13/05/2018

Lendo a Tetralogia Napolitana

Esse texto foi escrito mais como uma conversa de leitor pra leitor, de fã pra fã, da tetralogia Napolitana, do que como uma resenha crítica. Assim, eu acabo revelando algumas informações sobre o desenvolvimento da série ao passo que vou abordando o contexto dos diferentes volumes, especialmente na primeira parte do texto, quando falo de cada livro individualmente, não revelando alguns spoilers com todas as letras, mas deixando muitas coisas subentendidas. Na segunda parte do texto abordo alguns acontecimentos-chave de maneira mais explícita, embora tente mascarar ao máximo toda a narrativa.
Não é um texto ideal para quem nunca leu a tetralogia e quer chegar nela sem qualquer revelação prévia, mas eu também gostaria de obrigar todo mundo a ler na esperança de que ele os convença sem ressalvas a dar uma chance a essa série maravilhosa.
Temos uma incongruência lógica aqui, um impasse. ¯\_(ツ)_/¯
Dito isso, fique por sua conta e risco. Mas se aventurando ou não no texto, fique com esse meu apelo como garantia, para meu desencargo de consciência: LEIA A TETRALOGIA NAPOLITANA, PELOAMORDEDEUS.

Algumas leituras a gente realiza, simplesmente. Lê uma palavra atrás da outra, assimila frases, folheia páginas, chega aos pontos finais e reticências. Outras leituras a gente vive, a gente experiencia, a gente acompanha até se envolver além de qualquer limiar objetivo, até não sabermos mais o que são os nossos sentimentos e o que são as projeções do escritor, quais são as nossas emoções e quais são as emoções das personagens.
Em algumas leituras a gente se emaranha, como um fio branco que é misturado a um novelo colorido até não conseguir mais se desvencilhar. A gente se perde entre as páginas e não sabe mais como voltar ao que éramos no ponto de partida, no eixo inicial. Nos misturamos com os sentimentos do autor, com os pensamentos dos personagens, com as emoções de ambos até que com eles você seja um só, criaturas fundidas sem qualquer fronteira nítida delimitada entre um e outro.
Lendo a tetralogia Napolitana eu me senti assim. Eu me envolvi até me perder de mim mesma, até viver ao máximo tudo que Elena Ferrante exigiu e tomou de mim quando escreveu esses livros pensando que eles chegariam às mãos de leitores como eu.
Essas leituras são as melhores, incomparáveis, sempre vão ser. Mas também são as mais doridas.
Logo nas primeiras páginas do livro um, mergulhamos na narrativa de Elena Greco (Lenu), mulher que recebe uma ligação informando que sua amiga de infância e de vida, Raffaella Cerullo (Lila), sumiu sem deixar rastros. De imediato ela sabe que não é nenhuma ocorrência desastrosa, que Lila quis assim, que ela planejou sumir para além do alcance de qualquer um como há mais de trinta anos vinha dizendo que faria - e como finalmente conseguiu, como era com tudo a que estava determinada.

''Faz pelo menos trinta anos que ela me diz que quer sumir sem deixar rastro, e só eu sei o que isso quer dizer. Nunca teve em mente uma fuga, uma mudança de identidade, o sonho de refazer a vida noutro lugar. E jamais pensou em suicídio, incomodada com a ideia de que Rino tivesse de lidar com seu corpo, cuidar dele. Seu objetivo sempre foi outro: queria volatizar-se, queria dissipar-se em cada célula, e que ninguém encontrasse o menor vestígio seu. E, como a conheço bem - ou pelo menos acho que conheço -, tenho certeza de que encontrou o meio de não deixar sequer um fio de cabelo nesse mundo, em lugar nenhum.''

Movida pela vontade de frustrar os planos de desaparecimento completo da amiga que sempre parecia estar à sua frente, e também pela necessidade pessoal de contar a própria história, que se mescla de maneira indistinta com o relacionamento que desenvolveu com a outra, para destrinchar a própria narrativa e tentar entendê-la um pouco mais, Elena começa a escrever sobre tudo o que viveu com Lila, desde a infância até os dias atuais, perpetuando através daquelas palavras a imagem da desaparecida e desnudando diante do leitor suas fragilidades, vergonhas, derrotas e experiências, como se contando e revivendo tudo pudesse arranjar também uma resposta para o sumiço daquela que foi não sua alma gêmea, mas sua cara-metade. Aquela que foi, não por opção, mas por uma designação que parecia vinda de uma força poderosa do universo que as transcendia, sua antagonista e aliada, sua antítese e sua semelhante, sua eterna referência e contraponto. Sua obsessão.
Depois desse prefácio atual em que ficamos sabendo do desaparecimento intencional de Lila (de sua fuga, portanto), voltamos ao passado para que Lenu nos conte sua história com a amiga desde o início, e conhecemos uma Nápoles relativamente antiga, de meados dos anos 50, que é charmosa a seu próprio modo e tem seus encantos, mas que também é extremamente problemática, especialmente no bairro de nossas duas protagonistas - bairro que praticamente adquire o status e a relevância de um personagem central na história.
O lugar onde cresceram é permeado por diferenças ideológicas, rixas declaradas, milícias, desigualdade social e uma marginalidade de elite, representada especialmente pela figura dos dois irmãos Solara, filhos de uma família rica do bairro que domina o comércio e os empreendimentos independentes com um poder hegemônico.

''Não tenho saudade de nossa infância cheia de violência. Acontecia-nos de tudo, dentro e fora de casa, todos os dias, mas não me lembro de jamais ter pensado que a vida que nos coubera fosse particularmente ruim. A vida era assim e ponto final, crescíamos com a obrigação de torná-la difícil aos outros antes que os outros a tornassem difícil para nós.''

Além desse clima contínuo de tensão, as famílias das duas são muito pobres, quase miseráveis, e se sustentam com muito custo e dificuldade.
Desde os primeiros anos de suas vidas, já no primeiro livro, elas são expostas sucessivamente a várias consequências das convenções machistas às quais a comunidade conservadora, rígida e retrógrada em que estão inseridas está condicionada por tradição. Elas crescem debaixo de um juízo social implícito que determina que homens podem bater em suas esposas para educá-las, tal qual seus pais faziam com elas antes do casamento, por exemplo, e outras ideias tão equivocadas e horríveis quanto. Não preciso nem dizer que esse senso comum problemático se estende aos quatro livros da série, que abarcam da infância à velhice das duas amigas.
O ponto é que Elena e Lila não cresceram e viveram de maneira fácil nem tiveram muitos privilégios. Suas vidas, apesar de terem seguido caminhos bem opostos, foram difíceis e sofridas - embora existam picos e declínios aqui e ali.
Eu vivi todos esses sofrimentos e crises durante a leitura, como se fossem comigo. Doeu em cada página.
No primeiro livro, A Amiga Genial, Ferrante se preocupa em nos mostrar a dinâmica do relacionamento das duas, para que assimilemos bem a essência de uma das bases dos conflitos que permeiam toda a série. O volume acompanha a infância e pré-adolescência das meninas.
Elena, nossa narradora e a mente na qual imergimos da primeira à última página, sempre foi a menina esforçada e intelectual do rolê, que galgava um caminho tortuoso mas determinado para se consolidar como a merecida número um, a queridinha dos professores, nota A absoluta. Ela é inteligente e acima de tudo esforçada, uma pessoa que se destaca.
Mas Lila, a grande razão de sua narrativa, aparece com uma genialidade natural, inata e superior a tudo e todos, diluindo as certezas que Lenu nutria a respeito de si mesma, minando sua confiança irremediavelmente e a condenando, na esfera intelectual, eternamente a segundo plano, ao segundo lugar no pódio, a ser aquela que é muito, mas não é tudo - especialmente a partir de seu próprio ponto de vista.
A partir desse momento, Lila se estabelece como uma espécie de musa inalcançável para Lenu, o modelo de algo que ela nunca conseguirá ser, por mais que se esforce e não importando a intensidade de seu almejar. Elena se esforça pra ser o que Lila é sem nenhum esforço; uma quer se tornar o que a outra já nasceu sendo.
Naturalmente, nossa narradora sente o peso desse contraste e se ressente, mas a atração que uma exerce sobre a outra (especialmente Lila sobre Lenu, que está até escrevendo sobre a relação das duas) consolida uma amizade profunda que faz com que uma queira sim o bem para a outra, apesar de todos os sentimentos conflituosos que perpassam seu relacionamento.
A alma da relação das duas é difícil de assimilar plenamente, porque é uma amizade que faz as vezes de rivalidade, e isso mergulha a mente de Lenu (a mente a que temos acesso) num conflito constante e intransponível, num embate silencioso e nocivo que a contamina durante todo o percurso de suas vidas.
Eu sei o que é ser a número dois. Não em todos os âmbitos da minha vida, porque eu procurava preencher essa lacuna onde sabia que poderia compensar - e consegui -, mas essa vantagem rasa não consolava a Carolina da adolescência que se recriminava por não ser a número um nas relações sociais, com os garotos, e que não era a mais bonita nem a mais cativante, longe disso.
Sei o que é ser a número dois, sei muito bem. Tenho minha Lila. Então foi muito fácil mergulhar na história de Lenu e Lina como se ela fosse minha. E doeu.
No segundo livro, que acompanha a adolescência e juventude das duas e é intitulado História do Novo Sobrenome, uma de nossas amigas está casada (e com um novo sobrenome) e não demora muito para que seu relacionamento conjugal enverede por um caminho em que reinam a misoginia e as instituições patriarcais. Logo ela começa a apanhar quando contraria de qualquer forma o macho alfa da casa, num reflexo nítido de todas aquelas ideias machistas com as quais as duas amigas sempre coexistiram em suas casas, e que ditam que o homem tem livre direito de educar (que repúdio por isso, meu Deus) a esposa a seu bel prazer quando lhe for conveniente.

''Tínhamos visto nossos pais baterem em nossas mães desde a infância. Tínhamos crescido pensando que um estranho não podia sequer nos tocar, mas que o pai, o noivo e o marido podiam nos encher de tapas quando quisessem, por amor, para nos educar, para nos reeducar.''

Nos quatro livros nossas protagonistas enfrentam tormentos que têm como gênese, precedendo todos os outros fatores, suas identidades femininas e o fato de serem mulheres, e Ferrante expõe isso muito bem e sem dó do leitor, mas é nesse segundo volume que os problemas enfrentados pelas mulheres como fruto dos papéis de gênero problemáticos determinados pela sociedade confrontam nossas personagens com força pela primeira vez e de maneira mais chocante - embora essa sistemática seja retratada em cada um dos quatro livros. Elas são mulheres; não poderia ser diferente.
Aqui os interesses românticos e afetivos de Lenu começam a se desenvolver com mais ênfase, consequência natural do início da puberdade, e ela vê que Lila também pode superá-la no âmbito das relações heteroafetivas, além do campo intelectual - embora os dois andem entrelaçados porque a genialidade fascinante de Lila exerce um papel importante na maneira com que ela atrai os homens insuperavelmente.
Por conta disso, Lenu sofre um outro grande golpe que acaba determinando muito a maneira com que ela se enxerga, afetando sua confiança mais uma vez.
Lembrei de como minha Lila conseguiu fazer o mesmo comigo (também de forma inconsciente) e me perdi mais uma vez entre aquelas páginas, misturando minha história às narrativas de Lila e Lenu. Doeu.
No terceiro livro as duas já estão adultas e têm problemas de ordem maior, visto que nessa idade os resultados de suas ações são naturalmente mais agravantes e fatais, em virtude dessa faixa etária que dá os primeiros passos em direção ao fim. O livro se chama História de Quem Foge e de Quem Fica, e há o destaque para a jornada perpendicularmente oposta (em sentido de direção física e destinos na vida, principalmente, porque no plano emocional e de estado de espírito elas oscilam na merda com equanimidade) que elas traçam, quando uma se afasta de Nápoles por definitivo (nos dois livros anteriores ela já vinha transitando entre localizações distintas, mas aqui as determinações são mais decisivas) e elas passam a construir vidas bem díspares em vários aspectos e também pela determinação natural que se dá através das diferenças entre os locais em que decidem viver.
Vou desenvolver mais esse tópico a seguir, mas as impressões que o segundo livro já vinha consolidando são reforçadas ao destacar a disparidade entre os destinos das duas, consequência natural de seus atos, decisões e oportunidade do passado.
Elas traçam caminhos bem diferentes, sobretudo em decorrência do mundo ruim em que vivem, da desigualdade, da miséria e de privilégios que são estendidos a uns e não a outros. Esse livro é o que retrata com mais ênfase (e também mais crueza e brutalidade) a desigualdade social, porque nossas duas personagens, por um bom tempo, vivem vidas tão, tão dissimiles unicamente em razão das oportunidades que uma poderia ter recebido mas não recebeu e de privilégios que chegam, de maneiras improváveis e sorteadas, somente à outra.
Lila está numa fábrica terrível que a vê como escrava e que não estimula em nada sua notável inteligência e Lenu está estabelecendo sua carreira literária como principal e suficiente forma de sustento.
História de Quem Foge e de Quem Fica também é a história do que a crueldade do mundo pode fazer com duas mulheres em hierarquias sociais distintas.

''Trabalhavam [mulheres na mesma fábrica que Lila] duramente, isso era certo. E pelo menos Enzo tinha com certeza sob os olhos, na fábrica, algumas operárias esgotadas pelo cansaço, pelas humilhações e obrigações domésticas, tanto quanto Lila. No entanto, agora, ambos se horrorizavam com a condição em que que ela trabalhava, não o podiam tolerar. É preciso esconder tudo deles, dos homens. Preferiam não saber, preferiam fazer de conta que o que acontecia em seus ambientes por algum milagre não ocorreria com as mulheres ligadas a eles.''

Esse, como se pode supor, também é o livro mais político da série, em que ideologias são pregadas e desmentidas em todos os cantos da Itália. O que se verifica é um cenário de violência e morte, em que militantes são assassinados, terroristas milicianos se levantam, crimes políticos são cometidos e há vilipêndios de todos os tipos - tudo isso como resultado do antagonismo definido entre os ideais fascistas e comunistas.
História de Quem Foge e de Quem Fica é, para mim, o mais denso da série, porque o panorama se expande para além do eixo Lila e Lenu (sem tirá-las da perspectiva central, no entanto) e nos é revelado o quadro social complexo que assola toda a Itália.
Além disso, aqui as duas já estão encarando a experiência da maternidade, e isso tem um baita peso no desenvolvimento de suas narrativas.
Naturalmente, ler esse livro também doeu. Demais.
O quarto e último livro, História da Menina Perdida, é tacitamente dividido em duas partes, e as protagonistas já estão se encaminhando à posteridade. Numa das partes, observamos de maneira mais detida (sem a gritante distração da ordem política que é detalhadamente abordada no terceiro) a condição de vida das duas amigas e os estágios a que elas chegaram em suas respectivas carreiras e relacionamentos inter e intrapessoais - essa última distinção é bem importante aqui, porque como sabemos, há um grande e constante embate que ocorre nas mentes dessas duas mulheres, eternas amigas e rivais.
Lenu está em um relacionamento bem problemático (com o espécime masculino mais odiado da série pela maioria dos fãs - e pela própria Lina, que o reprova enfaticamente) que ora a deixa em êxtase (ela está apaixonada), ora mina cada um de seus pensamentos e decisões. Sua carreira literária já está bem consolidada e seu nome e status como escritora são reconhecidos internacionalmente. Os problemas na vida pessoal e longe das miras de colunistas que escrevem sobre seus livros, no entanto, são bem preocupantes e perturbam-na diariamente.

''Logo descobri que estava me habituando a ser simultaneamente feliz e infeliz, como se esse fosse o novo e inevitável estatuto de minha vida.''

Já Lila não é mais uma operária explorada numa fábrica de tratamentos desumanos, como víamos no livro três, e sim a própria empreendedora numa empresa de computação que ela criou em cidadania com o parceiro de agora.
Ambas adquirem notoriedade e respeito em suas áreas de atuação e a genialidade de Lila volta a se destacar, especialmente no bairro das duas, tendo em vista sua capacidade natural de ser bem-sucedida mesmo quando os recursos são escassos.
A vida amorosa de Lenu também sofre um novo golpe, O Maior Golpe, e Lila, mesmo que contra a sua vontade, acaba se demonstrando, mais uma vez, superior à amiga nesse sentido, e ainda sua antagonista natural, dadas as circunstâncias.
Mas esse também é o livro com o episódio mais triste de suas histórias, como a autora nos adverte já nas primeiras páginas.

''Nesta manhã, tento controlar o cansaço e volto à escrivaninha. Agora, que estou perto do ponto mais doloroso de nossa história, quero buscar na página o equilíbrio entre mim e ela que, na vida, não consegui encontrar sequer comigo mesma.''

Os desdobramentos do evento mais lamentável de toda a tetralogia Napolitana, naturalmente, moldam muito as senhoras, velhinhas, que Lenu e Lila vão se tornar. O Tal acontecimento, por traçar reflexos marcantes nas pessoas que elas vão ser, também acaba determinando muito o rumo do relacionamento delas e como se sustentará - ou não - sua amizade.
Ver isso, ver de camarote (porque é isso que Ferrante nos impele a fazer), duas pessoas envelhecendo junto com seu relacionamento não é fácil, não é leve, não é nada banal. Dói.

''Mas nunca telefonei para ela, nem ela ligou para mim. Convenci-me de que o longo fio de voz que tinha sido nosso único contato por anos não nos favorecera. Tínhamos mantido o laço entre nossas duas histórias, mas por subtração. Tínhamos nos tornados entidades abstratas uma para a outra, tanto que agora eu podia inventá-la para mim a meu modo, seja como uma especialista em computadores, seja como uma guerrilheira urbana decidida e implacável, ao passo que ela, com toda probabilidade, podia me ver tanto como o estereótipo da intelectual de sucesso quanto como uma senhora culta e abastada, toda dedicada aos filhos, aos livros e a conversas eruditas com o marido acadêmico. Ambas precisávamos de uma nova concretude, de um corpo, e no entanto nos distanciáramos e não conseguíamos mais nos conceder isso.''

Vou tentar parar por aqui com descrições que enfocam cada volume em si, e falar mais de toda a minha experiência - e não apenas leitura - com a tetralogia Napolitana.
Normalmente eu nomeio as resenhas aqui no blog unicamente com o título do livro ou série resenhados, mas achei interessante acrescentar esse ''lendo'' antes, nesse caso, lendo a tetralogia Napolitana, porque toda essa leitura foi uma vivência que ultrapassa o ato de virar uma página atrás da outra e se projeta na minha vida, nos meus sentimentos e pensamentos para além do que livros quaisquer conseguiriam. É algo que não finda ao virar da última página, mas permanece nos pensamentos até sabe-se lá quantas leituras futuras. Não é um ''li'' puro e simples; é ''lendo'', é ato contínuo.
Uma das melhores coisas da tetralogia Napolitana é o quanto ela permite (posso ousar um coage aqui, na verdade) que nos envolvamos por inteiro naquelas narrativas. É impossível (foi para mim, pelo menos) ler aquelas quase duas mil páginas, acompanhar as vitórias e sofreres de Lenu e Lila permanecendo impassivos diante de tudo. Ferrante não nos permite a indiferença e faz com que mergulhemos até o pescoço nas vidas e nuances das protagonistas, e esse envolvimento completo no qual nos sintonizamos é um diferencial enorme na hora de elencar essa série entre as melhores experiências literárias que eu já tive.
Eu já disse inúmeras vezes que, para mim, de nada vale a melhor escrita do mundo, a mais culta e rebuscada, aquela que consegue exprimir conceitos complexos, transmitir ensinamentos atemporais etc, se ela não me envolver e não me fizer sentir (desculpa, Jane Austen) de fato o que estou lendo, e isso é algo que Ferrante conseguiu com êxito em todos os quatro livros. A forma com que ela desenvolve o enredo e as gradações de suas personagens, a forma com que ela nos prende num relato viciante da primeira à última linha, é de uma capacidade imersiva impressionante, e eu aplaudo a escritora até cansar por isso.
É difícil ler tudo aquilo e não se transformar, aqui e ali, em Lenu e Lila, e não sentir o que elas vivem na nossa própria pele. Isso é fantástico. Só escritores excepcionais conseguem.
A tetralogia Napolitana é a coisa mais verdadeiramente viciante que eu leio em meses. Foram 1704 páginas lidas em vinte e poucos dias (com mais dois outros livros aleatórios entre os quatro da série) num ritmo frenético e com uma vontade alucinada e obsessiva que beirava a loucura, porque OLHA. Eu vivi uma representação bem precisa da famigerada expressão ''comer os livros'', sabe? Engolia-os e mergulhava de cabeça sempre que via uma brecha na minha rotina atarefada de Pessoa Adulta Vejam Só Quem Diria, lendo 100, 130, 150 páginas durante o expediente no trabalho.
Bebia as páginas da tetralogia com a sede irrefreável de alguém que passou dias vagando pelo deserto e se depara com um galão de água à disposição.
Foi uma verdadeira doença - uma doença que eu recomendo.
Elena Ferrante mantém sua identidade sob sigilo. Ninguém conhece seu rosto, seu nome de verdade, o lugar onde ela mora ou como trata seus animais de estimação (torço muito para que ela também seja uma tia dos gatos, sabe?). Só se sabe que ela é italiana (nascida em 1943, segundo a wikipédia) e que tem um talento absurdo para a escrita - um dom. (E, ah, graças a Deus ela também tem uma coluna semanal no The Guardian, amém, Senhor.)
Naturalmente, muito já se especulou sobre ela. Quem é a mente misteriosa por trás das histórias de Elena (sua xará!) Greco e Raffaella Cerullo?, muitos se perguntam, e eu estou entre eles. Só que não me preocupo muito em conhecer sua identidade, porque concordo com uma frase que ela mesma difunde: tudo que lhe interessa dizer, seus livros já falam por ela. Eles falam demais.
Mas uma hipótese que se levantou é a de que ela seja um homem. E é muito engraçado (meio num nível rindo de nervoso) sondar essa ideia depois de ter lido qualquer coisa dela... Deixa eu intensificar mais esse contraste: é quase absurdo supor que Elena Ferrante, a pessoa que escreveu aquelas páginas, a escritora que criou aquelas duas mulheres, Lenu e Lila, que adquirem vida própria e saltam pra fora dos livros povoando nossas mentes mesmo fora da ficção, não é cabível partir do pressuposto de que ela não seja mulher. As coisas simplesmente não batem.
A tetralogia Napolitana trás um olhar muito particular e íntimo sobre a experiência de ser mulher nesse mundo. É difícil, dificílimo conceber que alguém que não enxergue e viva o mundo através de uma condição que permita esse olhar, que alguém que não seja, também, uma mulher como Lila e Lena, portanto, conseguiria traduzir as coisas com a pureza de sentidos e detalhes e com a verossimilhança que Ferrante consegue aqui. É tudo muito profundo, muito íntimo, muito bem desenvolvido e esmiuçado. É tudo muito real, muito condizente com o Ser Mulher.
Pra escrever aquilo tudo, ou você é mulher ou é um/a profundo/a conhecedor/a da alma feminina. Meu palpite é que Ferrante encorpora as duas alternativas.

''Enquanto os homens se entregam a aventuras espaciais, a vida para as mulheres deste planeta ainda deve começar. A mulher é a outra face da terra. A mulher é o Sujeito Imprevisto.''

É tão fácil nos enxergarmos em Lila e Lenu porque, num paradoxo louco, em sua ficção, elas são reais demais. As duas personagens são tão bem desenvolvidas que eu me pegava diversas vezes pensando até que ponto a própria Ferrante, mulher de verdade, não viveu aquilo tudo, não foi aquilo tudo. A protagonista da história se chama Elena e é escritora, tal como ela, a autora, e isso me impelia a pensar demais que aquilo deveria ter um fundinho biográfico porque nossa, como pode uma pessoa conhecer tão bem a alma de alguém a ponto de retratá-la numa folha escrita com essa profundidade e escrutínio sem que esse alguém seja real?
Claro que sendo a boa escritora que ela é (ponto passivo aqui), toda a tetralogia se torna viável. Mas a maestria da obra e os nomes e carreiras em comum me faziam ponderar.

''Para escrever é preciso desejar que algo sobreviva a você.''

Os livros dela, mesmo se ampliarmos nossa avaliação para além da individualidade das personagens Elena e Lila, são muito reais em todos os aspectos. 
Não existem príncipes encantados nem homens maravilhosos que vão chegar salvando a protagonista de todos os seus tormentos. Na tetralogia Napolitana, as duas aprendem que só elas podem fazer alguma coisa por si próprias. As quase duas mil páginas são Lenu e Lila se ferrando, quebrando a cara, chorando, sofrendo, apanhando, penando e lutando do início ao fim, sozinhas. Só elas, sem nenhum Super-Homem que chega pra dar um jeito nas pendências no último momento. O que parecia ser o príncipe encantado da trama é desconstruído junto com esse conceito com uma brutalidade que deixa a gente querendo chorar, de tão desiludidas que as coisas ficam.
A maternidade também não é a coisa maravilhosa e linda, meta de vida de uma mulher, como a gente a vê sendo pintada por aí. As duas passam por essa experiência e com ambas os encantos são quebrados sucessivamente e nem tudo são flores.
No mais, a tetralogia é muito real porque ela não reproduz quadros utópicos em nenhum âmbito das vidas das personagens. Coisas que poderiam dar certo dão errado, homens que pareciam ser legais se revelam uns canalhas, metas não são atingidas, objetivos são frustrados, planos dão errado... Enfim, a vida acontece muito naquelas páginas.
Claro que existem coisas boas, mas elas são acompanhadas de muitas coisas ruins também e viver isso com Lenu e Lila era experimentar a crueza da vida através da escrita de Ferrante.
A tetralogia Napolitana não é uma série sobre machismo, sobre maternidade, sobre relacionamentos heteroafetivos frustrantes, sobre desigualdade social, sobre problemas, derrotas e vitórias. A tetralogia Napolitana é um série que, através da amizade visceral de duas mulheres, se faz uma série sobre mulheres e sobre o que é ser mulher nesse mundo, e por isso ela engloba todas as outras categorias que citei acima. Ela relata a vida cotidiana feminina com todas as suas dores, com todas as dores que são habituais a nós em casa, na rua, no trabalho, no lar, na carreira, em nosso próprio corpo, com os filhos, os companheiros amorosos, a família, os chefes, etc, tudo nas sociedades ferradas em que as protagonistas e nós vivemos.

''Falei de como tinha observado em minha mãe e nas outras mulheres, desde menina, os aspectos mais humilhantes da vida familiar, da maternidade, da sujeição aos homens. Falei de como, por amor a um homem, era possível chegar a manchar-se de toda a infâmia possível perante outras mulheres, perante os filhos. Falei da relação difícil com os grupos femininos de Florença e de Milão e, ao fazer isso, uma experiência que eu tinha subestimado tornou-se de repente importante, descobrir em público quanto aprendera assistindo àquele esforço doloroso de escavação. Falei de como tinha tentado desde sempre, a fim de me impôr, ser um homem na inteligência - percebi-me inventada pelos homens, colonizada por sua imaginação, iniciava minha fala assim todas as noites''

É uma história sobre nós, que numa página somos Lenu e na outra somos Lila, e é por isso que devemos lê-la.
Foi muito fácil me envolver, me enxergar naquelas duas e eu posso afirmar que não sou a única (que provavelmente a coisa vai te atingir de um jeito semelhante, se você der uma chance à série) porque Ferrante sabe o que é ser mulher e soube passar essa consciência para esses livros. Nos enxergamos em Lenu e Lila porque é pra ser assim mesmo.
Esses livros são também muito sobre desigualdade porque temos duas garotas com potencial, uma com um provável potencial superior, a número um e a número dois (por mais problemáticos que sejam esses títulos; desculpa pela falta de acervo linguístico), e ambas poderiam, sem sombra de dúvida, conseguir muito na vida, poderiam se destacar em suas áreas como ninguém, poderiam ter seus nomes perpetuados pela primazia das carreiras que construiriam. Ninguém duvidava de Lila e Lenu.
Mas Lenu tem a chance de continuar seus estudos, e Lila não; por falta de dinheiro, os sonhos da nossa número um são interrompidos no fundamental e ela sai da escola pra nunca mais voltar.
Lenu passa no vestibular, se muda para outra cidade pra cursar uma universidade, seus estudos se desenvolvem, sua carreira toma forma e ela só cresce. Enquanto isso Lina ainda está detida (por uma aparente força maior) na Nápoles de sua infância, com uma vida de esposa e sob as ameaças constantes dos irmãos Solara, sem muitas perspectivas de um futuro promissor quando seus avanços são coibidos pelo marido, pelo irmão, pela família que não a apoia, por um bairro que a detesta por se destacar e ser visivelmente superior a tudo aquilo. 
A situação de Lila se desenvolve e as coisas melhoram um pouco em dado ponto da série, mas as vidas dela e de Elena não são comparáveis, especialmente se olharmos para tudo o que Lila também conseguiria se tivesse tido as mesmas chances.

''Compreendi que eu tinha chegado lá cheia de soberba e me dei conta de que - de boa-fé, claro, com afeto - fizera toda aquela longa viagem sobretudo para lhe mostrar o que ela havia perdido e o que eu havia conquistado. Mas ela percebera isso desde o momento em que eu tinha aparecido em sua frente e agora, arriscando-se a atritos com os colegas de trabalho e a multas, estava reagindo e me explicando que de fato eu não tinha vencido coisa nenhuma, que no mundo não havia nada a ser vencido, que sua vida era cheia de aventuras diversas e insensatas assim como a minha, e que o tempo simplesmente deslizava sem nenhum sentido, e era bom encontrar-se de vez em quando só para ouvir o som disparatado do cérebro de uma ecoando no som disparatado do cérebro da outra.''

Era triste, muito triste ler isso, sabe? Ver todo esse potencial indo pro ralo porque um mundo errado e uma vida difícil não deixaram as coisas acontecerem. Por mais que Lila tenha conquistado coisas e tenha sido o destaque no que quer que ela se propusesse a fazer, sabemos que muitas coisas boas, muitas possibilidades e muitos outros possíveis futuros foram abafados e brutalmente castrados em sua narrativa. Isso é triste e dói.
A série também trabalha bastante a questão da síndrome do impostor, talvez melhor do que qualquer outro ponto abordado nela (a maneira com que Ferrante subverte o próprio título do primeiro livro, A Amiga Genial, e transmuta nossa maneira de enxergá-lo, quase como uma peça pregada no leitor, é linda de ver), através da oponência que se estabelece entre as duas amigas, e isso é muito relacionável porque todas temos uma Lila, facilmente nos vemos sendo Lenu e provavelmente somos a Lila de alguém também, por mais absurda que essa ideia nos pareça, a princípio.
Lenu, como dito, é a menina super esforçada que faz por merecer. Todas as suas notas, os seus diplomas, o sucesso de sua carreira, as críticas positivas dadas a cada livro, tudo isso é mérito dela. Ela é inegavelmente excepcional. Mas por toda a vida ela anda ao lado da sombra que diz que, não importa quanto esforço ela estiver disposta a fazer, jamais se equiparará à genialidade inata de Lila. Lenu vive num estado de contínua perturbação que é alimentado pelo questionamento "o que Lila teria conseguido e feito melhor que eu, quão além de mim ela teria chegado se tivesse tido as mesmas oportunidades?".

''Minha vida me leva a imaginar como teria sido a dela se por acaso lhe houvesse cabido aquilo que me coube, que uso ela teria feito de minha sorte. E sua vida se apresenta continuamente na minha, nas palavras que pronunciei, dentro das quais há muitas vezes um eco das suas, naquele determinado gesto que é uma readaptação de um gesto dela, naquele meu a menos que é assim por um seu a mais, naquele meu a mais que é a caricatura de um seu a menos.''

Eu me frustrava muito com isso, porque me via muito nisso. Era desanimador ver Lenu tendo notas ótimas, sendo aprovada no vestibular, publicando livros, ganhando notoriedade e a admiração do público, sendo lida e ouvida por milhares de pessoas e conquistando tudo que uma Mulher de Sucesso em sua posição almejaria pra logo em seguida se sentir diminuída e indigna com um comentário de Lila, com a constatação de que a amiga avançou a seu próprio modo ou com sua própria sabotagem mental que dizia que Lila a superaria no que quer que fosse - inclusive em seu principal ofício, por profissão e paixão, a escrita - quando quisesse, assim, num estalar de dedos.
Lenu conseguiu quase tudo o que poderia querer, principalmente dentro de sua carreira, mas com uma palavrinha só de Lila, com um olhar, ela murchava e relegava seus méritos ao posto de ocorrências do acaso e sorte.
Isso me entristecia demais, porque é exatamente o que eu faço comigo quase todo santo dia. Eu sentia todos esses sentimentos de inferioridade e todo o peso corrosivo de não ser a número um sobre minhas próprias costas. Por isso eu acabava torcendo muito pela Lenu. Torcia para que as coisas dessem certo, simplesmente. Torci até pra que Aquele Seu Relacionamento tivesse um final feliz (desculpa por trair o movimento, pessoal), mesmo que as coisas cheirassem mal desde o início. E quando o final feliz se transmutou num fiasco homérico, e Lila, de certa forma, superou Lenu mais uma vez, eu fiquei arrasada pela Lenu, ressentida pela maneira com que Lila sempre conseguia se sobressair, até nisso, até na hora de ter a paixão do boy.

''Não se ofenda, Lenu, você é excelente, você trilhou um longo caminho, você apareceu nos jornais, você é o orgulho de todos nós que a conhecemos desde pequena. Mas - e estou certo de que você vai gostar e estará de acordo com o que digo agora, porque tem afeto por ela - Lina tem uma coisa viva na cabeça que ninguém tem, uma coisa forte, que salta pra cá e pra lá e nada consegue segurá-la, uma coisa que nem os médicos sabem ver e que, na minha opinião, nem mesmo ela conhece, apesar de tê-la desde o nascimento - não a conhece e não quer reconhecer, vejam que cara malvada está fazendo neste momento -, uma coisa que, se ela não estiver de bom humor, pode causar muitos problemas a qualquer um, mas, quando está de bom gênio, deixa todo mundo boquiaberto.''

Eu fui muito Lenu. Fui Lenu até demais.
Mas é naturalmente mais fácil nos enxergarmos na xará da escritora, porque ela é nossa narradora-personagem e é o partido dela que somos impelidos a tomar por vermos a situação através do seu ponto de vista do início ao fim. Ainda assim, minha relação com Lila também foi mais positiva que negativa, embora tenha sido sim uma relação de amor e ódio.
Ela tem atitudes bem mesquinhas em vários momentos e é uma pessoa dificílima de tolerar (também por isso continua sempre tão incompreendida, solitária e intocável) - tem o que gostamos de chamar de personalidade difícil/forte: ela se impõe, confronta as pessoas quando se sente contrariada, diz o que pensa, nunca mente para amenizar situações e diálogos e bate de frente com todos quando julga necessário, sejam homens ou mulheres. Nada nela insinua submissão e subserviência, tudo é força, ímpeto, tiro porrada e bomba, se preciso for. Lila não leva desaforo pra casa.

''Sua rapidez mental lembrava o sibilo, o bote, a mordida letal. E em seu aspecto não havia nada que agisse de corretivo. Estava sempre desgrenhada, suja, com cascas de ferida nos joelhos e cotovelos que nunca saravam. Os olhos grandes e vivíssimos sabiam se transformar em fissuras atrás das quais, antes de qualquer resposta brilhante, havia um olhar que parecia não só um pouco infantil, mas talvez nem humano. Todo movimento dela dizia que fazer-lhe mal não serviria para nada, porque, não importava como as coisas saíssem, ela acharia o modo de fazer ainda pior.''

Haviam momentos em que eu ficava com muita raivinha dela, do fascínio desmedido que ela exercia sobre Lenu, do poder que ela tinha na amizade das duas, da forma com que ela conseguia manejar as coisas para que tudo saísse dentro de seus conformes. Mas basta um pouco de empatia para que entendamos Lila também.
Ela é a personagem que mais sofre na série, e também de quem é exigida mais resiliência - uma resiliência que ela consegue sustentar sem pestanejar em praticamente nenhum momento. Lila também fascina o leitor quase na mesma medida em que torna cativos os pensamentos de Lenu. Ela é uma personagem complexa que nunca (quer dizer, quase nunca, não é mesmo?) se deixa revelar de todo e permanece sempre encoberta por uma névoa de mistério, visto que não temos acesso direto a seus pensamentos, como é com Lenu. Através daquela narrativa esmiuçante, vamos descobrindo e investigando Lina com a mesma fixação de nossa narradora.
E enquanto vamos destrinchando aquelas histórias e personagens Lila vira nossa amiga também, alguém que nos inflama sentimentos tão controversos e conflituosos quanto em Lenu, que ora amamos, ora detestamos, ora torcemos por, ora queremos que quebre a cara e não seja a número um pelo menos uma vez.
Eu também fui Lila na vontade inveterada de ser a primeira, no inconformismo com o mediano, na competição predatória que ela travava com a amiga, mas também consigo mesma. 
Eu tenho sérias, sérias dificuldades em me contentar com qualquer coisa que não seja o primeiro lugar no que me é relevante. Por mais que eu me irritasse quando Lila era suficientemente mesquinha para querer emplacar Lenu até na droga do grego, diminuindo a amiga sutilmente com alguns comentários quando dela nem era mais exigida essa disciplina e da outra sim, eu percebia segundos depois que era exatamente algo que eu faria (não os comentários, mas a competição velada), que pegar livros da disciplina pra estudar por conta e poder ostentar aquele conhecimento que a outra adquiriria por intermédio dos professores, como Lila faz, seria uma atitude que condiziria perfeitamente com a minha pessoa. Percebia que eu seria orgulhosa e vil no mesmo nível. Eu me via muito em Lila também.

''Ela era assim, rompia equilíbrios somente para ver de que outro modo poderia recompô-los.''

A experiência de ler a tetralogia foi quase torturante porque eu me identificava de maneira tão inescusável em Lenu e Lila que chegava a ser constrangedor. Era como entrar numa sala de espelhos e não achar nada bonito o que eu via refletido neles, em cada canto. Era isso em todas as páginas, não havia para onde fugir daquelas duas personagens que me confrontavam com vergonhas que também eram minhas.
Lila não suporta não ser a número um, e embora sua genialidade nos pareça algo natural que aflora sem esforço, Ferrante nos oferece pequenas mostras de que ela, a personagem intocável a respeito de quem só podemos especular (visto que não temos acesso direto a ela, sem uma visão turvada pelos olhos de Lenu) também se sente ameaçada pela proeminência da amiga.
Outra coisa interessante é que Lila também sempre foi a maior incentivadora de Lenu, aquela que cobrava a amiga e verdadeiramente exigia que ela se destacasse entre os demais. Foi ela que incutiu na cabeça de Lenu, lá no primeiro livro, quando ainda eram crianças, que elas deveriam crescer para escrever um livro e enriquecer por intermédio disso. A ideia era que as duas virassem escritoras tão prestigiadas quanto a autora de Little Women, mas quando as oportunidades de educação de Lila são ceifadas, ela se vê impossibilitada de cumprir a meta de sua infância e deposita todas as esperanças no brilhante futuro de Lenu, que ela quer assegurar com as próprias foças e recursos, se preciso (e possível) for.
Lila não se sente tão amiga genial assim, e não dá a si mesma o título e todo o mérito que a outra lhe atribui - tal como Lenu, que o tempo todo também se sente diminuída pela amiga. Parece familiar?
Uma projeta na outra os próprios ideais de excelência e numa autoavaliação são incapazes enxergá-los em si.
A maneira com que a autora desconstrói e esmiuça o complexo de inferioridade e a síndrome do impostor de Lenu, ainda no primeiro livro (posteriormente e gradativamente vamos percebendo esse mesmo prisma de cores se refletindo na autoimagem e na personalidade de Lila), é uma das coisas mais bonitas de toda a série.

''Não sabia nada além disso, mas na escola eu aprendera a convencer os outros de que eu sabia muita coisa.''

Ferrante não erradica de todo esses sentimentos do espectro emocional da personagem, porque nossa narradora continua com uma confiança frágil durante todos os quatro volumes, mas a autora mostra com clareza, pelo menos para nós, os leitores e as leitoras, as mulheres com amigas, que a perfeição é um mito e que todas somos tanto amigas geniais quanto aquelas que se sentem eternamente relegadas ao segundo lugar. Somos todas Lenu e Lila, juntas, um pouco aqui, um pouco ali.
Doeu muito ler essa história, porque há muita realidade nessas páginas e essa não é a primeira coisa que queremos ver quando recorremos à ficção, ainda mais quando falamos de uma ''história de amizade''. Pra que buscar desgraçamentos em romances se eles nos sobram na vida real?
Doeu ver as coisas dando errado, doeu ler Lenu sendo traída, doeu ler Lila apanhando do marido, doeu ler que a maternidade às vezes ferra a vida das mulheres, doeu ler que o mundo é desigual, doeu ler que o potencial de Lila escorria porque sua família não tinha dinheiro o suficiente para pagar por seus estudos, doeu ver que uma mulher incrível como Lenu se deixava abalar por homens de merda que apareciam em seu caminho, doeu ler a tragédia que ocorre com a menina do livro da menina perdida, doeu ler e ser lembrada de novo do quão pequenos somos em nossa humanidade e que nada está sob nosso controle.
Doeu chegar à parte final do último livro, intitulada História do Rancor, e perceber com pesar que sim, é verdade, nossas personagens têm muitos motivos para serem rancorosas diante da vida. Doeu acompanhar aquele relato tão minucioso e humano sobre uma amizade que nasce, cresce e envelhece, nem sempre de um jeito bom, às vezes de maneiras horríveis, e imaginar quantas histórias reais assim o mundo vive todo dia e tem pra nos contar. Quantas Lilas e Lenus existem por aí vivendo tudo isso? Desejo toda a sorte do mundo a elas, especialmente a sorte que fugiu dessas nossas protagonistas.

''Só permitia distrair-se, se é que se pode dizer isso, com outro motivo qualquer de sofrimento. Uma nova dor agia sobre ela como uma espécie de antídoto, tornava-se combativa, determinada, era como alguém que sabe estar se afogando, mas mesmo assim move braços e pernas para se manter à tona.''

Doeu do início ao fim, sabe? Essa foi uma daquelas leituras que exigiam que eu parasse de vez em quando pra me fazer lembrar que calma, Carolina, são só personagens, elas não existem de verdade, não exatamente assim, para de sofrer tanto, pelo amor de Deus, se recompõe criatura, isso é ficção!, porque eu já estava com o coração saltando pela boca de tanto sentir.
Quando terminei o quarto e último livro, eu estava no meio do meu expediente no trabalho, dentro de uma sala de aula de fundamental numa escola municipal da minha cidade, rodeada por criancinhas de 8/9 anos. Eu fechei o livro sobre a mesa e fiquei olhando aquelas crianças gritando e fazendo bagunça com sua euforia habitual e pensando no quanto meus sentimentos contrastavam ridiculamente com os delas porque eu estava simplesmente arrasada. O meu sentimento era aquele plmdds, eu preciso chorar pra extravasar tudo isso mas as lágrimas simplesmente não vêm, socorro.
Olhei pela janela, pra um prédio verde água que eu encaro todo dia no meu momento olhar pela janela e refletir, só pra deliberadamente e num autoflagelo assumido me afundar mais naquele mar de emoções em que Ferrante me submergiu desde a primeira página da tetralogia Napolitana, desde que entramos naquele bairro da Itália que exerce sobre a vida das meninas o poder de uma entidade divina.
Esses livros realmente arrasaram comigo.
Não me entenda mal, o final de Ferrante é simplesmente incrível. Ele nos deixa embasbacados encarando aquelas últimas linhas, aquele último paragrafozinho que é pequeníssimo mas diz TANTA coisa. O final é genial. Mas eu também me senti meio traída, sabe? Eu torcia por Lila e Lenu, juntas, sempre juntas, por favor, é só isso que eu peço!

''Recordei as mil coisas odiosas pelas quais tínhamos passado e deixei que a solidariedade reconquistasse força. Que desperdício seria, pensei, estragar nossa história dando espaço excessivo aos maus sentimentos: os maus sentimentos são inevitáveis, mas o essencial é represá-los.''

Mas é claro que aquela escritora que me sacaneava enquanto eu tentava descobrir a razão de cada título diferente (eles têm um duplo significado bem sorrateiro; boa sorte tentando descobrir) e falhava até que ela me desse a informação de bandeja também iria pregar essa peça final em mim, tal como Lila precisava pregar uma peça final em Lenu, precisava apresentar um último ato que mudaria o significado de tudo, ampliaria nossa visão sobre todos os quatro livros e nos deixaria perplexos junto com nossa narradora.
Não posso falar muita coisa pra não revelar mais spoilers do que já consegui expor nesse texto até aqui (ainda tem alguém aí?). Mas mesmo com a maravilhosidade estonteante e arrasadora daquele final, a melancolia branda e contínua, que se mantia com a constância de um rio calmo mas firme, que eu senti do início ao fim lendo essa série permaneceu. Continua aqui.
Vou concluir repetindo o que eu disse naquele início longínquo (acho que já tô há mais de uma semana escrevendo esse texto): leituras como a que se faz possível com a tetralogia Napolitana, essas que nos envolvem com a aura mística que só livros e autores excepcionais conseguem, são as melhores. São as mais incríveis. Sempre vão ser. Mas justamente por isso elas são também as que mais doem. Doem pra valer. Doem demais. Doem pra caramba. Doem, doem, doem.
Leia a tetralogia Napolitana. Mas saiba que vai doer.
Ainda tá doendo aqui.
''DIFERENTEMENTE DO QUE OCORRE NOS ROMANCES, A VIDA VERDADEIRA, DEPOIS QUE PASSOU, TENDE NÃO PARA A CLAREZA, MAS PARA A OBSCURIDADE.''

01/05/2018

Mescelânea - Abril 2018

Mescelânea é um post mensal que faço com uma miscelânea (segundo o dicionário: conjunto confuso de coisas diferentes; mistura, mixórdia) de comentários a respeito dos livros que li, filmes/séries a que assisti e links que visitei no mês em questão.

Li
Jean-Honoré Fragonard
Foram seis livros lidos em abril.
História da Menina Perdida foi o último volume da tetralogia Napolitana da Elena Ferrante, e EU ESTOU MORTA. Essa série me atropelou como um trator, porque foram TANTOS FEELINGS (o caps lock, só ele me entende). A série conta a história da amizade de duas meninas que são eternas amigas e rivais, e todo o capricho e o talento que a escritora teve ao desenvolvê-la torna esses livros muito bonitos (de um jeito triste, na maior parte do tempo, mas ainda assim...) e sensíveis, com um olhar tão atento e apurado sobre a complexidade feminina que nos deixa bobos/as ao término da tetralogia. Eu não tenho mais palavras pra falar dela porque a) já escrevi sobre a série aqui e em mais um textão bem entusiasta, apaixonado e um tanto alterado que ainda vou publicar e b) o que eu ainda não escrevi eu realmente não consigo exprimir de nenhuma maneira mesmo porque OS FEELINGS.
Vi algumas pessoas falando que a série era meio irregular, mas realmente não tive essa impressão durante a leitura porque foi algo que me tocou e envolveu de tal forma que aos meus olhos beira o impecável. Até agora, foi a leitura mais viciante do ano.
Eu recomendo muito, mas muito, mas muito mesmo pra todo mundo que tiver a sorte de topar com esses livros por aí. Negrito aqui pra enfatizar que é LEITURA OBRIGATÓRIA PARA MULHERES, especialmente. =)
Ferrante merece o sucesso e a admiração que vem conquistando.
O Conto da Ilha Desconhecida é um conto do Saramago que li numa edição individual, e é tão pequeninho que quase não dá pra chamar de livro. Não morri de amores, mas percebi de novo que Saramago é aquele tipo de escritor que gosta de nos dizer coisas e passar uma mensagem, por mais sutil que ela seja (seria um porre se a literatura só servisse pra isso, se só recorrêssemos a ela por sua função didática e fôssemos privados de sua capacidade de nos encantar e apaixonar simplesmente através do prazer por ler, mas se ela não englobasse essa possibilidade, se não pudesse conter em si tamanha influência ao transmitir pensamentos, todo o seu poder seria consideravelmente minimizado, então acho estultice não achar isso importante), e isso é algo que ele faz de novo aqui. Você pode ler por puro lazer, claro, fique à vontade, porque Saramago também sabe nos entreter muito bem; mas ignorar o sentido que ele dá ao texto é desconsiderar uma de suas principais razões de ser.
O Castelo, do Kafka, terminou literalmente no meio de uma frase. Kafka é o Van Houten!
Eu quase ri quando cheguei ao término daquelas quase 400 páginas pra não ter um final definitivo. Não se sabe bem por que é assim, e isso naturalmente gera várias especulações, como já é natural a toda obra do escritor, sempre cercadas por teorizações de críticos, acadêmicos e leitores ordinários. Mas os livros do Kafka eram quase todos fragmentados, com vários trechos que se mesclavam com anotações do autor e não estavam em seu formato pronto para a publicação, digamos, porque em seu leito de morte ele pediu para seu amigo destruir os manuscritos, no que claramente não foi atendido, então seus escritos eram meio bagunçados e passaram por várias edições até o que acessamos hoje.
N'O Castelo nosso protagonista, K., fica o livro inteiro querendo entrar num Castelo que fica nos arredores de uma vila, onde ele está designado a ser um agrimensor, mas sem nunca conseguir ser aceito dentro da propriedade de fato, condenado a ficar só vagando de um lugar a outro da comunidade na periferia da ostentosa e misteriosa construção.
Olha, foi o livro mais maçante dele que li até agora, o tipo de clássico que faz estudantes ignorantes odiarem livros quando são obrigados a ler no colégio, sabe? Porque ele viaja legal; o cara vai lá pra trabalhar no castelo e quando não consegue entrar o Kafka dedica várias páginas a discorrer sobre os rolos dele na vila, que nem sempre têm uma conexão direta com o castelo e que são narrados com uma prodigalidade excessiva que me fazia ficar pensando coisas do tipo mas por que que eu tô lendo isso mesmo? Parece que o livro se perde no meio do caminho.
Porém, é interessante observarmos esse padrão do Kafka em abordar o inacessível, e isso se percebe tanto nO Processo quanto nO Castelo (ambos com um protagonista chamado K., o que quase nos faz faz vê-los como parônimos e partes de uma subsérie do Kafka): no primeiro, o protagonista é condenado por um crime que ele desconhece e fica o tempo todo tentando penetrar nos trâmites burocráticos e judiciários que o prendem a esse processo, e no segundo ele fica o tempo inteiro tentando entrar no maldito castelo sem nunca obter sucesso.
Realmente faz a gente ficar pensando em analogias, e eu concordo mais com as teorias que dizem que ele falava do distanciamento instituído entre o indivíduo e as autoridades judicias, principalmente através de burocracias frustrantes, porque Kafka não era só uma alminha atormentada, ele era uma alminha atormentada E um advogado, e elementos da advocacia se observam em todos os cantos dos dois romances.
De maneira geral eu não recomendo, a não ser que você queira se versar dentro dos clássicos mesmo ou goste muito do Kafka. Como ainda quero escrever mais sobre ele por aqui, vou continuar explorando sua bibliografia.
Eu li E Não Sobrou Nenhum e Outras Histórias, como disse que queria na mescelânea passada! O universo me ouviu!!! (Se você continua aí, universo, também tô muito a fim de ler Um Dia e O Conto da Aia, ok? Me surpreenda.)
Li numa edição que reunia três peças da Agatha Christie, e as duas outras, além daquela que vai no título, são Encontro Com a Morte e Mansão Hollow.
Eu só estava interessada em E Não Sobrou Nenhum mesmo, e até achei as duas outras peças um tanto esquecíveis e vou me poupar de falar sobre elas. Só que eu detesto ler peças de maneira geral, sinto como se estivesse lendo uma mensagem truncada, então meu julgamento não é isento desses fatores desconsideráveis.
Em E Não Sobrou Nenhum temos mais uma vez uma história no estilo locked room, em que dez pessoas ficam presas numa ilha e assassinatos começam a acontecer, um atrás do outro, sem que ninguém saiba qual dos dez está matando os demais. Só que todas as dez pessoas têm também alguma infração grave de assassinato nas costas, cometida em seu passado, e esse é o ponto de ligação que levou o gênio do mal que orquestrou tudo e as convidou à ilha a escolhê-las em específico.
Mantendo isso em mente, a identidade do/a nosso/a assassino/a é presumível, sim, mas eu não adivinhei.
Eu gostei bastante, mas realmente acho que minha experiência com essa história foi prejudicada pelo formato, e eu teria aproveitado bem mais numa narrativa em prosa comum.
Mansfield Park é o quarto romance da Jane Austen que eu leio... E como posso dizer mais uma vez que não gosto dos livros dela?
Eu já internalizei que a escrita dela não me cativa, não me toca, não me apaixona e não mexe comigo como meus escritores favoritos conseguem fazer e ponto. Eu não dou a mínima para os personagens, não me envolvo minimamente e não estaria nem aí se todo mundo simplesmente morresse. Mas eu continuei lendo, mesmo depois do segundo em que constatei que pois é, não é pra mim, na esperança de que ela falasse comigo de alguma forma, que me passasse alguma coisa... E quanto topei com Mansfield Park, o único dela que tem na biblioteca em que sou sócia que ainda não havia lido, pensei por que não tentar de novo? 
...Mas não rolou mais uma vez. Continuei me lixando pra tudo.
Mas eu ainda quero desenvolver mais essa minha relação com seus livros e tecer mais comentários aqui, e como os títulos, individualmente, não falam comigo o suficiente pra me despertar o anseio de escrever uma resenha, e como só faltam mais dois livros pra que eu tenha lido todos os romances da Jane Austen, e como não suporto deixar pontas soltas e fazer as coisas pela metade (muitos adendos aqui), vou ler os restantes (Emma e Persuasão) pra escrever sobre todos juntos num texto geral sobre a minha experiência de leitura com a escritora e todos os meus lamentáveis poréns.
Só não sei quando esse texto vai sair...
Um Brinde de Cianureto é o melhor livro da Agatha Christie que li até aqui e também meu favorito dela.
Uma mulher, Rosemary, cai morta dramaticamente em cima da mesa de um restaurante em que ela estava comemorando seu aniversário com seis outras pessoas, e se verifica que sua morte foi suicídio causado pela ingestão de cianureto, uma vez que a substância foi achada em sua bolsa. Só que meses depois seu marido, George, que também estava na festa, recebe cartas anônimas sugerindo que a morte de Rosemary havia sido assassinato e que o culpado do crime era um dos convidados. Repensando tudo e chegando à conclusão de que ela de fato não teria se suicidado, ele apronta uma armadilha para o assassino, que seria executada numa festa de aniversário que ele organiza para a irmã da ex-esposa e agora sua tutelada, Iris, no mesmo restaurante e com os mesmos convidados da festa em que Rosemary morreu misteriosamente. Ninguém sabe o que ele está tramando, mas estamos na expectativa juntos com os convidados, na festa... Até que George bebe de sua taça e também cai morto envenenado por cianureto, antes de poder colocar seu plano em prática e descobrir quem havia sido o/a assassino/a da esposa - e agora instrumento de sua própria morte também.
Aí acompanhamos o detetive Race, o único a quem George havia contado parte de suas intensões, tentando descobrir quem entre aquelas agora cinco pessoas é o culpado pelas mortes.
Uma coisa que comentei nas outras vezes em que falei dos livros da Agatha é a velocidade com que caímos no contínuo fluxo de informações a que somos expostos em suas narrativas, com uma infinidade de suspeitos, nomes, acontecimentos e pistas diferentes, tudo nos acometendo no intervalo de pouquíssimas páginas, o que pode dificultar um pouco a leitura. Mas nesse livro isso não se apresenta de maneira dificultosa, porque o desenvolvimentos dos personagens - e suspeitos - é muito mais aprofundado e vagaroso, muito mais detido, aqui. É muito mais fácil nos situarmos dentro das motivações de cada personagem, e por conseguinte compreendermos melhor o contexto geral da obra também. Toda a primeira parte do livro é dividida, capítulo a capítulo, pela perspectiva de cada um dos seis suspeitos do crime, e esse foi um luxo que não tive nos três outros livros da Agatha que li, em que o leitor cai de cabeça naquele fluxo de informações sem qualquer aquecimento prévio. Devo dizer que isso me possibilitou aproveitar muito mais tudo o que a escritora construiu aqui.
Esse também foi o livro em que fiquei mais alucinada no suspense de descobrir quem foi o responsável pelos crimes, o que mais me envolveu e me fissurou. Foi muito amor. ♡
O engraçado é que eu nunca tinha visto ninguém dar destaque a esse livro nas listas de melhores da autora a que tive acesso, e só me interessei por ele porque uma das minhas professoras de português favoritas da escola havia emprestado para o meu irmão mais novo (que nunca lê NAAAAAADAAAAA) para um trabalho em que eu o ajudei um pouquinho, e ele amou a história.
Mas fica o meu destaque. Virou minha principal sugestão quando o assunto é Agatha Christie. ;)

Assisti
Michael Birawer
Foram dois filmes e seis temporadas de duas séries diferentes assistidos em abril.

É o Fim
Que LIXOOOOOOOOOOOOOOO.
Tinham me recomendado esse filme como opção de comédia que vale a pena, e ainda bem que eu não lembro quem foi que deu a sugestão, porque achei tão merda que tem potencial pra destruir amizades.
É uma daquelas comédias bem besteirol com situações, diálogos e piadas FORÇADÍSSIMOS que só conseguem fazer a gente sentir vergonha alheia e vontade de morrer. Sem falar nas bagaceirices totalmente desnecessárias...
Um monte de atores e famosos, interpretando a si mesmos no filme, vão a uma festa na casa do James Franco e ficam presos lá quando o apocalipse começa, então eles passam por situações ridículas enquanto tentam sobreviver.
Eu queria saber quem teve a ideia pra esse filme, quem escreveu esse roteiro e quem achou que tinha ficado bom, porque SENHOR, que DESGRAÇA.
Eu não sabia se me parabenizava por ter tido força de vontade o suficiente pra chegar até o fim ou se me estapeava por ser burra o suficiente pra ir até o fim.
Passem longe desse lixo.

Hotel Transilvânia 2
Tinha tanto potencial, mas a vontade de deixarem as coisas fofinhas com piadinhas toscas e forçadas estragou o filme.
Eu adoro o visual, adoro a ideia de que o Drácula tem um hotel em que abriga hóspedes horrendos que povoam todas as histórias de terror clássicas e adoro o design dos personagens (a Mavis é TÃÃÃÃO bonitinha!), então fico bem decepcionada que o filme seja tão mééh.
Tinha tudo pra ser um favorito meu nas mãos do Tim Burton, mas a gana por agradar pais e criancinhas da geração merthiolate que não arde cagaram a coisa toda. Que pena.
(Mas eu continuo amando a Mavis.)

The Office
Eu terminei The Office AAAAAAAAHHHHHH. Passou tão rápido!
Assisti as últimas quatro temporadas esse mês (da sexta à nona).
Olha, The Office foi um bálsamo na minha vida. Eu assitia com o desespero apaixonado de quem quer fugir dos próprios problemas e consegue isso com a ficção nonsense de um escritório com funcionários desmiolados em situações bizarras.
Amei, amei, amei.
É impossível falar das últimas temporadas sem abordar a saída do Steve Carrel, que interpretava o chefe e personagem principal, no fim da sétima temporada.
O episódio final com ele, em que ele se despede de cada funcionário de um jeito especial, sem que eles saibam que naquele mesmo dia ele partiria, quase me fez chorar, de tão bonitinho. Eu não sei lidar com finais e fiquei bem arrasadinha. Será que o elenco não sofreu também, porque sei lá, tantos sentimentos?
Realmente não lido bem com finais e conforme os personagens iam tomando outros rumos e partindo eu ficava GENTEEEE, não vão, vocês precisam ficar trabalhando na Dunder Mifflin PELO RESTO DA VIDA DE VOCÊS, juntinhos e unidos 4ever, pra que eu possa ser feliz, por favor!!!
Eu vivi o luto de perder o Steve Carrel na série, vivi muito, mas mesmo as duas últimas temporadas sem ele eu continuei olhando bem viciada. A série realmente perde um pouco o rumo e a qualidade não é a mesma, porque quando as coisas parecem estar se estabelecendo eles mudam de novo e adotam uma dinâmica diferente. Dá a impressão de que os produtores/roteiristas não confiavam nas próprias decisões de roteiro e mudavam pra tentar de tudo e ver o que funcionaria, sabe? Só que isso acaba cansando a gente.
Ainda assim, a série se sustentou, na minha opinião, e eu me mantive cativada, mesmo a trancos e barrancos, porque mesmo sem Michael Scott o escritório continua cheio de personagens doidos que mantêm a dinâmica despirocada da filial.
Enfim, long story short, eu amei The Office do início ao fim. Vou voltar a assistir esses episódios sempre que estiver querendo chorar por causa das merdas da vida.

Orange Is The New Black
Assisti as duas primeiras temporadas (13 episódios cada) de OITNB esse mês, e tá sendo muito amor.
É uma série tragicômica que nos mostra a trajetória de Piper Chapman, uma mulher branca, loira, classe média/alta que vai parar numa penitenciária feminina por ter transportado dinheiro do tráfico, há quase uma década atrás, para uma ex-namorada traficante que ela não vê há anos.
E o bom da série é que ela nos expõe a esses diversos recortes diferenciados das vidas das mulheres detentas, todas tendo parado lá por uma sucessão de escolhas erradas e em virtude da sociedade desigual em que elas viviam - a maioria mulheres pobres e negras oriundas de comunidades carentes assoladas pela marginalidade.
Mas pro clima não ficar pesado demais, a série mescla muito bem humor e drama, nos fazendo encarar vários momentos RINDO DE NERVOSO com as situações absurdas que as detentas enfrentam diariamente. Mas claro que as coisas vão ficando mais pesadas com o passar do tempo e a tragicidade ganha força (DESCULPA MAS AMO).
Os episódios são tacitamente divididos entre mostrar o dia a dia de Piper na prisão e parte da história das outras detentas, abordadas uma em cada episódio. Eu fui assistir sabendo da veia cômica e naturalmente esperando o teor dramático, mas fui surpreendida positivamente pela delicadeza da série ao desenvolver essas narrativas. Estou gostando muito e também recomendando demais! (Mas antes de se jogar você deve saber que ela é bem explícita em alguns aspectos, e mostra sexo e nudez de uma maneira não muito romantizada e bem escancarada - é uma prisão, não dá pra gente esperar muita discrição e privacidade - desde o primeiro episódio. Just saying.) 

Links, LINKS EVERYWHERE
(Claramente escolhi a imagem no desespero.)
-A Taís Araújo fez uma thread no twitter em memória dos 50 anos da morte de Martin Luther King só com #KingFacts e coisas marcantes referentes a essa criatura maravilhosa que o planeta Terra teve a sorte de abrigar.

-Vídeo mostrando as próteses ultra realistas e maravilhosas que uma empresa mexicana vem fabricando.

-Tartaruga foge e é encontrada 9 meses depois a 200 metros de casa. É por esse tipo de notícia que eu vivo.

-O caso de racismo que fez a Starbucks anunciar o fechamento de lojas por um dia. Foi uma decisão louvável dos diretores da franquia, porque a grana preta que eles vão ''perder'' com 8 mil lojas fechadas por um dia não é pouca coisa não. Mas é como uma garota disse no twitter: ''Não sei se fico satisfeita porque uma atitude foi tomada ou chocada porque em pleno século XXI coisas desse tipo ainda têm que ser feitas.''

-Cansada de buscar a polícia e não conseguir amparo, Carol postou os vídeos horríveis em que um ex dela aparece rodeando sua casa, perseguindo-a, assediando-a e até invadindo a propriedade.
Eu não sei nem o que falar, porque a vontade de chorar de nojo e raiva não me permite mais muita coisa.

-Photographer brings toys to life using realistic effects, no 9GAG. ♡

-Eu não sei lidar com o fato desse ser existir.

-O sorriso da Julia Roberts. ❤

-Eu quero essa overdose de doces e eu quero já.

Já que minha criatividade tá em falta, vou forçar muito a barra agora aproveitando que O ARCTIC MONKEYS VAI LANÇAR UM DISCO NOVO DEPOIS DE CINCO ANOS AGORA NO DIA 11 DE MAIO AAAAAAHHHHH pra postar essa foto aqui de um aluninho de uma das salas de aula em que tô trabalhando, que por motivos que eu desconheço mas que espero que sejam minimamente compreensíveis me lembra muito o Alex Turner, vocalista da banda (?). De verdade. Desde a primeira vez em que bati o olho nele a cara do Alex já me veio à mente de maneira instantânea, e óbvio que agora esse ciclo se repete toda vez que meus olhos caem sobre o fofo do Eduardo (que, provavelmente em grande parte por causa dessa semelhança que talvez só eu veja, é um dos meus aluninhos favoritos, sim, porque ética profissional? nunca nem vi).
Claro que não posso ficar fotografando as criaturas sem mais nem menos, mas aproveitei que teve uma programação especial na páscoa (não dá pra ver na foto, mas os dentes dele estavam azuis por causa do pirulito, só mais um item em meio a uma cestinha riquíssima de docinhos que a prô oficial organizou e que eu fiquei cobiçando em vão) pra levar a minha câmera e tirar uma foto dele, coisa que eu tava planejando fazer há um tempo porque PSICOPATA preciso mostrar essa criança pra algum fã de Arctic Monkeys pra confirmar que eu não tô sozinha nessa, plmdds.
Essa foto aqui do Alex Turner é a mais parecidinha que eu achei (juro que tentei), embora essa seja uma época trevosa na história da Alez Turner Face, com esse cabelo ridículo de Beatle que me dói o coração (deculpaí) e que faz um desserviço desprezível escondendo esse lindo rostinho estranho.
Espero que a minha trajetória de Rainha das Associações Que Ninguém Mais Faz termine aqui e alguém concorde com a semelhança. A esperança nunca morre.

Que tenhamos um ótimo 11 DE maio. :)

20/04/2018

Por Skyler

Esse texto contém algumas informações sobre o enredo das cinco temporadas de Breaking Bad, embora não revele o desfecho da série. Considere-se advertido. ;)

Eu fui uma espectadora tardia de Breaking Bad: só assisti à série anos depois de seu ápice, no site pirata (desculpa, sociedade) com a melhor definição que consegui encontrar, quando já não ocorriam mais discussões acaloradas de amor e ódio no twitter após a exibição de cada episódio. 
Por ser uma entusiasta da ideia de que as produções cheguem aos telespectadores tal qual seus diretores e roteiristas idealizaram, ou seja, livres de spoilers e garantindo um contato inicial o mais puro e incólume de qualquer precipitação possível, eu nunca ia atrás de informações sobre o enredo, e evitava ao máximo jogar os nomes dos personagens no google ou em qualquer barra de pesquisa virtual, por saber que havia uma linha bem tênue e acessível entre o enter e os resultados de busca que me exporiam antecipadamente a detalhes de enredo que eu só queria conhecer no tempo certo. Seria fácil demais pegar spoilers de um show muito prestigiado que havia passado anos antes se eu me arriscasse a navegar indiscriminadamente na internet em fóruns de Breaking Bad, e eu não queria spoilers em nenhuma circunstância.
Dessa forma, acompanhando o desenvolvimento da série de maneira independente e completamente livre de estímulos exteriores e perspectivas alheias que me influenciariam a adotar o ponto de vista dos demais telespectadores e do público geral, as opiniões que formei sobre ela e sobre cada personagem (e é aqui que se encontra o cerne desse texto), a afinidade e os sentimentos que desenvolvi com cada um (Walter, Jesse, Skyler, Hank, Walter Jr... Saudades, pessoal </3) foram bastante (inteiramente, eu diria) particulares, pessoais e íntimos. Foram muito meus e só meus - e é muito difícil acompanhar uma série (quando elas comumente duram anos, permitindo um apego emocional bem mais consistente que filmes, por exemplo) na atualidade sem se deixar envolver pela mobilização conjunta que ocorre entre os fãs que militam contra ou a favor de cada personagem ou circunstância sem cessar na internet. 
A internet forma times e rivais, e foi por não me conectar a ela no que dizia respeito à série, nem antes nem durante minha maratona (que deve ter durado uns dois meses), que eu passei pelas cinco temporadas ignorando de todo o maior rage suscitado por Breaking Bad - e também a mais escrachada demonstração de ódio e misoginia, externalizada pelo público médio da série.
Em Breaking Bad temos como protagonista Walter White, um professor de química frustrado, com uma genialidade que foi abafada pela rotina engessante do sistema de ensino em que atua, que se descobre com um câncer de pulmão em estágio avançado. Aflito por encarar pela primeira vez a perspectiva de morte iminente (ou quase) sabendo que morreria sem deixar uma condição estável de sustento para sua família (a esposa grávida, Skyler, e o filho com paralisia cerebral, Walter Jr.), ele descobre e explora a oportunidade de se envolver no tráfico de drogas, produzindo metanfetamina (com uma fórmula magistral como nenhuma outra, que deixa a droga azul e lhe garante ainda mais notoriedade) com a ajuda de um ex-aluno delinquente, Jesse Pinkman, com o objetivo de angariar o dinheiro "fácil" oriundo desse mercado criminoso, para garantir a provisão de sua prole, após sua morte.
Walter White é um anti-herói típico e um dos mais bem-sucedidos personagens a se enquadrar nessa categoria. Sua moral é errática e duvidosa, suas atitudes são questionáveis e sua virtude, ratificada por anos como o pobre professor politicamente correto que tem uma vida pacata e desinteressante, dá uma guinada na primeira temporada e se encaminha a uma ladeira íngreme de marginalização do personagem, numa descida dramática que acompanhamos do início ao fim, num atordoamento frenético que nos deixa sem saber o que pensar, só sentir.
O que quero enfatizar aqui é: Walter White não foi feito para ser amado. Ele não é o personagem queridinho, gentil e bonzinho idealizado para cair nas graças do público.
Walter, de um jeito que até pode chocar o telespectador mais atento quando se percebe o caminho que o show está tomando, acaba se tornando O Grande Vilão da História. Ele ''breakingbadeia'' geral, e era pra ser assim desde o princípio.
Num post declaradamente fanático entusiasta sobre Breaking Bad (é minha série favorita de todos os tempos e além, me deem uma folga) que publiquei aqui em outubro do ano passado, onde também esbocei pela primeira vez a intenção de escrever esse texto aqui, deixo o link de uma entrevista com parte do elenco e Vince Gilligan ESSE GÊNIO, criador da série, em que ele fala de como the whole point (em português não pareceu tão preciso) da série era ilustrar a decadência moral de um indivíduo, e de como uma de suas principais preocupações era conseguir manter o público cativado pelo show mesmo quando o protagonista se revelasse a pessoa horrível que ele estava fadado a ser desde o princípio.
Ou seja: Braking Bad foi pensada de maneira a encarar o momento em que o público se viraria contra >Walter White< e depositaria na procedência dúbia dele todo o seu descontentamento - mas se mantivesse assistindo à série do início ao fim, de preferência, claro; porque apesar dos apesares, a série é boa (e não sou só eu que tô falando: Breaking Bad é a série, de toda a história das séries universais, com a melhor avaliação de público E crítica que já existiu).
Mas ao contrário do que o criador da série tinha pressuposto, Walter não foi o personagem que acabou despertando a maior onda de antagonismo dos telespectadores. Não mesmo.
Eu me considero uma pessoa bastante empática. Mesmo. Geralmente, não tenho dificuldade em entender as pessoas e considerar toda a soma de fatores que as leva a fazerem as coisas que fazem, por mais atrozes que algumas sejam, infelizmente. Então, assistindo a uma série, filme, reportagem etc, acompanhada de alguém, eu percebo que não julgo os outros com a facilidade - e com o impulso irrefreável - que percebo naqueles que me cercam. Ou julgo menos que a maioria, pelo menos.
Eu me coloco no lugar de terceiros com certa facilidade, então é sempre mais natural para mim entender as pessoas e suas atitudes.
Por isso, sempre me foi muito compreensível o despirocamento louco em que a Skyler, esposa do Walter, se afunda depois de descobrir a vida criminosa - e perigosa, para ele, para ela e para os filhos - que o marido vinha levando desde o seu diagnóstico.
Skyler descobre que Walter é um dos maiores drug dealers da região e o principal alvo que o cunhado dela, da polícia antidrogas, busca desmascarar - o misterioso traficante Heisenberg -, graças a toda a notoriedade que o ex-professor de química adquire no mercado. Ela descobre que o dinheiro com que ele vinha bancando o tratamento vinha do tráfico e não dos ex-colegas cientistas que haviam oferecido o valor necessário para custeá-lo, numa solidariedade culposa. Descobre que ele está trabalhando em parceria com um ex-aluno drogado há tempos, com quem começou a produzir a droga escondido num trailer no meio do deserto às margens da cidade, quando ela achava que ele estava fazendo hora extra no trabalho. Descobre que ele é subordinado do principal bambambã do tráfico na região e que se tornou um membro expoente do mercado de entorpecentes, sem o qual toda a indústria da região e além descarrilaria. Descobre que, pelo dinheiro - que ele diz importar por causa da família, num discurso que só é quebrado no último episódio -, ele se sujeitou às consequências e perigos de um submundo marginal e imprevisível que poderia exigir a cabeça dele fincada numa estaca e destruir sua vida por completo a qualquer momento - e, conscientemente (porque ele não era nenhuma criança e sabia onde estava se metendo), subjugou a própria família - a esposa grávida, a criança a caminho, o filho adolescente - a essa série de perigos imensuráveis também.
Skyler descobre que está casada com um desconhecido, que há muito tempo não é mais o homem, a pessoa, o pai, o esposo com quem ela decidiu viver.
Pense só nisso, tente se visualizar na situação: você tá casada com um cara que tem levado uma vida dura, mas digna, como a sua, e com quem tem dividido seu cotidiano, seu íntimo, suas responsabilidades e sentimentos há anos. Vocês têm um filho adolescente juntos, com paralisia cerebral e uma série de delicadezas que exigem cuidado e atenção. Você está grávida, é uma menina, e trabalha sem parar para poder oferecer uma condição saudável e estável de vida para seus filhos, oferecer segurança, como tem certeza que seu marido também está fazendo, cada um em seu respectivo emprego. Você dá duro o dia todo e ainda tem que lidar com uma irmã cleptomaníaca (Marie, meu anjo, VOCÊ ME DAVA NOS NERVOS EM TODO EPISÓDIO ^^) e o cunhado da narcóticos, que já se expõe ao perigo o suficiente pela família inteira. Então você descobre que seu marido tem um câncer gravíssimo no pulmão e que vinha escondendo isso há algum tempo. Você se desestrutura, como vou cuidar dele e das crianças, como vamos sobreviver, o que vamos fazer, e os filhos, a casa, as bocas pra comer? Mas ok, depois de uma intervenção (uma das cenas mais incríveis e primorosas de toda a série, na minha opinião, em que o elenco dá um SHOW de atuação) o marido aceita ao menos tentar o tratamento, antigos amigos se dispõem a custeá-lo, os resultados começam a ser positivos, as coisas parecem estar se encaminhando à normalidade, embora a luta seja constante e dura. Apesar de tudo, você tem filhos amados e um marido fiel e dedicado que os ama tanto quanto você... Mas então, do nada, simplesmente descobre que ele vem escondendo uma segunda vida, que há meses não passa um dia sequer sem mentir pra você sobre tudo, onde esteve, o que fez, com quem andou, de onde tirou o dinheiro. Ele agora é o principal mantenedor do mercado de metanfetamina da sua cidade, do estado, do país. Lida com gente da pesada todos os dias, gente que pode decidir matá-lo (junto com a família, seus filhos, junto com você) a qualquer momento. Ele agora é um traficante, isso mesmo que você ouviu. Vive no perigo. E esse homem que você amou por tanto tempo, com quem amou seus filhos junto, agora volta para a mesma casa em que seu filho mais velho dorme num quarto, a bebê dorme num berço e para a mesma cama em que você dorme, trazendo consigo a marca e a mira do crime e dos criminosos da região, como se isso não fosse nada, como se não significasse morte e destruição. Pra dentro da sua casa, da casa de seus filhos, de toda a vida que vocês construíram juntos durante anos, com muito trabalho. E ele não pediu sua opinião e nem sequer expôs a situação a você em nenhum momento.
Qual é a sua reação? Qual é a reação de Skyler? Qual deveria ter sido a reação de Skyler?
Ela fica atordoada. Não consegue acreditar no que sua vida se transformou, no que seu casamento se transformou, em quem o homem com quj ela divide seus dias se transformou. Skyler fica atônita e sem saber sequer como formular uma reação à altura de todo o absurdo em que Walter colocou ela e os filhos. O que se segue de imediato é uma Skyler errática e hesitante, que flutua entre emoções e reações de maneira incerta e ambígua, como alguém que percebe tarde demais que perdeu o controle da própria vida e agora só resta se deixar ser arrastado pela correnteza, numa resignação inexorável e intransponível, uma vez que ela não vislumbra quaisquer possibilidades ou recursos concretos para recompor sua vida.
Skyler não entra em desespero ou surta violentamente, jogando as mãos para o alto num ímpeto descontrolado e arrasador, mas fica catatônica e se arrasta débil pela própria existência durante alguns dias, porque simplesmente não consegue conceber uma maneira de remediar todo o drama em que se vê imersa.
Mas essa, naturalmente, não é a única síntese do desenvolvimento da personagem após as revelações sórdidas sobre Walt, porque Sky é muito mais complexa e humana, muito mais real do que isso, e temos, na verdade, várias versões suas depois desse clímax.
Primeiro, quando recém começa a descobrir que o marido está escondendo algo muito errado, mas sem ter total conhecimento de causa, ela se revolta e confronta Walter, sem acatar suas contestações, e o expulsa de casa.
Depois, quando o quadro geral já foi revelado a ela, não há mais nenhum segredo e ela reconhece sua impotência depois de tentar sucessivamente remediar aquela situação, falhando miseravelmente, há a supracitada Skyler completamente despirocada e catatônica que continuamente aparece diante das câmeras com um olhar perdido e movimentos hesitantes, formulando frases desconexas em visível perturbação. Essa é a Skyler que entra dentro de uma piscina no meio de um jantar quando ninguém está olhando e fica submersa, sem respirar e com um olhar vazio, TOTALMENTE DESCARALHADA, até que alguém pule para socorrê-la e fique todo mundo com cara de WTF sem entender nada encarando uma mulher encharcada e alheia ao que está ao seu redor.
Pouco depois temos uma Skyler mais autocentrada e aguerrida, que por vezes adota atitudes condenáveis na tentativa de minar os passos trolhocentas vezes mais condenáveis que Walter dá. Essa é a Skyler que transa com o chefe com quem ela sabe que não tem futuro nenhum, só pra poder (ao menos tentar) se colocar na frente de Walter na corrida das mancadas e desestruturá-lo um pouquinho, jogando a traição (física, posterior à traição emocional de Walter) na cara dele assim que chega em casa.
E mais pra frente, quando ela está começando a se recompor do baque de descobrir que toda a sua vida virou do avesso enquanto ela não estava olhando, temos uma Skyler mais resoluta, firme e resiliente, que começa a lavar o dinheiro ilícito dos negócios de Walter num lava-jato que eles compram como fachada, já decidida a lucrar com a situação, como o marido já vinha fazendo, e posicionando as peças do jogo a seu favor, restituindo a si mesma o direito de decidir ativamente que rumo seguirá, se restabelecendo como dona de si, sem espaço para sentimentalismo, análises morais e remorso (e devo admitir que essa faceta antiética e imperturbável da personagem não me desagradava de todo, especialmente quando o quadro geralmente é pintado de modo a fazer com que a mulher seja ou a coitadinha que sofre impassível nas mãos do parceiro sem qualquer revide, ou a piranha absoluta CLARO; Skyler, ao contrário da primeira alternativa, transgrediu o quadro de vitimizada quando passou a agir ativamente no negócio, mas graças a um público irresponsável e raso, sempre foi enquadrada na segunda categoria, e com louvor).
Essa terceira Skyler é uma mulher que está "segurando as pontas", mostrando sua força e resiliência e deixando claro que não vai se deixar vencer e não vai permitir que o marido e as circunstâncias passem por cima dela tão fácil assim e sem nenhuma luta - aliada a uma resistência sobrehumana.
Mas em todas essas versões, uma coisa permanece inalterada: ela nunca mais é a mesma com relação a Walter POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES. Nunca mais é a esposa amável e gentil que está sempre ao lado do marido pronta pra suportar os golpes da vida junto com ele sem olhar pra trás, unidos pelo amor, pelo respeito e pela apreciação mútua.
Skyler pode até continuar amando Walt, no íntimo (esse ponto é discutível), mas ela não gosta mais dele, e não se preocupa em esconder isso, nem do marido nem do telespectador; muito pelo contrário, por um bom tempo faz tentativas incessantes de cortar todos os vínculos e deteriorar ao máximo todos os vestígios das desgraças com que Walt contaminou a vida dela e dos filhos.
O ponto aqui é: Skyler não é legalzinha com Walter POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES^2. Depois das primeiras semanas, quando nem sabia como reagir, ela não é nada compassiva com o marido, não concorda com nada do que ele está fazendo, não o apoia, não fica ao lado dele, não se submete a ele e às suas decisões. Ela passa a ser bem combativa e o enfrenta diretamente, tentando de todas as maneiras frustrar os planos de Walter, uma vez que eles trariam consequências e riscos óbvios aos filhos e a família que os dois, outrora, construíram juntos.
Ela o expulsa de casa (numa tentativa frustrada) e tenta impedi-lo de ter qualquer acesso a ela e aos filhos. Chama a polícia (para pedir uma ordem de restrição), briga, discute, confronta Walter, grita, os dois têm atritos terríveis que facilmente terminariam em cadeiras sendo atiradas contra paredes e taças e vasos quebrados. Ela passa a ser uma pedra no sapato do (ex?) marido - nunca sendo vista como uma inimiga a ser aniquilada, como tantos outros, por ele, que ainda a ama, mas uma indiscutível fonte de tormentos e transtornos.
Não defendo todas as atitudes de Skyler, claro. Ela também comete erros, pisa na bola e não é uma pessoa muito agradável em vários momentos POIS ÓBVIO, NÉ MIGUES^3. Mas a questão é que, PELOAMORDEDEUS, toda a reação hostil dela é perfeitamente compreensível - é até natural, é cabível, é o mínimo esperado de uma pessoa, uma mulher, mãe e esposa que se vê numa situação absurda como aquela. Seu querido marido agora é o maior traficante da região e um criminoso procurado pela justiça sobre o qual os jornais falam toda semana, caramba! 
Quer dizer, qual era a reação que ela deveria ter? O que estavam esperando? Que ela batesse palmas pro Walt? Que comemorasse? Que o apoiasse e aprovasse tudo o que ele estava fazendo? Que descobrisse que ele vinha mentindo há meses, que era um CRIMINOSO, que estava colocando sua família em risco durante esse tempo todo e simplesmente o abraçasse, congratulasse, dois beijos na bochecha e é isso aí, amor, tô contigo, adorei, vamos festejar! ?
Quer dizer, WWWWWTTTTTTTTFFFFFFFFFF!!!!1?1????/!??1?1?!????! Qual é o problema dos telespectadores?
Era isso que o público estava esperando e querendo de Skyler? Era isso que eles exigiam para que ela fosse uma personagem gostável? Seriously?!?!

Sim, aparentemente, era.
Como eu disse no início do texto, quem foi projetado pra ser o grande vilão da história foi Walter. Era pra ele se tornar o grande antagonista, a pessoa que todos passariam a questionar e aquele a quem direcionariam olhares reprovadores e hostis. Ele, Walter, por tudo o que tinha feito.
Eu já tinha me abituado a essa ideia, e enquanto via Walt tomar atitudes cruéis e inadmissíveis e enveredar por caminhos de natureza cada vez mais sombria, concomitantemente me enternecida com todo o quase-surto de Skyler e suas reações ambíguas e problemáticas. Eu a entendia porque era capaz de sentir não apenas simpatia, mas empatia (essa coisinha que permite que nos coloquemos no lugar do outro), vendo-a naquele contexto sem que lhe tivesse sido oferecida qualquer chance de consentimento ou o direito mínimo de opinar sobre o rumo que sua própria vida estava tomando.
No meu entendimento, era sim fácil simpatizar com Walter (eu mesma ainda gosto muito dele; desculpa, mãe, desculpa, sociedade), afinal de contas ele era o protagonista e éramos seus companheiros por tabela desde o primeiro episódio, numa série que predominantemente partia do ponto de vista dele. Mas sempre me pareceu absurdamente inconcebível justificar e abonar seus atos (independente de seus pretextos e justificativas - o câncer, a morte, a família pra sustentar, a falta de dinheiro!) conferindo-lhe qualquer dose de integridade legítima.
Mas mais fácil - e anterior a - do que simpatizar com Walt, pra mim, sempre foi compreender a postura e a visão de Skyler diante de tudo aquilo. Compreender suas reações e medidas.
Compreendê-la o suficiente para perceber o quanto era injustificável lhe direcionar insultos que iam de piranha a vadia e puta (cito apenas três de uma coletânea bem mais extensa e inventiva de ofensas), ao meu ver, não era, não deveria ser, apenas fácil, e sim natural, um juízo primordial, básico e imprescindível a qualquer um que se outorga o título de "boa pessoa". A qualquer fã de Breaking Bad que se outorga o título de boa pessoa, devo enfatizar.
Ser capaz de compreender as atitudes combativas de Skyler era premissa básica para a averiguação de qualquer razoabilidade humana que eu pudesse identificar no telespectador. Portanto, no meu julgamento, se você é do tipo que grita "SKYLER-VADIA-PIRANHA-PUTA" na internet e mina as páginas da Anna Gunn (a atriz) com insultos e demonstrações ridículas da sua inconformidade tacanha, um recado: VOCÊ É UM BOSTA. 
Se você é uma pessoa de bom senso, compreenderá Skyler, se compadecerá com a situação dela, sentirá empatia. Pode até não gostar dela, mas a compreenderá o suficiente pra mitigar o impulso, já por si injustificável, de destilar seu ódio gratuito e mesquinho na internet ou em qualquer outro veículo midiático. Ponto.
Eu, Carolina, consegui compreendê-la com facilidade; compreendi-a demais, na verdade, e sofri com ela e por ela - talvez por ser mulher, mas certamente por ser uma pessoa, pura e simplesmente.
Então a minha surpresa quanto topei com um meme misógino que pregava ódio à Skyler White foi grande. Foi mais que grande: eu não consegui entender, fiquei perplexa. Me parecia inconcebivelmente ridícula a alienação necessária para que aquelas pessoas chamassem-na de vadia por não ter batido palmas pro Walt e se sujeitado à vontade dele quando ele disse que querida, oi, tô traficando drogas e colocando a vida da nossa família em risco pra vocês poderem ter um sustento quando eu morrer de câncer. :)
No entanto, foi isso que aconteceu: Skyler, a esposa, recebeu o golpe da repulsa. Skyler, e não Walter, se tornou odiosa aos olhos do público. Skyler virou a piranha, a vadia, a estraga-prazeres-do-macho. Skyler, a que talvez tenha sido a personagem mais prejudicada por Walter, a maior vítima da coisa toda, foi transfigurada como a única vilã digna de retaliação aos olhos dos fãs.
Quando vi aquele primeiro meme no twitter (um quadro com fotos de todos os personagens da série, em que cada um era agraciado com a simpatia do público e recebia agradecimentos por ter feito parte de Breaking Bad; no entanto, havia um xis vermelho sobre o rosto de Skyler, acompanhado de um ''YOU DON'T''; parecia uma brincadeira inofensiva, mas quando ampliei a postagem e acessei os comentários, verifiquei com horror que não, não tinha nada de inofensivo naquilo), quase um ano depois de ter assistido à série, fiquei um tanto atônita de imediato, e minha perplexidade foi se potencializando ao passo que eu lia as respostas efusivas naquela tread gigantesca de ódio à personagem, em que cada comentário, cada tweet novo se retroalimentava numa corrente de fúria infindável.
Eu assisti a série inteira sozinha e por conta, sem me contaminar (essa é a palavra) com as opiniões dos outros telespectadores, então a tradição de odiar Skyler era uma perspectiva totalmente nova - e absurda, ininteligível - para mim.
Meu assombro não foi o único a ecoar pela internet (porque claro que fiz questão de discutir, num inglês horrível, com os caras - eram, sim, a maioria homens - babacas que tavam difundindo aquele discursinho ridículo e misógino na pagina do 9gag), e a própria Anna Gunn, atriz que interpretou Skyler, se pronunciou (com uma eloquência que, naturalmente, supera a desse meu texto aqui à velocidade da luz e que eu parafraseei em alguns momentos, admito) a respeito numa matéria maravilhosa (apesar de triste) pra o New York Times.


''As an actress, I realize that viewers are entitled to have whatever feelings they want about the characters they watch. But as a human being, I’m concerned that so many people react to Skyler with such venom. Could it be that they can’t stand a woman who won’t suffer silently or “stand by her man”? That they despise her because she won’t back down or give up? Or because she is, in fact, Walter’s equal?
[...]
Male characters don’t seem to inspire this kind of public venting and vitriol.''

Além dela, Vince Gilligan, o criador da série, também não emudeceu diante do ódio injustificável destilado, lamentavelmente, pelos fãs do seriado que ele criou, manifestando indignação, defendendo a personagem e reforçando que Skyler foi tudo o que tinha que ser, tudo o que ele, seu criador, queria que ela fosse: uma mulher com nervos de aço que não se desesperaria diante das circunstâncias e encararia tudo com muita garra.
O que fica claro para ambos - e para nós -, como eles sintetizaram em suas declarações, é que o ódio contra Skyler não é um ódio contra uma personagem fictícia numa série, e sim contra as mulheres - todo o gênero em si - que transgridem minimamente o "padrão feminino" que é esperado (e exigido) delas. Um ódio contra nós.
Lembrando que tudo bem se você não simpatizar com a personagem, não há problema algum nisso, podemos continuar sendo amigos. Mas a proporção que tomou a onda de ódio contra Skyler e suas óbvias motivações (o simples fato dela não ter concordado incondicionalmente com Walter, o homem da jogada) extrapolaram uma antipatia natural e cruzaram a barreira do desrespeito e da misoginia escancarada.
Walter White se tornou o criminoso mais procurado do país, seu retrato falado saía no jornal todos os dias e ele foi elevado ao posto de inimigo público número um, tamanha foi a abrangência de sua vilania. Causou estragos, provocou mortes, infringiu leis, destruiu vidas (estamos falando de vício em drogas, amigos), desestruturou e feriu toda a sua família, arrasou lares com sua indústria nociva, alimentou o vício mortal de muitos. Virou a representação suprema do que significa a expressão Breaking Bad.
Apesar disso, apesar desse fucking tudo isso, a ele foram concedidos a tolerância e o perdão, até a redenção - coisa que o público conseguiu lhe estender com uma facilidade surpreendente e questionável, manifestando uma benevolência problemática e repreensível ao personagem masculino.
Skyler, a esposa e mãe, a pessoa imersa em uma situação traumática e crítica que foi catapultada ali pelo marido sem poder objetar, por outro lado... Ela, uma das grandes vítimas de Walt, se não a maior, não teve nenhum olhar benévolo direcionado a si nem lhe foi ofertada nenhuma parcela de toda aquela amabilidade oferecida indiscriminadamente ao personagem masculino.
Como a maravilhosa Anna Gunn apontou, além de Vince Gilligan, o que se verifica é uma franca e mesquinha hostilidade e aversão velada a mulheres que não se apresentam como parceiras compassivas e apáticas ao lado de seus homens. Não importa a dimensão das atrocidades e absurdos que eles, os machos, promovam, não importa quão injustificáveis forem suas ações, as personalidades femininas, o lado B, o negativo da relação, são brutalmente antagonizadas quando apresentam oposição, porque o telespectador médio (reflexo da sociedade) não admite uma mulher que bata de frente com o homem, de igual pra igual, sem baixar as orelhas e aquiescer a tudo numa imputada postura submissa.
Uma parte bem irracional de mim gosta de alimentar a ideia de que um dia Vince Gilligan reunisse o elenco novamente pra reencenar tudo quando a verdade sobre Walt é revelada a Skyler. Só que dessa vez ela agiria de acordo com todas as exigências absurdas dos fãs, segundo as quais ela poderia, enfim, ser uma personagem gostável. Teríamos então uma mulher de pensamentos e atitudes descabidos e nada verossímeis. Assim, através dessa Skyler estapafúrdia, os telespectadores seriam confrontados pela própria imbecilidade (se a cegueira deles permitisse; tenho minhas dúvidas), ao perceberem que uma mulher, esposa e mãe que apoiasse o marido sem medidas na situação ilustrada pelos personagens simplesmente Não. Faria. Sentido.
Em TODOS os artigos sobre Skyler com os quais topo na internet (inclusive durante a pesquisa para escrever esse texto), nunca deixo de me assombrar com os comentários e com a completa incapacidade de entender a pessoa Skyler que os internautas apresentam. É surreal, é uma superficialidade que me deixa embasbacada. 
Skyler não foi odiada porque era uma personagem chata, porque teve uma atuação mal interpretada, porque não acharam a atriz bonita o suficiente, porque isso, porque aquilo. Ela foi odiada porque não se demonstrou uma mulher submissa, inerte, resignada e apática que se sujeita ao marido sem questionamentos, baixando a cabeça e apreendendo os golpes calada, correspondendo a uma ideia deturpada de "dever de esposa", aos moldes da mais ideal sociedade patriarcal com que alguns (vários fãs de Breaking Bad, aparentemente) parecem sonhar.
Skyler foi odiada, simplesmente, porque era uma mulher forte que se oporia aos homens, se necessário. E no patriarcado esse tipo de postura e personalidade não podem ser admitidos - e são, portanto, subliminar ou abertamente coibidos e publicamente rechaçados.
Parece uma visão radical e fatalista, excessivamente sombria, uma maneira exagerada de abordar a questão, já que estamos falando só de uma série. Mas não é não: a própria atriz Anna Gunn recebeu ameaças pela interpretação que fez da personagem.


''Besides being frightened (and taking steps to ensure my safety), I was also astonished: how had disliking a character spiraled into homicidal rage at the actress playing her? 
[…] 
But I finally realized that most people’s hatred of Skyler had little to do with me and a lot to do with their own perception of women and wives. Because Skyler didn’t conform to a comfortable ideal of the archetypical female, she had become a kind of Rorschach test for society, a measure of our attitudes toward gender.''

-Anna Gunn falando sobre as ameaças que recebeu, ainda no texto publicado pelo New York Times.

A misoginia e o ódio contra as mulheres ultrapassam os limites da ficção. Estão ao nosso lado, na vida real.
Antes ignorante a todo o rage que envolve a personagem, eu tinha menos consciência a respeito dessa propagação odiosa e pestilenta. Com Skyler meus olhos foram abertos. Com Skyler os olhos de Anna Gunn foram mais abertos.
Skyler foi mais uma em meio a uma lista desesperadoramente extensa de mulheres, fictícias ou não, a abrir os olhos de muitas de nós para o que acontece com as mulheres nesse mundo machista, dentro ou fora de uma tela.