da sua vida, o diário secreto. Lemos tudo que ela escreveu sabendo que, enquanto vamos de uma página a outra, Laura já está morta embaixo da terra há muito tempo, e isso nos sensibiliza.
Enfim, Laura Palmer era uma garota com problemas. Uma garota com problemas cuja história eu conheci na pré-adolescência e que me acompanhou (nunca deixei de pensar em quem teria matado Laura Palmer) durante toda a adolescência. Eu tinha dó da Laura, tadinha. Era bem doida das ideias mas poxa, ela também tinha muitos problemas e precisava de ajuda, foi triste ela ter morrido (assassinada!) sem poder cuidar de si mesma e sair da foça em que caiu desde que a desgraça do BOB (seja lá o que for) começou a persegui-la no início da adolescência. E quem é que matou ela, afinal, caramba?! Será que foi mesmo o BOB? Desgraçado... 
Eu estava andando na rua com uns 13 anos e lembrava da Laura Palmer; eu estava fazendo uma batida de banana com 15 anos e pensava que putz, quem matou a Laura?; eu estava no ônibus indo ao centro com 17 e lembrava que anos antes de eu ter nascido uma menina loira como eu tinha sido assassinada por ninguém sabe quem e tinha sido jogada num rio em Twin Peaks, enrolada nua num pedaço de plástico; eu estava passando esmalte com 18, ano passado, e pensava coitada da Laura Palmer.
Laura foi uma presença constante na minha adolescência; eu podia passar semanas sem pensar nela, mas ela continuava lá, num cantinho da minha mente, pronta pra surgir do mais absoluto nada me provocando compaixão e abatimento quando eu menos esperava.
Enfim, eu passei a adolescência inteira com dó da Laura Palmer. Desde que li seu diário secreto perturbador, quase uma década atrás.
Passei quase uma vida com dó dela... Até esse ano.
Chegou o fatídico 2017, quando eu finalmente deixei de ficar continuamente com pena da Laura.
Acontece que aquele livrinho maldito foi propositalmente formatado para que o leitor realmente achasse que uma Laura Palmer foi morta em Twin Peaks nos anos 90, por alguém que permanece incólume até hoje; mas não. Laura nunca existiu de verdade, nunca passou de uma personagem de um seriado televisivo americano (eu sabia que o nome Twin Peaks tinha cara de TV...), que durou duas temporadas e marcou uma geração... Uma geração da qual eu não fiz parte, coisa que fez com que toda a minha ilusão perdurasse, porque eu não conhecia a história.
A Laura da série é a menina quase inteiramente recatada e do lar (embora essa máscara vá caindo aos poucos) de que falei, e apenas quem lê o diário descobre toda a sua outra faceta perturbada e wild girl
A série foi dirigida por David Lynch e Mark Frost e foi um sucesso instantâneo e emblemático; todo mundo que tinha uma TV nos anos 90 já chegou a fazer a fatídica pergunta que me perturbou até esse ano: quem matou Laura Palmer? 
Como a série foi AQUELE marco televisivo, surgiu a ideia de que o projeto se estendesse para o meio literário, na forma do Diário Secreto da Laura, que aparece no enredo da tela. Quem o escreveu não foi nenhuma Laura que esteve nos meus pensamentos e na minha listinha de #LUTO na adolescência, e sim Jennifer Lynch, ninguém mais, ninguém menos que a filha do próprio David Fucking Lynch. Aquele assassinato que me tocou praticamente desde a infância não era nada mais que um complemento para o seriado.
SÓ QUE NÃO HAVIA UMA ÚNICA MÍSERA INDICAÇÃO DE QUE AQUELA DESGRAÇA DAQUELA HISTÓRIA É INTEIRAMENTE FICCTÍCIA NA DROGA DO MALDITO DIÁRIO DO CAPYROTO.
E EU PASSEI A PORCARIA DA MINHA PRÉ-ADOLESCÊNCIA INTEIRA (QUE JÁ NÃO TERIA SIDO MUTO AGRADÁVEL SEM ISSO) ME COMPADECENDO PELO FIM TRÁGICO DA LAURA E ME PERGUNTANDO QUEM RAIOS MATOU A CRIATURA, SEM NUNCA SABER, PORQUE AQUELA HISTÓRIA COM O BOB ME DEIXOU O TEMPO INTEIRO COM CARA DE QQQQQQQ?????????
*FEELINGS INTENSOS*
Laura claramente rindo da minha cara. (Cena da série)
Aí você se pergunta como a GÊNIA aqui nunca descobriu, até mês passado, que tudo não passava de ficção. Eu te respondo (ou tento): a) nunca perguntei pra ninguém porque né, #SEGREDO e b) aqui em casa fomos a última família da cidade a ter computador e internet, porque obviamente fomos sempre atrasados nesse negócio chamado ~vida em sociedade~ (só fui ter um smartphone com 17 anos e eu e meus irmãos nunca soubemos o que era ter um videogame mais atual que um play 1 doado usadíssimo e surrado) e esse tipo de exclusão demorou pra deixar de ser uma regra aqui. Na época em que li o diário da Laurinha, nem sonhava em ter um PC em casa e mal sabia o que era google (tempos difíceis); então, por mais curiosa que eu tenha ficado sobre a história da bendita, não pude pesquisar pra tentar descobrir algo a mais. E quando pesquisei, anos depois (ces vejam como a coisa me perseguia), digitei só O Diário Secreto de Laura Palmer e não Twink Peaks, o nome da série, porque obviamente eu desconhecia sua existência. Não me perguntem como (acho que foi o deabo), mas tendo pesquisado apenas o título do livro, eu não cheguei a nenhum artigo (talvez porque era ~inexperiente~ nesse negócio de mexer na internet) que falasse que era uma ficção, e só li o que já conhecia por intermédio daquela sinopse pobre no fim do livro: ''o mistério da menina assassinada em Twin Peaks nos anos 90''. Vi que uma série havia sido feita em torno de todo o processo de investigação do crime, sim, MAS NÃO QUE O LIVRO TINHA SIDO BASEADO NA DESGRAÇA E AMBOS ERAM FICTÍCIOS.
Mas ok, a Carolina de anos atrás fez uma notinha mental pra assistir a série quando conseguisse (Netflix? Não existia) e era isso, a vida continuou e ela seguiu o baile. Esse ano, porém, estando na ressaca de ter assistido às oito temporadas de House e depois de ler algumas menções à série Twink Peaks, resolvi que já era hora de saber mais sobre a pobre Laura Palmer que morreu e ninguém soube por quê. Joguei o nome do seriado no Google pra pesquisar o número de temporadas e episódios e já fui dar uma lidinha básica nas informações de enredo. Comecei a ler e...
...
...
...
Eu não conseguia acreditar. Tava deitada na cama, com a cabeça encostada no travesseiro e segurando o celular na mão quando li. Levantei num pulo só e me ajeitei sentando na cama e aproximando minha cara da tela do celular porque não pode ser EU. NÃO. ACEITO. TAMANHA. BLASFÊMIA.
Fiquei embasbacada com cara de tacho encarando a tela, de boca aberta e olhar aturdido por uns bons cinco minutos, sem saber digerir a informação de que vivi quase uma década nessa mentira. Meu universo saiu dos eixos, deu três pulos e quatro voltinhas, riu da minha cara e tentou voltar pro seu lugar de equilíbrio normal, enquanto eu tentava conceber um mundo em que Laura Palmer nunca existiu de verdade e nunca foi assassinada.
Tentando entender a vida depois de saber da irrealidade de Laura Palmer.
Tem alguns momentos da vida que eu gostaria que estivessem gravados e armazenados num HD do universo que eu pudesse acessar com meu computador, baixar em arquivo, abrir e assistir. Queria que a minha cara quando descobri sobre A Verdade de Laura Palmer estivesse guardada num desses arquivos. Queria poder assistir e ver minha expressão de completo embasbacamento na hora em que vi a coisa toda. Certamente foi hilário - depois do drama carregado por uma pré-adolescência inteira, né.
Nem sei se fiquei aliviada ou com raiva, mas sei que tudo soa muito cômico de um jeito surreal pra mim agora. Já passei do momento de estupefação para os momentos em que dou uma risada engasgada quando penso na mangolice toda que eu consegui protagonizar.
Pode-se dizer que o mito Laura Palmer foi para mim como o Papai Noel o é para muitas crianças. Só que não tive o conforto de anos de infância achando que o mundo é um lugar melhor porque um velhinho bondoso desce pelas chaminés no natal destribuindo presentes para as crianças do mundo. Em vez disso, eu pensava que minha nossa, alguém matou e torturou a Laura anos atrás e essa criatura ainda tá solta por aí.
Engraçado como esse tipo de desgraçamento mental me perseguiu desde cedo. E claro que eu tenho que rir muito disso, ontem, hoje, amanhã e pra sempre.
Só assim pra conseguir lidar com essa minha saga com Laura Palmer.
*'*'*
Mas enfim, eu vi a série? Sim, eu vi a série. E detestei a série.
O ritmo é muito devagar, e embora seja interessante observar essa discrepância entre as produções de antigamente e de hoje em dia (uma cena que em Twin Peaks dura cinco minutos duraria 30 segundos numa produção mais atual), a lentidão me incomodou demais. O roteiro também acabou ficando muito confuso, desconexo, perdido e WHAAAT? Quer dizer, Lynch e Frost começaram ela com a ideia de que o assassinato só fosse o meio introdutório, pra depois o enredo girar apenas em torno dos habitantes da cidade, seus segredos, mistérios e peculiaridades. Eles nem planejavam revelar quem assassinou a Laura. Mas claro que os fãs ficaram doidos e mandaram cartas (ai, ai, anos 90...) pra emissora exigindo um desfecho porque PELOAMOR QUEM MATOU A DESGRAÇA? Lynch e Frost ouviram e o(a) assassino(a) foi revelado(a) no meio da segunda temporada (EU DESCOBRI QUEM MATOU A LAURA AI MEU SENHOR QUE EMOÇÃO VER ESSE DIA CHEGAR NA MINHA VIDA MILAGRES ACONTECEM). Depois disso, foi difícil segurar a audiência porque esse era o foco principal de atenção do público e o ritmo descambou geral.
Não conseguiu me prender e foi com MUITA força de vontade que assisti a toda ela, porque a cada segundo eu pensava em largar de mão e não tava mais aguentando. Mas eu tenho TOC com coisas inacabadas e sabia que ia terminar vendo mesmo, então...
Eu também não tenho saco pra essas coisas ''conceituais'' e olha que revolucionário e transgressor, mas que não fazem sentido nenhum, e a série acaba indo por esse caminho. O último episódio é a coisa mais WTF que já vi na minha vida. Pode ser poético, artístico, estiloso e hipster? Pode. Mas NÃO FAZ SENTIDO então não sou obrigada a gostar.
Apesar disso, os personagens quase fizeram valer a pena, porque eles são incríveis. São cheios de peculiaridades, traços interessantes e costumes e personalidades que fogem da regra geral e chamam a atenção; como a mulher que carrega um tronco no colo pra cima e pra baixo e diz que ele transmite mensagens do além, o agente Cooper (que homem) que sempre começa as cenas filosofando sobre a vida com seu gravador, a Nadine que é meio louca e usa um tapa olho porque por acidente levou um tiro do marido, o policial Andy que é sensível e sempre chora nas cenas de crime e a química engraçada que ele tem com a Lucy, a secretária da delegacia de voz infantil. Eles são todos muito bem construídos e cheios de peculiaridades, nenhum passa despercebido.
O humor da série também conseguiu me conquistar; é um humor meio mórbido que não parece batido ou vulgar mesmo quando escancarado, sabe? Recheado de ironia. Conseguiu me arrancar bons ENGASGOS, haha.
Outra coisa muito característica da série é sua trilha sonora. Percebe-se com naturalidade que ela foi especialmente pensada para dar vida àquelas cenas, e foi um trabalho de mestre encaixar com tamanha maestria os efeitos sonoros a todo o ambiente da série. Nunca vou esquecer as músicas de Twin Peaks e a forma com que elas complementam o visual com perfeição.
E as mulheres! Elas têm bastante espaço na série e isso é bem curioso, levando em conta os tempos difíceis em que o machismo imperava em todas as mídias e havia pouca representação feminina. Audrey Horne (lindérrima, pesquisem), por exemplo, que começa parecendo ser mais uma típica guria bonita e fútil, acaba galgando uma trajetória de heroína na série. 
Apesar de não ter gostado (nem em um milhão de anos pretendo rever) da série, não me arrependo de tê-la assistido, porque ela foi um marco na televisão, uma febre entre o público, foi icônica e revolucionou toda a maneira de produzir séries televisivas desde então. Eu gosto desse tipo de agente histórico que atua midiaticamente, sabe?, então eu sei que uma hora ou outra eu ia acabar me obrigando a assistir Twink Peaks.
Eu recomendo? Olha, só se você se interessa pelas influências e referências televisivas que construíram a indústria cinematográfica de hoje. Ou quer conhecer personagens pitorescos. Ou gosta de uma trilha sonora diferenciada. Se não, não, não recomendo (desculpa quem é fã). Mas também não me arrependo.
E, claro, se assistir VOCÊ VAI PODER DESCOBRIR QUEM MATOU A CRIATURA E EU NÃO CANSO DE FALAR ISSO EM MAIÚSCULAS MESMO PORQUE É MUITA EMOÇÃO PRA MIM SOCORRO.
Enfim, percebe-se que meus sentimentos pela série são meio conflituosos e incoerentes: eu detestei por vários motivos (ritmo, roteiro, conclusão...), mas vou guardar ela na memória com carinho por muitos outros (personagens, trilha, humor negro...).
Mas, seja como for, gostando ou não, pelo menos agora não vou passar também toda a minha posteridade com dó da Laura Palmer.

11/08/2017

Contato

Do Carl Sagan
Há algum tempo eu vinha querendo ler esse livro, então foi uma surpresa agradável encontrá-lo entre os novos exemplares disponíveis na biblioteca. O nome Carl Sagan já se faz grande sozinho e diante de tamanha notoriedade (embora isso não seja garantia) não foram necessários muitos argumentos a mais para despertar minha curiosidade. E como boa consumidora de ficção científica, o que poderia ser mais atraente do que um matemático astrônomo fazendo uma abordagem científica a respeito da possível existência de inteligência extraterrestre?
A linguagem do livro é relativamente complexa (nenhuma surpresa por aqui), porque Sagan não poupa esforços ao pormenorizar cada processo, funcionamento, mecanismo e detalhe científico que aparece no enredo (ainda que da maneira mais leve possível, imagino eu), com parágrafos cheios de nomenclaturas e linguagem conceitual. Mas calma, porque embora às vezes fiquemos com aquela leve (ou pesada, se você não for muito dado a exatas; oi, prazer, Carolina, idem) cara de ?, o escritor sabe que nem todos possuímos graduação e pós em física, e ele conduz as coisas com moderação, de maneira a nos permitir entender todo o essencial necessário. Então não precisa ir ler o livro com medo de se sentir o ser humano mais burro do universo (pelo menos esse é o meu medo com a perspectiva de certas leituras por ai, risos), okay?
Mas enfim, Contato é a história de uma mulher, também astrônoma e cientista cética, tal qual o escritor que a criou, que dedica sua vida acadêmica ao propósito de detectar sinais e mensagens do espaço que atestem a existência de seres mais inteligentes e evoluídos que os humanos que habitam a Terra. Ellie trabalha no Argus, uma estação espacial em que radioastrônomos ficam sondando os ares com equipamentos que permitem detectar ondas de rádio, substância que existe em maior abundância no universo (de que se tem conhecimento) e que, portanto, é o meio mais lógico através do qual outras civilizações imensamente mais desenvolvidas optariam por transmitir sua mensagem a outros planetas.
Ellie, desde cedo sedenta por conhecimento e uma estudiosa à parte (além de personagem muito interessante), dedica sua vida a receber essa mensagem, a ter suporte o suficiente para acessá-la e conseguir estabelecer contato com outras criaturas habitantes do universo, se é que elas existem (ela acredita fielmente que sim). E esse dia finalmente chega; o dia em que os extraterrestres, tão distantes, desconhecidos e misteriosos, tão vagos no imaginário comum, têm sua mensagem detectada por aquela brilhante cientista terrena sempre dedicada ao trabalho naquela estação espacial.
Eles de fato existem e estão lá, por aí, em algum canto do universo! – em Vega, mais especificamente, estrela de onde a mensagem se origina. Os veganos, como passam a ser chamados esses seres misteriosos, transmitem instruções para a construção de uma máquina (cuja função você só descobrirá se ler o livro), através de um código numérico, uma linguagem decifrada pelos maiores astrônomos e matemáticos do mundo.
Logo a notícia corre o mundo e vira prioridade em todos os veículos de comunicação. O conhecimento a respeito dA Mensagem (em maiúsculas mesmo) de seres extraterrestres vivendo por aí vira uma febre que toma conta de todas as atividades terrenas. Não se fala em mais nada. Tudo gira em torno dA Mensagem.
A partir desse ponto do enredo, diversas questões começam a ser levantadas no livro. A fundamental, como não poderia deixar de ser, é um dos maiores questionamentos que acompanham a humanidade desde seus primórdios: qual é a origem da vida, do universo e tudo mais? 42 (sou clichê e tenho que fazer uso do trocadilho aqui, desculpa) Qual é a nossa origem? De onde raios isso tudo veio, afinal???
Esses questionamentos são desenvolvidos no livro de uma maneira muito sagaz, usando como pano de fundo o enredo a respeito da relação que tenta-se formar entre humanos da Terra e ETs de Vega. Sagan, físico de notoriedade internacional, explora questões científicas de maneira a fazer com que leigos (oi) possam ser incluídos na conversa, ao criar uma ficção acessível a todo mundo, permeada por indagações reais e concretas do universo acadêmico-científico.
Um dos principais pilares indagadores com o qual escritor e personagens se deparam sucessivamente e que sustenta o clima especulativo do livro nos instiga a atentar para a minuciosidade, os pormenores, as particularidades plenas, primorosas e sem brechas que se percebem em cada mínimo detalhe do universo. Quer dizer, tudo (com exceção, é claro, do sobrenatural - no qual nem todo mundo acredita) pode ser explicado através de equações matemáticas, elementos químicos e leis da física. Tudo o que a natureza orgânica abrange pode ser demonstrado e esmiuçado através do método científico. Cada informação difundida em livros didáticos (confiáveis) que gerações de acadêmicos carregam debaixo do braço possui dados precisos, específicos e irrefutáveis.
A natureza é feita de organizações e estruturações que demonstram uma singularidade incrível, fantástica, de estarrecer... embora esqueçamos disso todo dia e levemos a vida como seres que desconhecem todo esse espetáculo que o universo compõe. Como conceber e sustentar a ideia de que não houve uma mente criadora por trás, anterior a tudo isso? E se houve, qual é a assinatura do artista?, termo que Sagan usa no livro com uma singeleza bonita. Esse é o principal assunto a ser discutido entre as páginas de Contato.
Claro que o eterno conflito entre ciência e religião também ganha espaço no livro, dando voz a alguns religiosos e a uma penca de cientistas céticos - como a própria Ellie, a protagonista. Eu receei ficar com preguiça em algumas partes porque, sinceramente, cansaço
de uma visão estereotipada que dita que TODOS (tipo, TODOS MESMO) os religiosos são fanáticos que estão SEMPRE (tipo, TODA HORA MESMO) tentando converter alguém, dando benção, chamando outrem de herege do capeta ou exorcizando demônios, porque, putz, essa fita já rodou demais e cheguei num ponto em que quando vejo ela começando a tocar de novo, especialmente num cenário científico em que isso vira um chavão clichê, meu primeiro impulso é revirar os olhos de preguiça.
Claro que esse aspecto e a existência desse tipo de ser humano fanático não poderiam passar inexplorados numa obra que se propõe a abordar temas que claramente andam juntos a antagonistas tão contundentes, mas sabe o cansaço que dá uma representação preguiçosa?
PORÉM, Sagan não fica muito nessa, e há pelo menos um personagem legal, razoável e com cérebro (*gritos de viva*) que também acredita em entidades divinas.

Mas, Espacinho Pra Falar Com Quem Já Leu aqui, ainda a respeito dessa questão: eu cheguei ao fim do livro (O QUE É AQUELE FINAL, MINHA GENTE) e pensei ''tá, peraí, ele acredita numa mente criadora suprema (Deus) ou não, afinal?''. Porque, se você aí do outro lado já leu o livro e lembra bem daquelas páginas finais (tem como não lembrar daquilo?, plmdds), ele parece afirmar que sim pra depois dizer que não é bem assim e depois sim é mais ou menos issonão pera porque tem isso; sabe? Haha Eu sei que estamos falando desse Sagan aqui, que acredita que se existe um Deus, ele é a física e suas leis, e isso já responde à questão, claro (ele era agnóstico e ponto, isso precisa ser respeitado aqui); mas devo dizer que se eu fosse me basear APENAS (sem considerar seus pronunciamentos a respeito) naqueles trechos finais (AQUELE FINAL MINHA GENTE) pra teorizar a respeito das crenças ou descrenças pessoais dele, se nos concentrarmos em termos como "assinatura do artista" (O Artista), pressupõe-se, implicitamente, uma mente criadora consciente, não? Que vai além de um apanhado de leis universais, quero dizer; algo menos abstrato do que isso, percebem? Ou não? Hahaha
Enfim, são questões que envolvem uma disposição e espaço maior para debater; talvez outra hora. ;)

E pra concluir, um outro aspecto notável do livro é poder observar (porque acho que a realidade ante algo assim seria uma cópia fiel do que Sagan ilustra no romance) a forma com que a sociedade se reestrutura depois de perceber que, opa!, não estamos sozinhos nem somos os mais espertos aqui... Há uma revolução em todas as áreas, acadêmica, social, religiosa, hierárquica... Tudo muda com a noção de que o ser humano está longe de ser o centro do universo (coisa que Copérnico já tinha nos ensinado, claro, mas ok...). É interessante pensar nisso, e com o conhecimento que temos (embora ele ainda seja limitadíssimo) a respeito da imensidão estratosférica do universo, fica difícil, no embalo do livro, não pararmos para refletir fascinados sobre quão pouco sabemos e quão pequenos, ridiculamente pequenos, somos diante de tudo isso... Fascinados e assombrados.
E repito: AQUELE FINALZINHO É PURO AMOR.

''ESPECIALISTAS DE TODAS AS ÁREAS COMEÇAVAM A SE PREOCUPAR.
OS MATEMÁTICOS TEMIAM TER DEIXADO DE FAZER DESCOBERTAS ELEMENTARES. LÍDERES RELIGIOSOS RECEAVAM QUE OS VALORES VEGANOS, POR MAIS EXÓTICOS QUE FOSSEM, GANHASSEM FACILMENTE ADEPTOS, SOBRETUDO ENTRE OS JOVENS SEM INSTRUÇÃO. ASTRÔNOMOS AFLIGIAM-SE COM A POSSIBILIDADE DE TEREM INTERPRETADO ERRONEAMENTE DADOS FUNDAMENTAIS SOBRE AS ESTRELAS PRÓXIMAS. POLÍTICOS E CHEFES DE ESTADO TEMIAM QUE OUTROS SISTEMAS DE GOVERNO, ALGUNS RADICALMENTE DIFERENTES DOS QUE EXISTIAM NA TERRA, PUDESSEM SER ADOTADOS POR UMA CIVILIZAÇÃO SUPERIOR. TUDO QUANTO OS VEGANOS SABIAM NÃO FORA INFLUENCIADO POR INSTITUIÇÕES PECULIARMENTE HUMANAS, OU PELA HISTÓRIA OU BIOLOGIA DOS HOMENS. E SE GRANDE PARTE DO QUE ACEITAMOS COMO VERDADEIRO FOSSE UM ERRO DE INTERPRETAÇÃO, UM CASO ESPECIAL OU UM ERRO DE LÓGICA? OS ESPECIALISTAS COMEÇAVAM, INQUIETOS, A REAVALIAR OS FUNDAMENTOS DE SUAS DISCIPLINAS.''

Esse livro faz parte da lista de 50 livros de 1900 que eu vou ler antes de morrer.
Confira mais aqui (credo, parece até frase de comercial). 

09/08/2017

A Máquina do Tempo

De H.G. Wells
Esse foi meu segundo livro do Wells, esse ser humano que ficou marcado como um dos principais criadores da ficção científica como a conhecemos (histórias incríveis com pitadas de um surrealismo meio real (sim) tão doido que acaba nos convencendo, sabe-se lá como). Como eu disse em outra resenha de um livro dele, acabei pesquisando sobre o autor e descobri que ele tem um quarteto de livros popularmente difundidos como algumas das mais fundamentais obras dos primórdios da ficção científica. Quando soube disso, logo botei os quatro títulos na lista de ‘’Quero Ler’’ e A Máquina do Tempo foi o segundo a sair dela e ir direto para a lista de ‘’Lidos’’.
Nosso personagem central, chamado O Viajante do Tempo durante o livro inteiro, conta para um grupo de amigos e conhecidos incrédulos (depois de uma palestra em que lhes apresenta sua grande invenção, a máquina do tempo) como foi parar na Terra no ano [insira aqui um número de seis algarismos que eu não lembro exatamente porque não tenho memória fotográfica nem anotei, mas que é muito, muito, muito distante do nosso presente, lá num futuro longínquo e desconhecido] e o que viu e lhe ocorreu durante o período em que esteve nesse cenário radicalmente diferente de tudo o que conhecemos.
Ao chegar ao misterioso destino de sua primeira viagem no tempo sem saber o que esperar, o Viajante se depara com duas raças distintas que se ramificaram a partir da espécie humana: são elas os Elois, criaturas delicadas, diminutas, bonitinhas, inocentes e de ares angelicais e infantis que vivem na superfície; e os Morlocks, seres soturnos, repugnantes, degenerados e medonhos que vivem no subterrâneo, se escondendo no escuro e amedrontando os Elois, eternamente refugiados na luz do ‘’mundo de cima’’.
Não se sabe quanto tempo o Viajante permaneceria nesse metamorfoseado futuro em circunstâncias normais, mas fato é que sua máquina do tempo, deixada sobre um relvado num jardim encantador, some sem explicação alguma, e o viajante, naturalmente, é obrigado a ficar preso naquela realidade mirabolante até conseguir achar seu meio de transporte nada convencional para voltar ao passado. Durante esse tempo, junto com ele, começamos a explorar aquele cenário e as razões que fizeram a raça humana se transmutar naquelas duas versões tão antagônicas que passaram a povoar a Terra, esta também intensamente modificada de maneira a abrigar aqueles novos seres.
Vou parar de expor maiores detalhes sobre o enredo por aqui, pra evitar SPOILER ALERT (embora, eu deva acrescentar, eu talvez deixe alguma coisinha meio significativa escapar nos próximos parágrafos)!!!
A linguagem do livro, como eu já disse por aqui, é um tanto simplória, porque foi um dos primeiros (talvez O Primeiro, mas não lembro com exatidão agora) livros do escritor; ao fim da edição que tive em mãos, há uma nota do autor em que Wells fala sobre como, anos depois pegando aqueles escritos, já um escritor mais experiente e versado, ele se sentiu tentado a reescrever alguns trechos (especialmente o final, um tanto desleixado pela pressa em entregar o manuscrito), nos quais notou uma pobreza descritiva e faltas no enredo; mas acabou não fazendo isso, respeitando, mesmo com suas falhas, o inexperiente escritor que fora no passado e que não deve ser anulado.
Um dos maiores defeitos do livro talvez seja a falta de aprofundamento; quando estamos no ápice das descobertas e emoções despertadas pela nova realidade distópica que se descortina para o Viajante, há um retrocesso no enredo e o livro acaba. Esse resumo mais enxuto é compreensível e até mesmo esperado, levando em conta as poucas páginas (menos de 200) do livro; mas ainda assim essa ruptura na narrativa deixa uma lacuna.
MAS, PORÉM, TODAVIA BLABLABLA, embora esteja longe (BEM longe) de ser uma obra impecável, o trunfo do livro é um olhar diferenciado sobre o futuro, que não segue estritamente a fórmula das distopias de sucesso que vemos por aí. A dinâmica entre Elois e Morlocks e os processos sociais e biológicos que fizeram com que eles se tornassem as duas raças que o Viajante encontra são a melhor coisa do livro e de longe o que mais me fez gostar dele ao longo daquelas breves páginas.
Por ter dado um salto enorme no tempo (não décadas, mas séculos), maior do que normalmente vemos em obras consagradas na ficção científica (De Volta Para o Futuro, olar), o autor pôde dispor de uma completa revolução biológica que ocorreu no DNA daquelas duas raças e isso é fantástico. Não temos só humanos sofridos se arrastando numa sobrevivência miserável num planeta pós-apocalíptico destruído por bombas biológicas, não! Temos raças completamente diferentes das que conhecemos correndo sobre a Terra.
E aí vem o ponto em que eu quero chegar: como acontece isso? Por que espécies se transmutam em novas criaturas com características mais ou menos desenvolvidas do que eram a princípio? Por que algumas dispõem de habilidades que atuam como suporte biológico para a sobrevivência e que as permitem se sobressair diante de criaturas da mesma raça? Por quê?
Por causa do Processo de Seleção Natural, o gatilho evolutivo sobre o qual Darwin falava e que aprendemos nas aulas de biologia do colégio.
A raça humana se transformou em Elois e Morlocks porque a sobrevivência no meio em que estava inserida dependeu de sua capacidade de se adaptar e desenvolver habilidades e características específicas que lhe permitissem ser resiliente no cenário em que se desenvolveu. E os motivos pelos quais ela (nós, nesse futuro louco e bizarro) precisou se adaptar são o grande trunfo do livro. Naturalmente, falando dessa raça em específico (nozes), a desigualdade social foi o maior gatilho para essa revolução, como não poderia deixar de ser, porque né. A forma com que o autor inseriu isso em sua narrativa (spoilerzinho maroto: temos uma raça para a burguesia e outra para o proletariado; tente adivinhar qual é qual) faz o livro valer a pena, apesar de seus defeitos e falhas gerais.
Falando assim, a impressão que devo estar passando é que as duas raças tiveram que ser marcadas por um comportamento agressivo e de caça que as permitisse sobreviver numa Terra apocalíptica, mas não. Basta lembrar das características que já expus sobre os Elois. Essa visão de Wells sobre o futuro da raça humana que se ilustra nessa raça bonitinha e simplória é outra coisa interessante. 
Os Elois, em linhas gerais, são uns incompetentes. Só que eles nem sabem disso. Eles são criaturinhas fofinhas, ingênuas e apáticas que acham que a vida é um arco-íris e passam seus dias colhendo margaridas, pulando e sendo felizes, own. *-*! Eles quase morrem por qualquer coisinha porque não sabem se defender; eles têm uma linguagem pobre porque seu intelecto foi engessado aos poucos, resultado da falta de exigências de uma existência preguiçosa; eles têm um porte diminuto e indefeso que não oferece ameaça alguma a ninguém porque ter que lutar e batalhar para sobreviver não foram necessidades que eles conheceram; eles vivem entre as ruínas de prédios que a raça humana construiu no passado sem nem pensar em reconstruí-las porque esse tipo de julgamento jamais precisou ser desenvolvido por eles. São uns amores, okay. Mas também são meio bostas.
Os que se transformaram em Elois, quando humanos, eram pessoas que viviam no luxo, com todas as regalias e privilégios, sem nenhuma grande demanda física ou mental. Eram pessoas no pico da escala social, a burguesia. Elas tinham tudo e não precisavam fazer grande coisa para conseguir o que queriam; tudo era fácil. Já os outros, os Morlocks, esses não. Foram reprimidos e precisaram desenvolver características que os permitissem sobreviver ao mundo. Sobreviver diante de uma sociedade desigual e cruel. Sobreviver. Sendo brutos, resistentes, fisicamente fortes e enérgicos.
Entendem o cenário que o autor pintou? Entendem a verossimilhança dele?
Por mais absurdo que pareça ser essa figura disforme e incrível de um futuro diferente do nosso presente, não consigo deixar de sentir um enorme receio ao conjecturar a respeito de mim mesma; não sei do que eu teria mais medo: de me transformar numa Eloi ou numa Morlock?
Só sei que nenhuma das duas perspectivas é muito boa...

‘’É UMA LEI DA NATUREZA, DE QUE TANTAS VEZES DESCUIDAMOS: QUE A VERSATILIDADE INTELECTUAL É A NOSSA COMPENSAÇÃO POR ENFRENTAR AS MUDANÇAS, OS PERIGOS, OS PROBLEMAS. UM ANIMAL EM PERFEITA HARMONIA COM SEU AMBIENTE É UM MECANISMO PERFEITO. A NATUREZA NUNCA APELA PARA A INTELIGÊNCIA SENÃO QUANDO O HÁBITO E O INSTINTO SÃO INCAPAZES DE RESOLVER UM PROBLEMA. NÃO EXISTE INTELIGÊNCIA ONDE NÃO EXISTE MUDANÇA OU A NECESSIDADE DE MUDANÇA. OS ÚNICOS ANIMAIS QUE DEMONSTRAM INTELIGÊNCIA SÃO AQUELES QUE TIVERAM DE ENFRENTAR UMA GRANDE VARIEDADE DE NECESSIDADES E PERIGOS.’’